O APARTHEID URBANO

Moradores de Higienópolis

Nesta esquina, entre a Avenida Angélica e a Rua Sergipe, onde há estabelecimentos comnercias, correios, limpeza pública, gente bem vestida, deveria ser a estação Higienópolis da linha do Metrô que beneficiaria por dia 635 mil pessoas. Mas alguns moradores do bairro não querem gente diferente deles no bairro e protestaram contra a estação, que teve o projeto mudado e agora será no Pacaembu. A cidade nunca foi encarada de forma democrática quando o assunto é ocupação urbana, obras de trânsito e transportes públicos. Os meios de locomoção de massa sempre foram encarados como algo para pobre, apesar de muitos terem qualidade sim, como o Metrô. Sendo assim, como a minoria é que recebe as maiores atenções, o transporte público nunca rfecebeu a prioridade digna da maioria da população. Foto: Folhapress.

Comportamento de moradores de Higienópolis mostra a cultura brasileira
Moradores de área nobre bateram o pé e Metrô não terá mais estação em bairro de Higienópolis. Companhia do metropolitano afirma que mudança se deu por motivos técnicos

ADAMO BAZANI – CBN

O que ocorreu com a nem inaugurada linha 06 laranja do Metrô, que teve seu projeto de estação transferido de Higienópolis, nas proximidades da Praça Buenos Aires, para a região do Estádio do Pacaembu mostra que o transporte público não vai evoluir tão já nas grandes cidades não só por falta de políticas públicas, investimentos de maneira errada e muito menor por escassez financeira. Mas também por uma questão cultural.
Os moradores de classe média alta da região, e mesma classe que odeia ônibus trem e metrô e provavelmente quem precisa destes meios, pressionaram e conseguiram.
A Companhia do Metropolitano não vai mais, por enquanto, fazer uma das estações previstas para a linha perto da praça.
Os moradores alegam que o Metrô vai alterar a rotina do bairro, onde pela manhã mulheres passeiam com seus cães que recebem melhor tratamento que muito trabalhador, executivos, jornalistas, empresários, médicos circulam com seus carros, que andam na maior parte das vezes só com eles dentro.
Os que possuem imóveis no bairro afirmam que o Metrô vai causar degradação do ambiente urbano e alterar o sistema viário.
A linha 6 laranja do Metrô deve transportar 635 mil passageiros por dia em 13,5 km por onde serão distribuídas 14 estações.
O interesse destes 635 mil passageiros diários ficou em segundo plano em relação ao que querem alguns moradores de Higienópolis.
Isso é uma cultura e que impede o desenvolvimento da mobilidade, econômico e também a garantia de qualidade de vida para a maioria.
Na questão da mobilidade, a maioria sempre foi deixada em plano inferior.
Exemplos são as obras de trânsito que pouco privilegiam os transportes públicos e dão cada vez mais espaço a carros que aumentam de número dia após dia.
Essas obras são feitas para os formadores de opinião e aí é que mora o perigo. O formador de opinião ou o financiador de campanha, normalmente do tipo que mora em Higienópolis, não generalizando todos no bairro, fala muito bonito sobre democracia, mobilidade e uso do espaço urbano, desde que o transporte público não faça barulho ou traga gente de classes inferiores para a porta da casa deles.
Esse formador de opinião e financiador de campanha tem o poder de arrebatar massas que acabam fazendo escolhas contra elas mesmas.
Porque para boa parte da população uma promessa, uma obra incompleta ou pouca coisa basta, sendo que na verdade é a população a verdadeira financiadora da máquina pública e não deve exigir pouco, mas o proporcional a quanto paga.
Democracia em transportes é algo que dificilmente existe. É democrático e justo um carro com 5 metros de comprimento levando 2 pessoas ter o mesmo tratamento na via um ônibus que em 12 metros leva mais de 80 pessoas?
Um corredor decente para este ônibus não seria questão de democratização do espaço urbano, para ele atender prioritariamente a maioria?
Uma estação de Metrô não deveria ter prioridade em relação a interesses de um grupo? Só porque esse grupo diz que nunca vai precisar de transporte público.
Quisera um morador da estrada do M Boi Mirim, do ABC Paulista, de Ferraz de Vasconcelos, de Cotia, de Cidade Líder ter um metrô em sua porta
O caso também pode levantar a seguinte questão, além dessa cultural incutida no brasileiro de classe média alta há muito tempo: Não seria o caso de repensar as áreas de investimentos?
Os bairros nobres que fiquem espremidos em seus congestionamentos e que o transporte público: corredor de ônibus, trem e metrô chegue a bairro de quem realmente precisa.
O Metrô diz que a mudança da estação não foi por pressão dos moradores, mas por critérios técnicos.
Seja por qual motivo, a verdade é que houve sim pressão, abaixo assinado e manifestação da minoria do Higienópolis.
O presidente do Metrô, Sérgio Avelleda, disse que a decisão foi puramente técnica.
– O Metrô decidiu reavaliar a localização da futura Estação Angélica por questões puramente técnicas. Ela ficaria a apenas 610 metros da futura Estação Higienópolis-Mackenzie e a 1.500 metros da futura Estação PUC-Cardoso de Almeida. Os 610 metros são uma distância muita curta, o que obrigaria a uma redução de velocidade. Por isso a nova estação será realocada entre as duas. Deve ficar entre a Praça Charles Miller e a Avenida Angélica – disse Avelleda.

