Retrospectiva 2: Copa e novos modelos, em 2010

 

(continuação do post anterior) Chassi No setor rodoviário de grande porte, as montadoras capricharam e mostraram que o segmento terá tanto futuro que vale a pena investir altas quantias em desenvolvimento de produtos. Em junho, a Mercedes Benz do Brasil apresentou o O 500 RSDD, chassi com 4 eixos para aplicações rodoviárias de longa distância ou para turismo. Com potência variando entre 360 cavalos e 420 cavalos, o O 500 RSDD se mostrou como o primeiro produto deste porte a concorrer com o tradicional K 420, da Scania, que já tinha essa configuração de 4 eixos. No mês de agosto foi a vez da Volvo do Brasil também apresentar seu 8 X 2, deixando o mercado de ônibus com 4 rodas e 12 pneus ainda mais acirrado. O Volvo B 12 R – 8 X 2 foi apontado pela montadora de origem sueca como uma opção mais leve para veículo robusto. A potência do motor fica na faixa dos concorrentes. Se as montadoras optaram por produzir um veículo deste porte, antes feito por uma única fabricante, é porque há ou haverá demanda suficiente. È evidente, no entanto, que por mais que exista esta procura, o número de ônibus deste porte é baixo perante o de veículos mais leves. Ocorre que e uma forma de as fabricantes consolidarem suas marcas no mercado e acima de tudo, ganharem bastante dinheiro. Afinal, o que os poderosos 8 x 2 não têm em números grandiosos de venda, têm em valor agregado. São ônibus extremamente modernos, dotados de sistemas automáticos, elétricos, pneumáticos e computadorizados de operação, segurança, conforto e gestão. E o frotista que compra um ônibus desse pensa em se destacar no seu nicho vencendo a concorrência, não só contra outras empresas de ônibus e carro, mas também em relação ao crescente, mas limitado setor aéreo. Novidades como estas chamam a atenção no setor de produção, encarroçamento e operação de ônibus, mas são os famosos motores dianteiros que, apesar das críticas, ainda ditam as ordens. Para o destaque dos motores frontais há dois cenários. Um que diz respeito às disparidades regionais e de relevo do País. Por mais que a indústria de ônibus brasileira faça produtos cada vez mais personalizados, não tem como atender precisamente a todas as necessidades. Os ônibus de motor dianteiro são apontados pelos frotistas como universais. Se rodam em trajetos de relevo difícil, trafegam facilmente por estradas e vias urbanas com melhor estrutura. Mas o reinado dos “ônibus frontais” se explica mesmo por questões de conveniência dos empresários: o preço de aquisição é menor, a manutenção é mais barata e pela grande procura, que se explica pelos fatores já citados, sua revenda é bem mais fácil e lucrativa. De olho neste filão que só cresce, apesar de muitos contestarem o conforto oferecido pelos ônibus de motor na frente, as montadoras não tiveram dúvidas em oferecer produtos deste tipo. Concomitantemente ao lançamento do O 500 RSDD, a Mercedes Benz do Brasil também apresentou, no meio do ano, o chassi OF 1730, destinado para serviços rodoviários de pequenas e médias distâncias e para o setor de fretamento e turismo, que devem se expandir nos próximos anos. Muitos frotistas rodoviários e de traslados locais, que antes não tinham o hábito de transportar pessoas com ônibus de motores dianteiros, aderiram aos modelos pela facilidade operacional e baixo custo. O lançamento da Mercedes Benz não deixou se ter sido uma resposta, para não perder a liderança em todos os segmentos do mercado, às ameaças da Volkswagen, quem em 2009 apresentou o 17-260 EOD, e da Scania, que no mesmo ano reativou sua linha de dianteiros, com o F 230 e F 270.

Mas com certeza, o que surpreendeu o mercado de motores dianteiros foi a notícia de que a Volvo pode entrar neste segmento a partir do ano que vem. O Volvo B 260 F (ou B 270 F) já têm até destino: para duas empresas do Paraná. São dois chassis que receberão carrocerias Marcopolo Viaggio Geração Sete 900 e Marcopolo Viaggio Geração Sete 1050.

Em relação aos motores dianteiros para uso preferencialmente urbano, nenhum lançamento específico, mas o Mercedes OF 1722 M e o Volkswagen 15-190 receberam aperfeiçoamentos.

