Iniciativa reuniu milhares de pessoas, entusiastas dos transportes e cidadãos que reviviam ou viviam pela primeira vez uma São Paulo de ares mais agradáveis
POR ADAMO BAZANI – CBN
Nada melhor para comemorar o aniversário de alguém do que lembrar parte de sua história e de seus bons momentos.
E foi esse um dos objetivos do passeio realizado em trólebus pelos principais pontos históricos e culturais da região central de São Paulo, no dia do aniversário da cidade que, apesar de seus problemas, é orgulho não só dos paulistanos, mas de todos o brasileiros.
Guias turísticos indicavam os locais e as edificações que fizeram a história da Metrópole.
O trólebus faz parte da história de crescimento da cidade de São Paulo. Quando começaram a operar oficialmente em 22 de abril de 1949, ligando a Praça João Mendes, na região central de São Paulo, a Praça General Polidoro, na Aclimação, era sinal de que a cidade que já crescia, também se modernizava.
Logo os trólebus avançaram no País, e São Paulo, o berço deste meio de transporte no Brasil, apresentava veículos mais evoluídos e que marcaram muito mais que o crescimento de uma cidade, mas o mais importante: a vida de muitos paulistanos, de berço ou de acolhimento.
Era uma época corrida, mas gostosa, ainda com seu compasso. Que registrava mudanças, mas que ao mesmo tempo conservava tradições.
Uma das maiores provas de que o trólebus marcou são Paulo foi a reação das pessoas que passeavam nos veículos ou pelo menos que os viam circular.
Os trólebus mais antigos eram os que mais chamavam a atenção.
As pessoas mais vividas voltavam a momentos simples e felizes. Os mais jovens sonhavam na possibilidade de viverem esta época.
O passeio revelava curiosidades que não só mostravam como era a vida nos anos que se passaram, mas que evidenciavam os fatos que levaram São Paulo a se formar e ser como é hoje.
Os passageiros se surpreenderam por exemplo com a Praça da República.
O local se chamava Largo dos Curros, que vem de currais. Lá eram criados animais de corte e mesmo de competição. Num espaço da hoje Praça da República havia uma arena para touradas.
TRANSPORTE É FAMÍLIA:
Não há a menor dúvida de que os transportes fazem parte da vida das pessoas, mesmo sem elas, em sua maioria, se derem conta disso.
No evento, família, e suas várias gerações se identificavam com os trólebus e viam no veículo a projeção de suas histórias.
E como o trólebus é um veículo que dura mais, muitas vezes o mesmo ônibus transportou avós, pais, filhos e netos.
Destaque para um Trólebus dos anos de 1960, encarroçado pela Grassi. Foi o primeiro modelo de trólebus fabricado no Brasil pela primeira encarroçadora profissional do País.
O veículo pertenceu a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos – a quem São Paulo deve muito, e foi restaurado e é preservado pela família Constantino, tradicional nos transportes em diversas regiões.
Ao lado dele, uma de muitas famílias relembrou de várias histórias: da cidade e pessoais.
Hélio Arantes, de 75 anos, disse que por muito tempo usou o Grassi, exposto no evento. Hélio estava ao lado da filha, que cresceu andando de trólebus, que sempre usava para ir estudar.
Com a netinha ao lado, Hélio se emocionou:
“Gostava muito dos trólebus, marcaram minha época e o crescimento da minha família. Mas quando caía a energia na cidade, era um problema. Não me esqueço até hoje, nos anos 60 uma queda de energia que deixou uma fila que eu contei: 14 bondes parados na Avenida São João. A cidade já era grande, mas o povo se estressava menos” – recorda Hélio.
MOTORISTAS, OS GRANDES AMIGOS:
Se famílias inteiras cresceram vendo e vivenciando os serviços dos trólebus, os motoristas, cobradores e demais funcionários do setor fizeram parte da história destas famílias, típicas de São Paulo, nascendo ou não na cidade, afinal, São Paulo tem o rosto do País e há muita gente que não nasceu no município, mas que é muito mais paulistana que muitos naturais da Megalópole.
Gilberto Muscowitch, que até os anos de 1980 usava trólebus nas regiões da Aclimação e no Cambuci, mostrou não apenas saudosismo, mas emoção pura ao lado do Grassi dos anos de 1960.
“Isso faz parte de nossa vida. Estes veículo não é apenas um metal, é um agente da história” – disse
Gilberto se lembrou de uma característica interessante da época.
A rotatividade dos motoristas nas linhas era muito pequena. Assim, de tanto ver os passageiros todos os dias, criavam verdadeiros laços de amizade. Viam crianças se tornarem adultos, estudantes virando profissionais bem sucedidos e garotinhas, mães e até avós.
“Era muito legal ver os motoristas mais antigos. Quando subiam as senhoras de mais idade nos trólebus ou ônibus da CMTC, era aquele bate papo que nem parecia ocorrer num veículo de transporte coletivo, mas numa varanda das casas nos bairros ainda mais tranqüilos de São Paulo. O motorista perguntava dos pais, filhos, dos sobrinhos. O ônibus era uma família” – relembra Gilberto.
