Carrocerias Cardoso: tudo na medida certa

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Ônibus Mercedes Benz da Carrocerias Cardoso, empresa de Santo André, que fazia produtos sob medida ou adaptava os ônibus para a realidade de cada região

Empresa que atuava no ABC Paulista fazia ônibus, mas principalmente adaptava veículos de transporte coletivo para cada necessidade, o que é hoje a tônica da indústria do setor
ADAMO BAZANI – CBN

Se hoje não são tão comuns mais as alfaiatarias, que fazem tudo na medida que o cliente pede, a indústria de carrocerias de ônibus adotou esse espírito e se transformou numa grande alfaiataria de veículos.
Há cerca de 20, 30 anos, a indústria lançava um modelo de ônibus e os frotistas e passageiros tinham de aceitar.
Por conta disso, eram muito comuns as adaptações feitas dentro das garagens. Pode-se dizer que os pátios e oficinas de empresas de ônibus foram os grandes laboratórios para o que a indústria de ônibus é hoje em dia.
Se mexia em tudo, na parte mecânica, principalmente nas suspensões e nos motores, na carroceria, com ônibus alongados, encurtados, se tornando mais altos, mais baixos.
Com o tempo a indústria começou a assimilar essa necessidade real dos empresários e da população.
Além disso, o Brasil é um país com dimensões continentais e realidades diferentes: econômicas, culturais, sociais e geográficas.
Um produto que pode circular tranquilamente por centros econômicos com maior infraestrutura não consegue necessariamente enfrentar viários difíceis e até de terra, existentes inclusive nos dias de hoje.
Quando os centros urbanos e econômicos ainda eram cortados por vias de terra ou estreitas, numa época em que o centro da cidade era vizinho a uma vila com pouca estrutura, os ônibus tinham de ser mais robustos ainda, na verdade caminhões encarroçados, e mesmo assim, os produtos de encarroçadoras já mais destacadas no mercado tinham de ser adaptados.
E muitas empresas metalúrgicas se dedicavam a esse trabalho. De tanto ouvirem e darem solução às necessidades dos operadores de transportes, algumas faziam seus próprios produtos.
Foi o caso da “Carrocerias Cardoso”, de Santo André.
Há poucos registros sobre a empresa. Todas referências são formadas por memórias de trabalhadores e pesquisadores do setor.
Nos anos de 1940, a empresa andreense já adaptava veículos de transporte coletivo.
O jornalista Ademir Médici, em sua coluna de Memória, no jornal Diário do Grande ABC, em uma reportagem sobre o time de futebol da Eletrocloro, hoje Solvay, encontrou referência a encarroçadora em 1946. Um dos componentes do time, dirigia um ônibus adaptado pela Cardoso para passar por um caminho estreito na região de Ribeirão Pires. Diz a matéria:
“O número 9 da caricatura é Pedro Valentim, todo elegante, de capa, gravata e cachimbo. Ele dirigia o ônibus da Eletrocloro para o transporte dos trabalhadores. Foi a primeira linha regular entre Vila Elclor e Ribeirão Pires. Servia aos funcionários nos horários que não coincidiam com a passagem e parada de trens na Estação Elclor – 7h e 17h; e também atendia aos demais moradores.
Era um modelo Chevrolet, 1946 ou algo assim, com carroceria especialmente adaptada por uma empresa de Santo André – a Carroceria Cardoso. Pois o ônibus cruzava pela Ponte Seca e as medidas de um ônibus comum não teriam como vencer a estreita passagem.”
O metalúrgico aposentado Wilson Bazani, pai deste jornalista, afirmou também conhecer a empresa encarroçadora em Santo André, mas que nos anos de 1970 já não se ouvia falar da produção de ônibus pela Cardoso.
Na foto, de acervo de Paulo Vidal, é possível ver um ônibus da Carroceria Cardoso, sobre plataforma de um Caminhão Mercedes Benz L 321.
Ao ver a imagem em um grupo de discussão sobre história dos transportes, o pesquisador Sérgio Mártire diz ter visto semelhanças entre este ônibus da Cardoso e os produtos da Grassi e da Caio.
E tais semelhanças não são coincidências já que a Caio e a Grassi eram as encarroçadoras de maior destaque, ao lado de Nicola e Nielson entre os anos de 1950 e 1960 e seus produtos marcavam tendências.
Adamo Bazani, jornalista e pesquisador.

1 comentário em Carrocerias Cardoso: tudo na medida certa

  1. willian fernandes // 8 de Janeiro de 2011 às 01:06 // Responder

    Interessante o comentário sobre as adaptações.
    Lembro me que a Viação Santos-Saó Vicente teve vários Gabriela ll com motor traseiro, e eu gostava de andar neles, gostava do som do motor traseiro …
    Pelo que eu lembro, eles devem ter circulado até 1982. Porque tempos depois estes mesmos veiculos com motor traseiro voltaram as ruas com motor dianteiro. Uma lembrança que tenho destes onibus era na caixa das valvulas de ar que abriam as portas, que ficavam a esquerda do motorista, onde haviam as duas chaves de abrir as portas e os botoes dos limpadores de parabrisas, havia em relevo o logotipo da Viação santos São Vicente com o nome GRUPO VIAÇÃO . Achava interessante essa ”personalização” coisa rara nos onibus de hoje que parecem todos iguais …

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