E os Expressos viram Cometas …

O famoso Verde e Amarelão vai aos poucos deixando as paisagens entre São Paulo, Mogi, ABC e Litoral Sul num exemplo de concnetração cada vez maior no mercado de transportes de passageiros. O 8254 da Cometa já foi o 809 da Expresso

Ex 821 da Expresso Brasileiro agora é o 8260 da Cometa


O número de veículos da Expresso Brasileiro com pintura da Cometa aumentou e veículos já movimentam Terminal que dá acesso para o Litoral de São Paulo.

ADAMO BAZANI – CBN
A negociação que mexeu com o mercado de transportes rodoviários em 2009 ainda gera muitos comentários.
Foi a compra realizada pela Viação Cometa das linhas litorâneas e do Interior Paulista operadas pela Expresso Brasileiro Viação Ltda.
Não só os valores que chamaram a atenção: apesar de nenhum número ter sido divulgado oficialmente, mas o fato de duas empresas tradicionalíssimas, que já foram concorrentes ferrenhas pertencerem agora ao mesmo grupo, o JCA, que em 2002 adquiriu a Viação Cometa, sonha antigo do fundador do Grupo, Jelson da Costa Antunes, que começou nos transportes nos anos de 1940 e fez sua primeira grande aquisição, a Auto Viação 1001, nos anos de 1960.
E é dos anos de 1940 que remota a origem das duas empresas de ônibus: Viação Cometa e Expresso Brasileiro Viação.
A Cometa foi criada pelo italiano Major Tito Masciolli, no ano de 1948. Em 1947, sua empresa urbana na Capital Paulista, a Auto Viação Jabaquara, criada para ajudar lotear o bairro do mesmo nome, é encampada pela recém criada CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos, que visava reorganizar o sistema de transportes de São Paulo.
Masciolli não desistiu e investiu naquele mesmo ano na Auto Viação São Paulo – Santos, empresa criada em 1943 e que tinha uma estrela em forma de cometa como símbolo.
Em 1948, a São Paulo – Santos se tornaria Cometa.
Já a história da Expresso Brasileiro começa em 1941, quando o investidor espanhol, Manoel Diegues, funda a empresa, para fazer ligações entre São Paulo e Rio de Janeiro e entre a Capital e o ABC Paulista até o Litoral Sul do Estado.
A briga entre Expresso e Cometa guarda vários episódios em diferentes momentos.
Um dos mais emblemáticos, nos anos de 1950, foi quando a Expresso Brasileiro importou dos Estados Unidos um lote de Flxible para operar na linha Rio – São Paulo. Os ônibus foram chamados de Diplomatas.
A importação ocorreu em 1956. Era uma resposta para a importação de GMPDs Coachs 4104 que a Viação Cometa fez em 1954 justamente para a linha Rio – São Paulo.
Acontece que, por motivos ainda não convincentes, os ônibus da Expresso Brasileiro ficaram quase dois anos parados na Alfândega. Praticamente apodrecendo.
Problemas de documentação foram alegados na época.
Mas há historiadores que garantem que foi uma sabotagem orquestrada pelo Major Tito Marciolli para prejudicar a concorrência.
Enquanto sua Cometa voava com ônibus novos e importados, a Expresso tinha de operar com ônibus nacionais comuns, enquanto tinha novinhos embargados no porto.
Sabotagem ou não, o fato é que Manoel Diegues foi profundamente prejudicado com o embargo.
Perdia a preferência dos passageiros, tinha de operar com frota reduzida, pois foi obrigado a vender alguns ônibus para comprar os Flxible e ainda via sendo literalmente corroído o alto investimento que fez para a compra desses ônibus novos.
O baque foi tão grande que Diegues teve de vender a Expresso Brasileiro, em 1966. A família Romano era a nova dona, tradicional em transportes urbanos na Capital Paulista e na região do ABC, tendo até mesmo a fábrica Carrocerias Romano.
