10 anos de Induscar e a Solução para um Ícone dos Transportes

Caio Apache

Caio Apache, modelo que marcou o sucesso inicial da Induscar e devolveu a tranqüilidade dos funcionários da encarroçadora.

ônibus antigo

Ônibus da Caio nos anos de 1950. A empresa foi fundada em 1945, começou a produzir no início do ano seguinte e em pouco tempo se tornou líder do mercado.

Fábrica de ônibus Caio

Parque Fabril da Caio em Botucatu, com 472 mil metros quadrados. Induscar que arrendou a marca em 2001 e comprou definitivamente em 2009 aumentou para 40 carrocerias por dia a capacidade de produção.

Uma paulistana que faz aniversário com São Paulo
Induscar, empresa responsável por resgatar uma das marcas mais tradicionais de carrocerias de ônibus do Brasil, faz aniversário junto com a cidade de São Paulo
ADAMO BAZANI – CBN
Quem tem identificação com uma cidade apresenta várias características: sua presença no local, sua marca, seu jeito que se identifica com o da população, faz parte do dia a dia desta região, enfim, são várias ligações com o município. Imagine então quando o nascimento coincide com a comemoração do aniversário desta cidade. Aí a identificação é prova que de que a relação não é um mero acaso.
É assim com a Induscar, empresa que foi criada oficialmente em 25 de janeiro de 2001, mesmo dia em que se comemora a São Paulo orgulho do País.
Com 10 anos completados nesta semana, a Induscar nasceu com algumas missões: Salvar e Crescer.
A Induscar – Indústria de Carrocerias Ltda foi criada para assumir uma das principais encarroçadoras do País, a Caio, que havia pedido concordata e estava a beira de desaparecer.
O ano foi de incerteza não só em relação à continuação da existência ou não da Caio, mas também do sucesso do empreendimento da Induscar, que foi formada majoritariamente não por especialistas em fabricação de ônibus, mas por empresários de viações, tendo a frente o português José Ruas Vaz, empreendedor dos transportes em São Paulo desde os anos de 1950 e que ajudou e participou do desenvolvimento da cidade.
Mas a máxima de que o dono de empresa de ônibus é quem sabe a realidade das ruas e as verdadeiras necessidades operacionais, ajudando a indústria a fazer os produtos ideais para o dia a dia se mostrou verdadeira.
Menos de um ano depois de a Induscar assumir a Caio, o ritmo de produção, que estava se tornando bem lento, voltou a se acelerar. No ano de 2001, data das incertezas, a Induscar mostrou a que veio: Foram produzidas 1200 carrocerias.
Pelo fato de o Grupo criador da Induscar ser frotista, acabou se tornando cliente da marca. Ruas é responsável por quase metade dos transportes da Capital Paulista, reduto predominante da Caio.
Mas apenas ser frotista não garantiria sucesso para a Caio. Afinal, o Grupo Ruas, que já era cliente da Caio, não poderia pura e simplesmente comprar dele mesmo. Seria transferir dinheiro de um lado para o outro e perder. Por isso, Ruas estipulou que, no início da Induscar, as aquisições de produtos da marca por suas rotas seriam apenas de 10% a 15%.
A Induscar não só recuperou a capacidade de produção da Caio, mas pensou em seu futuro próximo e lançou modelos, mesmo ainda não tendo a propriedade sobre o Parque Fabril, o que só ocorreu em 13 de março de 2009, quando em leilão, a aquisição foi feita por R$ 48 milhões. O aluguel da marca e do parque fabril da Caio antes de serem arrematados em leilão custava cerca de R$ 200 mil mensais.
O fato de ser um dos principais clientes da marca auxiliou pela decisão de Ruas em investir na encarroçadora. Mas o respeito, a tradição e qualidade dos produtos Caio foram fundamentais.
Afinal, ninguém investira milhões de reais numa marca que não era bem vista pelo mercado.
A Caio foi líder, e ainda é, em boa parte de sua história, em especial no setor de veículos urbanos. Grandes lançamentos que mudaram o mercado e ditaram tendências foram da Caio.
A empresa é um dos símbolos da fabriação de ônibus no Brasil.
A Caio – Companhia Americana Industrial de Ônibus – é herdeira indireta da Grassi, a primeira encarroçadora de ônibus profissional do Brasil. O seu principal fundador foi José Massa, avô do corredor de automobilismo, Felipe Massa.
José Massa era um antigo colaborador da Grassi.
Ele uniu a experiência que ganhou atuando na Grassi, seus sonhos de crescer na vida e ver os setor se desenvolvendo e suas idéias para soluções mais adequadas às transformações dos transportes, que ocorriam a partir dos anos de 1940. Nesta época, as cidades começavam a se tornar mais urbanizadas e populosas. A demanda por ônibus era grande. O perfil do dono de ônibus já não poderia ser o mesmo. A figura do pioneiro que dirigia, cobrava e até construía no fundo de quintal a carroceria do ônibus não era mais compatível com a realidade do crescimento das cidades e do setor de transportes. O dono do ônibus deveria ser empresário de fato agora.
Mesmo com a urbanização, as áreas nas cidades eram bem heterogêneas. As regiões centrais já ofereciam toda a estrutura necessária para os transportes, mas a poucos quilômetros, até nos bairros mais nobres, as áreas eram de difícil acesso.
Eram necessários ônibus mais confortáveis, porém sem deixarem de ser robustos.
Assim, havia mercado, mas um mercado com suas necessidades próprias.
José Massa vislumbrou isso e em 19 de dezembro de 1945, com ajuda de outros investidores, funda a Caio. Um destes investidores era Octacílio Piedade Gonçalves.
As operações da Caio começaram a funcionar em 12 de janeiro de 1946. O primeiro modelo foi uma jardineira de madeira, sobre chassi e motor Buda Hercules. Uma “inovação” é que as janelas pareciam com as de trem das época, que subiam e desciam, por catracas nas laterais verticais.
E m 1948, a Caio adquire um terreno na Rua Guaraiúna, na Penha.
As carências do mercado eram de pronto atendidas pela Caio. Já nos seus primeiros anos de existência começou a adquirir outras empresas encarroçadoras, como a Cermava.
Os anos de 1960 e de 1970 foram marcados pela Caio lançar tendências seguidas até hoje pelo mercado.
Em 1960 foi lançado o histórico modelo Caio Gaivota, o primeiro com estrutura modular na carroceria, que facilitava a barateava a produção, a manutenção e os reparos na carroceria.
Se em 2001, um grupo de empresas de ônibus comprou a Caio, em 1960 o processo foi inverso. A Caio é que comprava viações. Em julho de 1960, a empresa adquiria a Viação Santos – São Vicente Litoral S.A. Em 1965, continuava a investir em empresas de transportes, comprando a Única, uma das empresas que faziam a rentável linha Rio – São Paulo.
A unidade da Penha ficava pequena para tantos pedidos, o que demonstrava a preferência pelos produtos da Caio. Em 1962, é inaugurada a unidade Caio Norte, no Pernambuco.
Em 1964 é projetado o urbano Bela Vista, que em 1969 era sucesso em todo o País.
O modelo apresentava modificações que seriam assimiladas pelo mercado, como o teto reto e mesclava linhas arredondadas com retas.
Mas a Caio se consagraria mesmo no setor de veículos urbanos a partir de 1974, quando foi lançado o Caio Gabriela I, com prarabrisa panorâmico, privilegiando design moderno e visibilidade. O Caio Gabiela II , a partir de 1976, era ainda mais reto e envidraçado. Foi um divisor de águas na indústria de ônibus. O Amélia, lançado em 1980, sucedeu o modelo e inaugurou a linha de produção em Botucatu, no interior Paulista. O sucessor, o Caio Vitória, marcou a paisagem urbana de boa parte do País e vendeu 28 mil unidades entre 1988 e 1996.
Abaixo, uma linha do tempo elaborada pela própria Caio Induscar:

