“A estrada é um vício construtivo”

Texto escrito por Adamo Bazani e publicado, originalmente, no Blog do Mílton Jung, dia 28/10/2008

Paixão. É este o sentimento que o paulistano, nascido em Perdizes, que morou cerca de 40 anos no Jaçanã, zona Norte de São Paulo, demonstra quando o assunto é transporte de passageiro. Vitor Mattos, é motorista, e ainda trabalha no ramo. Transporta estudantes no próprio ônibus, em Minas Gerais.

Ele começou a trabalhar em uma Kombi, aos 13 anos, mesmo sem carteira de habilitação. Vitor diz que aprendeu a dirigir vendo os motoristas de ônibus da empresa paulistana Nações Unidas: “Eu sempre corria para os bancos (pós porta dianteira) e não tinha quem me tirasse de lá”. Os ônibus eram de direção dura ainda, Mercedes Benz, com carrocerias Bela Vista e Jaraguá .

O primeiro ônibus que Vitor conduziu foi por acaso. Era uma viagem do litoral de São Paulo à capital paulista. Ele recorda que o motorista na época, apelidado de gaúcho, tinha bebido demais e passou mal na estrada. Vitor não teve dúvidas: ”Assumi a direção e trouxe o ônibus até o planalto, ai o “óleo diesel” entrou no sangue e não saiu mais”.

Aos 18 anos, em 1977, começou a trabalhar na Turfe Turismo, uma pequena empresa de Guarulhos. A idade não era suficiente ainda para guiar ônibus rodoviário, mas na época, muitos motoristas de ônibus começavam cedo mesmo. A Turfe fazia linhas de fretamento em médias e curtas distâncias.

Mas o sonho de Vitor mesmo foi a estrada, onde ele construiu sua vida, aprendeu muita coisa e viu as cidades crescerem sob os possantes que dirigia. Conseguiu uma vaga na Expresso Brasileiro Viação, por onde passou várias vezes, e dirigiu os ônibus da Viação Impala, Andorinha, Cometa, gigantes no setor. Ele disse que era notória a diferença entre as empresas de grande porte e as menores. Nas grandes, o motorista apenas dirigia. Nas outras tinha de limpar, entender da manutenção, etc.

Diferente também era a rotina na estrada e na cidade.

“No serviço urbano, você tem um esforço físico e mental maior, mas está todos os dias em casa. No rodoviário, você trabalha com mais “luxo” se podemos dizer, mas ao mesmo tempo você trabalha muito a noite, e praticamente trabalhei a vida inteira a noite, até porque gosto de rodar a noite e os percursos são maiores e você praticamente fica um dia em casa e um fora ( dependo da linha) e os passageiros geralmente são “mais educados”.

“E no fretamento e turismo é um misto dos outros dois, porque de 2ªa 6ª é um serviço “urbano” melhorado e aos finais de semana se torna um “rodoviário” piorado, pois geralmente os passageiros vão bebendo, bagunçando, sujando o carro que, aliás, é o motorista que limpa na maioria das vezes, pra fazer a linha no outro dia cedo. Ou então faz viagens mais longas onde fica dias fora de casa, e servindo de guia turístico nas cidades que às vezes você não conhece ou mal conhece a entrada e saída”

A rota Rio-São Paulo foi uma das que mais percorreu na carreira. Foi nessa linha que viu coisas que jamais conheceria se não pegasse a estrada. Prá começar, Vitor viu tanto São Paulo como o Rio de Janeiro se transformarem muito rapidamente. Testemunhou a duplicação, reformas, asfaltamentos diversos em rodovias como a Presidente Dutra e Fernão Dias, quando os itinerários eram outros. Viu empresas do setor de transporte nascerem e desaparecerem, assim como empresas de outros ramos. Nos dias de chuva, a estrada era um perigo maior, ainda mais à noite. Com tristeza, Vitor lembra que muitos amigos perderam a vida em acidentes gravíssima, muitas vezes por imprudência e imperícia dos outros motoristas ou dos próprios condutores dos ônibus.

Na estrada, teve um contato muito maior com o semelhante. Ele explica que cada passageiro é uma história, que, de certa forma, ele participou. E era gente de todo o tipo. Pessoas grosseiras, outras tímidas, mas que, quando descobria quem era, até se espantava, pela importância social e ao mesmo tempo, humildade. Na época, mesmo já com a aviação, artistas, generais, empresários, usavam constantemente os ônibus nas ligações Rio -São Paulo. Ele lembra que teve de expulsar um famoso cantor dos anos 80 do ônibus, porque estava bêbado e incomodando os passageiros.

Mas a relação com os passageiros era uma das coisas que mais gosta e afirma enfaticamente que é o motorista quem faz o passageiro. Se o usuário encontra um motorista asseado, educado e disposto a esclarecer dúvidas e tratá-los bem, a relação é harmoniosa.

A relação mais próxima entre empresários e motoristas também desperta saudades em Vitor. Quando esteve na Cometa, ele lembra que um dos fundadores da empresa, Tito Masciolli, poderoso empresário do setor na época, e tratado pelos funcionários como Major Tito, parava os ônibus na porta da garagem para cumprimentar os motoristas. No entanto, Vitor Matos compreende que hoje há empresas dentro de empresas e que essa relação direta é quase impossível.

Um grande passo na carreira do motorista foi quando foi indicado para ser piloto de testes da Mercedes Benz do Brasil. Foi aí que sua habilidade em se relacionar com as pessoas se desenvolveu mais ainda. Lá, além de dirigir os ônibus e acompanhar a evolução tecnológica no setor, ele tinha de ensinar o consumidor final, motoristas e empresários a operar de melhor maneira os ônibus, que a partir dos anos 80, começaram a registrar um desenvolvimento tecnológico rápido. Desde o início do século passado até os anos 80, a tecnologia era muito restrita. Dirigir era uma arte difícil, os veículos não ofereciam o conformo necessário. Da década de 80 pra cá, houve um salto tecnológico e alguns modelos acabam sendo melhores pra dirigir que muitos carros de passeio de luxo.

Apesar de alguns ônibus do início e de meados do século passado não serem tão confortáveis, Vitor é enfático ao dizer: “Não existe ônibus ruim, o que existe é profissional mal preparado”.

Hoje, aposentado das empresas, Vitor tem seu próprio ônibus em Minas Gerais, e não pretende parar tão cedo, pois tudo o que conquistou na vida, foi graças ao diesel e aos milhares de quilômetros percorridos em grandes máquinas possantes de transportes de vidas. Tanto é que o experiente motorista não tem dúvidas em afirmar que: “A estrada” é um vício construtivo, pois a cada quilômetro rodado você aprende algo de bom ou de ruim, e cabe ao profissional discernir o que deve fazer ou agir.

Outra coisa era o glamour da rodoviária, se é que podemos dizer assim. Você chegando imponente com o “carrão”, os passageiros observando você manobrar devagar para encostar na plataforma, a postura de embarque, o trato com os passageiros, a saída devagar, fazendo “nana nenem” (andando devagarzinho) para que os passageiros se acomodassem e fossem ganhando “confiança em você”, a chegada lenta na Rodoviária e ao abrir a porta da cabine ver todos ainda ” dormindo” e ter a sensação de dever comprido e que “aqueles passageiros confiaram em você e dormiram a viagem toda’ praticamente entregando suas vidas nas mãos de um profissional.

1 comentário em “A estrada é um vício construtivo”

  1. Li seu Blog, e vc me fez lembrar …sera a mesma empresa Turfe do Sr. Manoel ?
    abraço

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