IQT DA EMTU: ÔNIBUS DO ABC PAULISTA SÃO OS PIORES, METRA É A MELHOR E ÔNIBUS NA REGIÃO METROPOLITANA DE SP ATROPELAM MAIS

EAOSA
Operando em sistema de permissão precária, as empresas de ônibus do ABC Paulista foram as piores avaliadas pelo Índice de Qualidade Transportes – IQT da EMTU. Todas as áreas da Grande São Paulo foram licitadas e operam por concessão, cujas cobranças e exigências são maiores. A pior empresa do Estado de São Paulo mais uma vez foi a EAOSA, de Baltazar José de Sousa. Idade da frota do ABC é a mais alta. Este ônibus Comil Doppio Scania F 113, por exemplo, fotografado nesta semana, tem mais de 10 anos de operação e não seria mais aceito em nenhum outro sistema de transportes. Foto: Adamo Bazani

ABC Paulista e operação puxaram para baixo qualidade nos transportes nas regiões metropolitanas no Estado de São Paulo
Operando fora do regime de concessão, apesar de a EMTU tentar licitar a área 5 desde 2006, a região do ABC Paulista foi a que reuniu empresas em piores condições. Baixada Santista foi considerada a área com melhor operação

ADMO BAZANI – CBN

A qualidade dos transportes das regiões metropolitanas do Estado de São Paulo só não é melhor por causa do ABC Paulista, que a rigor, puxou o IQT (Índice de Qualidade do Transporte) para baixo.
A conclusão é do presidente da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos – Joaquim Lopes da Silva Júnior, que entregou os prêmios e divulgou o ranking do Índice referente a 2010.
O evento foi realizado na sede da EMTU, no bairro Planalto, em São Bernardo do Campo.
O fato positivo para os transportes da região do ABC Paulista ficou por conta da Metra, que pela segunda vez conquista o primeiro lugar do IQT geral em todas as regiões gerenciadas pela EMTU.
A Metra – Sistema Metropolitano de Transportes Ltda – opera há 14 anos, desde 1997, o Corredor ABD – com 33 quilômetros de extensão, entre São Mateus, na zona Leste de São Paulo, e Jabaquara, na zona Sul da Capital Paulista, passando pelos municípios de Santo André, Mauá (Terminal Sônia Maria), São Bernardo do Campo e Diadema, além da extensão de 12 quilômetros entre Diadema e Berrini, também na zona Sul de São Paulo.

Maria Beatriz Setti Braga
Maria Beatriz Setti Braga, presidente da Metra, comemora mais uma conquista da empresa que opera trólebus e ônibus no Corredor Metropolitano ABD. Ônibus convertidos em trólebus, trólebus de 15 metros Scania e de 18 metros articulados, e maior arborização do corredor verde serão algumas novidades anunciadas pela empreendedora. Foto: Adamo Bazani

A presidente da Metra, Maria Beatriz Setti Braga, afirmou que o objetivo da empresa é sempre melhorar e anunciou novidades.
“Ficamos muito felizes por mais uma vez conquistarmos o IQT, que é o reconhecimento de um trabalho sério e comprometido com o cidadão. Mas precisamos melhorar sempre. Nosso corredor, que já é ecológico por operar com ônibus elétricos, se tornará mais verde ainda com a ampliação do número de árvores para 5 mil pés. Também colocaremos novos trólebus, como de 15 metros, Scania, de 18 metros, que vão surpreender o mercado e a população positivamente” – disse Maria Beatriz Setti Braga.
Se o cenário é positivo em relação aos ônibus e trólebus do corredor ABD, os ônibus intermunicipais no ABC Paulista, segundo o ranking da EMTU, não mostram uma realidade muito boa.
O ABC Paulista é a única região gerenciada pela EMTU em todo o Estado de São Paulo que ainda não opera por concessão e sim com permissões precárias.
O presidente da EMTU afirmou que, por mais que a gerenciadora fiscalize, por não haver uma concessão, não é possível cobrar tanto das empresas de ônibus do ABC.
“Não posso dizer que as empresas do ABC não apresentaram bons índices só por conta de elas não operarem em regime de concessão, mas também é claro que neste tipo de regime, dá apara cobrar mais das empresas de ônibus, as exigências são maiores assim como a qualidade operacional, de frota, etc.” – disse Joaquim Lopes da Silva Júnior.
O presidente da EMTU também admitiu que algo precisa ser feito para mudar a precariedade dos transportes do ABC. Uma das alternativas, já que os empresários da região não aderem às licitações, é firmar contratos sobre as permissões.
“É um instrumento jurídico legal, podemos fazer algumas exigências e achar uma solução para o ABC. Dentro de 4,5 anos terminam os contratos de concessão de outras áreas. Aí, poderemos licitar tudo de uma vez só. Há um excesso de zelo por parte dos empresários do ABC Paulista que temem o quanto vão perder de demanda com o monotrilho da região (que sairá de São Bernardo do Campo) e com o trem do Expresso Leste, pois no ABC há uma sobreposição de serviços que precisa ser equacionada. Mas enquanto isso tudo não sai, melhorias precisam ser feitas, como a renovação da frota. A frota no ABC Paulista é a mais velha das regiões metropolitanas do Estado de São Paulo, beirando 7 ou 8 anos. A média.” – disse Joaquim Lopes que concordou que em 2066, quando os empresários do ABC não quiseram participar da licitação pela primeira vez só se discutia vagamente sobre o Expresso Leste e nada se falava sobre monotrilho.

NOTAS RUINS:

O IQT – Índice de Qualidade do Transporte – apurado pela EMTU está em sua sétima edição. Ele é formado por outros quatro sub-índices:
IQC – Índice de Qualidade pelo Cliente, obtido através de pesquisas sistematizadas feitas com os passageiros nas regiões metropolitanas para apurar o grau de satisfação.
IQF – Índice de Qualidade de Frota, que por critérios técnicos e de inspeção avalia a manutenção e conservação dos ônibus
IQO – Índice de Qualidade Operacional, que avalia a forma de operação e como as empresas atendem o passageiro e cumprem linhas e horários
IQE – Índice de Qualidade Econômica, que apura a situação econômica e financeira das empresas, como a estrutura administrativa, dinheiro disponível para investimentos, aferição de receitas, lucratividade das linhas, endividamentos, etc.
Na grande maioria destes índices, as empresas do ABC Paulista foram mal.
No total, entre as 3 regiões metropolitanas, foram avaliadas 39 empresas de ônibus, entre concessionárias e permissionárias (no caso do ABC). Dezoito viações são do ABC. Este alto número se explica porque diferentemente das outras regiões, no ABC Paulista não foram formados consórcios operacionais, o que aumenta o número de viações, serviços sobrepostos e dificulta as fiscalizações e a centralização de informações.
Destas 18 empresas do ABC Paulista, apenas 6 ficaram na primeira metade do ranking, sendo que a melhor de todas, ocupou o sétimo lugar.
São na ordem:

7º TransBus
8º Vipe
10 º Tucuruvi
16 º Santa Paula
18º Rigras (que já chegou a ser líder em 2008 e em 2000 ocupou o terceiro lugar)
19º Interbus.

Mas o que mais chama a atenção é que entre as 10 piores empresas de ônibus do Estado de São Paulo, 08 são do ABC Paulista.
São, debaixo para cima:

39º EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André
38º Viação Ribeirão Pires.
36º Triângulo
35º Utinga
34º Humaitá
32 º Riacho Grande
30 º São José
29 º Imigrantes

