VIAÇÃO SANTO IGNÁCIO E A HISTÓRIA DO PROGRESSO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

ônibus Viação Santo Ignácio

Caio Bossa Nova da Viação Santo Ignácio, em frente ao Paço Municipal de São Bernardo do Campo, que ainda estava sendo construído em 1971. Acervo: Marco Antônio da Silva – Matéria: Adamo Bazani

ônibus

Viação Santo Ignácio nos anos de 1980. Empresa auxiliou e acompanhou o desenvolvimento econômico, industrial e urbano da Grande São Paulo. Foto: Mário dos Santos Custódio, acervo William de Queiroz – Matéria: Adamo Bazani


Viação Santo Ignácio: o retrato do desenvolvimento
Empresa foi uma das mais importantes interligações entre o ABC e São Paulo
ADAMO BAZANI-CBN
Verdadeiros soldados de frente do batalhão do desenvolvimento e do crescimento urbano! Assim que podem ser considerados os pioneiros dos transportes coletivos. Não apenas os donos dos ônibus, mas seus motoristas, cobradores e mecânicos (que no início dos serviços muitas vezes eram as mesmas pessoas) e a população que fazia uso deste único meio de transporte que teve a agilidade e a flexibilidade para atender ao ritmo do crescimento urbano, inclusive em áreas de difícil acesso.
São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, tem muita história pra contar. A região recebeu um dos primeiros povoados que mesclavam portugueses e índios, em 1553, antes mesmo da fundação da Capital Paulista, sempre foi rota importante da economia brasileira, ligando a Capital e o Interior ao Porto de Santos, no final do século XIX recebeu vários imigrantes europeus que trouxeram uma nova filosofia de vida e trabalho a região, foi pólo agrícola, de produção de carvão, ajudou o crescimento no Estado com olarias, foi a capital do moveleira do País, em 1925 já tinha um dos maiores reservatórios de água da América Latina, a Represa Billings, em 1949 se tornou um dos maiores pólos culturais do País, com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que levou ao mundo estrelas brasileiras, como o Astro da Comédia, Amacio Mazzaropi, abrigou um dos maiores parques industrias de automóveis do Brasil, em 1963 produziu o primeiro automóvel 100% brasileiro, o luxuoso “Presidente Democrata”, da Indústria Brasileira de Automóveis Presidente, de Nelson Fernandes, foi palco também de uma nova era política brasileira entre os anos de 1970 e 1980, além de ser berço de um sindicalismo mais forte e engajado. Com a perda das indústrias, devido a Guerra Fiscal entre estados e municípios, se tornou um dos maiores centros de serviços e comércio do País, tornando-o o quarto maior Produto Interno Bruto de São Paulo, o Estado mais rico da Federação.
Mas toda essa efervescência cultura e econômica só foi possível devido aos transportes coletivos.
O setor que liga as pessoas, o capital humano, aos locais geradores de emprego para que nestes locais elas gerassem renda para elas mesmas e para a cidade e o Estado.
Várias famílias, com visão de lucro, crescimento, mas sem deixar de servir à cidade, aceitaram o desafio dos transportes. Dentre elas, a família Romano, que operou várias empresas de transportes no ABC Paulista, inclusive em áreas de difícil acesso, cujo todo este desenvolvimento parecia não chegar nunca.
Uma das empresas de ônibus mais marcantes de São Bernardo do Campo e região foi a Viação Santo Ignácio Ltda.
Muito católica, a família Romano mantinha ou colocava nomes de santos nas empresas de ônibus que comprava ou formava. Aliás, não só a família Romano, mas várias da região, o que mostra a forte influência de famílias de origem européia, onde a maioria é católica, no controle das empresas de ônibus.
Com o fortalecimento industrial do ABC Paulista, as comunicações com a Capital se tornavam cada vez mais importantes.
Havia a linha de trem, inaugurada em 1867 entre Santos e Jundiaí, que apesar de ter sido criada para servir a agricultura, facilitando o escoamento do café, proporcionou urbanização e industrialização nas áreas que servia.
Mas os bairros e a região central de São Bernardo do Campo ficavam um pouco distantes das linhas de trem.
O intuito inicial era ligar a Vila de São Bernardo até e estação, até meados do século XX, toda região do ABC era administrada pela comarca de São Bernardo da Borda do Campo.
Assim, nos primeiros anos do século XX foram vários os serviços que faziam esta ligação, como da família Setti, inicialmente com Tílburis, carruagens puxadas por cavalos, e depois jardineiras, ônibus simples de madeira, e os irmãos Pujol, com o popular na época Bondinho dos Pujol.
Mas com a emancipação dos municípios e a criação de bairros cada vez mais distantes dos centros das cidades e que se “emendavam” pelo crescimento da população, formada por pessoas que vinham para a Capital e o ABC em busca de oportunidades de trabalho e negócios, a linha de trem não bastava.
Era necessário ligar as cidades do ABC Paulista e ligar a região à Capital de São Paulo por outros caminhos, além dos servidos pelos trens.
E a Viação Santo Ignácio cumpriu este papel.
De acordo com a Junta Comercial de São Paulo, ela foi constituída em 11 de março de 1965. Época de crescimento, industrial, populacional e conseqüentemente urbano.
Este crescimento urbano não significava necessariamente infraestrutura e sim uma forma de ocupação diferente da tradicional, mais adensada, com casas simples.
Assim como outras empresas, a Viação Santo Ignácio percorreu por vários caminhos de difícil acesso, enfrentando lama e atoleiros. Mas depois da presença dos ônibus, o poder público, a população e as próprias empresas colocavam a mão na massa, ou no barro, para melhor os caminhos que iam desenvolver a região.
A Viação Santo Ignácio ligava as cidades de São Bernardo do Campo, o crescente bairro de Piraporinha, Diadema e São Paulo.
O crescimento da empresa refletia também o crescimento das cidades e a necessidade por mais linhas e mais ônibus nas ruas. A industrialização voltada para o setor automotivo aumentava o ritmo das atividades econômicas, além de fortalecer outros ramos, como o da construção civil, que absorviam mão de obra considerada pouco qualificada para a indústria.
Documentos oficiais comprovam este desenvolvimento do ABC e de São Paulo pelas solicitações de ampliação de horários e aumento ou criação de novas linhas.
No Diário Oficial de 19 de outubro de 1967, era anunciado que a empresa modificava os horários e oferecia mais viagens entre São Bernardo do Campo – Jardim Santo Ignácio (Rua Jurubatuba) e São Paulo – Parque Shangay.
Foi justamente nesta época que São Bernardo se modernizava e construía seu Paço Municipal. Na primeira foto, de acervo Marco Antônio da Silva, um Caio Bossa Nova com o símbolo usado pela família Romano, passa em 1971 em frente ao Paço Municipal de São Bernardo do Campo, que ainda não estava concluído. As obras começaram em 1965 com o prefeito Hygino Batista de Lima e só foram totalmente concluídas no final dos anos de 1970.
Novos bairros iam surgindo, os que já existiam se tornavam mais populosos e novas rotas eram criadas pelos visionários dos transpores.
O Diário Oficial de 18 de abril de 1973 comprova isso. Acompanhe.
“O Departamento de Estradas de Rodagem faz saber que na linha de auto-ônibus suburbana entre São Paulo (Av. Prefeito Passos) e São Bernardo do Campo (Vila Planalto, Piraporinha, Paulicéia, Jardim Santo Ignácio, e Jardim Nazareth), permissão de Viação Santo Ignácio Ltda, foi dada autorização para desmembrá-la em 3 linhas distintas: São Bernardo do Campo (Bairro dos Casas) / São Paulo (Parque Dom Pedro II) – São Bernardo do Campo (Praça Samuel Sabatini) / São Paulo( Parque Dom Pedro II) – São Bernardo do Campo (Jardim Nazareth) – São Paulo (Parque Dom Pedro II).
A empresa servia regiões industriais. Um dos pontos finais nos anos de 1980 da Santo Ignácio foi na Av. Álvaro Guimarães ao lado da Karmann Ghia.
A empresa operou serviços urbanos ate os anos de 1990. Muitas de suas linhas começaram a ser operadas pelas empresas Riacho Grande, que já foi dos Romano, e Imigrantes, pertencentes a empresários que chegaram ao ABC Paulista a partir de 1984.
O nome Santo Ignácio ainda é visto em ônibus de serviços de fretamento na região.
Adamo Bazani, jornalista e pesquisador de transportes.

