Um século de transportes, 100 anos de dedicação ao ser humano

 

Família Setti & Braga comemora 100 anos de transportes no País. Com negócios concentrados no ABC Paulista, é um dos grupos mais antigos do setor na América Latina. O Grupo da Auto Viação ABC prova que o conceito empresa- família é viável e se modernizou

João Antônio Setti Braga recebe cumprimentos pelo centenário da empresa

Com os olhos cheios de lágrimas, tons de voz que mesclavam recordações de bons momentos, mas de tempos difíceis também. O ar de vitória nas palavras convivendo com uma das mais incontestáveis realidades de que enquanto há vida, as batalhas jamais acabam.

Foi desta maneira que discursaram os atuais responsáveis pelo Grupo ABC, João Antônio Setti Braga e a irmão Maria Beatriz Setti Braga, num evento para celebrar os 100 anos de atuação da Família Setti & Braga, no setor de transportes. A cerimônia ocorreu neste sábado, dia 6 de novembro, no Espaço Anchieta, Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo.

E não era pra menos. Um século guarda muitos acontecimentos, mas acima de tudo, relacionadas a estes acontecimentos, há muitas emoções que são geradas e que marcam um período de 100 anos.

Quando se pensa em empresa, logo vêm à mente negócios. Mas por trás dos negócios há vidas. Principalmente num setor tão presente no dia a dia da vida das pessoas, como é o de transportes coletivos.

Uma das dezenas miniaturas expostas no evento, pertencentes ao acerco histórico da famílai Setti e Braga e da Auto Viação ABC

Miniatura de ônibus do acervo da família Setti & Braga

No Brasil, a mudança do perfil agrário para o urbano no Sudeste, em diferentes épocas e proporções, com destaque para os anos de 1920, 1950 e de 1980. A República, que não tinha ainda nem 21 anos quando a família começou. A Política do Café com Leite, quando os poderes político e econômico no Brasil eram revezados por Minas Gerais e São Paulo, o Estado Novo, a Revolução Constitucionalista, o Brasil Bossa Nova e a Industrialização e Urbanização do Perídio Juscelino Kubitscheck, os anos de chumbo da Ditadura Militar, a luta pela democracia, a possibilidade de escolher de novo os representantes, a decepção com o poder político desde a era Collor, a política com transtorno bi-polar, dividida entre PT e PSDB.

O café que ainda era o principal produto da economia brasileira, mas já perdia espaço para os primeiros sinais de urbanização, mesmo que tímidos. A ferrovia cortando o Brasil e a São Paulo Railway, ou simplesmente a Inglesa, fazendo com quer o ABC Paulista se tornasse uma das áreas mais prósperas do País.

A formação dos primeiros bairros e a criação das primeiras avenidas de São Bernardo, que abrigava todo o ABC. A posterior luta pela emancipação dos municípios. As plantações de batata e cebola na região, dando lugar a industria, primeiro a moveleira, em seguida, a gigante automobilística. A necessidade por um sistema mais eficiente de deslocamento mediante uma população maior, em número e em ocupação das áreas nas cidades. O Milagre Econômico, a Inflação que crescia e assustava. Os custos para operar ônibus que, nos anos de 1970 e 1980, superavam a arrecadação das tarifas, que por sua vez, superavam o ritmo de crescimento dos salários dos trabalhadores, que por sua vez deixavam de usar transporte público, que por sua vez, via seus ganhos caírem ainda mais. O sindicalismo, a estabilização da moeda, conceitos de transportar na região diferentes dos tradicionais. Muitos transportadores não sobreviveram a estas fases, mas a Família Setti & Braga conseguiu superar tudo isso.

Réplica em tamanho original de um Tílburi, espécie de carruagem

As guerras mundiais que afetavam os transportes, principalmente na dificuldade de se importar peças e a escassez de combustível, obrigando soluções não muito salubres, mas necessários como o uso do gasogênio (combustível pobre obtido pela queima de carvão ou madeira numa câmara na traseira do ônibus).

Os Setti & Braga passaram por tudo isso e muito mais.

Quando se fala em pioneiros dos transportes logo se pensa nos investidores que se dispunham de tempo, coragem e amor para operar as rústicas jardineiras, ônibus de madeira, normalmente feitos em oficinas caseiras, sobre chassis de caminhão.

E é verdade, muitos dos pioneiros tiveram esse início.

