Lembranças recentes de um passado nebuloso

 

Várias nuvens pretas encobriram a luta pela melhoria dos transportes em São Paulo. Negociatas, postura de alguns empresários e desleixo do poder público impediram o desenvolvimento do setor

Toda a cidade que quer se desenvolver precisa de um sistema de transportes públicos eficientes. Isso não é conversa de busólogo, mas de especialistas e anseios do cidadão. É senso comum de que as frotas de carros de passeio chegarão a um ponto que serão maiores que os espaços disponíveis na cidade. Não basta criar novas avenidas, marginais e alargar ruas se o crescimento do número de carros for maior que o da cidade.

O ônibus, o trem e o metrô são muito mais que veículos. São meios de democratização do espaço público. Neles, o espaço ocupado pelo cidadão é mais racionalizado. Um ônibus, por exemplo transporta 70 pessoas, correspondente a uma média de 35 carros com só duas pessoas, ocupando o espaço de apenas 4 carros.

Parece óbvio o que escrevemos. Mas na prática, não há políticas públicas que realmente pareçam entender isso.

Se não bastasse a falta de política pública de transportes, que privilegiam os meios de deslocamento individuais, uma série de desmandos, jogo de interesses e desleixo tanto do empresariado, como do cidadão e dos órgãos públicos deixam a situação ruim, ainda pior.
Os transportes da cidade de São Paulo nunca foram adequadamente planejados para o crescimento do município. Quem diz isso é a própria história.

Os ônibus surgiram por serem o modal flexível para responder rapidamente a um crescimento acelerado que o poder público até sabia que poderia acontecer, mas não quis planejar, já nos anos de 1920. Diferentemente do que ocorreu em outros países. Por isso que as malhas metroviárias são adequadas nestes países e não em São Paulo. Porque o metrô exige uma intervenção maior: obras grandes, desapropriações e muito dinheiro empregado.

Na São Paulo dos anos 40 e dos anos 70, ainda havia espaço para isso. Hoje, obras metroviárias são mais caras, carecem mais mudanças, mais gente precisa ser retirada de suas casas e comércios e as intervenções se causam mais perigosas por conta disso. A tragédia da linha Amarela, na construção do Metrô Pinheiros, em janeiro de 2007, que custou a vida de sete pessoas não pode ser esquecida.

Não é ser contra o Metrô. A cidade precisa de transportes de grande demanda. Mas há lugares que não dá mais pra implementá-lo. A cidade perdeu tempo. Obras como VLT, aerotrem, monotrilho podem ser opção, mas há sempre a desconfiança de novos fura filas.

Os corredores e a modernização do sistema de ônibus são apontados como as soluções mais pé no chão. Mas a história dos transportes mostram fatos que atrapalharam e inutilizaram muitos dos pontos positivos que os ônibus trariam para a São Paulo, carente de transporte.

A foto é emblemática. No final dos anos de 1990, trata-se de um Caio Alpha, Mercedes Benz O 400 UPA, da Viação Campo Belo, do maior empresário da cidade, José Ruas Vaz. O motor está completamente desregulado e a imagem era comum nesta época. Apesar das tentativas de reorganização dos transportes com a “municipalização” de Luíza Erundina, em 1991, o sistema só caiu em decadência.

A privatização da CMTC por Paulo Maluf deu poder total ao empresário. O sucessor, Celso Pitta, teve outras prioridades, como remediar escândalos. Carrões como este da foto, mas totalmente mal conservados, quebras constantes e descumprimento de horários eram corriqueiros. Entrou Marta Suplicy. A frota foi renovada, com a saída de alguns empresários, mas a gestão dos transportes deixou a desejar. Isso sem contar dos perueiros que formaram frotas maiores que de muitas empresas sem os privilégios das cooperativas.

Atualmente, a pirotecnia dos transportes sobressai em relação a prática. Marginas são inauguradas inacabadas, mas os fretados não podem circular.

Nos transportes, nuvens pretas como estas, ainda precisam ser dissipadas.

1 comentário em Lembranças recentes de um passado nebuloso

  1. Aha! Então alguém se preocupa com a mudança nos transportes? Pena que não são as autoridades…
    Mas podemos mudar isso. É questão de nos organizarmos, cooptarmos a comunidade e partir pra briga.
    Nunca é tarde.

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