BUSSCAR: FALÊNCIA, INTERVENÇÃO OU SALVAÇÃO NA QUINTA-FEIRA

BU SSCATR

Assembléia Geral dos Credores da Busscar não entrou em consenso sobre o Plano de Recuperação da Busscar, que pode ter a falência ou intervenção decretadas na quinta-feira. Empresa propôs adiantamento de parte de alguns débitos com vendas de bens, imóveis e hipotecas. Encarroçadora atribui sua situação difícil à crise mundial inicial em 2008. Foto: Derles Borges Pichoff

Plano de Recuperação da Busscar não é aprovado por todos os credores
Com isso, fica o juiz Maurício Póvoas é quem vai determinar se Busscar vai ter a falência decretada ou não. Decisão deve sair na quinta-feira
ADAMO BAZANI – CBN
Na próxima quinta-feira, dia 27 de setembro, o juiz da Quinta Vara Cível de Joinville, Maurício Povoas, vai decretar ou não a falência da Busscar.
O juiz pode também decretar intervenção. Neste caso, a diretoria poderia ser afastada e entraria no lugar profissionais determinados pelo magistrado.
A empresa só escaparia desse risco se o Plano de Recuperação fosse aprovado entre todos os credores, o que não ocorreu na Assembléia realizada nesta terça-feira, dia 25 de setembro.
O banco Santander, um dos principais credores da Busscar, votou contra o Plano de Recuperação da encarroçadora.
O BNDES – Bando Nacional de Desenvolvimento Social se absteve de votar e pediu suspensão da Assembleia. A Busscar quis prosseguir com a votação. O BNDES recebeu o plano de recuperação somente no dia 06 de setembro e não teve tempo de analisar as propostas com tranqüilidade.
As seguradoras e financeiras, como Seguradora Berkley, também reprovaram.
O Sindmecânicos, que reúne os trabalhadores da Busscar, mas não têm a maioria das representações trabalhistas, rejeitou o plano apresentado pela empresa.
A entidade apresentou uma proposta mais flexível que sequer foi considerada pela encarroçadora.
Pela proposta do Sindicato, 50% do dinheiro obtido pelas vendas dos bens seriam usados para débitos trabalhistas. A primeira parcela, com limite de R$ 3100,00 seria paga a todos os trabalhadores que não receberam salário de abril de 2010 em diante. Esse pagamento seria realizado 30 dias depois da assinatura da possível aprovação.
Trinta por cento dos créditos trabalhistas seriam pagos na segunda parcela, 60 dias após a aprovação do plano, com valores de até 150 salários mínimos por pessoa.
Após 90 dias, seriam pagas mensalmente 10 parcelas que não seriam menores que R$ 400. Na sexta parcela, os trabalhadores teriam a opção de trocar o restante da dívida por ações.
Os ex sócios da empresa aprovaram o Plano.
A oportunidade para a empresa apresentar um plano de Recuperação Judicial foi em outubro do ano passado.
As propostas levantaram bastante polêmica, principalmente por conta de metas de produção difíceis de ser alcançadas e dos descontos e parcelamentos sobre os valores dos débitos.

