Retrospectiva 1: 2010, o Ano do Ônibus no Brasil

 

Maior participação do Brasil no Exterior, os mega eventos esportivos, negociações milionárias, novos produtos e licitações surpreendentes fizeram parte do setor. Acompanhe esta retrospectiva neste e nos posts publicados a seguir

ADAMO BAZANI – CBN

Sucesso em 2010

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O ano de 2010 foi embora, mas deixou marcas com reflexos por longos anos no setor de transportes urbanos e rodoviários por ônibus. Várias novidades fizeram parte do cenário de operadoras, poder público, fabricantes e da população que depende deste meio de transporte, que por muito tempo ainda será a principal forma de mobilidade coletiva do País.

Relatar todas elas seria uma tarefa quase impossível, mesmo porque, os transportes são extremamente dinâmicos e inseridos em contextos locais e no panorama nacional.
Além disso, a leitura se tornaria cansativa.

O objetivo desta retrospectiva especial é abrir a discussão para alguns cenários, por áreas de atuação: Indústria, Negócios e Operação. Tais fatos decorridos neste ano, podem nos dar uma noção do que vem por aí. Embora que num ramo tão grande como este, surpresas agradáveis ou não, podem acontecer.

INDÚSTRIA:

Apesar de o terceiro trimestre de 2009 ter esboçado uma reação positiva na produção de ônibus no País, o início de 2010 foi mesclado por boas perspectivas e muitas dúvidas.
A economia global ainda se recuperava de uma crise, que teve como seu ápice o anúncio, em setembro de 2008 da quebra do banco Lehman Brothers, o segundo maior banco de investimentos dos Estados Unidos, fundado há 158 anos.

Por ser carro chefe da economia global, os Estados Unidos em dificuldades representam estagnação e crise para o resto do mundo.

Apesar de ser desqualificada pelo governo brasileiro, que apelidou os efeitos de marolinha, a crise chegou sim ao Brasil. É fato que o País se saiu bem e recuperou-se bem antes do que o previsto.

Entre os efeitos da crise no Brasil, a desconfiança para investimentos foi que predominou. A insegurança era grande, principalmente na questão dos juros que corrigem os financiamentos.
Com a confiança parcialmente recuperada, a economia de forma gradual começou a aquecer-se.
Por depender de investimentos altos, o setor de produção e venda de ônibus refletia estas situações mais sensivelmente.

A boa surpresa do último trimestre de 2009 ensejava que 2010 poderia ser promissor.

Busscar

Mas um fato lamentável ocorria logo no início do ano. A Busscar, uma das mais tradicionais fabricantes de carrocerias de ônibus, tornava públicas suas dificuldades financeiras, parando a produção e colocando em risco milhares de empregos.

Uma gestão com problemas, questões administrativas internas, o não repasse dos créditos do IPI pela Fazenda Nacional e as restrições impostas pela BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social foram alguns dos ingredientes para a crise na encarroçadora que atua desde 1949.

A ausência da Busscar foi sentida pelo mercado, tanto positiva como negativamente.

As mazelas ficaram por conta da insegurança no setor, pela situação delicada dos funcionários e pela credibilidade sobre os critérios de financiamento e socorro pelo BNDES. Os tradicionais frotistas de Busscar, como Gontijo e Grupo Santa Cruz tiveram de mudar seus planos de renovação de frota e sua programação de estoque de peças. Especulou-se ao longo do ano que estes grupos poderiam se apresentar numa eventual venda da Busscar.
Mas as concorrentes vibraram com as dificuldades enfrentadas pela empresa de carrocerias de Santa Catarina.

A Caio, há muitos anos líder no segmento de carrocerias urbanas, viu sua demanda crescer a tal ponto que as filas para alguns modelos, como o Apache Vip II, extrapolaram 3 meses. Foram 9 mil carrocerias Caio, aproximadamente, produzidas pela Caio em 2010.

Mas sem dúvida, a Marcopolo foi a grande beneficiada. Isso porque a participação da Busscar era maior no setor de carrocerias rodoviárias, justamente a área de predominância da Marcopolo.

