Movimento Passe Livre diz que manifestações em São Paulo perderam as características e que não vai participar dos atuais atos. Em Mauá, na Grande São Paulo, grupo deve protestar contra tarifa, má qualidade de serviço e risco de volta do monopólio dos transportes.
Movimento Passe Livre desiste de fazer manifestações em São Paulo
Segundo o grupo, as mobilizações perderam o foco e viraram palcos para partidos políticos
ADAMO BAZANI – CBN
Em entrevista exclusiva ao jornalista Juliano Dip, apresentador da Rádio CBN em São Paulo, o integrante do Movimento Passe Livre, Douglas Belome, disse que o grupo não vai mais participar de protestos e manifestações na Capital Paulista e em parte da região Metropolitana de São Paulo.
Segundo Belome, as manifestações estão perdendo o foco e virando espaço para promoções políticas.
A série de vandalismo também foi um dos motivos da saída.
“Nosso objetivo é discutir transportes, mobilidade, tarifas. Não podemos promover partidos políticos ou mesmo nos levantar contra os partidos. Para nós, o interessante é que haja um dia em São Paulo e nas cidades vizinhas tarifa zero. Só com tarifa zero teremos transportes públicos de fato” – disse.
Nesta quinta-feira o Movimento Passe Livre abandonou o protesto da Avenida Paulista quando o ato se transformou em manifestação envolvendo partidos políticos.
Douglas disse que as manifestações assumiram características conservadoras e com oportunismo de diversos personagens.
A ação do Movimento Passe Livre deu início à série de manifestações em São Paulo que incentivaram atos em todo o País.
Depois das manifestações, o prefeito Fernando Haddad, e o Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin , anunciaram que nesta segunda-feira as passagens de ônibus municipais, trens e metrô vão ser reduzidas de R$ 3,20 para R$ 3,00. Eles se queixaram da necessidade cortes em investimentos. Outras cidades também vão reduzir as tarifas.
MAUÁ DEVE TER MANIFESTAÇÃO:
Mesmo com o anúncio da redução das tarifas de ônibus no ABC Paulista, de R$ 3,20 para R$ 3,00 em seis cidades, parte da população da região está insatisfeita com os valores e com a prestação de serviços dos transportes públicos.
Em Mauá, deve ser realizada uma manifestação a partir das 17 horas nas proximidades do Terminal Central.
O grupo quer que a tarifa seja reduzida para R$ 2,90 e não R$ 3,00. O valor era o praticado pelas empresas de ônibus antes dos reajustes no final do ano passado.
Mas não é apenas a tarifa que traz descontentamento na população. Os manifestantes reclamam da baixa qualidade de parte da frota na cidade, descumprimento de horários e itinerários , das condições precárias do terminal e temem a volta do monopólio dos serviços.
Por 30 anos, os transportes foram controlados por um empresário: Baltazar José de Sousa, que hoje é procurado pela Polícia Federal e se encontra foragido junto com o filho Dierly. Ele é considerado pelo Ministério Público Federal um dos maiores devedores da União, com débitos de R$ 234 milhões, só de encargos e tributos federais.
Em 2010, o monopólio foi quebrado com a entrada da empresa paranaense Leblon Transporte. Apesar de precisar de melhorias, a população considera que a entrada da empresa representou avanços, como na frota, no gerenciamento e operação. As diferenças entre a Leblon e a Viação Cidade de Mauá, de Baltazar, são reconhecidas pelo próprio poder público.
Mas desde quando começou a operar, a Leblon disputa na Justiça o direito de prestar serviços no lote 02 contra a Viação Estrela de Mauá.
A Viação Estrela de Mauá foi fundada por Baltazar para participar da licitação dos transportes. Para desconfigurar o monopólio, em 2008, a empresa foi passada para os nomes de Anísio e Anísio Bueno Júnior. Descoberta a relação deles com Baltazar outros nomes apareceram. Desde 11 de julho de 2012, figura como presidente da Viação Estrela de Mauá, David Barioni Neto. David Barioni Neto foi executivo de Constantino de Oliveira, fundador da Gol Linhas Aéreas, e que começou em meados dos anos 80 a atuar no ABC no chamado Grupo dos Mineiros, composto também por outros empresários, como o próprio Baltazar José de Sousa e Ronan Maria Pinto, dono também do jornal Diário do Grande ABC, jornal local.
Dois dias depois de Barioni ter assumido uma empresa sem contrato e sem ônibus, a Prefeitura de uma vez só descredenciou a Leblon, habilitou a Trans-Mauá e Estrela de Mauá, fundadas por Baltazar e deu a vitória para a Estrela de uma licitação de 2008, alegando ser uma ordem do STJ.
O Superior Tribunal de Justiça negou a decisão e a prefeitura teve de voltar atrás.
Na transição entre os prefeitos Oswaldo Dias e Donisete Braga, por ato administrativo feito durante férias do judiciário, a Estrela de Mauá começou a operar no final de dezembro e início de janeiro junto coma Leblon, no lote 02.
Ao voltar do recesso, a Justiça considerou como ilegal o ato da Prefeitura e desde janeiro os ônibus da Estrela de Mauá estão impedidos de circular pela Justiça.
Há mais de quatro meses os funcionários da Estrela de Mauá não recebem salários.
A empresa perdeu recursos jurídicos e os atos administrativos para retirar a Leblon foram derrubados pela Justiça.
Então, o grupo da Estrela de Mauá, acompanhado de perto pela Prefeitura de Mauá, propôs a compra da Leblon Transporte.
A volta do monopólio, mesmo que disfarçado, não é bem visto pela população.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBVN, especializado em transportes