Acreditem, o ABC já teve empresas de ônibus e jornal sério
Matéria de 1973, do antigo jornal Diário do Grande ABC mostra renovação de frota da EAOSA e revela uma época que a relação entre viações, poder público e jornais tinham uma certa ética
ADAMO BAZANI – CBN
Existem fatos e organizações que evoluem com o tempo. Hoje o País tem empresas de ônibus mais profissionais e uma imprensa que informa, apesar, claro, de haver muitas críticas e muito o que ser melhorado.
Mas parece que em algumas regiões, algumas coisas retrocedem.
Hoje, no ABC Paulista, há dois exemplos. De um lado, há o Diário do Grande ABC: um jornal formado por vários excelentes repórteres e uma equipe de profissionais muito bons. Mas que nem sempre podem trabalhar direito. O ouvir o outro lado neste jornal se restringe a colocar a resposta do desafeto do meio de comunicação no meio de manchetes que já dão seus veredictos e de um monte de juízo de valores e interesses.
Quando as prefeituras colaboram com os interesses dos grupos ligados ao dono do jornal, Ronan Maria Pinto, proprietário de empresas de ônibus, elas têm períodos de paz. Podem faltar médicos em suas unidades de saúde, pode haver shows milionários em cidades onde não há nem remédios, asfalto e infraestrutura, que as críticas são “de leve”.
Mas quando a prefeitura não favorece empresas de ônibus ou outros interesses, se preparem para chumbo grosso.
Já em relação às empresas de ônibus, é verdade que os transportes no ABC nunca foram os melhores do País e pelo jeito não vão ser tão cedo. Tanto é que é a única região de são Paulo cujos ônibus intermunicipais operam sem concessão por boicote dos empresários. Mas antes havia alguma ligação de gosto e preocupação entre os empresários da região e a população.
Exemplo era a EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André. A companhia hoje é a pior metropolitana do Estado de São Paulo, de acordo com o ranking IQT – Índice de Qualidade de Transporte, da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos, gerenciadora dos transportes no Estado. Sob o comando do concunhado e parceiro de negócios de Ronan Maria Pinto, Baltazar José de Sousa (às vezes a grafia do Sousa aparece com Z – Souza) as passagens são altas, os ônibus mal conservados, alguns com documentos irregulares, cheia de dívidas, atrasos nos horários e descumprimento dos horários e desrespeito aos funcionários e passageiros. Baltazar é procurado pelo Ministério Público Federal e polícias por ser um dos maiores devedores individuais da União, acusado, segundo o MPF , de não pagar R$ 237 milhões à União que poderiam ser usados na saúde, educação, transportes e segurança.
Isso não saiu no Diário do Grande ABC, mas toda a imprensa regional noticiou.
E como é sempre bom olharmos para o passado para enxergarmos o presente e vislumbrados o futuro, este editorial (que não pode ser censurado, já que expressa apenas uma opinião sem ofensas pessoais), traz um achado histórico de Eduardo Monteiro, publicado originalmente no “Fotolog Ônibus Antigos Brasileiros”.
É uma reportagem do antigo Diário do Grande ABC de 15 de abril de 1973. O Diário do Grande ABC de Edson Danilo Dotto e Fausto Polesi sobre a antiga EAOSA, das famílias Piolli, Passarelli e Sortino.
A reportagem fala sobre a chegada dos moderníssimos, para época, Monoblocos O 362 HSLT, fabricados pela Mercedes Benz. Foram 40 unidades.
Hoje a empresa têm carros cuja articulação é feita fora dos padrões legais exigidos (com ônibus comuns tracionando reboques de ônibus antigos), que quebram toda a hora e que reencarroçou desde 1984 muitos veículos (houve carrocerias novas com chassis bem velhos). A EAOSA que orgulhou a região começou a operar oficialmente em 1935, segundo o jornal, e foi uma das pioneiras na ligação do ABC a Santos (Litoral), a primeira a trazer o GM Coach para o Brasil (em 1945, antes mesmo da Viação Cometa) e sempre investia em ônibus modernos, como os tais monoblocos.
A matéria do antigo Diário do Grande ABC sobre a antiga EAOSA diz:
“A parte interna possui muitas inovações em matéria de ônibus, como direção hidráulica que permite maior conforto para o motorista e melhor maleabilidade …” – Isso em 1973. Hoje os EAOSA não possuem isso.
E continua : “…quatro alto-falantes transmitindo som de frequencia modulada para todos os passageiros, além de contagiros e ventiladores”.
A matéria traz a palavra do diretor da antiga EAOSA, Rogerio Emílio Sortino:
“nossa empresa foi fundada em 1935, começando com dois carros antigos que levavam dois dias para ir a São Paulo (Capital) e voltar, depois iniciamos com uma frota de ônibus e hoje pudemos comprar os monoblocos. Os novos ônibus são dotados de suspensão com molas espirais, o mesmo sistema de um carro de passeio, sendo portanto mais confortáveis e macios; além da maior segurança do sistema incluindo os novos freios.”.