1946 – Jardineira, com motor Buda e Hércules, as janelas imitavam os trens (acionadas por catracas) e eram protegidas por grades.
As Jardineiras também tinham modelos rodoviários, com uma escada que dava acesso ao teto para armazenar bagagens, uma das empresas que usavam era a mineira São Geraldo.
1956 – Papa Filas, cavalo FNM puxando um semi-reboque.
1958 – Cabines de caminhões para Mercedes-Benz.
1959 – Bossa Nova, primeira carroceria rodoviária com estrutura tubular.
1960 – Ônibus elétrico para Araraquara, SP.
1966 – Gaivota urbana, lançada no Salão do Automóvel, com toalete, bar, iluminação individual para leitura, carpete, poltronas reclináveis e cinto de segurança.
1967 – Gaivota modelo rodoviário.
1969 – Rodoviário Jubileu; Caio Verona – primeiro micro-ônibus brasileiro.
1974 – Gabriela.
1974 – Carolina I.
1976 – Gabriela II, com vigia inteiriço.
1977 – Rodoviário Corcovado.
1980 – Amélia, produzida em Botucatu, SP.
1980 – Rodoviário Aritana.
1980 – Papa Móvel.
1981 – Carolina II.
1983 – Carolina III.
1985 – Lançamento do modelo Amélia.
1985 – Rodoviário Squalo, em alumínio.
1987 – Carolina IV.
1988 – Urbano Vitória.
1994 – Rodoviário monobloco Beta, lançado na Expobus’94 é destinado ao mercado externo (México) numa joint venture com a Mercedes-Benz da Alemanha.
1994 – Monte Rei e Carolina V.
1995 – Urbano Alpha.
1995 – Taguá – urbano escolar.
1997 – Piccolino, Piccolo, Millenium e Alpha Intercity.
1999 – Apache S21.
2001 – Apache Vip.
2002 – Giro 3400.
2003 – Millennium II e Giro 3600.
2004 – Top Bus e Giro 3200.
2005 – Foz 2400, Mondego HA e Mondego LA, Giro 3200.
2006 – Foz Super.
2007 – Apache S22.
2008 – Foz 2200 e Apache Vip 2008/2009.
2009 – Topbus PB
2010 – Solar

