Para propaganda do Governo Federal, sair da pobreza é sair do ônibus

onibus

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Diferença de propagandas. Na Dinamarca, mesmo com o uso de humor, ônibus é mostrado como algo interessante, um espaço de convivência, para incentivo ao transporte público. Já Governo Federal em propaganda insinua que um dos sinais de sair da pobreza é largar o transporte público. Reprodução.

Comercial na Dinamarca mostra que andar de ônibus é legal
Objetivo é incentivar o uso do transporte público e qualificar a imagem dos deslocamentos coletivos
ADAMO BAZANI – CBN

Corredores de ônibus, gerenciamento em tempo real da frota e das operações, bilhetagem eletrônica, melhor planejamento das linhas evitando sobreposições e ampliando o atendimento, criação de uma malha de transportes públicos com a integração entre os diferentes modais, ônibus novos… Tudo isso é fundamental para que o transporte público ganhe agilidade, ofereça conforto e torne atraente para que as pessoas deixem o carro em casa e se desloquem de transporte coletivo, o que obviamente vai trazer impactos positivos na diminuição dos congestionamentos, melhoria nas condições do ar e na qualidade de vida nas cidades.
Mas tudo isso também deve vir de um trabalho de conscientização que interfira na cultura dos cidadãos. Por causa dos vários problemas nos transportes públicos ao longo dos anos e também por uma propaganda de montadoras e até governos sobre o carro de passeio, que virou símbolo de status, hoje em dia, andar de ônibus para muita gente significa algo relacionado à sofrimento e à pobreza. E o pior: EM UMA PROPAGANDA O GOVERNO FEDERAL BRASILEIRO DÁ ESSA IDEIA, ao anunciar o Plano Brasil sem Miséria.
Todos dizem que os transportes públicos são a solução para parte dos problemas de mobilidade e meio ambiente das cidades, mas no fundo, nem todos deixariam o carro em casa, mesmo que o transporte coletivo fosse muito bom.
Pelo bom humor se comunica bastante e, em muitos casos é a melhor forma de chamar a atenção de pessoas com conceitos fechados e preconceitos.
Na Dinamarca, tem sido exibida uma campanha em prol do uso de transporte coletivo, no mínimo interessante.
Na propaganda, é evidenciado que o ônibus é um espaço de convivência.
Em certos momentos, há um exagero lírico, para dar um tom de humor.
As pessoas disputam para entrar no ônibus (o que aqui em São Paulo, é algo normal, mas a disputa é diferente). Elas admiram os detalhes do veículo, como o sinal de parada, enquanto ele é contemplado por onde passa, inclusive por belas mulheres.
Um momento interessante é quando o ônibus no corredor ultrapassa carros de passeio presos no congestionamento e os passageiros fazem caretas de deboche.
Um ponto hilário é quando o ônibus, a exemplo de motoqueiros que ficam olhando admirados, dá um cavalo de pau.
Vale também a interpretação do motorista, meio com voz de “Exterminador do Futuro”, mas dizendo que é “Eu sou legal!”.
Exageros do comercial à parte, o ônibus é sim um bom espaço de convivência e se o transporte público receber prioridade e investimento pode ser até mais prático e eficiente do que o deslocamento por carro de passeio.
Assim, uma ação comercial que visa destacar o lado bom do transporte público merece mais crédito do que uma campanha do Governo Federal Brasileiro onde é mostrada a imagem de um homem pela janela do ônibus e depois em seu carro, insinuando que sair da pobreza é ter um transporte próprio. Ou que transporte coletivo é coisa de pobre.
Assim, com essa imagem, não tem discurso de corredor de ônibus que se sustente.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

16 comentários em Para propaganda do Governo Federal, sair da pobreza é sair do ônibus

  1. Pois é Adamo, por essas e por outras é que volta e meia SP bate recorde de congestionamento, as pessoas estão endividadas por conta desse “sonho maravilhoso” que é ter um carro novo e por aí vai.
    Para completar, em SP nas últimas administrações, o foco do transporte foi tão somente voltado para o automóvel, nada de se alterar o sistema de transporte da cidade, sistema esse totalmente errado, implantação de corredores exclusivos então nem pensar, enquanto em países de 1º mundo e também alguns entre os países ditos “emergentes”, o investimento no transporte coletivo ou público é, poderia dizer, maciço. Mas com governos subservientes às montadoras de automóveis e sem nenhum compromisso com a população, porque o compromisso é só com as montadoras, a coisa ficará muito pior do que está hoje. O pior disso tudo é que temos condição de implantarmos em todo o país, sistemas de transporte coletivo que não faça feio para nenhum outro país, mas isso não dá voto, porém IPI reduzido e campanha nos meios de comunicação a toda hora para incentivar o povo a adquirir um carro novo, enfatizando que isso é tirar o povo da pobreza, aí sim né?Pobre nação brasileira.