VÁRIAS ASSEMBLEIAS E O DESENROLAR DAS PROPOSTAS:
Esta é a terceira etapa da Assembleia de Credores, que foi suspensa em outras duas oportunidades.
Após a apresentação de mudanças no Plano de Recuperação Judicial pela Busscar, a assembleia que deveria definir os rumos da empresa, bancos, trabalhadores e fornecedores, estava marcada para do dia 22 de maio de 2012. Neste mesmo dia deveria ser dada a aprovação ou reprovação ao Plano. Mas o encontro foi marcado por diversos tumultos entre representantes da empresa e credores. Também apareceram interessados na compra da encarroçcadora: um pool de credores, empresários do setor de ônibus (representados por José Boiko) e a fabricante chinesa Shandong Heavy Machinery Group.
A assembleia então teve continuidade no dia 07 de agosto. Mas sem conclusão novamente. Na ocasião, o Banco Santander e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) demonstraram-se contra o plano de recuperação. Pesou para o adiamento da assembleia a posição dos tios de Claudio Nielson, ex sócios, também credores, que renegociaram os descontos sobre as dívidas. Na versão inicial do plano, os descontos chegariam a 95%, mas neste dia, foi apresentada proposta, aceita por estes credores , que reduziu o teto destes descontos para 70% sobre o valor da dívida.
Além da classe de Garantia Real (bancos) e a classe Quitográfica, há também a classe dos trabalhadores, que sempre esteve dividida durante toda a situação difícil enfrentada pela Busscar.
A maioria assinou procurações favoráveis à Busscar, cerca de 1900 pessoas. Outra parte seguiu a posição do Sindmecânicos – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias e Oficinas Mecânicas de Joinville e Região.
A entidade, desde a primeira proposta dentro do Plano de Recuperação, se mostrou desfavorável ao que foi oferecido pela Busscar. O tempo de carência para pagamento, que poderia chegar a 36 meses mesmo a Lei de Recuperação Judicial determinando 12 meses em caso de dívidas trabalhistas, e os descontos sobre os débitos junto aos trabalhadores, que chegavam a 37%, desagradaram a entidade sindical.
A Busscar então limitou a carência das dívidas com os trabalhadores em 12 meses. Parte da dívida seria paga em ações da empresa. Se o trabalhador não quisesse ficar com as ações, poderia revendê-la à Busscar. Mas a relação deixaria de ser trabalhista para se tornar de mercado e novamente a empresa teria 36 meses para pagar este valor. Além disso, o Sindmecânicos argumentou que as ações da Busscar não teriam valor de mercado e só serviriam para voltar aos 36 meses de pagamento, já que a empresa estava em situação jurídica e financeira com indefinição.
Quanto a ter a menor representação entre os trabalhadores, o Sindmecânicos atribui a uma suposta manobra da Busscar.
Cerca de mil das 1900 procurações de trabalhadores são da Tecnofibras, empresa de plásticos, painéis e bancos de ônibus urbanos da Busscar. Estes operários têm poucos meses de salários e parcelas do 13º atrasados diante dos trabalhadores da encarroçadora cujos pagamentos não são realizados há 27 meses consecutivos, com exceção de remunerações semanais para quem trabalha na montagem de algumas carrocerias em produção. Ao todo, cerca de 250 unidades, das 1,8 mil previstas para este ano, foram feitas ou encomendadas.
Na mais recente proposta em relação aos trabalhadores, a Busscar apresentou a possibilidade de adiantar o pagamento de parte dos débitos trabalhistas usando 7% da receita obtida pela venda de bens e imóveis listados no Plano de Recuperação. Seria antecipada a parcela mais próxima a vencer. O valor conseguido com estas vendas seria dividido de maneira igual entres os trabalhadores, respeitando os limites que cada um tem a receber.
Para a Classe de Garantia Real, dos Bancos, a Busscar propôs antecipação de 8% do valor das dívidas que o Banco Santander e a Seguradora Berkley têm a receber. O dinheiro seria obtido pela venda de imóveis cujas hipotecas pertencem a estas instituições financeiras.
Para o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social , não haveria, pela proposta, descontos sobre os débitos e as garantias serão as instalações da Busscar.
A Busscar garantiu que as instalações não seriam vendidas com a aprovação do Plano.
HISTÓRICOS DE CRISES:
A crise da Busscar que resultou na atual situação teve início em 2008 e se agravou depois de 2010. A estimativa é que hoje as dívidas empresa se aproximem de R$ 1,3 bilhão, dos quais R$ 800 milhões com credores diretos e cerca de R$ 500 milhões em tributos. A companhia chegou a ter 5 mil empregados, hoje conta com cerca de 900. Mas todos os 5 mil têm algo a receber.
A Busscar responsabilizou esta crise à restrição global de crédito por conta a Recessão Mundial ocorrida em 2008.
O ponto máximo da crise mundial ocorreu em 15 de setembro de 2008, quando o banco norte-americano Lehman Brothers, acabou pedindo concordata. O banco de investimentos era um dos mais tradicionais dos Estados Unidos, fundado em 1850.
A quebra do banco causou uma onda de desconfiança e a raiz de tudo foi em 2001, justamente no mercado de financiamentos.
O processo inicial foi chamado de furo da bolha de internet, com alta desvalorização dos papéis de empresas de tecnologia que formam o Índice Nasdaq.
Para minimizar as perdas dos investidores, Alan Greenspan, então presidente do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, orientou que os recursos fossem destinados para o setor imobiliário.
Com baixas taxas de juros e custos financeiros reduzidos, os investimentos em financiamentos de imóveis cresceram.
O governo garantia já os empréstimos das imobiliárias Fannie Mae e Feddie Mac , que podiam captar dinheiro ao custo que achassem melhor em qualquer lugar do mundo.
Assim, atraídos pelas garantias do governo norte-americano, vários bancos em todo o mundo, inclusive na atual deficitária Europa, começaram a emprestar dinheiro para a Fannie Mae e para a Feddie Mac.
Como estímulo ao volume de negócios, o mercado imobiliário começou a trabalhar com hipotecas subprimes, destinadas às famílias com alto risco de inadimplência.
Os bancos então criaram derivativos negociáveis transformando estas hipotecas em títulos que eram vendidos a outros bancos. Mesmo com todo o risco, por pura especulação, as agências internacionais classificaram tais títulos como AAA, a nota mais alta.
Em 2005, para conter a inflação que ameaçava os Estados Unidos, o FED aumentou as taxas de juros. Os imóveis então se valorizaram e as famílias que tinham comprado por este sistema de hipotecas subprimes não tiveram condições de pagar. Os bancos que estavam com estes títulos então sentiram o peso da inadimplência e da desvalorização dos papéis.
Nesses casos, há sempre um pensamento errado das famílias em relação a financiamentos com juros baixos. Elas pensam que com o aumento do valor dos imóveis pela elevação dos juros vai permitir ganhos e possibilidades de refinanciamento de suas hipotecas. Mas sem garantia real de crédito, o mercado não mais se abria.
Com a crise, muitos bancos perderam, diversas famílias se tornaram inadimplentes e o medo maior em todo o mundo, que comprou estes títulos, foi de emprestar.
Até mesmo quem não tinha comprado estes títulos, mas fez negócios com instituições que compraram sentiu-se inseguro. E como o mercado é demasiadamente sensível e movido às especulações, a retração é sentida até hoje.
A encarroçadora de ônibus Busscar, da família Nielson, alegou que seus financiamentos foram cortados dentro deste contexto. Algumas linhas de créditos foram renegociadas e diminuídas pela metade, segundo versão da empresa. Só que insumos e empréstimos já tinham sido adquiridos para atender às encomendas.
A Busscar ainda garantiu que fez o máximo para honrar os compromissos, mas que não foi possível se livrar dos débitos.
No entanto, parte do mercado contesta a versão da Busscar e diz que a crise econômica foi enfrentada por todos os setores, inclusive o de carrocerias.
A versão é de que a Busscar se viu fragilizada diante da restrição de crédito que ocorreu de fato porque não tinha se recuperado de outra crise anterior, desta vez entre 2001 e 2003, na qual ficou devendo também para trabalhadores e instituições como o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
A empresa, mesmo pagando boa parte dos débitos da época, não havia criado caixa e bases sólidas para a atual situação.
À época, a Busscar atribuiu sua crise à grande desvalorização do Real, que ocorreu em 1999 e provocou dificuldades nas vendas para o exterior.
O problema se deu nas compras e vendas externas. Quando o Real estava alto, as indústrias, inclusive a Busscar, que compravam com facilidade matérias internacionais, não viram as mesmas facilidades quando iam exportar os bens já acabados. A alternativa foi baixar a cotação do Real, para tornar os bens mais competitivos, mas eles se tornaram baratos, o que praticamente anulou os lucros de quem comprou as peças na época do Real valorizado, mas teve de vender produtos com preços menores na época do real desvalorizado.
Apesar de todos estes fatores serem reais, erros administrativos da Busscar, que a deixaram mais suscetível a estas instabilidades globais, segundo parte do mercado de ônibus teriam sido os principais causadores dos mais recentes momentos de dificuldades da encarroçadora de Joinville.
A aparição dos nomes de diretores da Busscar, como Cláudio Nielson e Rosita Nielson, na lista de funcionários credores, com totais a receber de R$ 1,5 milhão, também foi alvo de suspeitas.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

