TRANSPORTES: Brasil pode passar vergonha na Copa do Mundo e projetos podem virar minhocões sobre trilhos

Monotrilhos e VLTS: serão os minhocões sobre trilhos?
A principal questão levantada por urbanistas e demais especialistas é: Vale a pena tanto investimento frente aos resultados e a degradação do espaço urbano?

Obra para Monotrilho em São Paulo. Ritmo é muito lento e cidade pode não concluir projetos até 2014, ano da Copa.

ADAMO BAZANI – CBN
O Brasil pode fazer feio no setor dos transportes coletivos na Copa do Mundo de 2014 se as obras para o setor continuarem no ritmo que estão.
Os grandes centros urbanos há muito tempo passam por sérios problemas de mobilidade justamente pela falta de projetos que privilegiem os transportes públicos, que não se adequaram ao crescimento populacional e a nova dinâmica econômica das cidades. Muitas deixaram de ser industriam para terem a predominância do setor de serviços, outras fizeram o caminho inverso e receberam mais indústrias e muitas vezes os transportes continuaram os mesmos.
Assim, independentemente de Copa, algo precisaria ser feito. Mas como algumas ações só são alavancadas quando a opinião internacional volta os olhos para o País, o Mundial de Futebol pode ser a oportunidade de corrigir o problema. Pode apenas.
A reportagem levantou plano por plano das cidades sedes que devem receber as delegações e teve a surpresa: em todos, sem exceção, há algum tipo de atraso, menores, que podem ser contornados rapidamente, e obras complexas que sequer saíram do papel.
São 47 projetos diretamente ligados aos transportes para o Mundial de Futebol.
Em todos eles, há verbas públicas do Governo Federam do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento – da Mobilidade.
Para os projetos diretos são R$ 11 bilhões que as 12 cidades sede devem receber.
O PAC da Mobilidade, no entanto, engloba mais municípios. Ele prevê recursos para 24 cidades de médio e grande portes, totalizando R$ 18 bilhões, dos quais R$ 6 bilhões vêm direto da União, e R$ 12 bilhões por financiamento.
Estas cidades são divididas em três grupos:
1) Nove Capitais de regiões metropolitanas com mais de 3 milhões de habitantes: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília, Recife, Salvador e Curitiba.
2) Seis cidades com população entre 1 e 3 milhões de habitantes: Manaus, Belém, Goiânia, Guarulhos, Campinas e São Luis
3) Cidades com 700 mil a 1 milhão de habitantes: Maceió, Teresina, Natal, Campo Grande, João Pessoa, São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu e São Bernardo do Campo.
O grande problema é que em muitas destas cidades, VLTs (Veículos Leves Sobre Trilhos), BRTS (Bus Rapid Transit) e Monotrilhos, promessas mirabolantes, não passam de promessas.
Recentemente, no ABC Paulista, foi anunciado um meio de transporte entre o Alvarenga, em São Bernardo do Campo, e a zona Leste da Capital. Um meio de transporte apenas, pois não foi definido sequer o tipo de veículo utilizado: trem, ônibus, metrô ou qualquer outra coisa que inventem até lá.
Analisando os 47 projetos, diretamente nas cidades sedes, é possível ver que o risco de não ficarem prontos até o Mundial de 2014 é real e muito grande.
A situação pior é a das cidades que optaram por meios ferroviários modernos e esqueceram que poderiam modernizar suas ferrovias já existentes.
Se aqueles que optaram pelos meios de transporte mais caros como monotrilho e VLT quiseram fazer bonito, no final, não podem fazer nada a tempo.
Exemplos não faltam.
O VLT de Brasília é um para e anda que pode comprometer. Questões judiciais já embargaram as obras várias vezes. O Ministério Público do Distrito Federal e Territorial alegou que o edital de pré-qualificação e o contrato são ilegais porque a concorrência foi iniciada antes do projeto básico, sem licença ambiental e sem o orçamento estar previsto na no Plano Plurianual ou na Lei Orçamentária. O VLT de Brasília deve ligar o Aeroporto Internacional às regiões Norte, Sul e Central com 22,6 km de extensão.
Em Maceió, as obras seguem com atraso, de pelo menos um ano. O problema está na remoção das 3500 famílias que a obra requer. Questões na esfera jurídica e urbanísticas são os grandes entraves. Dos 36 km de VLT, 32 devem ser na antiga malha ferroviária, o que também é outro entrave, pois nela são realizadas as culturais feirinhas no local.
Até mesmo VLT de Belo Horizonte e região tão elogiado e propagado pela execução das obras enfrenta dificuldades.
Os moradores da região do bairro Belvedere prometem se mobilizar ainda mais contra as degradações ambientais e profundas modificações no espaço urbano que o monotrilho pode causar. Isso pode gerar atrasos e problemas jurídicos.
As cidades que optaram pelos projetos mais caros e com maior impacto urbano e no ambiente, como os VLTs e Monotrilhos, não são apenas as que registram maiores atrasos, naturalmente por conta dos custos das obras e das intervenções maiores que estes tipos de transportes exigem, mas pelo impacto que causam em detrimento do benefício final.
Minhocão degradou região central de São Paulo. Especialistas e urbanistas dizem sem dúvidas que se não forem bem planejados ou se forem feito às pressas, os monotrilhos correm o risco de virarem Minhocões sobre Trilhos