A Geração 7 da encarroçadora gaúcha trouxe inovações tanto de tecnologia, segurança, conforto e design, sendo um dos mais bonitos e bem planejados modelos, mas a crise da Busscar deu uma grande ajuda para os Viaggio e Paradiso G 7 dominarem as paisagens urbanas, com os ônibus de fretamento, e as de estrada, com os rodoviários.

Assim foi possível ver os modelos desde as mais simples versões, com motor dianteiro, até verdadeiras naves sobre rodas, com toda tecnologia embarcada, contando com computadores e bordo e de operação, DVDs, ar condicionado mais potente e sistemas de frenagem e suspensão que tornam qualquer viagem de ônibus iguais ou mais prazerosas que de carros.

Para se ter uma idéia entre janeiro e outubro de 2010, a Marcopolo contabilizou a venda de 2,6 mil unidades de diferentes versões dos modelos Viaggio e Paradiso da Geração 7. No geral, a Marcopolou encarroçou aproximadamente 6 mil ônibus em 2010.

As chamadas “menores” ficaram maiores com a situação da Busscar e, principalmente pelo aquecimento do ritmo da economia.

A Mascarelo, a mais novas da empresas do segmento, encarroçadora do Paraná, estima fechar 2010 com crescimento de cerca de 20%, o que representam 2,4 mil unidades produzidas neste ano que está terminando. Além disso, um pouco da tradição e experiência da Busscar está agora na paranaense, que contratou uma série de profissionais, principalmente engenheiros e área de criação, da encarroçadora que enfrenta dificuldades.

Os modelos Roma 330 e 350 e GranMini foram destaques da empresa.

A Comil, empresa do Rio Grande do Sul, mostrou também que quer crescer por conta própria, mas que vai aproveitar a lacuna deixada pela Busscar.

Na metade do ano apresentou uma nova versão do modelo Campione, nas categorias 3.25, 3.45 e 3.65.

O ônibus sofreu uma reformulação estética e funcional para ganhar mercado mesmo e não só para manter a Comil no patamar que estava. Além de iluminação de Led, peso inferior, as lanternas e outros conjuntos são padronizados independentemente da categoria, o que facilita a manutenção e o estoque de peças, barateando os consertos e flexibilizando os processos de substituições de componentes para o frotista que comprou mais de uma categoria do Campione. Os para-choques também foram padronizados tanto para modelos com motor dianteiro como para os de motor traseiro.

A Comil estima venda de 2,7 mil carrocerias.

A notícia alentadora para os admiradores, trabalhadores e para a imagem e economia brasileiras no setor de encarroçamento foi dada em novembro, quando a Busscar, mesmo que lentamente começou a retomar a produção. Mas o futuro da empresa ainda gera dúvidas.

Obviamente que, se o mercado para carrocerias está aquecido, o de chassis também. Afinal, as carrocerias para virarem ônibus precisam ser fixadas numa plataforma.

De acordo com dados da Anfavea, no acumulado dentre janeiro e novembro de 2010, foram produzidos 43.549 ônibus ante 32.405 unidades em 2009, o que representa aumento de 34,4% neste período.

Por uma questão histórica de demanda e perfil de transportes, os urbanos são a grande maioria dos ônibus no Brasil. Destes 43.549 veículos de transportes de passageiros, 38.250 são urbanos e 5.299 com características rodoviárias.

Apesar da grande diferença entre os urbanos e rodoviários, os “ônibus de estrada” foram o que mais tiveram crescimento de produção entre janeiro e novembro de 2010, em comparação a igual período de 2009: elevação de 36,3%. De janeiro a novembro, os ônibus urbanos registraram crescimento de 34,1%.

Estes números mais uma vez mostram como a produção de ônibus (chassis e carrocerias) é atuante e reflexo da macroeconomia.

Uma economia geral mais aquecida significa obviamente uma intensidade maior de atividades. Para que estas atividades sejam realizadas, o nível de emprego aumenta. Com mais empregos, o consumo é maior, gerando mais atividades e mais empregos. Com o número de trabalhadores ampliado, são necessários mos deslocamentos. As empresas operadoras têm de aumentar o número de carros e renovar as frotas, o que, logicamente, aquece a produção de carrocerias e chassis.

Todo este ambiente foi favorável para a apresentação de novos modelos.

(segue no próximo post)