Fretamento 1: Raio X do setor no ABC Paulista

A região é considerada berço deste segmento de transportes por ônibus, passou por mudanças econômicas, mas estrutura das empresas continua sendo familiar e pequenos respondem por boa parte do mercado. Leia esta história em quatro capítulos

Nimbus Delta

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ADAMO BAZANI – CBN

Anos de 1950, o Brasil até então extremamente dependente dos produtos industrializados em outros países via que depois do trauma de Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, seria necessário começar a modernizar-se de fato.

Não era mais possível depender da indústria mundial para quase tudo.

Além de impedir o desenvolvimento social, a falta de investimentos em industrialização faria com que o país se tornasse mais pobre, quase rumo a miséria. Afinal, por mais matérias primas e bens naturais que exportasse, nunca estes produtos se equiparariam aos preços dos bens manufaturados. O desequilíbrio na balança comercial seria uma bola de neve e tornaria o País ainda bem dependente do capital externo.

Não bastasse essa realidade local, havia um outro fato importante pós Segunda Guerra Mundial, que contribuiu, e muito, para a aceleração do processo de industrialização de países como o Brasil: a Guerra Fria entre o Capitalismo e o Socialismo.

Estados Unidos e União Soviética tentavam expandir os tentáculos de seus regimes.

Os norte-americanos pela economia e os soviéticos pela política de forma mais enfática.
É só ver que o processo de industrialização mais intenso no pós Segunda Guerra que ocorreu no Brasil teve a presença marcante de empresas transnacionais, em especial norte-americanas e européias.

Há historiadores que não admitem o termo industrialização DO Brasil nos anos de 1950, mas industrialização NO Brasil, nesta época.

O fato é que essa fase da economia no País mudou os rumos e a forma de ocupação brasileira, que deixava de vez de ser predominantemente rural, processo que começou lentamente no final do século XIX com o advento da ferrovia nos que seriam os grandes centros urbanos. Vale lembrar, que as ferrovias, foram, de início construídas para servir à agricultura, facilitando o escoamento da produção, porém foi muito mais benéfica à industrialização.

O governo brasileiro que mais foi marcado por essa fase de desenvolvimentismo industrial foi o de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, médico e militar que assumia o executivo brasileiro em 1956 até 1961.

Seu governo foi em prol da indústria e diversos setores se beneficiaram, em especial o de automóveis. Para dar espaço e mercado aos carros, uma política rodoviarista deixava a ferrovia de lado e com estradas ampliadas ou inauguradas tinha como objetivo cortar o Brasil.

A transferência da Capital Federal para Brasília teve como justificativa oficial levar o desenvolvimento ao Centro-Oeste e “interior” do Brasil.Mas não teve obra que mudasse o fato de que a política em prol da industrialização beneficiou mesmo a região Sudeste, em especial a Capital Paulista e a Região do ABC.

O ABC foi palco da instalação das principais indústrias automotivas e do cadeia produtiva: General Motores, que já estava na região desde os anos de 1930, Volkswagen, Mercedes Benz, Scania são apenas exemplos de gigantes multinacionais montadoras de veículos.

A região não foi escolhida a toa. Já havia uma infraestrutura, ironicamente por conta da então protelada ferrovia, que permitia acesso a energia elétrica, saneamento, e possibilidade de escoamento da produção, além da proximidade relativa com o Porto de Santos, o maior de toda a América Latina.

Havia também uma rede de transportes coletivos considerável para a época.

A OPORTUNIDADE E O NASCIMENTO:

Marcopolo Viaggio

Porém o aumento populacional por conta da procura por melhores condições de salário, renda e vida foi tão grande que a estrutura de transportes coletivos locais não foi suficiente para dar conta da demanda.

Os bairros se expandiam e os ônibus acompanhavam. Muitas vezes era o contrário: os ônibus chegavam a loteamentos recentes que, pela presença dos serviços de transportes ligando o local de moradia o de emprego, eram procurados por novos habitantes ou mesmo antigos que não suportavam a especulação imobiliária que aumentava o preço dos terrenos, casas e aluguéis perto das indústrias e dos centros comerciais.

Criar uma linha de ônibus urbano tinha suas burocracias e além disso, em alguns horários não havia certeza de demanda.

Outro fato é que nem todos os bairros de operários que atuavam na indústria do ABC eram servidos por ônibus urbanos. Havia uma lacuna que se somava a outra: as fábricas não paravam e nos horários de alguns turnos, como os da madrugada, não tinha transporte regular.

Muitos empreendedores vendo estas brechas começaram a investir na modalidade dos transportes por ônibus de fretamento. O retorno era quase garantido: demanda certa, numa região quase sem concorrência, em horário fixo e com a clientela, as fábricas, que se beneficiavam do serviço, que pagava conforme o serviço prestado.

É claro que já havia serviço de aluguel ou fretamento de ônibus antes da maxi industrialização do ABC Paulista, mas é inegável, que a profissionalização dos serviços ocorreu no local.

Um dos pioneiros deste tipo de serviço profissional de transportes diferenciados foi Ítalo Breda. Filho de um profissional do setor de transportes, Ítalo Breda foi funcionário da Viação Cometa e viu essas lacunas e necessidades nas regiões cuja industrialização se acelerava.

Com ajuda do Major Tito Masciolli, militar italiano fundador da Auto Viação Jabaquara e da Viação Cometa, formaria uma das mais tradicionais, e hoje a maior empresa de fretamento da região, a Breda, desde 1990 nas mãos do Grupo Áurea do empresário de atuação nacional, Constantino de Oliveira.

