Um outro ângulo do mandarim

Publicado em: 13 de abril de 2012

China

O Dragão Chinês mudou de postura. Agora ele tem cara e mais dinheiro e não se limita a vender no Brasil, mas a investir também. Em 2007, os investimentos eram de US$ 680 milhões e em 2011 passaram para US$ 19 bilhões. Os chineses encontraram brechas que o Brasil deixou em áreas estratégicas no setor de infraestrutura. É um momento delicado para o Brasil: não dá para fechar as portas ao maior parceiro comercial da atualidade, mas dá para exigir que os investimentos realmente sejam em produção e não apenas em montagem de produtos. Hoje o capital chinês é significativo em muitas companhias já conhecidas, como a Volvo.

Traduzindo o mandarim
Dizer que há uma ameaça chinesa no Brasil é simplificar a questão. O País tem de se proteger da concorrência desleal, mas a China passou do patamar de vendedor para investidor

ADAMO BAZANI – CBN

Recentemente, quando o Governo Federal lançou um pacote de auxílio restrito a 15 setores da indústria, entre eles o de fabricação de ônibus, quando o assunto era proteção da concorrência dos produtos estrangeiros, logo foi pensado em proteção à entrada maciça dos bens chineses no Brasil.
Realmente, é fato que os produtos vindos da China representam uma concorrência no mínimo assustadora para as empresas brasileiras: eles são mais baratos, como sempre foram, e agregam um nível tecnológico maior, como nunca tiveram.
O setor de produção de ônibus é um dos poucos no País que menos sente diretamente essa pressão chinesa, mas vê cada vez mais os asiáticos baterem às portas, seja por operações diretas, pela triangulação (quando a produção é mascarada em um país parceiro do Brasil) ou por intenções de investimentos.
È verdade que a indústria brasileira precisa se proteger. Mas outra verdade inegável é que boa parte dos chineses deixou de ser apenas vendedores no Brasil para se tornar investidores.
Os dados do Ministério da Indústria e do Comércio deixam isso claro. Em 2007, os chineses investiram no Brasil 680 milhões de dólares. Já no ano passado, esses investimentos foram para 19 bilhões de dólares. E a estimativa é de que no ano da Copa, em 2014, a China marque um gol no Brasil, com investimentos em diversos setores na ordem de 50 bilhões de dólares.
O cuidado que o Brasil deve ter: que estes investimentos não sejam apesar para a formação de parques fabris que só montam produtos com componentes chineses.
O cuidado que o Brasil não teve: não criar uma política industrial que deixasse as plantas já aqui erradicadas mais competitivas, sem, no entanto, onerar o cidadão por meio de impostos aliviados da indústria e compensados em outras áreas. E outro fator é: boa parte das indústrias chinesas veio ao Brasil porque enxergou uma grande lacuna de investimentos que não foram feitos há anos, em especial na área de infraestrutura, que envolve, entre outros setores, energia, comunicação e transportes.
Mas por que os chineses são tão competitivos?
De cara, uma pessoa que ainda tem o contato apenas com o discurso – padrão pode dizer que no País do Oriente, os impostos são baixos e a mão de obra também.
È verdade, mas em parte!
A China deixou há muito tempo de ser fabricante apenas de rádios baratos e de correntinhas. As indústrias investem em tecnologias e formas de produção que deixam seus produtos também mais em conta.
Além disso, a questão da mão de obra barata, tem lá suas contradições.
A estimativa é que nos próximos dez anos, 200 milhões de chineses alcancem a classe média. É mais que toda a população brasileira. O PIB – Produto Interno Bruto Chinês deve avançar 7,5% por ano, se não houver nenhuma catástrofe mundial. A renda média do chinês, no entanto, deve crescer mais ainda, superando em 7% o PIB do país asiático.
A CARA DO DRAGÃO:

Mas quem são estes chineses que investem no Brasil?
Uma parcela significativa é formada de empresas estatais. Isso mesmo, companhias do governo que em vez de pensarem somente na burocracia local, expandem seus braços para o mundo, aproveitando a época das vacas gordas, que por um motivo ou outro, daqui a algumas décadas, pode não ser mais a mesma.
Depois vêm as grandes corporações chinesas privadas, que atuam com nível de profissionalismo que se Henry Ford estivesse vivo, tiraria o chapéu.
As empresas chinesas que investem no Brasil atuam em setores estratégicos porque os brasileiros de fato nunca atenderem às necessidades de investimentos neste segmento. Balanços do ano passado revelam que a fatia do dinheiro chinês que entrou no Brasil está dividida em: 35% Energia e Petróleo, 22% Agricultura, 20% Mineração, 10% Siderurgia, 8% Energia Elétrica e 5% Manufatura, incluindo automóveis.
Muitas empresas nacionais e internacionais que possuem a imagem de seus países de origem têm alma de capital chinês.
A Chery, que deve erguer uma planta em Jacareí, no Interior de São Paulo, e que vende carros com airbags, vidros e travas elétricas, direção hidráulica e MP3 pelo preço de um popular pelado comprou uma linha desativada da Ford em 1997, na China. A Chery produz ela mesma seu conjunto de câmbio e direção prática que derruba em 30% o preço final dos carros. Índice que nenhum aumento tributário protencionista consegue derrubar.
A Volvo desde 2010 tem significativa participação em seu controle da chinesa Geely.
A China está aí para o mundo e se ela parar, os efeitos serão tão nocivos quanto um colapso da economia norte-americana.
Ela é o maior parceiro comercial do Brasil, com relações entre os dois países que chegam na ordem de 77 bilhões de dólares.
O que ocorre, mais uma vez, como desde sempre, desde a época das caravelas portuguesas, é que o Brasil envia produtos naturais, como alimentos e minério, e compra industrializados, que têm maior valor agregado.
O momento tem de ser de sobriedade do Brasil em relação à China. Toda a concorrência desleal deve ser combatida. Mas não dá para fechar as portas para o maior parceiro comercial do País.
NÃO DÁ MAIS PARA DEMONIZAR O DRAGÃO CHINÊS PARA JUSTIFICAR A FALTA DE INVESTIMENTO PÚBLICO E O COMODISMO DE PARTE DA INDÚSTRIA.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:

Deixe uma resposta