DICA DE LEITURA: A HISTÓRIA DA “CARROCERIAS ELIZIÁRIO”

Algumas páginas da matéria sobre a Eliziário na edição de número 55 da Revista Classic Show. Depoimentos, dados e fotos reconstroem parte da história de um homem e de uma marca que ajudaram nas transformações do setor de transportes.

Homenagem a uma marca fundamental para a história dos transportes
Edição 55 da Revista Classic Show traz a memória de um homem que comandou uma marca que revolucionou a forma de conduzir pessoas e o progresso

ADAMO BAZANI – CBN

Para quem admira história, não só dos transportes, mas de pessoas ousadas, corajosas e que pela criatividade e coragem frente às dificuldades fizeram diferença e, mesmo sendo esquecidas atualmente, deixaram marcas ainda hoje observadas, uma boa leitura é a Edição de Número 55 da Revista Classic Show, de automóveis antigos.
Entre as páginas 96 e 103 são mostradas fotos nostálgicas que revelam que o transporte se hoje conseguiu chegar a este estágio, talvez não o ideal ainda, mas respeitável, principalmente em relação à qualidade dos ônibus produzidos no Brasil, é porque muita gente teve visão de empresário e de operário ao mesmo tempo.
Não se rendeu às dificuldades, fossem elas técnicas, financeiras ou conjunturais e com os próprios braços e fé em si própria, essa gente trouxe soluções em meio aos problemas.
Um pouco de sorte? Não se sabe se ela existe. Deus? Vai da fé de cada um. Dom? Se dom for talento aliado com vontade, tem sentido. Trabalho. Ah, isso muito!
Fez parte dessa gente de vencedores Eliziário Goulart, que ao longo de sua história, mostrou que ser tradicional não significa deixar de inovar. Ser prudente, não quer dizer não ser diferente.
Aos 15 anos de idade, Eliziário Goulart começou a trabalhar numa marcenaria no bairro Passo da Mangueira, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Seu trabalho era diferenciado e quando, em 1920, foi incumbido pelo dono da oficina a fazer uma carroceria num pequeno chassi de caminhão, mostrou seu diferencial.
Na Revista Classic Show, são relatados fatos e datas relevantes não só em relação a história de Eliziário, mas dos transportes e mesmo de parte da memória do País e do mundo.
Os ônibus começaram como veículos rústicos de madeira e pouco confortáveis nas mãos de Eliziário Goulart e se transformaram, também sob seu comando, em veículos que privilegiavam conforto, segurança e pro que não, beleza.
Segue uma pequena cronologia para deixar as pessoas com um gosto de quero mais, que pode ser conferido na revista:

