NOVE DE JULHO NA JÚLIO PRESTES, A HISTÓRIA DOS TRANSPORTES PODE CONTAR TUDO!

ÔNIBUS NOVE DE JULHO

Uma cena bem propícia para a data e que mostra o orgulho que o Estado tem da Revolução que fez com que o Brasil tivesse uma Constituição de volta. Símbolos, empresas, ruas, praças, imóveis ostentam nomes como 9 de Julho, Washington Luis, Júlio Prestes, MMDC. Essa imagem mostra como o transporte em seu cotidiano pode revelar, sob outros aspectos, a história do País. Uma pintura de empresa (pena que hoje há muitas padronizações), um nome de companhia, de modelo de ônibus, de rodoviária podem dar margem para reflexões sobre outros ângulos da história da cidade, dos estado, do País e do Mundo. O Nielson Diplomata da Viação Nove de Julho foi retratado em 1979 por Fábio Dardes n região da Rodoviária Júlio Prestes. Quer algo mais paulista que isso? Foto: Fábio Dardes

Uma cena paulista na data que representa a luta de São Paulo pela democracia
Dia 09 de julho é considerado o marco da Revolução pela qual os paulistas, praticamente sozinhos, exigiam o fim da ditadura de Getúlio Vargas e a criação de uma nova constituição. Getúlio assumiu ao impedir a posse de Luis Carlos Prestes

