ÔNIBUS CHINESES NO BRASIL FORAM ASSUNTO NA TRANSPÚBLICO 2011

ônibus Irizar PB
Ônibus Irizar exposto na Transpúblico. Empresa é de capital internacional, da região Basca, Espanha. Montadoras e encarroçadoras brasileiras estão em alerta sobre a possível entrada de ônibus chineses no mercado nacional. Os discursos são positivos e enfatizam a qualidade do produto brasileiro, as rígidas normas de operação nacionais que só a indústria local pode atender plenamente, o pós venda, fator levado em consideração num ramo cujo veículo depende de muita manutenção, entre outros destaques das fabricantes nacionais. No entanto, as falas positivas não escondem a preocupação e executivos pedem medidas preventivas de proteção à indústria caso a ameaça de entrada de ônibus chineses se torne mais próxima. Foto: Adamo Bazani.
ônibus Yutong chinês no Uruguai para o Brasil
Ônibus Yutong chinês em circulação pela Cotsa, uma das maiores operadoras uruguaias. Fonte: Site Aclo

Entrada de chineses preocupa indústria
Produtores querem passar a imagem de segurança, mas exemplo do setor de produção de carros de passeio gera receios

ADAMO BAZANI – CBN

Além da necessidade de aprimorar a mobilidade urbana, não só pelos eventos mundiais como Copa do Mundo e Olimpíadas, mas pelo fato de a qualidade de vida e recursos serem desperdiçados com o trânsito e a poluição, outro assunto que tomou as discussões na edição de 2011 da Transpúblico sobre a indústria de ônibus foi a iminência de uma possível entrada de veículos de transportes coletivos no Brasil produzidos na China.
A possibilidade da compra de ônibus chineses se tornou mais próxima pela comercialização destes veículos pelos países do Mercosul, bloco econômico do qual o Brasil faz parte.
O país mais próximo do Brasil onde os ônibus chineses estão é o Uruguai. Com o local, o Brasil tem mais facilidade para realizar transações comerciais.
A fabricante de ônibus chinesa com maior presença no mercado uruguaio é a Yutong. Neste ano, a empresa pretende vender no Uruguai cerca de 100 unidades dos ônibus fabricados em Zhengzhou, localidade de Henan.
A importação direta da China via Uruguai parece pouco provável, mas a entrada da empresa no parceiro do Mercosul é o primeiro passo para ao Yutong abrir uma linha de montagem no Uruguai.
Isso facilitaria a entrada no Brasil, já que, mesmo com peças chinesas, os ônibus seriam considerados uruguaios e gozariam de facilidades para serem importados.
Seriam facilidades dobradas, na prática. As previstas pelo Mercosul e as concedidas pelo governo chinês, além da conjuntura do mercado da China, com mão de obra mais barata e menos exigências técnicas, que permitiram ônibus mais baratos e um efeito parecido com o que ocorreu com os carros de passeio, que hoje oferecem mais pacotes de acessórios a preços menores.
A Foton, outra empresa fabricante de ônibus chinesa, também se estabeleceu no Uruguai.
A Yutong já vendeu para grandes transportadoras do Uruguai, como Cutesa e Copsa.
A empresa admitiu que já fez contatos no Brasil e se interessa pelo mercado nacional, que está em ampla expansão, como demonstram os mais de 16 mil chassis e 15 mil carrocerias vendidos de janeiro a junho deste ano. Eleições municipais em 2012, estaduais e presidencial em 2014, Copa do Mundo e Olimpíadas, além de licitações são alguns dos motivos apontados como favoráveis à indústria de ônibus.
As fabricantes brasileiras já tratam do assunto no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Na Transpúblico, maior feira e painel de transportes do País, o presidente da Mercedes Benz do Brasil, Jürgen Zielgler, não descartou que o assunto é preocupante, mas disse que a indústria brasileira é bem consolidada e, diferentemente do consumidor de carro, o comprador de ônibus, por usar um veículo mais sujeito a desgastes e manutenções, leva em consideração a estrutura do pós venda oferecida pelas fabricantes nacionais e as amplas rede de concessionárias.
“As fabricantes nacionais apoiam a economia em vez de importar. Mas o Governo tem de ter estratégias para evitar problemas com o emprego e com a geração de recursos internos. No entanto, nós vamos continuar sendo competitivos pela nossa qualidade” – afirmou Jürgen Zielgler.
É também no apelo em relação à boa qualidade que as empresas encarroçadoras afirmam que a indústria brasileira pode fazer frente à chinesa, mas que comercialmente, deveria ser protegida.
O diretor de operações da Marcopolo, Paulo Corso, afirmou durante a Transpúblico, feira do setor de transportes, que as normas rígidas de operação das cidades já são uma vantagem para o mercado brasileiro.
“Hoje a maior proteção à indústria de ônibus brasileira tem sido as rigorosas normas de operação nas cidades, principalmente em sistemas diferenciados como do BRT. As prefeituras, os estados e mesmo o Governo Federal fazem exigências de qualidade, conforto, acessibilidade e segurança e só a indústria brasileira é que se adaptou a contento para o atendimento a estas normas” – disse Paulo Corso.