• 1916: Com 15 anos de idade, Eliziário Goulart começa a trabalhar numa marcenaria no bairro Passo da Mangueira, em Porto alegre, Rio Grande do Sul
• 1920: Aceita o desafio do seu chefe de construir uma carroceria para um chassi de caminhão pequeno da GM. O trabalho foi feito sem tanta cobrança de perfeição, mas ficou tão bom, que revelou ao jovem seu dom.
• 1928: No mesmo bairro, Passo da Mangueira, Eliziário Goulart montou sai primeira oficina, com o filho Astrogildo Goulart. Neste ano, fecha contrato para fazer carrocerias de caminhão que seriam usados para distribuírem uma nova bebida, ainda não muito conhecida no Sul do País: uma tal de Coca Cola.
• 1935: Mudou com a mulher e as filhas para o Bairro Cristo Redentor, também em Porto Alegre. Lá, começou a intensificar a produção de carrocerias artesanais de ônibus
• 1946: Era registrada oficialmente a Carrocerias Eliziário Indústria de Ônibus. Por ser mais simples, muita gente fazia carrocerias para caminhão. Isso também significava um mercado disputado e pouco lucrativo. Já fazer ônibus era para poucos e a procura crescia à medida que a população nas áreas urbanas também se desenvolvia. Construir ônibus não era para qualquer um e quem se dedicasse a este ramo, com qualidade, conseguiria um bom negócio. Mesmo assim, havia concorrência. O mercado de ônibus internacional estava muito tempo na frente do nacional. Os veículos estavam bem mais desenvolvidos em países como Estados Unidos e os da Europa. Nada melhor então que aprender com eles e adaptar seus avanços às várias particularidades brasileiras. Foi o que Eliziário Goularrt fez ao importar um Twin Coach.
• 1947: A Eliziário lançou o modelo “Coach”, um nome não oficial, pois até então, diferentemente dos carros, os ônibus praticamente não recebiam nomenclaturas de modelos. O modelo trouxe inovações como isolamento do motor, poltronas estofadas e um melhor design. O “Coach” da Eliziário, feito de madeira, foi produzido até 1949.
• 1950: Apesar de ser um excelente “carpinteiro”, Elizário tinha de ser um construtor de carrocerias acima de tudo e seguir o que viria a ser tendência: as carrocerias metálicas.
• 1951: Já na era do aço, como diz a Revista Classic Show, os ônibus começaram a receber nomes. Surgia o Elizário Belveder. A empresa foi a primeira a equipar seus produtos com as poltronas tipo Pullman, estofadas e com inclinação. O nome se dava ao responsável pelo projeto deste tipo de poltrona, George Pullman, que fez o tipo de assento em 1897.
• 1952: Lançamento de um ônibus ainda mais requintado, chamado de Eliziário “Gostosão”.
• 1954: Com o aumento da urbanização, os hábitos de deslocamentos das pessoas mudavam. Assim, o transporte por ônibus se tornou mais que essencial. O parque fabril e a produção da Eliziário cresceram. O filho de Eliziário, Astrogildo Goulart, decide montar sua própria fábrica de carrocerias. A Carrocerias Azrima. Apesar de concorrer com o pai, Astrogildo não conseguiu os números da Eliziário e atuou mais fortemente no Norte do País.
• 1956: Lançado os modelos Eliziário Imperador e Eliziário Imperador Diplomata.
• 1963: quem falar que futebol não é um misto de cultura. Paixão, oportunidade de negócio e marketing é porque pouco entende de Brasil. O País estava animado com o Bicampeonato mundial da Seleção Brasileira de Futebol e Eliziárrio não perde a oportunidade de ligar sua marca à de vencedores. Era lançado o modelo Eliziário Bi-Campeão. O time de Bi-campeões da Eliziário fazia golaços antes de entrar nos gramados. Antes memso de ser lançado, as encomendas do modelo já eram grandes. A Nossa Senhora da Penha, empresa do Paraná, encomendou 60 unidades. E 1964 eram mais 40 bi-campeões para a mesma empresa.
• 04/05/1963: Tirando o motorista, viagem longa é boa para dormir. Quem pensavam assim e se baseava em exemplos internacionais era o empresário Humberto Albino Bianchi, da Viação Minuano. O dono da empresa então, nesta data ofereceu o primeiro serviço de ônibus leito do pai, depois de desenvolvimento de vários estudos. O primeiro ônibus leito brasileiro ligou São Paulo a Proto Alegre em 20 horas, na época as condições das estradas não permitiam viagens mais rápidas. O primeiro ônibus leito brasileiro foi um Eliziário Bi-Campeão sobre chassi Scania B 75.
• 1965: De acordo com a reportagem da Revista Classic Show, a Eliziário detinha 56% do mercado nacional de carrocerias.
• 1967: Em time que está ganhado se mexe sim. Neste anos os bi-campeões (eram diferentes versões) deixam os gramados para darem lugar aos E – 3000. Mas que nome estranho? Parece de invento de Jornada nas Estrelas? Não, na verdade o 3000 era uma alusão a quantidade de carrocerias produzidas pela Eliziário desde quando foi oficializada como encarroçadora de ônibus. A letra E era de Eliziário, claro. Simples assim. Mas eficiente. A esta altura, as concorrentes lançavam modelos com suas tecnologias e diferenciais. Assim, o ritmo de inovações da Elizário tinha de aumentar. No mesmo ano sai (dos galpões da fábrica) ou entra (no mercado) o E – 3600. A lógica do nome era a mesma. Eliziário, que tinha chegado a 3600 unidades……Mas com o modelo, 3601, 3602, 3603, e assim vai.
• 1969: Eliziário, não a empresa, mas o senhor Eliziário, era um antenado no mundo. Tudo que marcasse poderia ser usado para marcar também seus produtos na mente de brasileiros, sejam compradores, empresas, mercado ou passageiros. Era lançado o Eliziário Apollo 70. O nome Apollo em homenagem a Apollo 11, nave da missão para a Lua , e 70, claro, por causa da década que se iniciava. Mas, muitas vezes, todo o carinho, dedicação, esforço e originalidade de muitos caem por terra por causa de poucos que são tomados pelo egoísmo, ganância e desonestidade. O sr. Eliziário, que já estava descontente com alguns familiares e administradores, numa auditoria interna descobre fraudes na sua empresa que, apesar de constituída em 1946, começou com o primeiro prego batido em 1916 na oficina de Passo da Mangueira. Desanimado e sem esperança vende sua empresa, com valor muito abaixo do mercado para os Irmãos Dorval e Paulo Nicola, da Indústrias Nicola, que fazia carrocerias. Isso em 1970. Em 1971, a Nicola fez parte do Grupo Marcopolo, curiosamente fundado pelos Nicola, mas que a esta altura não tinha nenhum Nicola em sua formação. A empresas que hoje é uma das maiores encarroçadoras do mundo estava sob o comando de Paulo Belini. Os Nicola deixaram a Nicola, que se transformou Marcopolo. Fundaram a Furcare / Nimbus, que foi comprada pela Marcopolo também.
Assim, o império que hoje é a Marcopolo, com atuação direta em 11 países, tem um pouco de sangue de Eliziário em suas veias.
Vale a pena comprar a revista e ver as declarações das pessoas que conviveram com Eliziário e viram esta marca dos transportes mudar a qualidade e a forma de levar pessoas pelas estradas e avenidas do País.
Para o registro desta importante história na revista, é necessário destacar a força de vontade e a dedicação de Marcos Jeremias, Salomão Golandski, Elvis Igor, Maurício Andrade da Silveira e Renata Bertoglio, muitos destes não só pesquisadores e que compartilham o mesmo gosto, mas que se tornaram amigos também.
Adamo Bazani, Repórter da CBN, jornalista especializado em transportes.

