VVR: o encontro de personagens, sonhos e emoções

Jovens entusiastas pelos transportes e admiradores antigos se uniram em evento único em São Paulo em celebração à memória não só da locomoção dos brasileiros, mas do dia a dia dos cidadãos.

Pesquisador e colecionar Salomão Golandisk ensina os mais jovens no gosto

Olhares cheios de experiência e histórias cruzavam com jovens olhares de admiração e entusiasmo. Viver, Ver e Rever: tais olhares comprovaram a que veio a exposição, realizada pelo Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro e patrocinada pela Mercedes Benz do Brasil.

Despertar um sentimento todo especial nas pessoas que Vivem aquele momento ao Verem muitas vezes as próprias histórias pessoais, fazendo com que elas possam Rever o presente pelo estudo, lembrança ou conhecimento inédito da rica história dos transportes coletivos, reflexo e participante ativa nas diferentes conjunturas econômicas, sociais e políticas do País.

O entusiasmo dos jovens empolgava, mas era a experiência e sabedoria dos mais antigos (porque quem consegue entender e reviver o passado de maneira diferente a cada reflexão não é velho) é que se destacavam no maior encontro da história do setor, no País, que é realizado uma vez por ano (por dois dias) no Memorial da América Latina, na Barra Funda, zona Oeste de São Paulo.

Um dos personagens que a reportagem conheceu na VVR foi o colecionar, historiador e busólogo, Salomão Golandski, que veio especialmente da região de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, para a exposição na Capital Paulista.
Com 62 anos de idade, Salomão cultiva o gosto pelos transportes desde quando tinha 7 anos de idade, quando viajava nos ônibus e em sonhos da Porto Alegre de 1955.

Inicialmente ele começou a gostar da parte mecânica dos ônibus, principalmente dos importados da França e dos Estados Unidos.

Se hoje o Brasil é um dos principais fabricantes de ônibus, que exporta para boa parte do mundo, anteriormente era o País que importava veículos completos ou chassis.

Este Caio Alpha era da Viação Cidade Tiradentes, do Consórcio Aricanduva que servia São Mateus e região

Busólogo, Internet, OFs, EODs. Blogs, Fotologs, Máquinas Digitais, Comunidades do Orkut, Listas de Discussão…Salomão sequer imaginaria que esses termos poderiam existir..O que ele gostava (e gosta) é de ônibus e pessoas.

E esse gosto foi aumentando com o tempo.

Em 1959, essa paixão ganha um ingrediente especial: uma novidade que mudou a história dos transportes do Brasil e também aos poucos conduzira a de Salomão.

Foi a entrada dos Monoblocos O 321, lançados pela Mercedes Benz um ano antes, em 1958, que implementaria no País de maneira mais firme e definitiva o conceito de ônibus verdadeiro. Tratava-se de um veículo formado por uma peça, ou um bloco só, um Monobloco mesmo, que integrava num mesmo conjunto motor, chassi e carroceria.

A novidade chegava a Porto Alegre. E Salomão relembra esta compra dos Monoblocos para Porto Alegre, como se ela tivesse ocorrido minutos antes da entrevista.

“Em 1959, a Prefeitura (de Porto Alegre) encomendou 20 monoblocos. Eram novíssimos e isso me empolgou muito. Fazia questão de andar nestes ônibus e puxar papo com os motoristas” – conta o sempre jovem Salomão.

Em 1965, fez amizade com um engenheiro da Secretaria dos Transportes de Porto Alegre. Foi a oportunidade para ampliar seus conhecimentos, cultivas a paixão pelo ir e vir das pessoas, e também para conhecer as linhas da cidade.
“Aos sábados eu passava o dia inteiro passeando nas linhas. O pessoal me chamava de louco. Mas e daí, eu gostava e sempre vou gostar. Mas esta difícil, encontrar alguém com os mesmos gostos. Na verdade, percebia que muita gente tinha admiração pelos ônibus, mas não falava. Parecia algo subversivo” – explica Salomão.

Mas as dificuldades, as críticas e sobretudo a falta de alguém para trocar uma idéia fizeram que a partir de 1972, Salomão se desinteressasse.
Apesar de gostar de história, busólogo que é busólgo curte mesmo uma novidade.

E foram as mudanças nos transportes portoalegrenses que fizeram com que a paixão de Salomão, que na verdade não tinha acabado, só esperava por uma oportunidade para ser despertada, viesse à tona.

O governo municipal de Porto Alegre era de Olívio Dutra, em 1989, que a exemplo de outras administrações petistas, como de São Paulo, Campinas, Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema, decidiu pela “municipalização” dos transportes.

Novos carros, reformulação das linhas, novas pinturas e um contexto político recheado de idéias no mínimo inovadores, que ao passar do tempo provaram que eram apenas idéias ou boas iniciativas que foram prejudicadas pelos vícios das máquinas públicas, como cabides de emprego, gastos não planejados e superiores às receitas e pura incompetência de gestão. A maioria das municipalizações caiu por terra. Mas o momento serviu de reflexão e estudo.

Luxuoso Cadillac desfila e brilha entre os gigantes da exposição

E quem gosta de ônibus não apenas como máquina, olhando para o que ele realmente é, um condutor do progresso e um termômetro das diferentes épocas do País, as municpalizações foram um prato cheio para estudar, acompanhar os vários exemplos de outras regiões.

E Salomão aproveitou esta época para não mais parar.

Em 2003, teve os primeiros contatos com a Internet e descobriu que a ferramenta era uma rede mesmo.

Os primeiros busólgos, quase nunca usando este termo, começavam timidamente a postar uma ou outra foto, a comentar nomes de modelos e linhas de ônibus. Até que os admiradores pelos gigantes das cidades se identificassem.