A indústria do setor automotivo, da cadeia produtiva e de demais ramos crescia.
Além da indústria um outro setor foi importante para o segmento de fretamento: o da construção civil. Com a urbanização maior, as cidades se remodelavam, mais galpões e casas de operários precisavam ser construídas. Com isso, foi fortalecido o filão de fretamento de ônibus mais rústicos e simples. Eram veículos muitas vezes urbanos para levarem os operários da construção civil até terrenos, loteamentos e áreas de difícil acesso que se tornariam depois bairros.

Nos anos de 1970, grande parte da indústria do ABC Paulista estava consolidada.

E foi justamente nesta década que a maior parte das empresas de fretamento de ônibus profissionais surgiram na região.

A luta contra a Ditadura Militar e as Greves dos Metalúrgicos no ABC Paulista, que ajudariam a mudar não só as relações de trabalho, mas a política nacional foram presenciadas pelos ônibus de fretamento.

Documentário ABC da Greve, sobre a atuação de Luis Inácio Lula da Silva, mostra vários ônibus
de fretamento: Galo de Ouro, Rodrigues, Sabetur, entre outras, predominantemente com seus Monoblocos da Mercedes Benz.

A TRANSFORMAÇÃO ECONÔMICA

Os anos de 1980 foram radicalmente problemáticos na economia brasileira. A galopante inflação só premiava o setor financeiro. Indústria, trabalhadores, transportadores e comerciantes perdiam o controle dos preços.

Para os transportadores foi uma das piores fases da história. Os preços dos insumos para a fabricação dos ônibus eram reajustados e os veículos aumentavam de preço a cada semana. Renovar a frota era proibitivo. Além disso, havia o lucro menor. Custos como combustíveis, pneus, freios e funilaria aumentavam constantemente. Mas o valor das tarifas para o passageiro urbano e dos contratos com as indústrias não poderia ser reajustado, senão as empresas de ônibus perderiam clientes.

O turismo eventual, viagens e passeios, também foi prejudicado, afinal a renda dos trabalhadores, que alugavam os ônibus era achatada frente a inflação. Os salários não acompanhavam o aumento dos preços.

Muitas famílias tradicionais no setor de fretamento sentiram a época. Mas várias resistiram.
Ironicamente, e especificamente no setor de fretamento, diferente do urbano de passageiros, a grande mudança ocorreria depois dos anos de inflação nos anos de 1990.

Após 1994, a inflação, pelo Plano Real, parecia que entraria num controle maior.
Todos precisavam se recuperar financeiramente. Não só o setor privado, mas os poderes públicos também.

Assim, municípios de todo o País corriam desesperadamente atrás de investimentos. Se a inflação aumentava a dívida pública, o que combateu a inflação no Plano Real também: os juros básicos da economia, que foram reajustados.

Essa busca por investimentos, para compensar esse aumento das dívidas locais, resultou na chamada Guerra Fiscal, quando estados e municípios ofereciam compensações fiscais e até terrenos praticamente de graça, além de taxas mais baixas de serviços básicos como água e eletricidade, para atrair indústrias e outros investimentos.

O Custo ABC, adaptação do termo Custo Brasil, que se referia justamente aos gatos de se manter um investimento por conta de taxas e tributos, era alto.

Várias indústrias saíram da região. Até mesmo as que permaneceram, abriram filias no Interior de São Paulo ou em outros estados, em vez de crescerem no ABC.

Isso significou queda da demanda dos passageiros e dos serviços para as empresas de fretamento.

Somado aos resquícios da inflação e aos problemas administrativos internos, o fato da Guerra Fiscal fez com que várias empresas de fretamento perdessem força econômica, diminuíssem e outras até desapareceram.

Empresas tradicionais de fretamento por ônibus desapareceram: Quem na região não se lembra de nomes como: Rodi Tur, Saci Tur, Gatti Turismo, Tursan (hoje não mais no ABC), Pato Azul, Road Runner, Sabetur, ArcaTur, Pocchini, Garcia Turismo, Rufino, etc.

Começava uma transformação econômica e social na Região do ABC Paulista.

As indústrias saíam e eram substituídas, por necessidade, pelos setores informais, o que prejudicou muito as empresas de fretamento. Afinal, normalmente o trabalhador informal não faz uso de ônibus fretado.

Os serviços e comércio tornaram-se atividades predominantes.

Grandes galpões de indústrias deram lugar a Shoppings, Supermercados, Igrejas, Lojas de Automóveis, entre outros estabelecimentos.

A Avenida Industrial, em Santo André, que recebera este nome por receber um grande número de fábricas, desde adubo até veículos e eletroeletrônicos, tinha se deteriorado, virando ponto de prostituição homossexual.

Atualmente, com o Shopping Grand Plaza e com o Terminal Rodoviário de Santo André parte da Avenida Industrial foi revitalizada. Mas não no nível ideal. Ainda há pontos de prostituição e a noite ainda é perigosa no local.

A Avenida Pereira Barreto, entre São Bernardo do Campo e Santo André, que reunia empresas como a Casa Publicadora, KS Pistões, Festo, Granja Ito e firmas de fundição, só não teve o mesmo destino da Avenida Industrial porque nos anos de 1980 dois grandes empreendimentos deram vida ao local: a chegada do Mappin, hoje Shopping ABC, e do corredor de trólebus entre São Mateus (zona Leste de São Paulo) e Jabaquara (zona Sul da Capital Paulista) que passa pelo local.

Empreendimentos foram atraídos pelo Mappin e pelo trólebus, mas aos poucos, já que vários prédios ficaram abandonados por longo tempo.

As empresas de fretamento que sobreviveram foram as que não deixaram as indústrias de lado, ainda os principais clientes do serviço, mas que assimilaram novas oportunidades.