UM GUERREIRO RESISTENTE AO TEMPO:
Apesar de as redes de trólebus no Brasil terem sido muito reduzidas, hoje havendo apenas 3 sistemas no Estado de São Paulo, o veículo pode ser considerado um herói do tempo.
O país já teve ao todo, 14 sistemas de trólebus. Onze em funcionamento concomitante, no ano de 1967.
Com sete sistemas em operação, o auge da quantidade de trólebus no País foi em 1988, com 833 veículos em operação.
Mesmo o ônibus elétrico sendo mais duradouro e econômico, as políticas públicas em prol da indústria automotiva, principalmente as que privilegiavam o transporte individual, com o tempo, fizeram com que o trolebus fosse visto com estorvo. Algo semelhante ocorreu nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, quando a montadora GM, para vender seus carros e ônibus movidos a combustível a base de Petróleo, foi acusada de comprar e destruir os bondes norte-americanos.
Nos tempos mais recentes, segundo especialistas, deixar o trólebus quase desaparecer chega a ser um contrassenso. O veículo é totalmente limpo, não emite poluentes, e não estimular uma tecnologia deste tipo em época de aquecimento global e que a poluição mata milhares de pessoas ao ano, parece uma atitude sem explicação lógica.
Mesmo assim, a indústria de trólebus no Brasil evolui e, apesar do mercado reduzido, apresenta soluções que deixam o ônibus elétrico ainda mais econômico, limpo e flexível. Muitas destas soluções são exportadas, mas não são colocadas em prática por aqui.
Marcos Galesi, do movimento Defesa do Trólebus, fala sobre as 10 vantagens do veículo:
“O trólebus é compatível com a realidade econômica e urbana de qualquer cidade de médio ou grande porte do País”.
Em Araraquara, por exemplo, houve operação de trólebus em áreas com características rurais.
Não são só dez vantagens, mas as principais são:
1) Emissão Zero de Poluentes
2) Bem mais silencioso
3) Não aquece o meio ambiente, pois boa parte da energia produzida é convertida em movimento para o veículo.
4) Aceleração e Frenagens mais suaves.
5) Velocidade compatível com o tráfego urbano
6) Maior durabilidade já que sua vida útil pode ser até 4 vezes mais que de um ônibus convencional.
7) Atualmente, a configuração dos trólebus mais modernos permite acessibilidade total, sem a necessidade de equipamentos caros para cadeira de rodas ou pessoas com mobilidade reduzida.
8) Melhor desempenho em aclives pelo fato de a maior parte da energia empregada se transformar em força.
9) Pode ser um atrativo urbano e harmonizar-se com a paisagem da cidade sua instalação não requer grandes obras e o design dos trólebus e redes evoluiu.
10) Utiliza Fonte de Energia Renovável, ainda mais no Brasil que produz energia pelas hidrelétricas.”
Galesi também afirmou que são boas as perspectivas em relação aos veículos de tecnologia limpa, inclusive trólebus, por conta da Lei de Mudanças Climáticas, que prevê até 2018 a substituição de todos os veículos de transporte coletivo urbano a diesel por álcool, tração elétrica ou hidrogênio.
O presidente do Movimento Respira São Paulo, Jorge Françoso, lamenta a queda do número de trólebus no País, em especial na Capital Paulista. Mas ele se mostra otimista em relação à região do ABC, onde há o Corredor Metropolitano ABD, operado pela Metra, uma das participantes do evento.
O aumento do número de veículos elétricos e a conclusão da rede entre Piraporinha, entre São Bernardo do Campo e Diadema, e Jabaquara, na zona Sul de São Paulo, animam Françoso.
O próximo passo será a eletrificação do trecho entre Diadema e Brooklin, corredor inaugurado em meados de 2010 e atualmente operado por ônibus a Diesel e um elétrico híbrido.
Ele também destacou a emoção do evento.
“Foi gratificante ver jovens e velhos se unindo ao lado do trólebus, relembrando momentos especiais e ao mesmo tempo com a consciência de futuro: sobre quais serão os rumos do meio ambiente e a necessidade de veículos limpos” – disse Françoso.
Assim, gerações diferentes lembraram do passado, mas pensaram no futuro. Isso é São Paulo, glória no passado e luta para um futuro melhor.
E se o trólebus possibilitou o encontro dessas gerações e leituras sobre a cidade, não há dúvida: O Trólebus é a cara de São Paulo.
Para deixar a matéria mais no clima, este repórter escreveu a matéria dentro de um trólebus Scania, Marcopolo San Remo, de 1982, um pouquinho mais novo que o repórter. È prova que o veículo é silencioso e pouco trepida, a ponto de se tornar um ambiente que dá até para se concentrar para escrever.
Além dos atributos do veículo, que pertenceu a CMTC e agora é preservado pela Metra de São Bernardo do Campo, o conforto também teve as mãos habilidosas de Wilson “Panetone”, o motorista que fez com que o Scanião Marcopolo parecesse que flutuava, mesmo passando pelos buracos da cidade.
Parabéns São Paulo e Viva o Trólebus
Adamo Bazani, jornalista, pesquisador da história dos transportes e que adora trólebus.