Mas o mundo dá voltas. E as rivais trabalharam juntinhas quando em 1985 foi criada a Ponte Rodoviária Rio São Paulo.
Isso porque, até 1979, o mercado estava estabilizado. A Cometa em primeiro, confortavelmente, a Expresso Brasileiro em segundo lugar na participação do número de passageiros e viagens e a Única, que era do Grupo da encarroçadora Caio.
Mas neste ano, uma gigante no setor comprou a única: a Viação Itapemirim.
Essa sim, poderia tirar esse conforto do mercado e a hegemonia da Cometa.
O que fez a empresa da família Mascioli?
Se fortaleceu, é claro, mas fortaleceu sua concorrente e segunda colocada, Expresso Brasileiro.
O motivo era simples e foi uma das maiores jogadas da história.
É melhor fortalecer a segunda a um ponto que ela não ultrapasse a primeira, mas de forma que ela seja uma barreira forte para não deixar que a terceira cresça.
Enquanto a Itapemirim apresentava os inovadores Tribus, a Cometa seguia firme aperfeiçoando seus Dinossauros e depois Flechas, com cara de gringo, e forneceu 50 chassis BR 116, de forma facilitada, para os Tribus da Itapemirim não serem mais ainda a sensação do mercado.
Isso é prova de que há muito tempo, passageiro liga sim para modelo de ônibus. Ele não pode muitas vezes saber qual o modelo, mas sabe qual é o mais confortável, rápido e bonito, já que estatísticas comprovam que as pessoas ligam sim para se o ônibus é feio ou bonito.
Claro que horários cumpridos, preços e disponibilidade de viagens ainda são os itens preferenciais dos passageiros.
Outras voltas foram dadas e milhões de quilômetros percorridos até que as duas familiares e tradicionais empresas fossem de um dono só. Com a 1001, o Grupo JCA, mesmo não formalmente fazendo parte da Ponte Rio – São Paulo conquistou os passageiros. Com os ônibus saindo de Niterói, a empresa chegava a São Paulo mais rapidamente, pelo sistema non stop, no qual a viagem tem poucas ou nenhuma parada.
É uma atitude polêmica, já que é ilegal, perigoso e desgastante para o motorista dirigir 6 horas consecutivas.
Vale lembrar que a ligação Rio – São Paulo, atualmente, ainda pertence a família tradicional da Expresso Brasileiro.
A maior parte das linhas, as interioranas e as litorâneas que desde dezembro de 2009 são da Cometa, indicando concentração de mercado.
Neste final de 2010, é possível ver vários ex Expressos já com a pintura da Cometa.
Flagramos os modelos Paradiso 1200 HD, Mercedes Benz O 500 RS com os seguintes prefixos:
O 8254 que era 809 da Express e o 8260 que era o 821 Expresso Brasileiro.
Sinais dos tempos nos quais poucos empresários de ônibus se tornam cada vez mais fortes.
Os Amarelões e Verdes da Expresso ficarão raros até desaparecer. A pintura tradicional da Expresso Brasileiro dá lugar à pintura da Cometa, que de tradicional também, só tem o nome.
Adamo Bazani, jornalista e já saudosista, mas que respeita a nova ordem econômica.

2 comentários em E os Expressos viram Cometas …

  1. Adamo,

    Vejo que bastaram algumas aulas e sua habilidade para dirigir esta maravilha logo se destacou. Refiro-me ao seu blog, claro, não aos ônibus. Para estes, dizem os mais próximos, você ainda é braço duro.

    Abraços e parabéns

  2. Realmente é incrivel esta estória que vc contou, Adamo.
    Eu não sabia que existiu este complô na década de 1950 para que a EB não colocasse carros novos para concorrer com os Twin da Cometa…..
    Parabéns pelo seu vasto conhecimento…

    Em tempo: morro de saudades dos já praticamente falecidos Flechas da Cometa.

    Novos tempos. Novos rumos. Abraços

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: