AH QUE SAUDADES ! COMO AS COISAS MUDAM TÃO RAPIDAMENTE

ônibus antigo
Como as mudanças se deram tão rapidamente nas grandes cidades. A foto, de autoria do saudoso colecionador Paulo , do Rio de Janeiro, mostram elementos de um Santo André nem tão antiga, mas que mudou num ritmo acelerado a partir doa anos de 1990. Em primeiro plano um Caio Vitória, Mercedes Benz OF 1315, da Viação Alpina, empresa que marcou a história do ABC Paulista e que não mais opera. Ao fundo, placas de estabelecimentos que também ficaram para a Memória de Santo André: uma propaganda do Clube, Agência e Empresa de Fretamento Icaraí, ao lado da Cooperativa de Consumo Volkswagem (que revela o quanto foi mais forte a categoria dos metalúrgico no ABC) e placa da Igreja Universal do Reino de Deus que ocupava o prédio que antes era do Cine Tamoio, evidenciando que já nos anos de 1990, a época dos cinemas de rua ficou para trás. Foto: Paulão/RJ
Wilson Bazani, Brasil de Vila Alpina
A Associação Atlética Brasil, de Vila Alpina, e seus torcedores andaram muito de Viação Alpina. Os jogos eram lotados, a maior parte das pessoas não tinha carro e o ônibus provava que não era apenas um elo entre o capital e trabalho. Mas sempre permitiu que a população tivesse acesso ao lazer, esporte, cultura e outros serviços. A foto é do Brasil de Vila Alpina de 1963, Equipe Juvenil. Em pé: Eduardo Correia (técnico), Newton Portella (de terno, à época candidato a vereador), Ferreira, Clésio, Dirson (goleiro), Zé Roberto, Bazani, Brajato e Tibaji (M – Massagista). Agachados: Vaílo, Toninho, Monsueto, Caiuby, Zé Rota. À frente, o mascote do time, o garoto apelidado de Corda. Foto: acervo Wilson Bazani.
ônibus do ABC Paulista
Marcopolo Torino da linha T 15 Mercedes Benz OF 1722 M, operado pela Viação Guaianazes, trafegando pela Rua Jabaquara, no bairro Paraíso, em Santo André. A T 15 é correspondente a linha 15 da Alpina, que ligava a Estação de Santo André até o Jardim do Estádio. O perfil econômico e de ocupação na cidade de Santo André mudou muito desde os anos de 1990, com a Guerra Fiscal entre estados e municípios, o que afugentou muitas indústrias do ABC Paulista. Vários bairros industriais foram esvaziados e outros tipicamente residenciais se tornaram mistos com oferta dos setores de comércio e serviços. O bairro Paraíso foi um destes lugares que cresceram com estas atividades: primeiro foi o Mappin, depois os trólebus, os mercados, os hospitais e o Parque Central. Essa mudança de perfil econômico também alterou o perfil de deslocamento dentro da cidade e algumas linhas tiveram de acompanhar este processo. Foi o caso da T 15 que teve de ser prolongada do Jardim do Estádio até o bairro Paraíso, com ponto final ente o Hospital Estadual Mário Covas e o Parque Central. Mas o sistema de transportes de Santo André ainda precisa se atualizar mais e rever algumas ligações e criar outras. Foto: Adamo Bazani

Como as coisas mudam tão rapidamente
Viação Alpina foi um dos patrimônios da cidade de Santo André. Empresa foi criada para acompanhar desenvolvimento da cidade e deixou de prestar serviços num momento de mudança do setor

ADAMO BAZANI – CBN

As mudanças na sociedade, na economia, nas relações entre os diversos agentes de uma cidade, na mentalidade humana e na paisagem urbana estão cada vez mais rápidas. Rápidas a pontp de nem serem percebidas ou de receberem a atenção depois quando paramos um pouquinho, puxamos pela memória ou vemos uma foto antiga, que nem precisa ser tão velha assim.
É o que foi possível com esta imagem registrada pelo saudoso Paulão, colecionador de fotos e imagens de ônibus e pesquisador do setor de transportes que, de tanta paixão pelo ramo, costumava andar pelo Brasil registrando imagens cotidianas, que todos viam e nem ligavam. Mas que hoje despertam o saudosismo de muita gente.
Uma destas imagens apresentamos aqui neste espaço.
Trata-se de um Caio Vitória, Mercedes Benz OF 1315, da Viação Alpina, empresa que prestava serviços na cidade de Santo André, que neste dia 08 de abril completou 458 anos, desde 1953.
A foto é do início dos anos de 1990. No parabrisa direito, o cartaz branco colado indicava que a Viação Alpina estava sob intervenção da Prefeitura de Santo André. A empresa, nesta época pertencente a João Antônio Setti Braga, não havia concordado com a reformulação do sistema proposta pelo então Prefeito Celso Daniel, em 1989, quando criou a EPT – Empresa Pública de Transportes, que de gerenciadora, acabou, em 1991, sendo operadora após criar as linhas que uniam os dois distritos de Santo André e depois de ter assumido a frota, os bens, a garagem e os itinerários que eram servidos pela Viação Alpina.
A Alpina teria remanejado frota nova de Santo André para serviços da empresa em outras cidades e não concordava em atender as novas exigências do sistema chamado municipalizado, um termo não fiel, pois apesar do maior gerenciamento do poder público sobre os transportes e da criação de companhias municipais, as viações particulares continuavam, mas não sendo remuneradas pelo que era obtido nas catracas e sim pelos serviços prestados. Era o popular quilômetro rodado.
Mas como o ônibus é um agente social vivo na cidade, que faz parte e interfere em seu cotidiano, não sendo apenas um veículo, ao redor deste modelo da Alpina, que na época provocava suspiro nos admiradores de ônibus, os chamados busólogos, é possível perceber como em tão pouco tempo a cidade de Santo André mudou.
Na época do retrato, começava um grande fenômeno denominado Guerra Fiscal. Estados e municípios, para recuperaram as perdas provocadas pela galopante inflação, corriam atrás de investimentos e muitas indústrias do ABC, em busca de vantagens fiscais e econômicas saíam da região. Os trabalhadores e as representações sindicais também sentiam esse processo.
Quando a indústria era mais forte no ABC Paulista, as representações de trabalhadores tinham verdadeiras organizações de diversos ramos. Entre elas, as cooperativas de consumo. E na parte superior da foto é possível, entre as várias placas de estabelecimentos comerciais, ver a da Cooperativa da Volkswagen, que ficava no Ipiranguinha. Era uma cooperativa criada pela representação dos funcionários da montadora, mas que qualquer pessoa podia comprar nela.
Uma placa mais para baixo, quase colada na imagem do ônibus, mostra um anuncio do Clube, da empresa de ônibus e da Agência de Viagens Icaraí. Era outro grupo antigo na cidade que possuía, além dos ônibus de fretamento, um salão, nas proximidades da Viação São Camilo, na Vila Assunção, que remetia aos bailes que eram realizados na cidade até os anos de 1990. O local era usado para formaturas de diversos colégios públicos e privados. Este repórter, orgulhosamente estudou todo o ensino fundamental e médio numa escola pública, a E.E.P.S.G Dr Luiz Lobo Neto, no bairro Paraíso, quando a severa, porém justa e competente Dona Cleuza era diretora da escola. A formatura foi lá.
Na parte mais alta da foto, preto da frente do marcante Viação Alpina a placa dizia: “Igreja Universal do Reino de Deus – Uma Vida Melhor Espera por Você”.
A igreja ficou por mais de 15 anos instalada no antigo cine Tamoio, que exibiu em Santo André, os maiores sucessos mundiais e nacionais da indústria cinematográfica. Nesta época, cinema de rua praticamente não mais existia na cidade. Seus enormes galpões eram aproveitados por comércios, estacionamento ou igrejas evangélicas em plena expansão no País.
Mas o que todos estes elementos da foto têm em comum. A prova de que as coisas mudam muito rapidamente mesmo. Nossa, os anos 90 parece que foram na semana passada.
A Cooperativa da Volkswagen não existe mais. No mesmo prédio está outro supermercado, o Nagumo. Aliás, como os supermercados cresceram no ABC. O processo faz parte da mudança do perfil econômico da região que foi marcada pela indústria dando lugar para os setores de comércio e serviços.
A Icaraí não existe mais. Primeiro foi a agência de viagens, depois os ônibus e por fim o salão com a administração tradicional.
O prédio do Cine Tamoio,, que era alugado pela Universal, também virou lembrança. Ele foi demolido para abrigar as obras de ampliação do Hospital Santa Helena, uma rede de saúde particular que cresceu muito nos últimos anos no ABC Paulista. A Igreja Universal, por sua vez, construiu um portentoso e grande templo nas proximidades, entre a Perimetral e a Av. Santos Dumont, bem na curva que este ônibus da Alpina estava fazendo quando foi fotografado pelo colecionador Paulo/RJ.
Aliás, o local onde está a Catedral da Igreja Universal do Reino de Deus, de Santo André, reserva uma história curiosa de como era a rotina das pessoas para se divertirem.
Até os anos de 1980 eram comuns os parques de diversão viajantes e os circos. O terreno onde está a Igreja abrigava estas formas de lazer.
Quantos que lêem esta matéria já não brincaram nos arcaicos e não muito seguros brinquedos destes parques ou sentaram com seus pais nos duros e desconfortáveis bancos de madeira do circo comendo pipoca. O conforto realmente não era lá essas coisas, mas o que valia era a diversão.
Quanto ao ônibus da Alpina, quantas saudades também.
Primeiro de uma época que o passageiro sabia realmente quem o transportava, pois as empresas tinham suas próprias pinturas e nome em evidência. Aliás, nesta época, a Alpina inovava como o design de seu nome, enquanto as outras empresas seguiam estilos parecidos, com a saia, parte inferior da carroceria, abaixo do friso na altura das rodas, de uma cor, o nome no meio da lataria e uma faixinha logo abaixo das janelas. Em Santo André, além da Alpina, uma das pinturas mais criativas era da Viação Padroeira do Brasil, com a imagem da santa e desenhos únicos. Se houvesse um concurso de design de pintura de fora, como existe hoje, Padroeira e Alpina estariam sempre na disputa.
O modelo do ônibus também desperta saudosismo até em quem não é aficionado por este tipo de veículo.
O que chamava a atenção no Caio Vitória é que ele tinha linhas modernas, com um vidro em ângulo entre a porta dianteira e as demais janelas. O veículo foi lançado em 1988, sucedendo o Caio Amélia e foi até 1995/1996 um dos maiores sucessos da Caio, que produziu mais de 28 mil carrocerias do modelo, que ao longo de sua produção, teve diferentes versões.
Além disso, muitos diziam na época que era um ônibus urbano com portas de turismo, por ser de folha única que “empurrava” o passageiro para dentro, com segurança é claro.
O Vitória fez parte da paisagem de muitas cidades do País, inclusive de Santo André – SP.
A linha do retrato também mostra como a evolução na cidade fez com que alguns trajetos foram ampliados e alterados por conta da mudança do perfil econômico e do aumento de serviços em alguns lugares em detrimento de outros.
O colecionador Paulão/RJ retratou um linha 15, Jardim do Estádio.
Esta linha, hoje operada pela Viação Guaianazes (lote 01 do Consórcio União Santo André) é a T 15, que desde 2001, inicialmente com a derivação T 15 R, foi prolongada do Jardim do Estádio (bairro onde ainda atua) liga o Centro de Santo André ao Bairro Paraíso, com ponto final nas proximidades do Hospital Mário Covas e do Parque Central.