8 comentários em BUSSCAR: FALÊNCIA, INTERVENÇÃO OU SALVAÇÃO NA QUINTA-FEIRA

  1. jackson de sousa leite // 26 de setembro de 2012 às 00:15 // Responder

    tô com medo que a busscar tenha seu fim decretado quinta feira a melhor encarroçadora do pais passando por isso justamente pela incompetência de seus administradores

    • É capaz de como sempre, adiarem a audiência…

      • Não será uma audiência. Ele só decretatá a falência ou a intervenção judicial. Detalhe, Povoas está muito interessado na Busscar, pois se não tivesse, a mesma já teria falido na 1ª assembléia que ele nem esperou a votação, simplesmente adiou ela.

    • Jakson, não creio em incopetência. A crise se estende desde 2001, quando a empresa se internacionalizou massivamente, e esqueceu da matriz. Cláudio tem culpa? Uma pequena parcela. Ele é um fantoche da mãe na Busscar. Quem manda e desmanda é ela.

      • *Quem internacionalizou a Busscar foi o Edson Andrade. Ele é um dos maiores culpados da Busscar ter entrado no que entrou. A Mãe do Cláudio também tem uma grande parcela. Agora fiquei adimirado com o santander. Antes de ontem eles haviam sinalizado que votariam a favor do plano de recuperação, e chega ontem vota contra. Trairas. Aff!

  2. Que pena, acho que a falencia seria uma medidada muito ruim para todos, proprietários, fundadores, funcionários, frotistas, fornecedores inclusive.

  3. Tomara que seja a falencia e consequente venda da empresa, pois caso fosse aprovado o plano iriamos receber somente 6 parcelas com seis meses de carencia e ainda com desconto de até 60% sendo que o saldo seria em ações sem valor algum com a possibilidade de transformar em dinheiro 30 meses depois e com o desconto de 60 % ou seja uma vergonha para uma empresa de nome como a Busscar.
    Pode levar anos para recebermos esta grana mais uma coisa eu quero ver todos os puxa-sacos que ajudaram a empresa a falir saindo um por um para procurar emprego ai fora , porque não acho justo o que esta empresa estava fazendo beneficiando em torno de 800 funcionarios e os mais 3000 se dedesperando ai afora tentando dar um jeito de pagar as suas dividas,a justiça tarda mas não falha e esta familia ainda vai ter o que merece…..

    • E com a falência você espera receber a divida integral? Falência os bens são bloqueados, e quem receberá o $$$ dos leilões (Qe depreciam qualquer coisa) serão para pagar os impostos e depois as instituições financeiras. Maior perda de $$$$ e de tempo a falência ser decretada. Ninguém vai sair ganhando, pelo contrário, os funcionários serão os mais prejudicados.

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