18 comentários em DICA DE LEITURA: A HISTÓRIA DA “CARROCERIAS ELIZIÁRIO”

  1. A Ciferal caminha a paços largos para virar uma Eliziário,
    Esse Veneza Expresso, me lembra Muito uma idéia primitiva do Apache VIP I não é verdade? até aquele ‘topete’ no letreiro é parecido.

  2. Boa tarde à todos !

    Linda e inspiradora história.

  3. Sensacional, só falta nos dizer onde encontrar a revista , a matéria é muito interessante pois ela conta a saga de pessoas que de certo modo acreditaram no seu próprio sonho, chega ser um grande estímulo para todos nós e acima de tudo fala de um Brasil que muitos de nós não conhecemos de perto. forte abraço

    • essa publicação é de uma editora gaúcha a qual eu já assinei.eu tenho essa revista que saiu essa matéria da eliziário.a revista se chama classic show.tenho várias delas.traz matérias sobre carros antigos.eu que curto carro antigo me deleito lendo essa revista que acho ser ótima.a mesma editora tem outra revista que se chama a biela.essa é voltada para rots,mas saiu uma com uma matéria sobre um bus mercedes monobloco 1960+-.reformado por uma empresa de onibus do sul.essas duas revistas são publicadas de 2 em 2 meses.

  4. Então Roberto, essa revista é encontrada facilmente em bancas grandes e shoppings. Eu não tiver dificuldade de compra-la aqui no ABC

  5. Amigos, boa tarde

    Sensacional a materia!

    Uma pergunta, uma sugestão e uma dúvida:

    1) Há publicação especializada em ônibus (livro, revista, sites e etc.) ?

    2) O blog poderá elaborar uma “seção” de Livros, Publicações, Revistas, Sites, informações e outros, onde seja disponibilizado conteúdo técnico e teórico sobre ônibus.

    3) Algum dos participantes deste blog, já ouviu falar do “Livro do Ônbus” lançado pela antiga “CAIO” (do bairro da Penha),há muitos anós atras?

    Se alguém tiver qualquer informação onde eu possa encontrar, preferencialmente em arquivo PDF, desde já agradeço.

    Ádamo, Parabéns!

    Paulo Gil

  6. Parabéns pela reportagem, fiquei emocionado pois são fatos ocorridos numa parte de minha vida onde iniciava meu interesse pelo ônibus. Vivenciei alguns desses momentos descritos, como por exemplo minha primeira viagem entre Porto Alegre e São Paulo no mês de julho de 1963, num ônibus leito da Viação Minuano, serviço impecável, carro confortabilíssimo, de inesquecível lembrança. Morei na Vila do IAPI, em Porto Alegre, onde diariamente usava o serviço de transporte coletivo da Empresa Bianchi, cujos ônibus eram todos encarroçados pela Eliziário. Fiquei muito triste quando a Eliziário foi vendida, pois tinha muito carinho e orgulho por ser uma empresa que além de ter me proporcionado muito bem estar e conforto, era um ícone para o mundo do ônibus. Além do mais era Porto Alegrense, sediada no mesmo local onde eu morava e seu empregados eram meus vizinhos e amigos. Obrigado pelo momento de felicidade e alegria em poder rememorar este tempo.