O interessante é que muitas pessoas se conheciam antes, do bairro, da escola, mas só souberam do gosto uma das outras depois da Internet. E a ferramenta auxiliou as pesquisas de Salomão, detentor de um dos maiores acervos de fotos antigas e dono de um profundo conhecimento sobre marcas, modelos, evolução industrial e sistemas de planejamentos. Ele, no entanto, é prova de que o computador facilita as coisas, porém, elas devem vir de um propósito e do coração.

Salomão despertava uma paixão por transportes e pessoas antes mesmo de alguém imaginar que as casas tivessem processadores de dados particulares.
E é isso que deve ser a informática. Um meio e não o principal elemento da criação e do gosto humano.

PARA TODOS OS GOSTOS

Um dos destaques na parte sobre os caminhões: Um AuTo Bomba de 1920.

Engana-se quem pensa que um evento como a VVR só tem ônibus antigos.
É um passeio pela história e, apesar de a temática principal ser os transportes coletivos, nessa viagem é possível conhecer caminhões que marcaram época e até carros de passeio.

A mostra dos caminhões neste ano foi um espetáculo a parte, mostrou relíquias importadas e nacionais que marcaram diferentes épocas nos transportes de cargas e na prestação de serviços no Brasil. Um dos destaques sem dúvida é uma unidade de combate a incêndio dos Bombeiros de São Paulo de 1920.

Para quem gosta de carros, alguns modelos desfilam pelo Memorial da América Latina, na Barra Funda, como um imponente Cadilac branco, que trafegava entre os gigantes.

E como ônibus também é cultura, várias miniaturas artesanais, fotos das mais diversas épocas e uma vasta literatura brindam o evento.

Além do passado, o contemporâneo e o futuro são assuntos da VVR que enxerga pelo retrovisor sem deixar de estar com os olhos atentos no caminho à frente que surge pelo para-brisa.

Mas este assunto fica para a nossa próxima conversa…

5 comentários em VVR: o encontro de personagens, sonhos e emoções

  1. Caio, simplesmente demais, lindos.
    abraços
    DS

  2. Gostaria de parabenizar toda equipe que de maneira direta ou indireta, produziram mais uma exposição de carros “Antigos”, a VVR que mostrou a qualidade e a seriedade de um trabalho bém feito, com homens e mulheres que sem sombra de dúvida, não pouparam esforços para que esse evento fosse um sucesso. Essa foi a segunda vez, que saio do Rio de janeiro, para ir a São Paulo (Memorial da América Latina) para prestigiar esse maravilhoso evento; e aproveitando a oportunidade parabenizo também o nosso Salomão por sua entrevista, tive aportunidade de conhecê-lo no evento, ele é uma verdadeira biblioteca sobre pernas de homen.

  3. sonia regina martins ferreira // 7 de dezembro de 2010 às 18:38 // Responder

    nossa muito legal ,mas quero te pedir desculpas , pois esqueci desse evento copletamente estive pensando esses dias ,quando seria , desculpe mesmo Caio abraços Sonia Regina M Ferreira

  4. Qunado recebi o Primeiro Contato de Voces, vi logo que me identificaria com o assunto.
    Tal qual a Salomão, nos idos de 1959, Eu até chegava a “cabular” aulas no primário para passear de ônibus, (morava na Vila Mariana SP.Capital), adorava ver paisagens, ruas, avenidas pessoas, utilizava muito a linha 109 da CMTC e a linda do Bonde Estação Vila Mariana, e de lá ia para Sto.Amaro, Pça.João Mendes, Jabaquara, Lgo.do Cambuci, um dia percebi que poderia ir mais longe e desviar do trajeto, e ao chegar na Pça.João Mendes, tomei a linha Penha/Lapa, que na época era a mais longa e quando me dei por mim la Eu estava na Penha, percurso de mais ou menos 1h30′, e vi muitas coisas novas, não me afastei muito do local (Ponto Final) e depois de algum tempo apanhei o mesmo ônibus para voltar a Pça.João Mendes, fui acordar no bairro da Lapa, quer dizer… o Juizado de Menores me acordou, fizeram meus irmãos mais velhos irem me buscar na Delegacia de Policia da Guarda Civíl no bairro do Mercado da Lapa, foi quando levei a primeira “coça” para nunca mais esquecer, então logo em l960 me empreitei a outro intinerário o de “carona” e fui parar em Ourinhos, mal sabia a distancia e a localidade (tinha uma Irmã que Morava lá, e seria muito fácil me encontrar com Ela, pois sabia que tinha uma banca na Rodoviária) quanto engano…
    Esta viagem foi atravéz de um Camioneiro que se chamava Saulo com um possante F-600 que transportava fardos de roupas e retornava com fardos de algodão.
    Mais uma vêz o Juizado me abordou na cidade e tive novamente que passar uns mal momentos, nova “coça”, como era dificil o retorno, por lá fiquei muito tempo, estudei, trabalhei, a aprendi a vida dos “caminhos”.
    Hoje sou dono do meu próprio transporte e curto muito esta profissão, pois foi dela que me casei, formei família, me aposentei, e ainda continuo caminhando nesta vida.
    Conhecimento de veículos tenho muito, vivência nem comentar, já fui Motorista de Onibus, Taxi, Camioneiro, Carreteiro, Condutor de bi-trens, Motorneiro, Maquinista, Charreteiro, Guardador, Manobrista, Lavador de Autos, Ajudante de Mecânica, nossa, falei demais.
    Noutra oportunidade conto outra página de Minha Vida.

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