Vale ressaltar que as piores empresas pertencem ao mesmo grupo empresarial ou são ligadas.
A EAOSA e a Ribeirão Pires são de Baltazar José de Sousa. Essas empresas amargam consecutivos últimos lugares nos rankings. Mesmo assim, a EMTU diz que pouco pode fazer em relação a elas.
Baltazar José de Sousa tem ligações com as outras empresas de ônibus que figuram entre as piores no ranking da EMTU, como a Triângulo, Utinga, Riacho Grande e Imigrantes. As empresas alegam que são de administrações diferentes. Realmente são, mas os donos sempre interagem e são parceiros vários negócios. Baltazar José de Sousa tem atuação ainda, mesmo que não declarada, com Renato Fernandes Soares, da Imigrantes e Riacho Grande, e com Mário Elísio Jacinto da Utinga.
A Humaitá, que figura entre as 10 piores do Estado, no momento da pesquisa, pertencia a Ronan Maria Pinto. Parente e sócio de Baltazar José de Sousa em vários empreendimentos. Neste ano, porém, a empresa foi comprada, junto com a Interbus (que aparece em 19º) na pesquisa pela família Setti & Braga, que controla a Metra, vencedora do IQT e a Auto Viação ABC, que ocupa a 24º posição.

ACOMPANHE A CLASSIFICAÇÃO GERAL DAS EMPRESAS DE ÔNIBUS:

breda
Representantes da Breda recebem o prêmio de terceiro lugar como melhor empresa das regiões Metropolitanas de São Paulo. Foto: Adamo Bazani

O IQT é uma média dos quatro índices que levam em conta a situação financeira das empresas de ônibus, a qualidade da frota, a satisfação do cliente e as operações por parte das viações. As notas variam de 0 a 10.

1. Metra (Corredor Metropolitano do ABD) – 7,96
2. Intersul (Região Metropolitana da Baixada Santista) – 7,69
3. Breda (Região Metropolitana da Baixada Santista) – 7,49
4. Metropolis (Região Metropolitana de Campinas) – 7,33
5. Anhanguera (Região Metropolitana de São Paulo) – 7,15
6. Translitoral (Região Metropolitana da Baixada Santista) – 7,05
7. Transbus (ABC Paulista) – 7,00
8. Vipe (ABC Paulista) – 6,97
9. Salamanca (Região Metropolitana de Campinas) – 6,91
10. Tucuruvi (ABC Paulista) – 6,64
11. VB (Região Metropolitana de Campinas) – 6,60
12. Internorte (Região Metropolitana de São Paulo) – 6,55
13. Bertioga (Região Metropolitana da Baixada Santista) – 6,45
14. Boa Vista (Região Metropolitana de Campinas) – 6,29
15. Unileste (Região Metropolitana de São Paulo) – 6,32
16. Santa Paula (ABC Paulista) – 6,19
17. Rápido Luxo (Região Metropolitana de Campinas) – 6,20
18. Rigras (ABC Paulista) – 6,11
19. Interbus (ABC Paulista) – 6,35
20. Campestre (Região Metropolitana de Campinas) – 6,05
21. Piracicabana ( Região Metropolitana da Baixada Santista) – 5,94
22. Expresso SBC (ABC Paulista) – 5,94
23. Parque das Nações – 6,01
24. ABC (Região do ABC) – 5,86
25. EUSA – Empresa Urbana Santo André (ABC Paulista) – 5,42
26. Fênix – (Região Metropolitana de Campinas) – 5,22
27. Jota Jota – (Região Metropolitana de Campinas) – 5,20
28. São Camilo (ABC Paulista) – 5,12
29. Imigrantes (ABC Paulista) – 4,83
30. São José (ABC Paulista) – 4,77
31. Intervias (Região Metropolitana de São Paulo) – 4,85
32. Riacho Grande (ABC Paulista) – 4,71
33. Ouro Verde (Região Metropolitana de Campinas) – 4,55
34. Humaitá (ABC Paulista) – 4,42
35. Utinga (ABC Paulista) – 4,14
36. Triângulo (ABC Paulista) – 4,16
37. Ava (Região Metropolitana de Campinas) – 3,85
38. Ribeirão Pires (ABC Paulista) – 2,78
39. EASOA – Empresa Auto ônibus Santo André – 2,33
• Obs: Em alguns pontos da tabela de classificação, o valor da nota pode parecer não compatível com o ranking, ocorrendo de notas maiores estarem em posições inferiores, por exemplo, mas é que elas são compostas pelos 4 índices que formam o IQT e cada índice têm um peso diferente. Assim, a empresa pode ter conseguido uma nota maior, mas num índice que tem menos peso, ficando assim, numa posição inferior.