ADAMO BAZANI – CBN

Perda nas armas, mas ganho de moral.
Assim que pode ser considerada a Revolução Constitucionalista de 1932, liderada e realizada quase exclusivamente por São Paulo contra a Ditadura de Getúlio Vargas, de 1930.
O episódio da Revolução de 1932 tem sempre de ser lembrado como uma reflexão de quanto podem ser prejudiciais práticas como a Ditadura e os acertos políticos.
Os combatentes da revolução de 1932 e a população podem ser considerados heróis.
Símbolos deste heroísmo pela democratização, foram os estudantes Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa, Antônio Américo Camargo de Andrade e Orlando de Oliveira Alvarenga, que foram mortos pelos homens de Getúlio Vargas em 23 de maio de 1932.
As letras iniciais dos nomes ou sobrenomes de 4 destes 5 estudantes formaram um dos movimentos de oposição ao regime: MMDC (Martins, Miragaia , Dráuzio e Camargo). Hoje o movimento historicamente é reconhecido como MMDCA, em homenagem ao Alvarenga (Orlando de Oliveira Alvarenga).
A causa dos paulistas era legítima. Afinal, a constituição havia sido revogada, lares, jornais, movimentos artísticos eram invadidos e a população viva numa tensão de falta de liberdade.
Mas com um olhar mais crítico, não se pode negar que também foram os paulistas que deram margem para a criação da Ditadura de Getúlio Vargas.
Desde o governo de Afonso Pena, que começou em 1906, paulistas e mineiros se revezavam no controle da naçãoIsso porque o leite (principal produto de Minas Gerais) e o café (principal atividade de São Paulo) eram responsáveis pela prosperidade da nação. Prosperidade esta que possibilitava o sonho de qualquer país que era a elevação do seu nível de industrialização.
Havia então uma polarização entre São Paulo e Minas Gerais no poder econômico e no poder político.
A cada mandato se revezavam presidentes de São Paulo e Minas, na chamada República Café com Leite.
Em 1929, pela lógica e pelo cronograma desse sistema político polarizador, o presidente Washington Luís deveria dar lugar a um representante mineiro. Entre os nomes de Minas cotados estavam Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, Fernando de Melo Viana ou ainda o ex presidente Artur Bernardes.
Assim, Washington Luís lançou o paulista como ele, Júlio Prestes, como candidato, com apoio de 17 Estados. Minas Gerais se revoltou com a quebra de acordo de alternância de sucessão e em setembro de 1929, aproveitando o descontentamento de outros estados com a República Café com Leite, se uniu com Paraíba e Rio Grande do Sul e formou a Aliança Liberal, lançando o gaúcho Getúlio Vargas como candidato.
O levante que colocou Getúlio Vargas no poder já estava sendo anunciado antes mesmo de as eleições serem concretizadas.
Em 1º de março de 1930 a vitória de Júlio Prestes, mesmo com a Grande Depressão Econômica Mundial de 1929 que derrubava os preços do principal produto paulista, o café, foi esmagadora diante de Getúlio Dorneles Vargas.
A revolução estava para eclodir. Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba estavam se preparando para ataques militares.
O estopim do golpe que levou Getúlio Vargas a implantar a Ditadura foi o assassinado na Paraíba de João Pessoa, em julho de 1930. Sobrinho de Epitácio Pessoa, João Pessoa era candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas.
A morte de João Pessoa não tinha ligações com o levante contra o fato de Washington Luis lançar Júlio Prestes como candidato a presidente, mas naquele momento exaltou os ânimos de todos os oposicionistas.
No dia 03 de outubro de 1930 era iniciada a revolução. Depois de tomados os Estados de Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul, berços do movimento, os rebeldes rumaram para o Distrito Federal, na época, Rio de Janeiro.
Em 24 de outubro de 1930, um golpe militar comandado por oficiais do Rio de Janeiro depôs Washington Luís.
Mesmo ganhando as eleições, Júlio Prestes nem assumiu. Em 03 de novembro de 1930, após a Capital Federal ter sido tomada, os militares entregaram o poder a Getúlio Vargas.
A Constituição foi suspensa, o Congresso dissolvido, assim como as assembléias legislativas estaduais e as câmaras municipais. Intervenções nos estados foram realizadas Os sindicatos em imprensa foram controlados e só o Banco do Brasil poderia comercializar moeda estrangeira.
Os ânimos se exaltavam em São Paulo. Getúlio, para tentar amenizar a situação, colocou no Estado um interventor paulista, Pedro Manuel de Toledo. Mas não houve jeito.
Isso não contentou os paulistas, pois querendo ou não, independentemente de sua origem, Pedro era um interventor, impondo o regime de Getúlio.
Militares e civis paulistas exigiam a criação de uma Constituição e o fim da ditadura.
Após várias movimentações políticas e sociais, em 09 de julho os paulistas, acreditando ter o apoio de parte de Minas Gerais e do Mato Grosso do Sul entraram em confronto com as tropas de Getúlio. Mas na realidade, São Paulo lutou praticamente sozinho.
Havia várias frentes de combate como no Vale do Paraíba, Leste, Centro e Sul Paulistas.
Os combates duraram até 04 de outubro de 1932. Nos 87 dias de combate foram oficial,mente 934 mortos, mas estimativas em hospitais e contando com desaparecimentos revelam que mais de 2200 pessoas perderam a vida.
A perda militar, no entanto, representou uma vitória política. Em 03 de maio de 1933 foram realizadas eleições para a Assembléia Geral Constituinte, quando as mulheres votaram pela primeira vez no Brasil.
Em 1934, finalmente foi promulgada a Constituição Federal.
A imagem que apresentamos, de Fábio Dardes mostra o quanto os personagens e a data viraram orgulho para São Paulo.
Fábio, em 1979 retrata um Nielson Diplomata da Viação 9 de Julho, na Rodoviária Júlio Prestes, na região central de São Paulo. Quer algo mais paulista que isso?
Isso mostra que a história dos transportes pode através de seu cotidiano revelar muitos aspectos da história do País. Uma pintura de ônibus, um nome de empresa, podem dar margem à grandes discussões de nosso passado.
Adamo Bazani jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes.

2 comentários em NOVE DE JULHO NA JÚLIO PRESTES, A HISTÓRIA DOS TRANSPORTES PODE CONTAR TUDO!

  1. Gostei e mais importante que tudo, aprendí mais um pouco da história paulista.

  2. Parabéns por essa grande postagem Adamo, pena que hoje em dia muitos paulistas não dão o devido valor para essa data e que dirá ainda as pessoas de outros estados, que até hoje tem em suas cabeças algumas sérias inverdades sobre o carácter da Revolução. São Paulo lutou pelo Brasil, todo o Brasil.

    Apenas uma correção: Getúlio perdeu a eleição para Júlio Prestes do PRP e não para Luis Carlos Prestes do Partido Comunista, como é citado no início da reportagem.

    Abraços.

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