A explicação do chefe do Metrô não convenceu e o Ministério Público quer explicações formais sobre a decisão de mudar o lugar da estação.
O promotor Antônio Ribeiro Lopes quer saber qual a motivação da mudança e fez a solicitação à Secretaria de Transportes Metropolitanos
“Queremos saber se foi uma decisão técnica ou se houve pressão de grupos de moradores.” – afirmou o promotor.
É sabido, no entanto que a questão cultural existe.
Há anos os moradores de Higienópolis temem o Metrô.
No ano passado, ao jornal Folha de São Paulo, uma psicóloga, em tese uma pessoa com estudo para saber que em vários níveis todos os seres humanos são semelhantes, disse que os moradores de Higienópolis temiam que o Metrô trouxesse para o bairro, gente “diferenciada” dos que já moram lá.
Essa gente diferenciada, os usuários do Metrô, são as pessoas que na verdade sustentam a minoria que quer pedaços da cidade, quando não o município inteiro, só para ela.
Ao contrário do que ocorre em outros países, como na Europa, onde a malha ferroviária é extensa, na América do Norte, onde há ônibus, trem e metrô convivendo harmoniosamente, e em algumas regiões da América do Sul, como a Bogotá, com o bem sucedido corredor de ônibus tipo BRT, Transmilênio, a cultura é que transporte público no Brasil é feito para pobre.
A justificativa é que no Brasil o transporte público não tem qualidade. Mas oras, o pobre também não é digno de qualidade?
E no caso do Metrô, apesar da superlotação, há sim qualidade nos serviços, principalmente nestas linhas que estão sendo construídas com conceitos modernos.
Mas a verdade é que enquanto no Brasil houver essa cultura do carro e principalmente das mentes segregadoras que criam subdivisões para o ser humano, nem Mettrô, nem B
RT (Bus Rapid Transit – corredor de ônibus moderno e rápido, como os de Curitiba), nem Monotrilho, nem VLT (Veículos Leves Sobre Trilhos – como se fossem bondes modernos), Aerotrem, Fura-Fila seja o que for vão para frente.
A questão não é o modal, mas cultural
Adamo Bazani, repórter da Rádio CBN especializado em transportes.