  7. Amigos, boa noite

    Acabei de ler(duas vezes) a reportagem indicada pelo Adamo (Edição 55 da Revista
    Classic Show), sobre as carrocerias Eliziario.

    Sensacional, recomendo a todos os “amantes do buzão” que leiam, reportagem
    muito bem feita e ilustrada.

    Grato

    Paulo Gil

  8. paulo Roberto Gomes de Oliveira // 30 de maio de 2011 às 04:18 // Responder

    As Carrocerias Eliziarios fizeram parte de minha infância. Minha avo morava perto da fábrica (Rua Domingos Martins), eu então, entre 8 e 9 anos,”fugia” para ver os ônibus e chassis parados na frente da fábrica, Ficava encantado com aquele movimento e prestava atenção em todos detalhes.Lembro como se fosse hoje, aqueles inúmeros chassis estacionados na frente da fábrica , apenas com um tapume para proteger o motorista que os trazia para receberem a carroceria do ônibus..
    Tempinhos que não voltam mais..
    Hoje moro perto da antiga fábrica, porem ha no local, um conjunto de edificios, que escondem um passado glorioso que a geração de hoje desconhece..

  9. A cada dia mais pessoas removem a poeira e trazem a tona assuntos ligados ao papa do onibus Eliziario,
    Muito a frente do seu tempo, artifice impecavel, realmente marcou uma pagina na historia do onibus no Brasil.
    Quem teve a oprtunidade de viajar em carro rodoviario Eliziario, nao esquece a viagem, o onibus, a elegancia do projeto,etc.
    Nesta epoca, varias empresas copiavam os projetos. E era possivel comprar genericos de Eliziario a preco de ocasiao.
    Inclusive Nicola, sempre tiveram precos inferiores aos Eliziarios rodoviarios.
    Interessante lembrar que o projeto do Veneza, sucesso de vendas nasceu na Eliziario, e o Marcopolo III, e uma evolucao do Eliziario E 3.600.

  10. Jairo Vidal, boa noite

    Muito legal sua informação, temos de preservar os verdadeiros autores e pioneiros.

    Mas lebremos:

    “PELA OBRA É QUE SE CONHECE O AUTO”

    E como você bem colocou:” ELIZÁRIO, ARTÍFICE IMPECÁVEL!

    Isso dis tudo!

    Grato
    Paulo Gil

    • TULIO GOUALRT DA SILVA // 11 de maio de 2012 às 19:38 // Responder

      SINTO ORGULHO DE TUDO ISSO. TULIO GOULART DA SILVA. NETO DE ELIZIARIO GOULART DA SILVA

      • Antonio Carlos // 17 de julho de 2012 às 23:53 //

        Tulio
        Acho que você deve sentir muito orgulho mesmo, seu avô foi uma pessoa que fez diferença na história de nosso País, foi um exemplo de profissional e de empresário, um orgulho para todos nós brasileiros.

  11. leandro abaete da silva // 29 de junho de 2012 às 15:04 // Responder

    o que posso dizer desta reportagem é “obrigado”! obrigado por relembrar momentos únicos de nossas vidas que deixamos para traz, momentos mágicos de uma época gloriosa e de brio de nossa sociedade. momentos que nos privilegiados vivemos algum tempo atras, ainda hoje passo em frente dos prédios que se encontram no local citado e volto no tempo. pena que atitudes e pessoas como estas não são eternas.

  12. Sou apaixonado pelos onibus da Eliziario. A Viação Penha com os seus Scania fazem parte da minha infancia e juventude. Venho procurando há muito tempo noticias de algum Eliziario Bi-campeão ou E-3000, Scania ainda existente, alguem tem noticia?
    Dalmo -Rio de Janeiro

  13. Muito legal o artigo. Diversas dessas histórias conheço de ouvir pela minha mãe, segunda esposa dele (Eva Glacy). Pouco convivi com meu pai (somente meus primeiros 5 anos de vida), mas suas histórias e seus exemplos marcaram minha vida.

    Obrigado por relembrar esta história e exemplo de vida.

  14. Sayonara Ciseski // 6 de janeiro de 2016 às 01:23 // Responder

    Boa noite,
    Gostaria de saber onde posso conseguir um para brisa de Eliziario 1970 Bicampeão.
    Meu email para contato: sayociseski@hotmail.com
    Muito obrigada.
    Sayonara Ciseski

  15. Carlo Jefferson. // 15 de junho de 2017 às 18:18 // Responder

    Esta empresa me deixa muitas lembranças, pois meu pai foi um funcionário por,um Bom tempo nesta empresa.
    E, Sr Elisiário pagou uma cirurgia complicada na época por se tratar de um filho de funcionário que foi eu.

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