Mas a saga nos transportes da Família Setti & Braga começou antes do uso do ônibus na região.

Foi em 1910, quando Adelelmo Setti e o filho João Setti começaram a ligar a Villa de São Bernardo (correspondente à região central da cidade) a estação de São Bernardo (hoje a Estação de Trens da CPTM de Santo André).

O serviço era feito num tílburi da Inglaterra, construído no final do século XIX. Era uma carruagem puxada por dois cavalos, que tinha lanternas como faróis.

A necessidade de transportes internos na região logo foi percebida pela família que presenciava os sinais de urbanização devido à chegada da ferrovia.

A demanda de passageiros crescia na proporção que a área de São Bernardo se tornava mais populosa.

A família, visionária, antevendo a necessidade de transporte mais rápido, adere a motorização dos transportes públicos. Em 1920, João Setti compra um Chevrolet Romana e começa a trabalhar com ele como carro de aluguel. Mas a população precisava de um veículo com maior capacidade de transporte. Por isso que em 1925, a família investe na primeira jardineira, e faz a primeira linha regular de ônibus entre a atual Santo André e São Bernardo do Campo, constituindo o primeiro grupo empresarial do setor na Grande São Paulo. Realmente, pioneirismo é uma das marcas da família Setti & Braga.

Adiantando um pouco no tempo, para se ter uma idéia, foi da família o investimento e a criação do primeiro ônibus elétrico híbrido do País (que funciona com diesel até determinada rotação do motor, depois acionando a tração elétrica). Esse primeiro ônibus elétrico híbrido do Brasil também foi o primeiro ônibus deste tipo a rodar comercialmente no mundo, em 1999. Quer ainda mais pioneirismo? A Família foi a primeira (e a ainda permanece) a operar o primeiro corredor segregado de trólebus metropolitano da Grande São Paulo.

Não basta, no entanto, ser o primeiro, é necessário permanecer. E para isso, só o dinheiro não é suficiente numa empresa.

Ser apenas uma razão social, não é o bastante para manter um empreendimento. É necessário ter amor, carinho, espírito de união, comprometimento e valorização ao ser humano.
Num mundo com os valores tão desvirtuados, esse discurso pode soar como demagogia e até utopia.

Mas a história da família Setti & Braga mostra que, apesar de estarem sufocados pela malícia, egoísmo e falta de ética crescentes nos dias atuais, estes valores são reais e demasiadamente importantes.

E a família é ainda o alicerce para tais virtudes.

A luta da Família Setti & Braga para iniciar, se firmar, conquistar e superar os desafios do mercado tem como um dos seus maiores símbolos os pioneiros do Grupo da Auto Viação ABC. Homens e mulheres. Pessoas experientes e as mais jovens, faziam de tudo, desde limpar os veículos até gerir o negócio.

Maria Luiza Zaparolli Setti e a filha Maria Myrths Setti Braga faziam de tudo. A mãe com balde escovão limpava as jardineiras e a filha contava a arrecadação do dia.

Outras famílias de pioneiros que atuaram com o Setti & Braga também merecem citação: Pinitti, Maranesi, Tosi , Romano…

Todas nesta mesma filosofia: trabalho duro no qual todos faziam tudo.

O empreendedor José Fernando Medina Braga casa-se com a bela Maria Myrths.
Esse lado de empreendedorismo e visão, numa ABC que recebia os maiores investimentos na indústria automobilística, percebeu que a expansão econômica e populacional exigia uma ampliação no negócio dos transportes e a consolidação de uma marca.

Repórter ao lado empresas e modelos que marcaram sua vida

Em 1956, era criada por José Fernando Medina Braga e João Setti a Auto Viação ABC.
E realmente a empresa é uma marca nos transportes na região. Não somente por ostentar as siglas que representam as três primeiras cidades, mas por desbravá-la, abrir avenidas onde havia apenas caminhos de terra, bairros, onde havia apenas terrenos, plantações, pouca casa ou vegetação.

E também por ser uma empresa que ainda preserva seu nome, seu bom nome. Os moradores do ABC e Capital perceberam já que repentinamente, uma empresa de ônibus tradicional desaparece e com os mesmos carros, funcionários, garagem, etc, surgem com outros nomes.

