Fabricante brasileira apresentará em Antalya experiências de eletrificação, financiamento e implantação de sistemas de ônibus; entre avanços e dificuldades, projetos mostram que o Brasil tem tecnologia e conhecimento para ensinar ao mundo, além de aprender com outras nações
ADAMO BAZANI
O Brasil terá muito a aprender com as experiências internacionais de mobilidade sustentável durante a COP31, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada de 9 a 20 de novembro de 2026, em Antalya, na Turquia. Mas também terá muito a ensinar. Os exemplos de São Paulo (SP), São José dos Campos (SP) e Belém (PA), que adotaram modelos diferentes de implantação e financiamento de ônibus elétricos, estarão entre as experiências brasileiras apresentadas pela Eletra, fabricante nacional de veículos e tecnologias de tração elétrica. A diretora-presidente da companhia, Milena Braga Romano, participará de debates internacionais para mostrar como a indústria, os operadores, os governos e as instituições financeiras podem atuar na transição energética do transporte coletivo.
O Diário do Transporte realizará cobertura jornalística presencial da COP31, acompanhando os debates, as novas tecnologias e as propostas de financiamento da mobilidade sustentável. A presença da Eletra representa uma oportunidade para o Brasil apresentar não apenas ônibus fabricados no País, mas também soluções desenvolvidas a partir da realidade das cidades brasileiras, com seus diferentes desafios de infraestrutura, topografia, clima, demanda de passageiros e capacidade de investimento. A participação ganha importância em um momento de expansão da indústria nacional, mas também de dificuldades que precisam ser enfrentadas para que a eletrificação avance, como atrasos em projetos, limitações das redes de energia, custos iniciais elevados e necessidade de melhorar a infraestrutura para os transportes.
A conferência ocorrerá um ano depois da COP30, realizada em Belém, quando a eletrificação do transporte coletivo brasileiro ganhou projeção internacional, inclusive com ônibus da Eletra utilizados nos deslocamentos de participantes do evento.
Na ocasião, o Diário do Transporte acompanhou presencialmente a operação do BRT Metropolitano, conheceu veículos e sistemas de transporte e entrevistou autoridades, fabricantes e representantes de instituições nacionais e estrangeiras.
A experiência demonstrou que a descarbonização precisa estar associada à melhoria concreta dos deslocamentos. Um ônibus pode utilizar uma tecnologia ambientalmente avançada, mas a qualidade do transporte também depende das condições das vias, das estações, da frequência dos serviços, da integração tarifária e da capacidade de atender pessoas que precisam chegar ao trabalho, à escola e aos serviços de saúde.
Para Milena Braga Romano, o Brasil já possui condições de participar desse debate internacional como fornecedor de conhecimento e tecnologia.
“Não é só uma oportunidade para a Eletra, mas para o Brasil. Para o País mostrar ao mundo do que é capaz. Temos experiência, qualidade e tecnologia que pode nos colocar lado a lado de qualquer nação desenvolvida. A eletromobilidade é mais que redução de poluição, é oportunidade de geração de emprego qualificado, de destaque internacional do Brasil e de neoindustrialização”, afirma.
São Paulo: mais de 2 mil ônibus elétricos, financiamento público e desafios com a rede de energia
A cidade de São Paulo representa um dos principais exemplos de eletrificação em grande escala que a Eletra poderá apresentar na COP31.
Em 30 de setembro de 2026, a Prefeitura anunciou a marca de 2.009 ônibus elétricos na frota municipal, incluindo 189 trólebus. O número corresponde a aproximadamente 15% dos mais de 13 mil veículos do sistema, que realiza milhões de viagens diariamente.
A capital paulista possui uma relação histórica com o transporte elétrico. Os primeiros trólebus começaram a circular em 1949, e a cidade manteve essa modalidade mesmo quando outras capitais brasileiras desativaram seus sistemas.
Nas últimas décadas, entretanto, a principal transformação passou a ser a substituição dos ônibus a diesel por modelos elétricos a bateria, que permitem a operação sem a necessidade de redes aéreas de alimentação ao longo dos trajetos.
A experiência paulistana é relevante porque mostra uma solução para um dos principais obstáculos à eletrificação: o custo de aquisição dos veículos.
Os ônibus elétricos possuem preços iniciais superiores aos modelos equivalentes a diesel. Para enfrentar essa diferença, a Prefeitura estruturou um mecanismo de subvenção aos investimentos das concessionárias.
Pelas regras municipais, o poder público pode custear, por meio de recursos financeiros e linhas de crédito nacionais e internacionais, a diferença entre os valores referenciais de aquisição dos ônibus elétricos e dos correspondentes a diesel.
As empresas operadoras continuam responsáveis pelas obrigações previstas nos contratos, incluindo sua participação nos investimentos e a preparação da infraestrutura de carregamento.
A estrutura permite distribuir os custos da transição ao longo do tempo, em vez de exigir que as concessionárias assumam integralmente o investimento inicial.
