ENQUANTO POPULAÇÃO NA ENCHENTE PRECISA DE TRANSPORTE, DILMA CORTA FINANCIAMENTO PARA ÔNIBUS

Lado Externo da Estação de trens de Mauá. Baia de Parada de ônibus intermunicipais ficou lotada de passageiros. Havia ônibus da EAOSA e a Viação Ribeirão Pires para a população. Mas eles não conseguiam chegar até os usuários porque não há prioridade para o transporte coletivo. Foto: Adamo Bazani

Lado Externo da Estação de trens de Mauá. Baia de Parada de ônibus intermunicipais ficou lotada de passageiros. Havia ônibus da EAOSA e a Viação Ribeirão Pires para a população. Mas eles não conseguiam chegar até os usuários porque não há prioridade para o transporte coletivo. Foto: Adamo Bazani

ENCHENTE EM MAUÁ

Avenida Capitão João em Mauá, por volta das 19 horas do dia 28/02/2010. Bastou uma tarde chuvosa para a cidade parar.. Foto: Adamo Bazani.

As enchentes e o transportes público
Enquanto cidades precisam de transportes públicos para ajudarem a aliviar o trânsito e os problemas das enchentes, Dilma Roussef corta financiamento para compra de ônibus

ADAMO BAZANI – CBN

Verão, tempo quente, chuva e a mesma novela com final infeliz de anos. Chuva na parte da tarde e início da noite, trânsito, irritação, muita irritação e enchente. Isso quando não ocorrem as tragédias por causa de deslizamentos de terras e afogamentos decorrentes deste perídio de chuva forte.
Dizer que o cidadão se acostumou com o enredo desta novela, é mentira! Senão, ninguém ficaria nervoso.
E sabe qual é uma das principais causas das chamadas doenças do século, como o stress, a depressão, a síndrome do pânico e até a baixa resistência imunológica? Justamente o nervosismo!
Assim, o trânsito e o problema das enchentes são não apenas problemas urbanos, mas de saúde pública e debem ser encarados como isso! Isso sem contar quantas pessoas que se contaminam com doenças como a leptospirose e outras infecções pelo contato com as águas poluídas.
Os discursos de revolta parece que também já enjoaram, mas não perderam a lógica.
Não perderam a lógica porque pouca coisa foi feita a respeito.
Ocorre que os problemas das enchentes e do trânsito, mesmo com ações governamentais só tem piorado e muito!
Em vários lugares onde não era comum haver alagamentos, hoje motoristas, passageiros e moradores têm de se precaver.
Dizer que São Paulo e a Região Metropolitana não param também é mentira nos dia de hoje. Ou meia verdade!
A economia talvez não pode parar, muitos trabalhadores continuam suas funções, mas boa parte das cidades para e para sim.
É nessas horas que aquele ser que se sente poderoso dentro de um carro, que quando assume o volante e acha que não tem limites, seja de velocidade, seja de falta de respeito ao próximo, vê que em sua “possante máquina” não é nada.
Também é nessas horas que aquele passageiros que todo o dia sente o descaso do poder público e privado com um sistema ineficiente, com algumas exceções, verifica que tal descaso é maior do que imaginava.
Os discursos e as soluções são óbvias. Mas como o que tem sido feito não é resolvido, vale a pena citar alguns pontos que merecem destaque.
Não falta na verdade vontade política, como muitos dizem por aí. Afinal, ninguém tem vontade de ficar na enchente. Falta é coragem política e cultural também.
Além de atuar em frentes como ocupações irregulares, moradias, educação ambiental, limpeza de córregos e rios, os poderes públicos em suas mais diversas esferas devem ver nos transportes públicos uma parte da solução ou pelo menos uma melhoria para as enchentes nas grandes cidades, não apenas na Região Metropolitana de São paulo, mas em todo o País.
É necessário democratizar o espaço público e se necessário para isso, reestruturá-lo.
Vários estudos apontam que em média o transporte individual ocupa 60% das vias do espaço urbano, mas leva apenas 20% das pessoas transportadas.
Para ônibus, trens, metrôs, táxis, bicicletas e locomoção a pé, que correspondem a 80% da demanda transportada na média em todo o Pais, só restam 40% para serem divididos.
Assim, em nome do carro particular, vias, avenidas cada vez mais largas, marginas e estradas, mesmo que inacabadas são inauguradas e não absorvem satisfatoriamente toda a demanda de carros, que só cresce.
E isso é mostrado em números. Com incentivos em nome da economia e da manutenção em empregos foram colocados nas ruas 3,5 milhões de carros novos no país em 2010. Um número expressivo para País de “Primeiro Mundo” nenhum botar defeito.
Esse alto volume de venda, apesar de beneficiar 3,5 milhões de brasileiros que tiveram seus carros renovados ou compraram veículos pela primeira vez, foram pagos por todos os brasileiros, já que houve redução no IPI, em alguns casos isenção total, para modelos de cilindradas menores, além de outros encargos.
E para o transporte público? Quanto foi financiado? Quanto foi destinado da maioria para a maioria?

GOVERNO FEDERAL CORTA FINACIAMENTO PARA COMPRA DE ÔNIBUS !

