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MONOTRILHO DE CONGONHAS E MORUMBI – UM RAIO X DAS DOENÇAS NA CULTURA SOBRE OS TRANSPORTES

Monotrilho da linha 17 Ouro é um verdadeiro Raio X sobre a cultura dos transportes em São Paulo. E nesta radiografia, várias doenças foram detectadas, como a segregação urbana, pela qual a cômoda classe média-alta se coloca contra qualquer obra em favor do transporte coletivo e que possa levar pessoas de fora do seu meio para suas regiões abastadas, mostra também que muitas vezes o interesse em criar impacto político ao fazer obras diferentes, que rendam mais manchetes nos jornais, mesmo sendo mais caras e com o mesmo resultado que as obras mais baratas se sobrepõe ao interesse da população em ver seu dinheiro usado de maneira mais racional. Esse Raio X evidencia também uma síndrome antiga dos administradores públicos: primeiro a imagem e o atendimento a demanda específicas, preferencialmente de uma classe de mais renda, depois o interesse geral da população. Quando o Estádio do Morumbi era cotado para a Copa, todos os esforços eram para o Monotrilho da linha 17. Depois que a Fifa descartou o estádio do São Paulo, o monotrilho foi colocado em segundo plano: ou ele é uma obra só para a Copa mesmo e corre o risco de ficar ocioso (o que o Governo rebate) ou mais uma vez a necessidade da população foi colocada num plano inferior ao da necessidade específica de um evento que dura pouco mais de um mês. Foto do Monotrilho de Poços de Caldas

Monotrilho: ricos não querem, pobres precisam
Moradores do Morumbi dizem que meio de transporte vai prejudicar paisagem urbana degradando a área. Quem mora em Paraisópolis espera por transportes melhores

ADAMO BAZANI – CBN
Quando o assunto é transporte coletivo, logo a segregação urbana vem a tona.
A exemplo do lamentável episódio do metrô de Higienópolis, o monotrilho da linha 17 Ouro, que deve ligar a estação Jabaquara até o Morumbi, via Congonhas, desperta expectativas diferentes entre diferentes camadas sociais de bairros que deve servir.
O Monotrilho é uma obra realmente polêmica. Ele requer de uma estrutura elevada, como o minhocão no centro de São Paulo, que normalmente degrada a paisagem urbana, tem a implantação cara, assim como os veículos, e pode ser substituído por um corredor de ônibus do tipo BRT (Bus Rapid Transit), a exemplo dos de Curitiba, que intervém pouco no espaço público.
Mas ele tem suas vantagens, como níveis reduzidos de poluição, de emissão de barulho, veículos com vida útil maior e mais confortáveis.
Uma das questões, no entanto, é a receptividade de mudanças e prioridade aos transportes públicos.
Apesar de ser um modelo que possa sofrer contestações técnicas, o monotrilho privilegia sim o transporte coletivo.
O Monotrilho previsto para ligar o Jabaquara ao Morumbi se arrasta por polêmicas e decisões judiciais.
Pode ter certeza. O Monotrilho da Linha 17 Ouro é um Raio X, que mostra várias doenças em relação aos transportes.
Algumas delas:

SÍNDROME DE FALTA DE PRIORIDADE À POPULAÇÃO: O Monotrilho da linha 17 Ouro foi prioridade do governo do estado e da prefeitura, que correu com projetos e alocação dos recursos, quando se cogitava o Estádio do Morumbi como sede da Copa. Quando a Fifa descartou o estádio do São Paulo, o Monotrilho caiu em segundo plano. Assim, mais que pensar na população, que tem outras prioridades urgentes em transportes, o objetivo principal era levar os gringos da Copa até o Aeroporto. Como eles não vão mais fazer esse trajeto, o monotrilho então pode esperar.

SÍNDROME DA POLITIZAÇÃO DOS PROJETOS DE TRANSPORTES: Essa é outra doença dos administradores públicos quando o tema são transportes. Nem sempre é escolhido o modelo ideal para determinada região, mas a escolha se dá a obras que chamam a atenção, que são mirabolantes, que rendam manchetes nos jornais, notoriedade para o governo que a lançou (e não precisa necessariamente terminá-la, pois sempre haverá um pretexto que normalmente culpe a oposição) e, em último caso, obras mais caras e chamativas também rendem mais recursos a quem elaborou e construiu. O monotrilho do Morumbi deve levar cerca de 100 mil pessoas por dia. Custando pelo menos 4 vezes mais caro, o sistema tem a capacidade semelhante a outros modais de transporte que têm a mesma capacidade, maior flexibilidade e são bem mais baratos com obras mais simples, porém que não possuem o mesmo impacto na mídia.