Após a instalação do Mappin, onde havia a Casa Publicadora Brasileira, que depois virou Shopping ABC, da inauguração do Corredor Metropolitano ABD (servido por trólebus e ônibus diesel em sistema diferenciado), da conclusão do Hospital Mário Covas e da reforma do Parque Central, a região do bairro Paraíso foi revitalizada e o número de deslocamentos aumentou para a região.
É verdade que ainda são necessárias outras ligações, como para a região da Vila Luzita, no sistema miunicipal, e para São Caetano do Sul, nas linhas gerenciadas pela EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos.
Mas a linha T 15 foi uma resposta eficiente e que mostra a demanda da região que até os anos de 1980 era só servida pela Viação Padroeira do Brasil que ia até São Paulo via Rudge Ramos.
Outras regiões de Santo André também registraram a mesma movimentação: as industriais deixavam de ser amplamente freqüentadas enquanto as que eram tipicamente residenciais tornavam-se mistas e os deslocamentos aumentavam.
Ainda o sistema de transportes de Santo André não está totalmente atualizado com essa realidade, havendo linhas em lugares que só servem de passagem em detrimentos de bairros procurados pela oferta de serviços e comércio mas com pouca ligações por ônibus.
E claro, o personagem principal desta imagem de Paulão/RJ, a Viação Alpina não pode deixar de receber considerações sobre seu papel fundamental no desenvolvimento e crescimento de Santo André.
A empresa, inicialmente denominada Auto Viação Vila Alpina, AVVA, surgiu no momento que a cidade de Santo André mais precisava de transportes.
Era nos anos de 1950. Nesta época, o ABC que já tinha atraído um fluxo de migrantes e imigrantes considerável, passava por um novo período de aumento populacional.
A indústria automobilística se instalava na região pela conveniência de acesso pela ferrovia e pela malha rodoviária. Esse processo foi fruto da política desenvolvimentista de Juscelino Kubitscheck que incentivou a consolidação do caráter industrial no Brasil e não necessariamente brasileiro, já que as indústrias, principalmente do setor automotivo são de capital estrangeiro.
ABC Paulista se tornou mais ainda sinônimo de emprego e geração de renda maior.
As áreas próximas a linha de trem, que desde 1867 passavam por um processo de urbanização para os padrões da época já estavam altamente adensadas e o valor dos imóveis nos bairros próximos tinha se elevado justamente por conta desta maior procura e estrutura para servir à indústria, ao comércio e demais atividades econômicas.
Os bairros mais distantes então começaram a ficar mais populosos e novas vilas surgiam. Além da falta de espaço na região central, é importante destacar que boa parte da mão de obra que vinha para o ABC não tinha a qualificação necessária para o emprego industrial e portanto recebia uma remuneração menor, sendo obrigada a procurar regiões com imóveis mais em conta.
O número de vilas e a extensão dos bairros só aumentavam.
Não havia condições financeiras e vontade política por parte do poder público para investir em modais ferroviários. Além disso, o crescimento era muito rápido, inclusive em regiões que do ponto de vista técnico não poderiam ser servidas pelos trilhos.
Desde os anos de 1920, quando a região correspondente ao ABC assumir um caráter urbano mais intenso, o ônibus, inicialmente jardineiras dirigidas, consertadas e lavadas pelos próprios donos, faziam este papel social e econômico de ligar as regiões residenciais onde havia emprego e renda, ligar o capital ao trabalho.
Com a aceleração da atividade industrial e aumento da população nos anos de 1950, mais empresas e serviços de ônibus precisaram ser criados. Mas com uma diferença em relação ao início do século: não havia o dono do ônibus, mas o empresário, que mesmo ainda estando presente nas operações precisava ter uma postura mais administrativa.
