COMO O TRANSPORTE PÚBLICO PODE EVITAR ENCHENTES

ônibus
Enchente na Avenida 9 de Julho nos anos de 1960. O problema do crescimento desordenado é antigo. Transporte público pode auxiliar no combate às enchentes pois atende uma grande quantidade de pessoas em espaços menores, que poderia ter mais áreas verdes e permeáveis
São Paulo de todas as enchentes
Problema nas grandes cidades é crônico. Crescimento irregular, falta de planejamento e até a postura da população são algumas das causas

ADAMO BAZANI – CBN

Se os modelos dos ônibus e dos carros e se a foto não fosse preto e branca não evidenciassem que a imagem é dos anos de 1960, era possível dizer que essa foto da Avenida 9 de julho foi tirada esta semana.
Os problemas das enchentes nas grandes e médias cidades já são crônicos e diretamente relacionados ao crescimento urbano desordenado.
Aumento da população não pode ser a única justificativa para esse crescimento sem nenhum planejamento.
O poder público e os que se dizem responsáveis por representarem o povo têm sua parcela nesta desordem geral.
Em troca de votos, muitos candidatos davam (e ainda entregam) tijolos, tábuas e telhas para a população mais humilde ocupar as áreas de risco.
E ainda tais candidatos garantem: se vocês votarem em mim, não vai ter problemas de fiscalização, ninguém vai tirar vocês da encosta, da área de manancial, do leito do rio etc.
E realmente, ninguém tira. A não ser a chuva e os deslizamentos, que todo o ano faz dezenas, centenas e milhares de vítimas, muitos mortos.
O que ocorre este ano na região serrana do Rio de Janeiro, a maior tragédia natural nunca antes vista na história deste País, em Mauá, na Grande São Paulo, em Franco da Rocha, também na região Metropolitana de São Paulo, é fato já previsto.
Esta foto mostra que o ´preço da impermeabilização’ tem sido pago há anos e em pesadas prestações.
A indústria de ônibus teve de se adaptar às enchentes. Aliás, este é um dos grandes atrativos dos ônibus brasileiros para o mundo.
Se comparar com veículos produzidos em locais onde as enchentes não são tão incidentes como as regiões metropolitanas brasileiras, os ônibus brasileiros são robustos.
As peças mais resistentes, a altura em relação ao solo maior e mais robustez mostram que os ônibus brasileiros tiveram de se adaptar às enchentes as cidades. Além claro, do fato que, no início da profissionalização dos serviços de transportes, as vias eram de difícil acesso, com ruas de terra e muito atoleiro. O poder público não ofereceu a infraestrutura necessária no mesmo ritmo que as cidades cresciam.
Quando esta infraestrutura veio, ela já foi planejada para o trânsito de veículos particulares. Por isso tantas ruas, concreto e asfalto inclusive em áreas que já os índios, antes da chegada dos portugueses ao Brasil sabiam que enchiam. Se o carro de passeio não fosse tão privilegiado e se houvesse um maior investimento em transporte público, a cidade poderia ser menos cinzenta e de concreto. Partindo da premissa que um ônibus transporta o equivalente a 30 carros, mas ocupa o lugar de quatro, e que os trens e metrô, se tivessem malhas mais extensas tirariam muito mais carros ainda das ruas, e não seria necessário tanto asfalto na cidade.
Além disso, atualmente, as cidades que pensam no bem estar como um todo, já planejam áreas verdes ao redor de seus corredores de transporte público, deixando o ambiente até mais agradável.
Assim, de maneira indireta, o investimento em transporte público pode auxiliar a minimizar as enchentes. Afinal, um corredor de ônibus ou uma linha de metrô e trem podem substituir o alargamento e criação de novas ruas ou avenidas.
A Marginal Tietê é um exemplo. A várzea precisa de áreas de terra e jardim para absorver a água. Mas em nome do carro particular, foi construída mais uma pista.
O que ocorre hoje é que as enchentes estão ainda piores. As áreas de preservação são cada vez mais invadidas e a cidade impermeável.
De dezembro às águas de março é sempre a mesma história. O mesmo enredo com personagens diferentes. Além de vidas, que são as mais importantes, uma grande quantidade de dinheiro, que poderia ser investido em melhor qualidade de vida também se vai.
A cena é antiga, o problema é um velho conhecido, e as soluções, também.
Adamo Bazani, jornalista.