Quando se faz uma pesquisa breve, o que se encontra em alguns casos é que por conta de débitos fiscais altíssimos, pendências judiciais, entre outros problemas, para participar de determinada licitação, o grupo empresarial desaparece com uma determinada viação e surge com outra.

Quantas empresas tinham nomes de destaque, mas foram degradadas e seus nomes deixam saudades.

Mas com a ABC, o prezar pelo bom nome é um reflexo de pensar na ética e na imagem, ou seja, trabalhar de forma limpa para o principal cliente, a população.

São poucas as empresas de ônibus urbanos que mantém um nome por tanto tempo.

E assim como as famílias têm filhos que crescem e se desenvolvem, ficando maiores que os pais, assim foi com a Auto Viação ABC.

Dela surgiram empresas de destaque no setor de transportes, como a Metra (Sistema Metropolitano de Transportes Ltda), que opera o corredor ABD, de trólebus. Antes mesmo da criação da Metra, o grupo já atuava quando os servfiços fora iniciados com a marca do Metrô, participando pelo consórcio de empresários Inter-Três, formado pela Viação ABC e Viações Diadema e Santa Rita, de outros empreendedores.

Do grupo ABC, faz parte o Consórcio operador dos transportes municipais de São Bernardo do Campo – SBC Trans.

Apesar de ser relativamente novo, dos anos de 1990, o SBCTrans mantém também uma estrutura voltada para a família. Um dos seus responsáveis é José Romano Netto, o Zeca, de uma das famílias mais respeitadas e tradicionais do setor.

O lado familiar não significa aversão à tecnologia, como muitos pensam, de maneira errada. Ônibus híbridos, trólebus modernos de corrente alternada que permitem o uso de eixos de tração nacionais barateando os veículos de tecnologia 100 % limpa e a manutenção, são frutos de trabalho e inovação da Eletra, fabricante nacional de ônibus e sistemas de transportes públicos não poluentes, que deixa o Brasil no exterior em posição de destaque quando o assunto é inovação, inclusive exportando os equipamentos dos trólebus que são feitos no Brasil.

Este repórter teve a oportunidade de participar não somente de uma festa, mas de um evento, de um marco. Participaram autoridades políticas, de vários setores econômicos, funcionários de diversas áreas e funções, como motoristas, mecânicos de tradição do grupo, como o senhor Laudelino e o senhor Eliziário, pessoas de destaque no jornalismo histórico, como o respeitado repórter Ademir Médici, que graças a seu trabalho, muito da memória do ABC não se perdeu, e não somente empresários de ônibus, mas uma família, que nos discursos emocionados, passavam emoção e também verdade.

Muitas foram as dificuldades da família: as municipalizações que prejudicaram os negócios de outras empresas que o Grupo ABC mantinha, como a Viação Cacique (extinta) e a Alpina (que deixou de circular em Santo André no início dos anos de 1990, com a criação da Empresa Pública dd Transportes, privatizada pouco tempo depois, as guerras mundiais, os barro e a lama, o enfrentamento de crises locais, como de tudo o que ocorreu em casos como de Celso Daniel, quando João Antônio Setti Braga teve coragem e postura de esclarecer muitas dúvidas. Porém momentos de alegrias e conquistas marcaram a e vão marcar a família.

O jornalismo prima pela isenção e imparcialidade. E é isso que fazemos aqui neste espaço. Mas isenção e imparcialidade não significam que o jornalista só deve apresentar problemas e deixar os bons exemplos de lado.

Como busólogo, jornalista, usuário e morador há mais de 30 anos do ABC, posso falar sem medos: que bom seria se outras empresas seguissem o exemplo da ABC e da Família Setti & Braga. Que venham mais 100 anos.