SÍNDROME DA SEGREGAÇÃO DE CLASSES SOCIAIS: Independentemente da viabilidade dos modais, sempre quando se fala em obras de transportes há dois movimentos contrários na cidade. Quem possui automóvel, mora em áreas de maior concentração de riqueza, por questão cultural e de orgulho, para manter seu isolamento de classe média alta do resto (e resto mesmo na visão de muitos) da população, se coloca contra qualquer obra de transportes. Primeiro São Paulo teve o exemplo do Metrô Higienópolis e do medo das “pessoas diferenciadas” no local. Agora, o Monotrilho da linha 17 Ouro desperta a mesma sensação. Usando até de instrumentos legais, moradores da região do Morumbi se declararam contra a obra, alegando que os viadutos (ou ferrodutos) vão degradar o ambiente urbano e trazer uma movimentação de pessoas desnecessária no bairro, já que, segundo os moradores, uma linha do Metrô Jabaquara ao aeroporto de Congonhas e ao Estádio do Morumbi não teria muita utilidade. Já os moradores de Paraisópolis, área carente que deve ser servida pelo monotrilho, anseiam pela obra. Eles dizem o contrário, que a estrutura do modal vai valorizar a área, cheia de casas simples normalmente de tijolos sem o revestimento, e que a região precisa de transportes mais modernos e rápidos, já que muitos não agüentam o cansaço diário de ficarem horas dentro de uma condução.

NOVELA DOS TRIBUNAIS:

As obras inicialmente foram suspensas por determinação da Justiça porque não tinham licença ambiental. O Metrô, responsável pelas intervenções, recorreu e não obteve a vitória.
Mas no final do mês passado, apresentadas as licenças, a Justiça cassou a liminar que impedia a obra.
O Metrô ainda não tem data definida para começá-la, mas garantiu que neste segundo semestre, as intervenções sejam retomadas. As obras devem ser concluídas na segunda metade de 2014.
A liminar para impedir a construção do monotrilho foi baseada em ação da Saviah – Sociedade Amigos de Bairro do Jardim Leonor e Vila Inah, que alegava degradação paisagística e ambiental por conta da estrutura elevada do monotrilho e que a obra favoreceria o São Paulo Futebol Clube, por atender ao estádio.
O desembargador Torres de Carvalho, da Câmara Reservada ao Meio Ambiente, do Tribunal de Justiça de São Paulo, entendeu que a falta de licença prévia não é motivo para impedir um processo de licitação e que não há indícios de favorecimento ao São Paulo, como alegavam os moradores.
Sobre o monotrilho ser o modal mais adequado ou não, o desembargador disse que não cabe à Justiça definir isso.
Deve ser colocado em operação, em 2014, somente o primeiro trecho da linha, que liga Congonhas à linha 09 da CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – Estação Morumbi.
O Monotrilho da linha 17 ouro, no total deve ter 17,9 km de extensão, com 18 estações, ao custo de R$ 2 bilhões.
As construtoras responsáveis pelas obras são: Andrade Gutierrez, CR Almeida, Scomi Engineering e MPE.

PÁTIO PARA MONOTRILHO;

Para outra linha do monotrilho, a que vai até a Cidade Tiradentes, na zona Leste de São Paulo, o Metrô anunciou a desapropriação de uma área de 40.753 metros quadrados, no Bairro São Lucas, na zona Leste.
Chamado de Pátio Oratório, o local deve abrigar 28 trens estacionados e terá 5650 metros de vias após a estação Oratório e também terá uma alça de acesso para o lado Leste.
Imóveis na Avenida Oratório já estavam sendo desapropriados para o prolongamento da Linha 2 Verde do Metrô. A Linha 2 Verde tem projeto de extensão da Vila Prudente até a região do Hospital da Cidade Tiradentes.

Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

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