MAIOR VENDEDOR DE CARROS DO MUNDO:

ônibus Chinês Yutong no Uruguai para o Brasil
Ônibus urbano da Yutong modelo ZK 6118 HGA da empresa Uruguaia CUTCSA. Fonte: Site Aclo

No primeiro semestre de 2011, a China sagrou-se a maior fabricante de veículos do mundo.
Com crescimento de 7,1% no mercado global, fabricou cerca de 7 milhões de automóveis, passando a frente já há algum tempo de países tradicionais como Alemanha, Itália e Estados Unidos.
A classificação da produção mundial de veículos leves, de acordo com o relatório da JATO Dynamics do Brasil é a seguinte, com base nos dados do primeiro semestre de 2011:

1º) CHINA: 6 milhões 951 mil 872 unidades
2º) Estados Unidos: 6 milhões 332 mil 501 unidades
3º) Japão: 1 milhão 903 mil 775 unidades
4º) Alemanha: 1 milhão 731 mil 323 unidades
5º) Brasil: 1 milhão 637 mil 766 unidades
6º) Índia: 1 milhão 461 mil 462 unidades
7º) França: 1 milhão 449 mil 413 unidades
8º) Rússia: 1 milhão 253 mil 442 unidades
9º) Grã Bretanha: 1 milhão 162 mil 876 unidades
10º) Itália: 1 milhão 111 mil 669 unidades

Para se ter uma ideia, só no mês de junho, a China fabricou para seu mercado e para exportações 1 milhão 009 mil 378 unidades, quase o total de seis meses acumulados da Itália ou então da Grã Bretanha.

CRESCIMENTO DE DESTAQUE:

Os carros chineses gozam de várias vantagens em seu país: as exigências trabalhistas e em relação à qualidade são menores e os tributos são reduzidos, sendo que o governo chinês até incentiva as exportações dos veículos.
Em 2010, os carros chineses representavam 0,6% do total de importações feitas pelo Brasil de veículos leves. Neste ano, o volume já representa 9%, ultrapassando fornecedores tradicionais para o Brasil, como a Argentina.
Entre os 15 carros de passeio de pequeno porte mais emplacados no Brasil, estão 4 modelos chineses, o que representa 4,82% nos cinco primeiros meses de 2011. São os J3, da JAC, o Face e o QQ, da Chery, e o LF320, da Lifan.
Os dados são da Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.
Quando são analisados apenas os números comerciais dos veículos com cilindrada acima de 1,5 mil litros, as importações de veículos chineses representam 27,8% do total trazido para o Brasil.
Os veículos chineses no Brasil tendem a ser mais baratos que os carros nacionais. Mesmo assim, no mundo, os chineses custam mais caro quando vendidos no Brasil. Em outros países da América Latina, por exemplo, eles podem custar até a metade.

CAMINHÕES CHINESES NO BRASIL:

Apesar de algumas indústrias serem diferentes, nem sempre as produtoras de caminhão fazem ônibus, a presença dos veículos de carga chineses no Brasil também é vista como um sinal de alerta pelas produtoras nacionais de ônibus.
Depois da entrada da Sinotruk, em maio de 2010, cujas lojas têm sido mais fáceis de se ver, é a Shacman que em 2011 anuncia a presença dos seus caminhões em terras brasileiras.
O aproveitamento de profissionais brasileiros para os negócios locais é uma das estratégias das empresas chinesas. A Sinotruk contratou profissionais da Mercedes Benz, da Volvo e até do Banco Ford.
Em relação aos ônibus, foi possível perceber na Transpúblico que os executivos das montadoras e encarroçadoras não quiseram mostrar fraqueza e pessimismo, mas a preocupação existe.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes e repórter da Rádio CBN