A Caio Induscar ocupa hoje um parque fabril em Botucatu de 472 mil metros quadros, dos quais, 159 mil metros quadrados de área construída.
Na época da concordata, em 1999, produzia 8 carrocerias por dia, hoje a capacidade é de 40 carrocerias, embora que nem sempre esta capacidade é utilizada.
A marca, que já exportava veículos, agora é uma multinacional brasileira, com produtos feitos e comercializados na África do Sul, Angola, Chile, Costa Rica, Equador, Jordânia, Líbano, Nigéria, Peru, República Dominicana, Trinidad e Tobago, Taiti, Colômbia, entre outras nações.
Recentemente, o lançamento de ônibus de fretamento e rodoviário de pequena distância, o Solar, foi apresentado nos Estados Unidos.
O desafio atual da Caio é se fixar no mercado de ônibus rodoviário.
Líder isolada no setor de veículos urbanos, apesar do crescimento das vendas do Torino da Marcopolo e da expansão de negócios de concorrentes como Comil, Neobus e da “novata” Mascarello, a linha Caio Giro não conquistou ainda vendas significativas.
Uma boa parte dos modelos Giro é vista em presas do próprio Grupo Ruas, como Rápido Brasil e Ultra.
Especialistas garantem que a hora é de se mobilizar no setor rodoviário, se houver mesmo interesse da Caio. Com a situação crítica da Busscar, endividada e que ainda não teve nenhum grupo que apareceu para salvá-la, até mesmo diante da negativa momentânea de a família Nielson vendê-la, o mercado de rodoviários tem mais espaço para outras empresas. A Marcopolo aproveita o momento e populariza a Geração Sete, das versões do Viaggio 900 e 1050, e do Paradiso 1050 e 1200. A Comil também não perdeu tempo e lançou uma versão mais atualizada do Campione, privilegiando a facilidade da manutenção, permitindo que mesmas peças fossem usadas em séries diferentes do Campione.
A Caio é uma das empresas de São Paulo com a cara do Brasil e que leva o nome do País para o mundo.
Apesar de estar instalada em Botucatu, desde 1980, a Caio é uma marca da cidade de São Paulo. Mesmo antes do maior frotista da Capital comprar a empresa, a Caio já prevalecvia na cidade. Assim como na Grande São Paulo.
Algumas empresas, que não são do Grupo Ruas, ainda mantém a tradição de praticamente terem suas frotas inteiras da Caio.
Segundo a Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, de janeiro a novembro de 2010, a Caio produziu 8333 ônibus. Destes, 7825 urbanos, 458 micros e 50 rodoviários.
A Induscar promete investimentos maiores com vistas ao mercado mais aquecido nos próximos anos, pelas eleições municipais de 2012, renovações previstas em frotas e a demanda por transportes mais modernos gerada por eventos esportivos mundiais no Brasil, como a Copa de Futebol, em 2014 e as Olimpíadas, no Rio de Janeiro, em 2016.
Adamo Bazani, jornalista e pesquisador dos transportes.

2 comentários em 10 anos de Induscar e a Solução para um Ícone dos Transportes

  1. eliezer luiz do carmo // 9 de maio de 2011 às 20:45 // Responder

    eu moro em são paulo capital estudo noçães de mecanica pesado,e estrutura de carroseria pesados,ao concluir pretendo mora em botucatu sera que vai ter uma vaga na caio pra mim trabalha ????.

  2. Amigos, boa noite

    Vou ler esta matéria com muita calma.

    Mas de antemão deixo aqui um pedido de ajuda.

    Alguém sabe onde eu posso ler o Livro do ônibus que a CAIO (original)
    lançou a anos atrás, acredito que na década de 70.

    Se alguém puder dar uma dica eu agradeço.

    Quem sabe a Induscar pode nos ajudar?

    Grato

    Paulo Gil

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