O governo justifica-se dizendo que há linhas especiais do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o mesmo que não ajuda várias empresas à falência e auxilia muitas outras em situação melhor, com base no Finame e em outros produtos.
Mas o que muitos não sabem é que no dia 22 de fevereiro deste ano, sem a mesma pirotecnia que anunciou a linha, o governo federal, agora administrado por Dilma Rousseff fez o BNDES suspender a contratação de financiamentos pelo PSI – Programa de Sustentação de Investimento – que emprestava dinheiro para investidores comprarem equipamentos, máquinas, ônibus e caminhões.
E o mais curioso, enquanto os descontos do IPI de carros e geladeiras, que já foram revertidos, tiveram prolongamento em suas épocas, o PSI que era mais um canal para renovação de frota de ônibus e melhoria dos transportes, o que poderia atrair usuários dos carros para os meios coletivos, foi encerrado, vejam só, um mês antes do previsto.
No site, o BNDES, que se negou a ajudar mais uma vez a encarroçadora de ônibus Busscar, de Joinville, fundada em 1949, e que hoje agoniza, se justifica dizendo que a suspensão se dá “pela necessidade de controle de comprometimento de recursos orçamentários”
Sem revelar datas, o BNDES promete que deve voltar com os recursos do PSI.
Obviamente que não está só na compra de ônibus novos a solução para o trânsito e para as enchentes.
Mas se o usuário do carro ver que há um transporte coletivo digno e eficaz, pode deixar seu veículo em casa, sem necessidade de rodízio, pelo menos alguns dias da semana.
Isso porque, as obras para carros impermeabilizam as cidades, o que não deixa a água da chuva escoar, além claro do lixo, do entulho, do mal planejamento viário.
É preciso, no entanto saber que, se a cada ano que passa mais carros vierem e mais avenidas forem construídas para abrigarem esses carros, não haverá cidade que aguentará.
O jeito será um transporte público satisfatório e do jeito que está não dá pra considerar, de maneira geral, o transporte coletivo convincente para que o dono do carro deixe seu veículo em casa.
Ações devem ser feitas, mas quando fala-se em coragem política, é enfrentar indústria automotiva, pseudo-urbanistas que pensam que cidade é um monte de asfalto, a classe média que só porque tem um renda um pouquinho0 maior acha-se infinitamente superior a quem usa o ônibus e não quer se “misturar”, aos formadores de opinião, que fazem discursos inflamados sobre a igualdade, mas ocupam duas vagas no shopping depois de suas aulas nas universidades. Aí, meu caro leitor, tem de ter peito.
Mas houve gente que teve este “peito” e valeu a pena.
O exemplo vem de nossos irmãos da Colômbia, terra de Shakira, a musa latina dos “quadris que não mentem”
Em 1998 o então prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa Londño, após ver que a mobilidade estava impraticável, viu que o transporte público seria a única solução para o local. Foi neste ano que começaram as obras do BRT (sigla para Bus Rapid Transit) baseado nos corredores de Curitiba, Paraná. Ele não apenas criou corredores de ônibus mas redemocratizou o espaço urbano. Por onde passavam os corredores, os carros ficavam exprimidos em ruas modestas enquanto o espaço para os coletivos era moderno. A classe média em especial quase quis destituí-lo. Mas Peñalosa não pensou apenas no ônibus, mas numa cidade feita para as pessoas.
Em 18 de dezembro de 2000, o moderno sistema começou a funcionar tão bem que ele saiu do poder com números quase totais de aprovação.
O Brasil tem experiência em transportes públicos e excelentes empresas, mas de maneira geral, as políticas ainda são voltadas para a sua majestade, o carro !
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes.

6 comentários em ENQUANTO POPULAÇÃO NA ENCHENTE PRECISA DE TRANSPORTE, DILMA CORTA FINANCIAMENTO PARA ÔNIBUS

  1. Começou bem hein Dona Dilma?

  2. Uma pena, que a cada novo governo, ao invés de melhorar, tudo se baseia em desfazer o que o antecessor político fez (oposição) ou cobrir o rombo deixado (aliado). Parabéns pela matéria. Objetiva e clara.

  3. Boa tarde amigo Adamo !

    Perspicaz, pertinente e inteligente sua abordagem ao tema. Assim como a Colômbia, menos “vitrine” que nós se modernizou neste aspecto, nós também haveremos de fazê-lo, um dia.

    Abçs.

    Gustavo.
    Jundiaí – SP.

  4. EEEEta Dna Dilma….

    Culpa do Lula que gastou para fazer Dilma sucessora, agora vamos amargar os cortes para tudo voltar como era antes….

    Pelo jeito vamos ter mais um EMPAC.

    Boa reportagem amigo Adamo
    Parabéns.

  5. Parabéns Adamo!

    BRT já…vamos seguir o exemplo de Curitiba e Bogotá!!!

    Avisa pro Mantega que a China cresce a passos largos e não tem inflação.
    Cortar incentivos ao financiamento de ônibus não reduzirá a inflação, mas sim reduzir gastos públicos como o bolsa família que, acaba de ser reajustado.

  6. Não adianta, onde esse partido chega, faz hagada nos transportes …parece ser lei entre eles !
    Em Santos e São Vicente mexeram num sistema que existia há muitos anos. A CSTC de Santos foi sucateada e privatizada. Em São Vicente foi tirado um monopólio para dar lugar a outro …

    ”O Brasil tem experiência em transportes públicos e excelentes empresas, mas de maneira geral, as políticas ainda são voltadas para a sua majestade, o carro !”

    Falou tudo, Adamo … abraços !!!

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