12 comentários em O APARTHEID URBANO

  1. esse povo simplesmente sentiu o peso de uma população q fala, é pura burrice a politca do carro

  2. Mauricio Borges // 13 de maio de 2011 às 00:38 // Responder

    “os moradores de Higienópolis temiam que o Metrô trouxesse para o bairro, gente “diferenciada” dos que já moram lá.”… não sabia que empregada domestica, empregado de estabelecimento, garçom, faixineiro era tudo rico e mora em higienopolis! ah, faça me o favor viu…

    Eu moro nas proximidades do Metrô Ana Rosa, e com o metrô, o que tornou aquilo uma mão na roda pra muita gente, principalmente pra quem trabalha no entorno(e olha que não falta comercio nos arredores do metrô ana rosa) e pra moradores!

    fico muito revoltado com esse tipo de gente que na minha opinião não passam de “filhinhos de papai” pra ficar com esse tipo de receio!

    e outra coisa: a distancia entre as estações sé e liberdade da linha 1, é menor do que a distancia entre higienopolis-mackenzie e PUC-Cardoso de almeida(544 metros contra 615, respectivamente)…

  3. Boa noite.
    Sou do interior paulista, conheço e circulo pela capital desde o início dos anos 80. Já nesta época, apesar de andar e já gostar de ônibus, sempre achei o metrô um excelente meio de transporte, rápido e confortável.
    Com a palavra os Nova Yorquinos, até mesmo, os mais abastados que, se utilizam do metrô.

  4. “Motivos ou Razões Técnicas” é o novo nome que se dá ao que já algum tempo venho comentando, infelizmente a mentalidade tacanha das nossas elites economicas impõe coisas desse tipo, ou seja, “andar de transporte público é coisa pra pobre” não sou eu quem fala isto, esta é a forma de pensar de grande parte da chamada elite economica nacional e pra piorar essa gente detem boa parte do poder politico, ou seja, estão muito bem representados nos parlamentos municipais, estaduais e federal. Dai a gente entender porque da situação apontada na matéria. Mas felizmente nem tudo está perdido, podemos mudar essa situação, é só a gente na hora de votar fazer isto com conciência, Forte abraço

  5. Marcelo Pierre de Lima // 13 de maio de 2011 às 03:06 // Responder

    De longe, não tenho que comentar: está me cheirando um apartheid urbano como está citado no título.

  6. A parte o mal-estar, a situação é emblemática e ocorreu em região igualmente emblemática. Tentando buscar o lado positivo e importante:
    – Higienópolis sempre foi formadora de opinião em Sampa. Faz divisa com a precariedade e o descaso da República, o abandono da Luz e a Cracolândia, a beleza das ruas e casas do Pacaembú, a pujança da Paulista, a decadência da Baixa Augusta. Falam das universidades, mas há também os colégios Rio Branco e Sion. Não esquecer das sedes dos órgãos de policia e segurança pública.
    – As explicações do lider do movimento das 3500 assinaturas “…4 estações existentes… querem mais uma quando há tantas regiões carentes…” confirma as divisas acima: Mal.Deodoro separa da Luz; Sta, Cecília do centro decadente; Mackenzie, da baixa Augusta; Consolação, da Paulista. Demonstra que Higienópolis de fato não tem estação DENTRO do bairro. Neste ponto parece acertada a atitude do Metro de optar pela área entre Charles Müller e Angélica, além das razões técnicas consistentes.
    – O ocorrido tem tudo a ver com a Metro17 monotrilho. Mais que “classe média alta” mostra paulistanos defendendo guetos tipo “cidade pequena” dentro megalópole. Defender ônibus em detrimento de trilhos é sintoma semelhante; aliás a Angélica tem muitas, antigas, longas e imutáveis linhas de ônibus grandes que a entopem há décadas.
    – Este blog repete corretamente muitas vezes que a classe média brasileira opta pelo transporte individual porque o coletivo é quase sempre ruim – sob muitos aspectos – e inseguro. Ademais, a informação e sinalização sempre foi péssima, ameaçando melhorar somente nos últimos anos.
    – Metro paulistano, desde a inauguração, foi mudança radical de eficiência, qualidade e segurança. Os “diferenciados”, camelôs, drogados que a psicóloga cita podem ser vistos fora de algumas estações, nunca dentro.
    – As opções que a tecnologia atual oferece, a falência da mobilidade, esta forte discussão “para quem é e quem quer o transporte coletivo” e a realidade ostensivamente diferente da mobilidade de tantas outras megalópoles no planeta poderiam e deveriam ser oportunidade perfeita para ação contundente e profunda da Prefeitura e Governo do Estado.

