Documento de encargos e depósitos feitos para a conta da Cooperativa Nova Aliança. No entanto, as quantias se referem a prestação de serviços da Viação Novo Horizonte que segundo donos de ônibus que operam na companhia ainda continua na prática como uma cooperativa operando em serviços de empresa. O prefixo 444(dois últimos números ocultados pela reportagem por questão de segurança) evidenciam que os transportes foram feitas pela Novo Horizonte mas os depósitos para a Cooper Nova Aliança, que para motoristas proprietários são a mesma coisa. Foto: Adamo Bazani
Remuneração de R$ 1,5844 por passageiro transportado não é compatível com o valor recebido por empresas e se aproxima do valor para as cooperativas. Foto: Adamo Bazani
Porém, se o ônibus foi comprado da Viação Himalaia, que compartilha o Consórcio 4 Leste, a remuneração passa a ser de R$ 2,05 por passagem, que é a média recebida pelas empresas na cidade de São Paulo. Foto Adamo Bazani.
EXCLUSIVO:
Dinheiro de empresa vai para cooperativa nos transportes da Zona Leste de São Paulo
Donos de ônibus que operam no Consórcio 4 Leste garantem que novo Horizonte opera como cooperativa. Reportagem conseguiu documentos exclusivos
ADAMO BAZANI – CBN
A definição sobre qual o caráter jurídico verdadeiro da Viação Novo Horizonte, que faz parte do Consórcio 4 Leste, da Capital Paulista, não é clara para a população, trabalhadores e nem para o poder público. Muitas dúvidas e pouca transparência marcam a prestação de serviços em parte da Zona Leste de São Paulo.
Constituída como empresa de ônibus para prestar serviços regulares na Área 4 Leste de São Paulo, a Novo Horizonte não passa de uma cooperativa disfarçada de empresa de ônibus, garantem trabalhadores que atuam nas linhas.
Foi este o principal motivo da greve de motoristas e cobradores da Viação Himalaia, que divide as operações no Consórcio 4 Leste, que deixou entre 31 de janeiro e 03 de fevereiro mais de 100 mil pessoas sem transportes por dia na região.
Os motoristas e cobradores da Himalaia cruzaram os braços com medo de serem transferidos para a Viação Novo Horizonte e perderem seus direitos trabalhistas.
As relações financeiras e o que acontece de uma maneira geral dentro da Viação Novo Horizonte, no mínimo, precisam de mais clareza e explicações, garantem os participantes da Viação ouvidos pela reportagem.
Como numa cooperativa, os motoristas e cobradores possuem um ou mais ônibus na Novo Horizonte.
Eles contratam funcionários em nome da Viação, por isso que seu cadastro de emprego e desemprego revela a quantidade de mais de 2 mil empregados, mas quem banca os salários são os próprios motoristas e cobradores donos dos veículos.
Além disso, diferentemente de uma empresa, a arrecadação não é por linha ou pelo faturamento geral do negócio, e sim por carro operado, como uma cooperativa, conforme pode verificar a reportagem em documentos apresentados por alguns operadores.
Não bastasse isso, alguns proprietários de ônibus se queixam da pouca clareza da destinação de recursos e encargos para a Viação.
A Novo Horizonte teve origem em cooperativas de ônibus, como as de Bairro a Bairro, a Liberdade, a Coopernorte e principalmente a Cooperativa Nova Aliança.
Mas estas origens, aparentemente, são ainda bem marcantes na administração da Novo Horizonte, mesmo ela sendo reconhecida como empresa.
Os pagamentos e encargos feitos pelos donos dos ônibus da Novo Horizonte vão na verdade para a conta bancária da Cooperativa Nova Aliança, como comprova o documento da primeira imagem, obtido com exclusividade pela reportagem.
“É no mínimo uma falta de consideração e clareza”, desabafa um dos donos de ônibus da Novo Horizonte.
O problema é que o documento que comprova o pagamento para a Cooperativa Nova Aliança refere-se a débitos e encargos relacionados aos ônibus que prestam serviços como Viação Novo Horizonte, como revela o prefixo 444XX – os dois últimos números foram ocultados pela reportagem para preservar um dos denunciantes, que teme represálias.
“Se o serviço é da Novo Horizonte, teoricamente uma empresa, porque os débitos dos encargos são feitos para a Nova Aliança?” questiona um dos motoristas que esteve pessoalmente com este repórter.
A prática pode, no mínimo, confundir as estatísticas de lucros, custos e demandas para o poder público municipal de São Paulo.
PARA ONDE VAI O DINHEIRO?
Os donos dos ônibus que operam na Viação Novo Horizonte também questionam a remuneração paga pelo sistema na região.
Enquanto no local o repasse para as empresas de ônibus constituídas é de R$ 2,05 por passageiro, os motoristas mostraram documentos que comprovam que esta remuneração é de R$ 1,5844, valor semelhante ao recebido por cooperativas.
Os operadores querem saber de maneira clara para onde vai e como é aplicada essa diferença entre os R$ 2,05 e R$ 1,5844 de remuneração.
A SPTrans e a direção do Consórcio 4 Leste alegaram que eles recebem menos na zona Leste de São Paulo para custear ônibus elétricos da Viação Himalaia, que divide o consórcio com a Novo Horizonte.
Mas os motoristas-proprietários dizem que o acordo para “subsidiar” os trólebus só valeria no primeiro ano de 2007/2008.
DOIS REPASSES PARA O MESMO SERVIÇO:
Os repasses também não são claros e uniformes nas linhas da Novo Horizonte. Há motoristas donos de mais de um ônibus. Os que foram comprados por eles recebem remuneração de R$ 1,5844. Mas os ônibus que foram comprados da Viação Himalaia fazendo as mesmas linhas recebem remuneração de R$ 2,05, como comprovam os documentos obtidos pela reportagem de maneira exclusiva.
Outra característica de funcionamento de cooperativa é em relação ao IPVA. Se o motorista tem mais de 1 ônibus, ele é isento apenas do pagamento do importo sobre um veículo apenas.. Os demais são tributados pelo IPVA. Ocorre que companhias de ônibus realmente operando com características empresariais têm todos os veículos isentos.
“O nome Novo Horizonte usa de regalias de empresa ou de cooperativa como lhe convier melhor. Depois, o preço a pagar, sobra para os cooperados” – disse um dos motoristas.
OUTRO LADO:
Em entrevista a este repórter, André Lisandri, presidente do Consórcio 4 Leste, disse que a Novo Horizonte é uma empresa sim, que mantém registros e encargos de funcionários e que o Consórcio chega “até a ser rigoroso na fiscalização e acompanhamento da companhia”.
Lisandri disse que não há motivos para funcionários da Himalaia se preocuparem com transferências e que seus postos estão garantidos.
Houve um trabalho e conjunto entre as duas empresas, segundo Lisandri, no replanejamento de linhas e que não haveria motivo para pânico dos trabalhadores.
Os representantes da Viação Novo Horizonte não se manifestaram.
Mas o espaço continua aberto para quem quiser se pronunciar sobre o assunto.
Adamo Bazani, repórter da Rádio CBN