    • pois é Marcos.aliado a questão cultural!não sou tão raivoso como alguns(tambem,com a”imprensa”q temos,cada vez PIOR),mas voce disse tudo.Carro Novo dá muito Voto.a sociedade Brasileira está Rebaixada!

    • e vou te dizer mais:não é só nos paises de 1o mundo e os ditos emergentes.os paises mais pobres(Guatemala,Equador,Venezuela,Colombia),o investimento em corredores exclusivos para onibus é maciço.e os resultados sao altamente satisfatorios.mas,como falei,a questão cultural(o Brasileiro ama Carro)é muito mais grave do q se pensa.mesmo com a copa de 2014,as cidades vão se ver travadas e pagando um preço altissimo por essa”individualidade”.aliado a essa facil manipulação dos meios de”comunicação”!

  2. Este país é uma vergonha de cima a baixo, nos âmbitos federal, estadual, municipal, distrital etc… Querem nos fazer pensar que o transporte por ônibus é e sempre será uma segunda classe, e, pior ainda, fazem de tudo para não melhorar. Aqui no DF os argumentos são ridículos. Dêem uma olhada nessa notícia do G1 de 25/09/2012:

    O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 10ª Região também chegou a determinar a suspensão da concorrência porque no edital não listava como obrigatória a instalação de motores traseiros, sistema de ar-condicionado e câmbio automático nos ônibus.A Secretaria de Transportes do DF informou que a exigência desses itens poderia direcionar a licitação, porque apenas uma empresa no país tem condições de construir ônibus com esses equipamentos.http://glo.bo/S3leG9

  3. Me parece que para o governo se numa casa a renda for de 2 salarios mininos já são considerados classe media, agora pergunto quem com este dinheiro consegue sair do transporte publico.

  4. Bom dia.

    Propaganda, publicidade, vêm de encontro ao que pensa, a quem ela é direcionada.

    O cidadão somente cairá “na real”, engolindo fumaça ou congelando (ar-condicionado) a bordo do seu carrinho feito quase todo de plástico, pelo qual ele terá de pagar 60 suaves prestações de R$ 800,00 e tralálá.

    Locomover-se de automóvel, deve ser por pura necessidade ou lazer, não uma tortura.

    Nesse tópico, acredito, americanos e europeus, estão na nossa frente.

    • Acho que quanto aos EUA, depende muito da cidade.

      Em Nova Iorque, muitos americanos não tem carro. Eles usam em massa metrô, ônibus, táxis, patins, os pés e cada vez mais bicicleta. É uma cidade de alta densidade populacional e uma das mais “verdes” dos EUA.

      Já em Los Angeles (não só na cidade como no condado inteiro), a dependência do carro é enorme. Vias expressas que cortam a cidade tornam desagradável e muitas vezes impossível andar a pé. E L.A. é também uma cidade que, apesar dos viadutos de até CINCO ANDARES construídos a partir das décadas de 1940/1950, tem congestionamentos diários monstruosos. Resultado: é classificada como 2ª (às vezes como a 3ª) cidade mais poluída dos EUA, mesmo não tendo uma população tão grande quanto a de Nova Iorque.

      • Gustavo Cunha // 26 de setembro de 2012 às 19:38 //

        Antonio,
        Obrigado por corrigir-me, pois fui generalista e quando agimos assim, corremos o risco de falar sobre o que não sabemos, totalmente.
        Se, eu digo, se, compararmos São Paulo com Nova York, a discrepância fica evidente e estrondosa, não ?!
        Abçs.

    • Gustavo,

      Comparando SP e NY concordo totalmente com você: as discrepâncias são absurdas. Acho que muito disso se deve ao fato de os gestores de cidades de cidades desenvolvidas (de verdade) como Nova Iorque não terem privilégios como o dos prefeitos de cidades brasileiras, como São Paulo, que usam helicópteros e carros com chofer para deslocamentos urbanos.

      Juro que não entra na minha cabeça, mesmo isto sendo Brasil, como alguém governa algum lugar mas não suporta andar por ele. (Só em época de campanha, mas com seguranças e chofer.)

      Forte abraço.

  5. Realmente a mensagem do Governo Brasileiro do Plano Brasil Sem Miséria passa uma total falta de visão sobre a política pública de mobilidade urbana

  6. A faixa da nova ”classe média” é de 291 a 1019 reais… se voce ganha 1020 ou mais, é considerado ”classe alta”.
    Em vez de aumentar a renda, simplesmente a nivela por baixo, cria essa falsa impressão de que ”melhoramos de vida”,
    Parece que houve uma propaganda semelhante a que tem na Dinamarca, feita durante o Governo Militar, era um onibus da Marcopolo, numa exposição de automoveis, onde a locutora falava das qualidades de se andar de onibus.
    E o cidadão preso nos congestionamentos, eu não duvido que brade contra os Prefeitos e Governadores, se queixando dos congestionamentos, e tal … mas com certeza agradecerá ao Presidente por conseguir seu ”carrinho”, ”melhorar de vida ”…oh doce ilusão.