    Acontecer em Higienópolis significa milhares de universitários e alunos de 1o. e 2o. grau colocados face a face com a mobilidade urbana. Isto pode e deve mudar muita coisa, no mínimo a médio e longo prazo.

    • Acabo de me lembrar de uma “pérola” da minha infância: o famoso colunista social Ibrahim Sued chamava o povo de “busuntas”, se referindo a quem andava de ônibus…

  7. A questao das ciclovias, inexistentes em SP tambem faz parte dessa discussao sobre transporte publico.

  8. Da forma como é debatido a situação, parece ser algo inédito. Aconteceu uma manifestação semelhante de moradores na zona norte certa ocasião, em que foi reclamado o interesse da prefeitura implantar um corredor de ônibus na Braz Leme. As alegações foram absurdas desses “marajás”: vai degradar a região (por se considerar que ônibus é transporte de pobre), vai aumentar a poluição (como se os carros que trafegam no local e em maior quantidade que o ônibus não representassem risco ao meio ambiente) e cortariam as árvores do canteiro central.

    Como o metrô chama mais atenção da mídia do que o ônibus, este episódio da linha 6 se destacou. Curiosamente o lema do Brasil é “ordem e progresso”. Ordem, só se for da burguesia quanto aos seus interesses para o povo obedescer; progresso, só se for do carro/do individual; onde o próprio sistema de metrô simboliza progresso, mas só para países onde o sistema ferroviário é levado a sério.

    Essa discriminação “gente diferenciada”, evidencia a arrogância e egoísmo daquela comunidade frente a sociedade em geral. A diferença social com a modernização do país não deixou de existir. Os próprios meios de transporte, carro x coletivos principalmente o ônibus (a exemplo da notoriedade desse problema do metrô não ser lembrado com o que aconteceu com a mesma situação do ônibus na zona norte), reflete a discriminação da classe social favorecida.

  9. Esta mesma mentalidade que faz o Brasileiro achar um absurdo a deixar seu carro em casa e ir de metrô ao trabalho…

    “ônibus/metrô e coisa de pobre”

    Enquanto isso ricos e gente diferênciada respiram o mesmo ar poluído de SP

    Muito boa sua abordágem Adamo

    abraços

    • Com certeza não só respiram o ar poluído como também sofrem as consequencias do transito caótico, pelo menos o ar poluído é democrático.

  10. Amigos, boa tarde

    Após uma análise conclui o seguinte:

    Higienópolis, por ora, realmente não precisa de metrô; vejam bem:

    Higienópolis está rodeado por estações de 3 linhas do metrô – estação Marechal Deodoro, Estação Clínicas, Estação Paulista, e a futura Estação Mackenzie (ou outro nome se minha memória não me traiu).

    Assim sendo posso até arriscar que o traçado da linha laranja (se é que é este o nome), não é tão eficiente assim, temos coisas mais importantes a pensar.

    Em resumo Higienópolis já tem Metrô, quisera eu ter todas estas estações do metrô a minha disposição, seja lá em qual bairro fosse.

    Metrô em Higienópolis só em 2099 se necessário e linha “laranja”; dá para fazer um traçado mais eficaz e eficiente.

    Reflitam!

    Paulo Gil

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