Interior do carro de Primeira Classe, integrante da composição do Trem Rápido da Paulista ( também conhecido como Trem Azul). Foto - Acervo: Ayrton Camargo e Silva
Ayrton Camargo e Silva
Arquiteto e Urbanista
Há muitos anos não se via a presença do transporte ferroviário com a força que vem exibindo, no debate sobre investimentos em infra-estrutura no Brasil. Projetos e mais projetos são anunciados, e alguns até conseguem sair do papel. No transporte de carga os principais são a Transnordestina, cuja origem vem do governo JK, passando pela Ferrovia Norte Sul até o Ferroanel de São Paulo, este imaginado ainda na década de 60.
No transporte de passageiros o mais emblemático é o anúncio do projeto do Trem de Alta Velocidade entre o Rio de Janeiro e Campinas seguido dos trens Regionais, ligando São Paulo a Sorocaba e a Santos. Mais do que projetos, a região metropolitana vivencia os pesados investimentos que o governo de São Paulo vem realizando há quase dez anos na renovação do sistema de trens metropolitanos e na expansão do Metrô, mudando a qualidade da rede estrutural de transporte sobre trilhos.
Outras capitais também implantam projetos modernos nessas modalidades, ainda que em ritmo bem menor do que o vivenciado pela Região Metropolitana de São Paulo. De qualquer forma, todos eles parecem querer recuperar o tempo perdido, adotando modernas tecnologias e comodidades aos usuários nos trens e estações para que os novos sistemas metro-ferroviários possam de fato estar associados com o que de mais moderno exista em mobilidade, para serem competitivos com o uso do automóvel em sua área de influência.
Houve porem um tempo no Brasil que o transporte ferroviário era sinônimo de qualidade, inovação e alta tecnologia, fosse ele de carga ou de passageiros. E certamente a operadora que mais aplicou esses atributos em seu serviço foi Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
Fundada em 1867, a Paulista nasceu para dar continuidade à linha da São Paulo Railway, que, estacionada em Jundiaí, tinha concessão para prolongar suas linhas até a região de Rio Claro, mas não o fez. Preocupados com a crise de transporte que a falta de ferrovia traria á cultura cafeeira, diversos empreendedores paulistas decidiram fundar uma ferrovia que atendesse regiões produtoras do interior do estado, dando origem a uma empresa que por quase um século foi privada e totalmente nacional.
Durante sua existência, a Paulista celebrizou-se pela excelência de seus serviços, notadamente o de passageiros, que usava como cartão de visitas para garantir apoio á expansão de suas linhas bem como para sua capitalização.
Foi a Paulista que introduziu ou consolidou o uso no Brasil de diversas melhorias no serviço de passageiros, como os chamados carros “americanos”, (com corredor central ladeado por duas fileiras de bancos) bem como os carros restaurantes e os serviços noturnos, com carros dormitórios. Na década de 20, mais inovação: passa a operar composições de aço, tracionadas por locomotivas elétricas.
Muitas de suas composições possuíam restaurante onde cada passageiro escolhia o período para ter sua refeição ( prática retomada no Trem de Prata), bem como luxuosos carros Pullman, com uma só fileira de poltronas, todas giratórias e com um comissário exclusivo a serviço dos passageiros.
Na década de 50 a Paulista implantou um novo serviço de passageiros, os trens rápidos, os famosos trens “R”, certamente preocupada com a concorrência que os modo rodoviário começava a fazer. Para isso, ela montou uma grade horária que possibilitasse ao morador de São Paulo ir ás cidades da região de Rio Claro e São Carlos e voltar no mesmo dia, com opções semelhantes para os moradores dessa região irem e voltarem a São Paulo também no mesmo dia
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Para isso ela adquiriu nos E.U.A. modernas composições de fabricação “Pullman” e passou a operar um serviço de extrema qualidade, ainda não superado no Brasil.Como exemplo, um usuário que tivesse que ir a Rio Claro e voltar no mesmo dia poderia tomar o R1 na Luz às 7h40, (passava em Campinas às 9h07, e em Limeira às 10h11), chegando em Rio Claro às 10h37.Ao regressar para São Paulo, poderia embarcar em Rio Claro no R6 que de lá partia às 18h12 , chegando na estação da Luz às 21h04. Nessa época ela operava entre São Paulo e Campinas aproximadamente 20 trens diários, entre rápidos, paradores e noturnos.
Ayrton Camargo e Silva
Arquiteto e Urbanista, colabora com o Blog Ponto de Ônibus e nos ajuda a “integrar nossos conhecimentos” sobre os modais ferroviários)