Em blog, a urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Raquel Rolnik, levanta dúvida sobre a degradação do espaço que um monotrilho pode ocasionar. Ele pode ser comparado a um “minhocão sobre trilhos” se não for bem planejado ou feito às pressas. Para quem não conhece o “minhocão de São Paulo”, o elevado Costa e Silva, inaugurado em 1970 pelo prefeito Paulo Maluf, mas um projeto antigo de 1965, do Prefeito José Vicente Faria Lima, o Minhocão, desafogou parte do trânsito da região central, mas degradou completamente a área. O viaduto serviu como ponto para moradores de rua, prostituição, tráfico de entorpecentes, assaltos, além de deixar a região do ponto de vista estético, nada agradável.
Raquel destaca a manifestação de alguns moradores da zona Sul de São Paulo contra o projeto:
“Além da degradação do espaço urbano, já que o monotrilho seria uma espécie de Minhocão de trilhos, os moradores questionam a eficiência desse tipo de transporte. O monotrilho de MBoi Mirim, que ligará o Jardim Ângela ao centro de Santo Amaro, também vem sendo criticado por organizações de moradores do local.
A pesquisa de mestrado de Adalberto Maluf, do Instituto de Relações Internacionais da USP, também questiona a validade da aplicação do monotrilho em cidades brasileiras, a partir da apresentação da realidade desse tipo de transporte no mundo. O estudo revela o nível de degradação que o monotrilho operou em certas cidades, onde fracassou como opção de transporte coletivo, e também questiona o argumento do baixo custo de construção e operação usado para defender o projeto.”
São Paulo foi a cidade que mais escolheu projetos de custos e intervenções maiores. E é a cidade que mais incertezas apresenta.
O Monotrilho para ligar a Vila Prudente a Cidade Tiradentes em 2009 foi anunciado que teria as obras iniciadas em 2010, o que não ocorreu dentro do prazo. Toda a obra deve estar pronta só depois de setembro de 2014, após a Copa, portanto.
Justamente por causa da reivindicação de moradores que não querem suas áreas degradadas, a linha 17 Ouro Jabaquara – Morumbi ainda é embargada pela Justiça.
E a Linha 16 Prata, Lapa – Cachoeirinha ainda é uma incógnita.
O Governo do estado nega que tenha abandonado os projetos do monotrilho, mas nos bastidores, técnicos ouvidos admitem que os atrasos podem ser grandes mesmo.
Os corredores de ônibus de trânsito rápido, os BRTs, inspirados no modelo de Curitiba, também registram atrasos nas obras, mas menores e que podem ser contornados.
A Associação Nacional dos Transportes Públicos revela que os custos para a implantação de um BRT são bem menores que de Monotrilho ou VLT e podem ter a mesma capacidade transportes.
O BRT fica pronto em 3 anos e custa R$ 111 milhões a cada 10 km. O VLT ou Monotrilho demora de 5 a 7 anos e custam R$ 440 milhões por 10 km O Metrô demora 9 anos para ter 10 km concluídos ao custo de R$ 2 bi.
Se nem a demanda local está sendo transportada dignamente, o que será quando houver mais pessoas nestes eventos mundiais?
Adamo Bazani.