Rogerio Emilio Sortino revelou que na época a EAOSA tinha 100 motoristas e que, acreditem. A EAOSA chegou um dia a cumprir integralmente as leis de trabalho.
“Existe um regulamento interno que proíbe aos motoristas de trafegarem de portas abertas, negar atendimento aos passageiros, beber em horário de serviço e ultrapassar 60 km/h” – disse Sortino em 1973!
Moradores mais antigos e historiadores confirmaram que de fato o regulamento era cumprido e, se o motorista não seguisse, o que às vezes acontecia, era punido.
A reportagem constatou na época: “Os ônibus passam nos pontos de 15 em 15 minutos sendo que o primeiro sai às 03h40 da manhã e o último para às 03h30” Quinze minutos para esperar um EAOSA, isso já aconteceu!!!!
Para noticiar a aquisição, a revista “Sua Boa Estrela”, da Mercedes Benz, no mesmo ano, fala da importância econômica de Santo André, devido sua forma industrial, algo que mudou também, e ressalta:
“Para atender à movimentação constante de pessoas entre os centros econômicos da região, a cidade conta com empresas muito bem dirigidas, apoiadas em veículos de alto rendimento e que suportam com facilidade o difícil tráfego urbano da Metrópole. E é em Santo André uma das bem mais aparelhadas companhias e transporte coletivo, a EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André, que se utiliza somente de monoblocos Mercedes Benz, característicos em suas cores alegres e modernas”.
Havia problemas com a imprensa no ABC esta época? Sim, com certeza. Havia maus serviços de empresas de ônibus? Sem dúvida.
Mas a relação entre parte da imprensa, das empresas de ônibus e do poder público não tinha as proporções como hoje.
Com o surto inflacionário dos anos de 1980, muitas das famílias tradicionais fundadoras das empresas de ônibus do ABC não resistiram o congelamento das tarifas de ônibus mediante o crescimento do preço dos insumos sem controle e da evasão de passageiros. Naquela época, muitas pessoas, com os salários defasados, tinham de escolher entre andar de ônibus ou comer.
Alguns destes empresários não suportaram e venderam integralmente ou parte de suas viações a outros empreendedores muito mais capitalizados que abarcavam na região. Era o chamado Grupo dos Mineiros, liderados por Constantino de Oliveira, o Nenê Constantino, com a presença e participação de nomes como Ronan Maria Pinto, Baltazar José de Sousa, Mário Elísio Jacinto, Renato Fernandes Soares entre outros.
Hoje, empresários tradicionais, dos primórdios dos transportes que ainda resistem, sofrem. Que digam Carlos Sófio, da Transportes Coletivos Parque das Nações, Sebastião Passarelli, da Expresso Guarará e da Viação São José de Transporte e também os novos investidores.
Com aval total da Prefeitura de Mauá, na gestão de Donisete Braga, os donos da Leblon do Paraná, que quebraram o monopólio de Baltazar em 06 de novembro de 2010, são pressionados a vender a empresa para David Barioni Neto, da Viação Estrela de Mauá, esta impedida pela Justiça de operar. A empresa Estrela de Mauá foi criada por Baltazar para participar da licitação em 2008 e transferida para o nome de Barioni em 11 de julho de 2012, dois dias antes de a Prefeitura de Mauá desabilitar a Leblon e habilitar a Estrela, algo que foi impedido pela Justiça. David Barioni Neto na Gol Linhas Aéreas, foi executivo de Constantino de Oliveira, o mesmo que entrou no ABC com Ronan e Baltazar.
A venda não foi fechada oficialmente.
Em Diadema, a transportadora Benfica, que era tradicional em fretamento, mas desde a entrada dos mineiros não atuava em serviços urbanos, ganhou a licitação para operar no lugar da ETCD, a privatizada Empresa de Transportes Coletivos de Diadema.
Mas nem sempre é fácil a empresa conseguir implantar melhorias, mesmo tendo planejamento para isso.
No ABC, a única família tradicional dos transportes que permanece forte é a Setti & Braga, controladora da Metra, SBCTrans, Publix e a “empresa matriarca”, Auto Viação ABC.
Alguns pontos dos serviços da família podem ser melhorados (e muito), mas quando há avanços, seja de frota ou de linhas, que seriam informações de utilidade pública, a imprensa que se julga oficial do ABC, nada noticia.
Disputas entre empresas de ônibus sempre existiram e a influência delas sobre o poder público também. Mas em outras proporções e outras forças.
Ressaltamos a tempo: o ABC Paulista tem sim jornais e uma emissora de rádio com seriedade, mas eles lutam para sobreviver.
O antigo Diário do Grande ABC começa a matéria da seguinte maneira:
“Faltam somente os últimos retoques para que entrem em circulação os 40 ônibus novos que substituirão a antiga frota da Easoa (Empresa Auto Onibus Santo André), fazendo o percurso Mauá – Santo André – São Caetano – São Paulo. Os novos ônibus monoblocos são do modelo O 362 HSLT fabricados pela Mercedes Benz com capacidade para transportar 130 pessoas. São do estilo simples, sem cromados exagerados, sendo pintados em linhas verticais nas cores creme marfim, laranja e verde”.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.