Diversas famílias já atuavam nos transportes do ABC Paulista.
Entre elas a família Fogli.

APLAUSOS PARA A VIAÇÃO ALPINA:

Em 1953, Luiz Fogli e o filho Ruben Fogli, vendo a necessidade de transportes da região da Vila Alpina, Vila Guiomar, Bairro Jardim entre outros bairros funda a Auto Viação Vila Alpina.
Os ônibus, os donos, os motoristas e cobradores eram verdadeiros guerreiros. Enfrentavam ruas de terra, lama e operavam com ônibus de direção dura, sem muita tecnologia porém essenciais para atender a população e facilitar o acesso das pessoas ao emprego, a saúde, lazer e educação.
Ada Alonso Justo, que morou por mais de 20 anos na Rua das Pitangueiras, conta uma história que era sempre repetida a sua mãe. Quando em meados dos anos de 1950 a Auto Viação Vila Alpina começou a circular pela Pitangueiras, no bairro Jardim, os moradores saíram de suas casas , que não eram muitas na época, começaram a aplaudir os ônibus.
Era a satisfação de ter um serviço de transportes disponível.
“O ponto do outro lado da rua em frente da minha casa está lá até hoje. São mais de 60 anos no mesmo local e nunca foi alterado. Cresci vendo os ônibus da Alpina mudando de tipo, de modelo, de cor. O ônibus foi muito importante para o crescimento do bairro.” – disse Ada.
O marido, Wilson Bazani, lembra que na rua das Pitangueiras, nos anos de 1950, de um lado ficavam as casas, como a do pai de Ada, o ferroviário Romão Justo Filho, e de outro lado, no sentido Vila Guiomar / Rua das Figueiras, ficava a chácara do Castanho.
“Nesta chácara havia dezenas de pés de café e várias árvores frutíferas. No meio do terreno, tinha a casa principal, muito bonita. Somente na segunda metade dos anos de 1960 é que a chácara foi loteada e começaram a surgir as primeiras construções neste lado da Rua das Pitangueiras”.
Wilson Bazani se recorda que logo acima, na própria Rua das Pitangueiras, nas proximidades da Rua Itapura, havia a Praça de Esportes da Associação Atlética Brasil. O clube foi fundado em 1938.
“Eu joguei no Brasil de Vila Alpina, como era conhecido o clube, de 1954 a 1967. Comecei no mirim. Lembro que a equipe que joguei ficou invicta 74 partidas a partir de 1962, mais de um ano e meio sem perder” – declara Wilson Bazani.
A Viação Alpina não foi só importante para ligar as pessoas ao emprego. Até para os amantes de futebol a empresa marcou a história.
“O campo do Brasil de Vila Alpina ficava lotado nos dias de jogo. Não dava nem pra ver direito as partidas de tanta gente que havia. Um tinha de pedir licença para o outro. Muita gente usava o Viação Alpina nos dias de jogo. Ao lado do campo, em frente ao Empório de Secos & Molhados do senhor Stéfan, de origem alemã, por isso que o estabelecimento era chamado de Armazém do Alemão, existia uma parada do Viação Alpina, onde os torcedores desembarcavam. Para voltar para a casa, o ponto ficava do lado oposto, em frente ao campo” – recorda Wilson.
Pouca gente tinha carro nesta época, apesar de o crescimento da indústria automobilística. Então, o ônibus era o transporte da torcida do Brasil e da adversária. Não eram só os moradores da Vila Alpina que torciam pelo Brasil. Havia gente de outros bairros.
Se havia rivalidade no campo, na volta, na maior parte das vezes, a convivência entre torcidas rivais era pacífica. Todos iam para casa juntos no mesmo ônibus.
Na Vila Alpina, nesta época, a família do dono do Empório era uma das únicas que tinham carro.