8 comentários em VIAÇÃO SANTO IGNÁCIO E A HISTÓRIA DO PROGRESSO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO

  1. O preco medio de imoveis de segunda-mao em Sao Bernardo do Campo e de 2.609 R o m do 3 76 com respeito ao mes anterior dezembro . Distribuicao do numero de vivendas em Sao Bernardo do Campo de acordo com o tipo de imovel. Este grafico indica o preco medio dos imoveis de Sao Bernardo do Campo de acordo com o tipo de moradia……………

  2. Parabéns por mais uma matéria de nostalgia Adamo. Esse Santo Ignácio, que eu sempre usava com minha mãe para ir ao centro de Sao Bernardo, na linha 32 – atual 36, à época 32 – Jordanópolis-Paço. Excelente matéria!

  3. Nelson Roberto Langella // 4 de abril de 2011 às 00:42 // Responder

    Será que a Santo Inácio Turismo ainda pertence aos Setti Braga?

  4. ALEX FELIPE DA SILVA // 19 de dezembro de 2012 às 20:35 // Responder

    POR FAVOR SANTO INACIO VOLTA A TER ONIBUS URBANOS MEO QUE SAUDADE QUANDO EU IA COM MEO PAI PARA O PARQUE DOM PEDRO UMA EMPRESA QUE SEMPRE TINHA ONIBUS PARA LA HOJE É SO POR DEUS QUE SAUDADE ONIBUS LIMPINHOS UMA EMPRESA QUE DEIXOU SAUDADES NO TEMPO EU TINHA 12 ANOS HOJE TENHO 41 UM FELIZ NATAL PARA VOCES

  5. Meu avo (Severino Marcos da Silva), meu pai Joao Marcos da Silva Neto, trabalharam na viacao santo Ignacio. Hoje, meu tio avô (Antonio Marcos da Silva) desde os tempos do meu avo ainda trabalha la. Cresci no bairro do Jordanopolis em S.BCampo e a viacao Santo Ignacio fez parte na minha infancia. Parabens pela matéria

  6. Tenho orgulho de fazer parte do quadro de colaboradores desta empresa desde 1984, e porque não dizer da historia da Viação Santo Ignácio.

  7. Legal, já tinha visto essa fot.
    São Bernardo e suas histórias, moro no Bairro Planalto, e a dúvida que ficou é se os fretados da Santo Ignácio com garagem em Diadema, nas proximidades da divisa com o Bairro Jordanópolis em São Bernardo, tem algum tipo de ligação?!
    Parabéns pelo trabalho!

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