De olho nos projetos e obras dos BRTs, corredores modernos de ônibus rápidos, que devem ser implantados até a realização dos grandes eventos esportivos que o Brasil vai sediar em 2013 (Copa das Confederações), 2014 (Copa do Mundo) e 2016 (Olimpíadas no Rio de Janeiro), as montadoras criaram divisões e produtos específicos para esta modalidade de transporte por ônibus.

Normalmente, os BRTs contam com ônibus alta capacidade e grande porte, como os articulados e biarticulados.

A produção dos biarticulados ainda se concentra na Volvo, mas, vendo o real crescimento que vem ocorrendo no segmento de urbanos pesados, “novas” fabricantes neste nicho já apresentaram protótipos. É o caso da Volkswagen /MAN, estreante em genuinamente articulados no Brasil, que apresentou já no final do ano, a ser produzido em 2011, o 18-320 EOD articulado.

Todos estes lançamentos refletem o bom momento econômico do setor e de maneira geral. Mas atribuir somente ao crescimento econômico esta fase da indústria de ônibus seria ingenuidade.

Primeiro é necessário entender que havia uma demanda reprimida de negócios e crescimento. Por conta da crise global, o ano de 2008 e grande parte de 2009 não foram bons. Sendo assim, parte dos números atuais reflete apenas uma recuperação.

Depois vale ressaltar que há uma série de fatores alheios à economia: licitações que já deveriam ter sido realizadas e só foram concluídas em 2010, renovação natural de frota (que recuperou parte do atraso de 2008 e 2010), eleições estaduais e federal (quando os administradores públicos, pensando em suas imagens, sempre dão uma forçada para que seus redutos tenham ao menos alguns ônibus novos) e, principalmente, a Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e as Olimpíadas de 2016.

Apesar de a população merecer transporte digno há muito tempo, independentemente de eventos, a área só foi levada mais a sério com o anúncio destas competições.

E as celebrações esportivas mundiais mostraram o impacto sobre o setor de mobilidade. Não só nas cidades sedes dos jogos, mas para as principais indústrias de ônibus do Planeta, entre elas, a do Brasil.

Mesmo em outro continente, a Copa do Mundo de 2010 fez a indústria brasileira do setor vibrar, diferentemente de quem torceu pela Seleção.

O Brasil brilhou na África do Sul, no quesito ônibus, é claro.

Grandes fabricantes nacionais de carroceria e chassis deixaram suas marcas e expandiram negócios que vão durar por muitos anos no continente africano.

Aproximadamente 900 ônibus brasileiros circulam pelo país que sediou o Mundial de Futebol de 2010. Destes, 460 veículos serviram diretamente o evento. Eles levaram as delegações, autoridades e imprensa. Não são aqueles ônibus com as cores e inscrições das seleções, produzidos pela Hyndai, mas os predominaram no evento. Destaques para os chassis O 500 da Mercedes Benz, enviados em CDK (desmontados), do Brasil para a África, e os modelos Multego e Paradiso G 6 1200, da Marcopolo, que saíram 80% prontos, inclusive com todos os equipamentos para a direção no lado esquerdo do ônibus, já que a África do Sul, por muitos anos colônia da Inglaterra, adota chamada “mão inglesas”.

A AuthoPax, empresa sul africana que comprou estes Mercedes – Marcopolo brasileiros atualmente utiliza estes veículos para serviços de fretamento e turismo.

O Brasil é o berço do BRT no mundo, por incrível que pareça. Pois, apesar disso, as malhas desta forma eficaz e barata de transportes urbanos são bem tímidas no País.

Mas sua experiência na área é notada mundialmente. A exemplo de grandes e modernos sistemas de corredores de ônibus, como de Bogotá, na Colômbia, e de Lions, na França, a África do Sul seguiu os modelos de corredores bem sucedidos no Brasil, como de Curitiba e do Corredor ABD, na Grande São Paulo, e adaptou para a sua realidade. Modelos como de chassis Volvo (B 7 R – convencionais e B 12 M –articulado), Mercedes Benz (O 500 U e M convencionais e o 500 UA – articulados) e Scania (K 270 – convencionais e K 31- articulados) já desfilam em BRTs sulafricanos, com carrocerias como Mondego, da Caio, e Viale, da Marcopolo.

Agora, se um evento esportivo deste porte reflete positivamente na indústria brasileira, mesmo sendo realizado em outro continente, imagine aqui.

1 comentário em Retrospectiva 2: Copa e novos modelos, em 2010

  1. Excelente matérias, parabens. O Santo Inacio me deixou com saudades.. Abç!!!

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