5 comentários em Um século de transportes, 100 anos de dedicação ao ser humano

  1. FANTÁSTICA A REPORTAGEM. DE FATO, A AUTO VIAÇÃO ABC É REFERÊNCIA NOS TRANSPORTES PÚBLICOS DO ABC. DESDE SUA LINHA PIONEIRA, A SÃO BERNARDO – SANTO ANDRÉ, PASSANDO PELAS LINHAS DE ÉPOCA (ALÉM DESSA, A SÃO BERNARDO – SANTO ANDRÉ via Gilda – Baeta, BEM COMO A VILA GILDA – UTINGA, ATÉ O MOMENTO ATUAL, COM VÁRIAS LINHAS SERVINDO A POPULAÇÃO, INCLUSIVE ATUANDO PELA RUA CARIJÓS E PELA ESTRADA DOS VIANAS, ALGO IMPENSÁVEL ANOS ATRÁS, POIS ERA TUDO terra. ESTÁ DE PARABÉNS A FAMÍLIA SETTI BRAGA. SÓ A LAMENTAR ESSA PADRONIZAÇÃO VISUAL TERRÍVEL DA EMTU, QUE DESFIGURA OS ÔNIBUS DA EMPRESA, PREJUDICANDO DIRETAMENTE SEUS CLIENTES, IMPEDINDO QUE O EMPRESÁRIO BUSQUE NA PADRONIZAÇÃO VISUAL FORMAS DE FINCAR SUA IMAGEM NA MENTE DOS CLIENTES E FAZENDO AINDA COM QUE O EMPRESÁRIO GASTE MAIS COM COMBUSTÍVEL, PNEUS E FREIOS, JÁ QUE O USUÁRIO TENDE A SE CONFUNDIR COM A PADRONIZAÇÃO DE TODOS OS ÔNIBUS. AINDA BEM QUE ELES MANTÉM AINDA ALGUNS VITÓRIAS E ALPHAS NAS CORES VERMELHA E BRANCA, ESSAS SIM, REPRESENTANDO A VERDADEIRA AUTO VIAÇÃO ABC. MARIO CUSTÓDIO

  2. Matéria linda. Parabéns para o autor e especialmente aos protagonistas, toda a família centenária.

  3. PARABÉNS À FAMILIA SETTI BRAGA, É UMA FAMILIA QUE ALÉM DE PIONEIRA E DESBRAVADORA, É UMA FAMILIA QUE SEMPRE TEVE VISÃO EMPREENDEDORA E DE FUTURO, E ESTE É O SUCESSO DOS 100 ANOS DO GRUPO ABC. QUE O EXEMPLO SEJA SEGUIDO POR OUTROS GRUPOS EMPRESARIAIS, E COMO DISSE MEU AMIGO ADAMO, QUE VENHAM MAIS 100 ANOS. APROVEITO E AGRADEÇO A ATENÇÃO QUE O GRUPO ABC TEM DISPENSADO AOS TROLEBUS, POIS SÓ UMA EMPRESA MODERNA E DE VISÃO QUE PODE PENSAR EM VEICULOS SUSTENTAVEIS.

  4. Tive, como nosso amigo Adamo, a felicidade de participar das comemorações pelos 100 anos das atividades da empresa. Nesse momento tão especial vendo toda a família reunida, em plena sintonia, e mais, junto a um grande número de convidados, funcionários inclusive também sendo homenageados, entende-se essa longa trajetória de muito trabalho e de muito sucesso: o respeito ao ser humano colocado junto aos objetivos empresariais.
    Percebemos que não há distinção entre patrões e empregados. Ambos os lados são trabalhadores empenhados em construírem melhores condições de vidas a todos, inclusive e principalmente ao público usuário de suas atividades.
    Amigos da “ABC”, quando pensávamos que já tínhamos aprendido tudo, vimos durante esse encontro que muito ainda temos que aprender e vocês nos mostraram isso. Muito agradecemos pela lição de vida e pelo convite que nos proporcionou crescer ainda mais.
    Kaio Castro – Presidente
    Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro

  5. Tive, como nosso amigo Adamo, a felicidade de participar das comemorações pelos 100 anos das atividades da empresa. Nesse momento tão especial vendo toda a família reunida, em plena sintonia, e mais, junto a um grande número de convidados, funcionários também sendo homenageados, entende-se essa longa trajetória de muito trabalho e de muito sucesso: o respeito ao ser humano colocado junto aos objetivos empresariais.
    Percebemos que não há distinção entre patrões e empregados. Ambos os lados são trabalhadores empenhados em construírem melhores condições de vidas a todos, inclusive e principalmente ao público usuário de suas atividades.
    Amigos da “ABC”, quando pensávamos que já tínhamos aprendido tudo, vimos durante esse encontro que muito ainda temos que aprender e vocês nos mostraram isso. Muito agradecemos pela lição de vida e pelo convite que nos proporcionou crescer ainda mais.
    Kaio Castro – Presidente
    Primeiro Clube do Ônibus Antigo Brasileiro

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