“Mas antes, o alemão fazia as entregas de mercadorias numa carroça, com breque, acionado por uma manivela que bloqueava a roda da carroça. O cavalo era cinza, muito bonito” – diz o Wilson. “Até o sr Stéfan ter o carro, a garagem de sua casa era onde ficava o cavalo”.
Essa linha que passava em frente ao Clube Brasil tinha ponto final em frente a Padaria Nancy, que já existia desde os anos de 1940 na Vila Alpina. O estabelecimento foi fundado por João Manzato e recebeu o nome da filha dele, Nancy.
Mas até a primeira metade dos anos de 1950, o ônibus não subia até a Vila Alpina. Ele ia até os prédios do IAPI pela Rua das Monções.
Quem morava na Vila Alpina e em parte do Bairro Jardim tinha de fazer uma longa caminhada para pegar o transporte coletivo.
A Viação Alpina, pelo seu crescimento e importância das linhas, despertava interesse de vários investidores tradicionais dos transportes.
A família Fogli, que fundou a empresa em 1953, não ficou nem 5 anos com a viação. Em 1958, ela foi comprada por Antônio Bataglia. Em seguida, os Fogli voltam ao controle da empresa. Era comum os empresários revezarem o controle das companhias. Além de operar ônibus, comprar e vender empresas era lucrativo e uma forma de consolidar a atuação dos investidores já existentes. Se um grupo se enfraquecia, outro comprava. Era o tempo do grupo se fortalecer novamente e recomprar a empresa ou iniciar novas linhas. Desta vez era Atílio Fogli que assumia a Alpina junto com Iduglio Marcelino Maranesi e Idel Waisberg. Waisberg também era investidor de transportes e controlava a Viação Nima e Expresso Santa Rita.
A família Sófio, fundadora da Transportes Coletivos Parque das Nações e da Transportadora Utinga Ltda também chegou a ter sociedade na Auto Viação Vila Alpina.
Em 1983, a empresa foi adquirida por João Antônio Setti Braga.
O número de linhas aumentou e a Alpina começou a ter um serviço intermunicipal entre Santo André e Mauá.
Em 1991, após sofrer intervenção da prefeitura de Santo André pelo fato de a família controladora da empresa não concordar com os termos da reestruturação dos transportes, implantado em 1989 por Celso Daniel, que aumentava o controle do poder público sobre o sistema, a Viação Vila Alpina deixa de operar na cidade, tendo suas linhas, garagens e ônibus assumidos pela EPT – Empresa Pública de Transportes.
A Alpina que já operou nas cidades de São Bernardo do Campo e Diadema atualmente não presta mais serviços, mas ainda existe como pessoa jurídica sendo uma das maiores credoras da Prefeitura de Diadema. A ETCD _ Empresa de Transportes Coletivos de Diadema_ , em processo de privatização, deve cerca de R$ 20 milhões a Alpina pelos serviços prestados nos anos de 1990 ao sistema de Diadema. Boa parte desta dívida se refere a passes que a Alpina recebia do passageiro. O pagamento desses passes era de responsabilidade da ETCD, que não teria feito uma série de depósitos para a Alpina referentes a estes vales.
O crescimento da cidade, as mudanças rápidas que ocorreram principalmente nos anos de 1990, a formação dos bairros, a economia, a transformação na mão de obra e no perfil financeiro de Santo André, religião, esporte, cultura, histórias pessoais e românticas e muito mais pode ser contado pela memória de uma empresa de ônibus. Isso é prova de como os transportes são relacionados com o dia a dia de uma população, sendo influenciado e podendo influenciar nesta realidade. Por isso, entender a história dos transportes é analisar por um ângulo diferente como se formaram as cidades, os costumes, o perfil econômico e até mesmo poder compreender os fatos que contribuiriam para que a vida nas cidades se transformasse como é agora. Afinal, é olhando para o passado que compreendemos o presente.
Adamo Bazani, jornalista da rádio CBN, especializado em transportes.