TREM BALA JÁ É FRUSTRADO ANTES DE NASCER. ANTT ADMITE QUE NÃO HÁ CONSÓRCIOS INTERESSADOS E QUE OBRAS NÃO FICARÃO PRONTAS A TEMPO

Trem Bala
De maneira humorada, mas inteligente, charge do Jornal Agora São Paulo revela um ponto interessante sobre as obras do trem bala brasileiro. O sistema de transporte consumirá muito dinheiro, mais que para fortalecer programas sociais e será destinado a um público muito pequeno de renda superior, pois os custos operacionais de um trem assim elevam o valor da tarifa. Será um trem para bacanas e bacana quer viajar de avião. O presidente da ANTT, Bernardo Figueiredo já admitiu que o trem bala brasileiro já nasceu frustrado. Não dará tempo de ser concluído até as Olimpíadas de 206, como previa e propagandeou o governo. Dinheiro poderia ser usado para equipar os aeroportos, deixar o ônibus mais atraente e revitalizar a malha ferroviária já existente.

Trem bala é adiado de novo e caráter político da obra criar mais um projeto que será mico na área de mobilidade
Presidente da ANTT admitiu que o leilão será sôo daqui a quatro meses e que o trem bala não vai ficar pronto para as Olimpíadas de 2016

ADAMO BAZANI – CBN

O projeto do Trem de Alta Velocidade, TAV para os técnicos e trem bala para a maioria, vai continuar só no papel por um bom tempo.
O presidente da ANTT – Agência Nacional dos Transportes Terrestres – Bernardo Figueiredo, confirmou nesta última sexta-feira que o leilão previsto para o dia 29 de abril vai ser adiado.
Já é a segunda vez que o leilão para a construção e posterior operação do trem bala que atenderia São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro é adiado. A primeira data era dezembro de 2010.
Uma obra tão complexa, cara e que provoca tantos impactos ambientais não pode ser feita de qualquer jeito, muito menos com o cunho político.
Uma das justificativas do Governo de Dilma Rouseff é de que há interessados nas obras e o Brasil pode aproveitar essa grande procura para conseguir a melhor forma de consolidação da obra.
Mas a própria ANTT reconhece que há falas nos projetos e pontos que ainda sequer foram concluídos.
Um dos maiores problemas é o impacto ambiental que uma obra desse porte causa. E isso ainda está em estudo, o que deveria, na verdade, ter sido concluído, pois o leilão deve ser feito já com todas as condições e estudos necessários. É a empresa vencer a licitação e já começar a trabalhar. Mas o trem bala está muito lento no Brasil.
“O ponto crítico é o licenciamento ambiental. Já contratamos uma empresa de engenharia para conceder licenças. Mas as obras agora só devem começar em meados de 2012” – disse ao Jornal O Globo, o presidente da ANTT, Bernardo Figueiredo, que foi categórico.
“O objetivo do Governo era que o trem bala estivesse funcionando para as Olimpíadas de 206. Mas não haverá tempo” – admitiu.
A grande procura de interessados alegada pela equipe de Dilma também não parece ser concreta.
Bernardo Figueiredo, em palestra no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, disse que, na verdade, se houver um só interessado já seria ótimo. Ele também disse que não há um consórcio ainda estabelecido para concorrer na construção do trem bala.
“ Não existem consórcios e sim grupos interessados., como Siemens, Alston, e empresas coreanas e japonesas. Os fundos de pensão também poderão participar. Os grupos que pedem seis meses querem alterar os projetos, e quem pede menos tempo quer tentar fechar acordos para formar consórcios. Se tiver apenas um interessado, já será um sucesso” – disse Figueiredo.
Sendo assim, nada na verdade está pronto: não há licenças ambientais, falta conclusão dos projetos básicos e, apesar das sondagens, não há um consórcio sequer que se interessou.
Não bastasse a morosidade só para decidir quem vai fazer a obra e quem vai operar o trem, uma obra desse porte é cheia de surpresas no meio do caminho. E já viraram rotina no Brasil os atrasos de obras. Se um mero monotrilho não sai do papel para ligar o centro de São Paulo a zona Leste, quanto mais um trem bala.
Além disso, o valor da obra para os padrões brasileiros e a existência de outras necessidades bem mais urgentes na área de mobilidade, inclusive entre Rio e São Paulo, levantam a principal questão. Este trem bala realmente é necessário pelo custo que vai ter, mediante ao limitado número de beneficiados?
As obras vão custar, se não houver nenhum aditivo contratual (o que costuma sempre ter) R$ 33 bilhões e 100 milhões de reais.
Cerca de R$ 20 bilhões saíram dos cofres do BNDES para financiamento. O mesmo BNDES que tem deixado a Busscar, uma das mais tradicionais encarroçadoras do País e que gerava 5 mil empregos, praticamente à mingua.
Especialistas dizem que com este dinheiro, já seria possível melhorar as condições dos aeroportos brasileiros, que estão operando no limite operacional, de segurança e de passageiros.
Hoje o principal meio de transporte entre Rio de Janeiro e São Paulo é o avião, que transporta um milhão de pessoas a mais que o ônibus nesta mesma rota, se fossem comparados os dois modais.
E mesmo com o trem bala, o avião ainda será, segundo os especialistas, o principal meio de deslocamento entre as duas capitais.
Isso porque, por mais bala que seja o trem, ele nunca terá a mesma rapidez do avião, que liga as duas capitais em menos tempo que o necessário para se deslocar de São Bernardo do Campo a São Paulo. Além disso, as tarifas aéreas têm preços competitivos. Elas conseguiram desbancar o ônibus, que era barato, quanto mais um meio de transporte cuja passagem, para manter o sistema, será alta.
Mesmo em segundo plano na rota Rio – São Paulo, o ônibus não pode ser esquecido. Ele ainda é preferência de muita gente. Criar programas de incentivos para que a passagem do ônibus possa atrair usuários sairia bem mais em conta para todos. E estes incentivos não precisam ser necessariamente injeções de dinheiro nos cofres das empresas de ônibus. Mas desconto em pedágios para as viações, barateamento de insumos como diesel e pneus e menor tributação na prestação de serviços, pode deixar o ônibus interessante, apesar de suas incomparáveis 6 horas de viagem frente à meia hora do avião.
Outro detalhe que é pouco discutido. Já existe uma malha ferroviária entre São Paulo e Rio de Janeiro, sucateada, subutilizada e que serve só para cargas.
Não poderia ser uma alternativa revitalizar esta malha ferroviária já existente? Assim, o trem seria um meio termo entre o preço da passagem aérea e a morosidade do ônibus.
O valor da tarifa do trem bala poderia tornar o serviço pouco atrativo. Isso porque quem não tem dinheiro para a passagem aérea fora da promoção vai continuar no ônibus. E quem pode pagar o avião, vai continuar se interessando pelo trajeto aéreo, mais rápido.
Oportuna foi a charge divulgada pelo Jornal Agora São Paulo, deste sábado, dia 02 de abril de 2011., na qual Lula, que é chamado pai dos pobres (uma imagem das mais populistas, comparadas ao ditador Getúlio Vargas), mas Dilma é chamada de a mãe dos riscos. Isso porque ela aparece, na charge com um sacão de dinheiro representando os R$ 33,1 bi do trem bala, valor bem acima dos R$ 2,1bi usados para aumentar a Bolsa Família, outro projeto paternaslita. E no saco do dinheiro, o chargista justifica o título Mãe dos Ricos dizem que o tem bala é trem para bacana.
E pelo valor previsto da passagem será mesmo. Basta saber se os “bacanas” vão querer andar nesse trem.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes, repórter da CBN.