ACIDENTES ASSUSTAM EMTU:

Um dado que chamou a atenção da EMTU e que é considerado preocupante pela gerenciadora e fiscalizadora dos transportes intermunicipais nas regiões metropolitanas do Estado de São Paulo foi o crescimento do número de acidentes, em especial de atropelamentos envolvendo ônibus.
De 2009 para 2010, o número de atropelamentos cresceu 28,5% passando de 98 para 126.
“Sabemos que o trânsito é um problema, que há descuido por parte dos pedestres, mas treinamentos e orientações aos motoristas nunca são demais”

QUALIDADE DE OPERAÇÃO BAIXOU IQT:

De acordo com a EMTU, as empresas de ônibus não estão operando bem os serviços nas regiões Metropolitanas, inclusive em São Paulo e principalmente no ABC Paulista.
O IQO, que é o índice de qualidade de operação puxou para baixo as notas do índice geral de qualidade.
Só houve 26% de empresas que conseguiram as certificações neste quesito, sendo que do ABC Paulista somente a Transbus.
Dos problemas operacionais, 82% são referentes a falha nas frotas durante a execução doss serviços.
Já 18% dos problemas são referentes a problemas com as linhas.
Os principais defeitos das empresas durante a operação são:

• Não funcionamento de setas, faróis, luzes de freio, vigia e letreiros
• Veículo com piso sujo
• Não cumprimento com programação de horários.
• Motoristas e Cobradores sem Uniformes
• Veículos sem placas auxiliares que indicam as linhas na lateral ou na traseira dos ônibus

MANUTENÇÃO PRECISA MELHORAR:

Apenas 40% das empresas avaliadas conseguiram certificação em relação a conservação da frota. Do ABC Paulista, apenas a Expresso SBC, Vipe, ABC e Santa Paula conseguiram cumprir as metas (A Metra é considerada empresa de outra concessão, específica do Corredor ABD e também conseguiu a certificação).
Das falhas mais freqüentes em relação a frota, 56% estão relacionadas a manutenção e 13% a equipamentos.
Entre os problemas mais comuns são revestimento interno em mau estado, vazamento de óleo lubrificante e portas em mau estado de funcionamento.

BAIXADA SANTISTA FOI A REGIÃO QUE CONSEGUIU MELHORES NOTAS:

Belarmino
A Intersul, na Baixada Santista, foi considerada a segunda melhor companhia, considerando os quatro quesitos que formam o IQT - Índice de Qualidade da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos. Foto: Adamo Bazani

A região metropolitana de São Paulo foi a pior avaliada entre as três gerenciadas pela EMTU.
Na média geral das empresas da Grande São Paulo, a nota foi de 5,87.
As empresas de ônibus da Região Metropolitana de Campinas conseguiram nota de 5,96
A maior média foi do sistema das viações da Baixada Santista, que atingiu 6,27 de 10.
Na apresentação dos dados, a EMTU foi clara ao passar as recomendações para que as empresas de São Paulo não continuem medianas e muitas, em especial do ABC, com serviços abaixo do mínimo esperado:
• Recuperar e melhorar a manutenção dos principais itens dos ônibus
• Melhorar as operações das linhas
• Melhorar campanhas de informação e para redução de acidentes

São atitudes simples, que fazem parte do mínimo esperado de uma empresa de ônibus no seu funcionamento diário, e que a EMTU nem precisaria recomendar, mas que foi necessário.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes, da Rádio CBN