  7. Lendo um pouco da história do Brasil podemos concluir que não importa o tipo de política que o governo adote no país, ele sempre será voltado para uma determinada classe. Eles idolatram o carro, mas na hora de resolver o congestionamento vem com idéias mirabolantes sobre transporte de massa. Hipócritas! Se diz que as propagandas políticas são finaciadas por empreiterias e grandes empresários. E nesse caso, provavelmente, é o que acontece.
    No fim, o que sempre prevalece são os interesses de alguns setores da sociedade, e não da sociedade como um todo. Por isso que não se investem em BRTs por exemplo. Serra deixa claro que não quer saber de ônibus. A quanto tempo os populares do M’Boi Mirim reenvindicam um corredor descente na região e agora vemos as obras do monotrilho na avenida Roberto Marinho? Mais uma atração para o SPTV mostrar no dia-dia da emissora. Isso é a mais pura desigualdade social escancarada. Só não percebe quem não quer. Vendo a propaganda, passa um idéia de que o governo fez dos ônibus um vilão propositalmente, ja para ter argumentos a favor das montadoras de carro (embora os ônibus também sejam produzidos por montadoras).
    Enfim, o governo vende ilusão para colher beneficio próprio, por conhecer o povo trouxa que tem.

    • “Enfim, o governo vende ilusão para colher beneficio próprio, por conhecer o povo trouxa que tem.” André

      Bato palmas para essa frase que reúne tão bem a realidade brasileira. Foi iludindo o povo trouxa que os governos dilapidaram vastas redes de bondes e ônibus elétricos (trólebus) por todo o Brasil. O argumento: “eles enfeiam as cidades com seus cabos elétricos de difícil manutenção e a modernidade exige largas avenidas e estacionamentos para os carros”. No futuro, (aí entra o engodo!) construiriam vastas redes de modernos metrôs subterrâneos. O povo acreditou. Destruíram quase tudo.

      Tudo começa sempre do mesmo jeito: sucatear para conquistar. Porque fica mais difícil substituir algo que funciona bem e está bem conservado. “O Y está sucateado, não funciona bem e vai ser substituído por um moderno X” é um argumento batido mas que conquista multidões de trouxas.

      Hoje, ao sabor da conveniência, os ônibus são pintados como inimigos. Como se eles poluíssem mais que os milhões de carros de nossas cidades. Como se fossem eles que infestassem e congestionassem as avenidas.

      E como quem não conhece história está fadado a repeti-la, da mesma forma como destruíram os bondes e trólebus, o prefeito de Curitiba planeja começar a destruir os corredores de ônibus que levaram a cidade a ser referência mundial. Desde a saída de Jaime Lerner do comando, o sistema foi aos poucos sendo sucateado. Abandonado no tempo. Ampliações à rede tornaram-se lentas. Terminais deixados sujos e mal cuidados. Treinamentos a motoristas e frequência dos ônibus administrada sob critérios duvidosos.

      Está criada então a oportunidade para um excelente engodo: um moderno metrô enterrado. E aos curitibanos dizem: “Vocês nem terão de pagar. A maior parte dos recursos é federal. Vai sair quase de graça!”

      E assim, numa cidade que já foi modelo, em vez de ampliar e melhorar o sistema de transporte, será feita uma substituição, por mais tola que pareça: um sistema de metrobus (ou BRT/VLP, como queiram) de superfície, razoavelmente bem espalhado na cidade e que ainda funciona relativamente bem sendo substituido por um metrô enterrado. Metrô este que terá composições pequenas (cinco carros apenas, o que, para um bilionário sistema de metrô, é pouco), apenas uma linha, só 14 km. Não resolve nada em termos de mobilidade! Até piora, trazendo inconvenientes de mais baldeações ônibus/metrô/ônibus. Mas até o povo trouxa perceber isso, o “novo e moderno sistema” já terá servido a vários propósitos de candidatos e de empreiteiras.

      Esse é o retrato do Brasil moderno, que é o mesmo Brasil moderno de 100 anos atrás, mas cheio de carros e trouxas com acesso a internet banda “larga”.

  8. É o empobrecimento da definição de cidadania, como se ela se resumisse a ter um carro. São feitas políticas públicas tão pobres quanto, que esquecem que cidadania passa por moradia digna, perto dos equipamentos urbanos básicos e emprego. Propagandas de operações urbanas da prefeitura de São Paulo deixam isso bem claro: só investem pra dar valor de mercado em áreas de interesse do mercado imobiliário e periferizam mais ainda a maioria que não pode bancar viver ali. Aí pode ser carro, bicicleta, BRT, monotrilho, trem, metrô, VLT ou todos em sobreposição que a cidade vai continuar travada.
    E disso nasce um candidato que, apesar de não ter propostas, é líder absoluto só por levantar a bandeira dos direitos do consumidor.

  9. O que o Governo Federal pensava nos anos 70.

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