A participação de instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de agentes financeiros internacionais foi fundamental para ampliar as possibilidades de aquisição.
Mas São Paulo também tem dificuldades importantes que precisam ser consideradas na apresentação internacional.
A Prefeitura havia estabelecido anteriormente a meta de alcançar 2.600 ônibus elétricos até dezembro de 2024. Mesmo com o avanço da frota em 2026, a cidade ainda estava 591 veículos abaixo daquele objetivo.
A atual administração trabalha com a perspectiva de chegar a 3.300 ônibus elétricos até o encerramento da gestão, em 2028.
Em outubro, conforme mostrou o Diário do Transporte, a própria Prefeitura reconheceu que a implantação enfrentou uma redução temporária de ritmo por dificuldades relacionadas à infraestrutura de recarga e à capacidade da rede de distribuição de energia.
Posteriormente, a administração municipal esclareceu que considera essa fase de desaceleração superada e que mantém o planejamento de substituição da frota, incluindo a avaliação de alternativas como o biometano.
A situação evidencia uma das principais lições para outros países: comprar ônibus elétricos é apenas uma etapa do processo.
É necessário preparar garagens, instalar carregadores, reforçar redes elétricas, dimensionar a potência disponível e programar as recargas de acordo com os horários de circulação.
Outro desafio envolve o financiamento das empresas operadoras, que precisa conciliar a continuidade de um serviço essencial com a segurança dos recursos públicos e privados destinados à renovação da frota.
Para a Eletra, São Paulo demonstra tanto o potencial da tecnologia brasileira em uma metrópole de grande porte quanto a importância de integrar planejamento industrial, financiamento e infraestrutura.
A empresa participa da renovação da frota paulistana com veículos de diferentes capacidades, incluindo modelos padron, articulados e superarticulados, destinados a linhas com características distintas de demanda.
São José dos Campos: 400 ônibus elétricos, R$ 1,139 bilhão e um modelo diferente de contratação
Outro exemplo que ganha destaque internacional é o de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, onde a Prefeitura desenvolve um projeto para substituir a totalidade da frota municipal por ônibus elétricos.
O modelo adotado é diferente do de São Paulo.
Em vez de estabelecer a aquisição dos veículos diretamente pelas empresas que operam as linhas, a administração decidiu separar o fornecimento da frota da prestação do serviço de transporte.
A Green Energy venceu a licitação para fornecer 400 ônibus elétricos, fabricados pela Eletra, por meio de locação à Urbanizadora Municipal (Urbam), empresa controlada pela Prefeitura.
A Urbam disponibilizará os veículos às concessionárias responsáveis pela operação das linhas, enquanto outras atividades, como infraestrutura de recarga e bilhetagem, são organizadas em contratos específicos.
O modelo permite que a propriedade dos veículos e a operação do transporte fiquem sob responsabilidades diferentes.
Em 30 de outubro de 2026, o BNDES anunciou a aprovação de R$ 879,4 milhões para a aquisição dos 400 ônibus elétricos pela Green Energy.
O financiamento faz parte do programa Refrota, do Novo PAC, utiliza recursos do FGTS e integra um investimento total estimado em R$ 1,139 bilhão.
Segundo o banco, trata-se do primeiro projeto financiado pela instituição para a renovação integral da frota de ônibus de uma cidade com veículos elétricos produzidos no Brasil.
A experiência tem potencial para ser replicada em municípios nos quais as operadoras não possuem capacidade financeira suficiente para adquirir diretamente grandes quantidades de veículos elétricos.
São José dos Campos também possui uma experiência anterior que contribui para o novo projeto.
Em outubro de 2022, começou a operação da Linha Verde, sistema que utiliza veículos elétricos articulados conhecidos como VLPs, Veículos Leves sobre Pneus.
Fabricados pela Eletra, esses ônibus circulam em uma estrutura com características de BRT, incluindo prioridade de circulação, estações e soluções tecnológicas para facilitar o embarque.
O sistema permitiu ao município acumular conhecimento sobre autonomia dos veículos, recarga, operação, manutenção, integração e atendimento aos passageiros.
Em 31 de outubro de 2026, o Diário do Transporte percorreu a Linha Verde e acompanhou características como embarque sem catraca no interior dos veículos, presença de agente de bordo e prioridade semafórica.
Mas o processo de implantação de 400 ônibus também enfrentou dificuldades.
A contratação passou por sucessivas tentativas de licitação, questionamentos sobre custos e competitividade e discussões judiciais.
Em 2024, uma concorrência foi considerada fracassada depois que a proposta apresentada superou o valor de referência estabelecido pelo município.
O contrato concluído posteriormente, com a Green Energy, também foi questionado.
Em agosto de 2026, entretanto, o Ministério Público do Estado de São Paulo arquivou o inquérito civil relacionado à contratação, após informar que não encontrou elementos que comprovassem irregularidades. A ação popular que questionava a licitação também foi julgada improcedente.
O cronograma de entrega dos veículos sofreu alterações.
Inicialmente, a previsão era completar a frota até setembro de 2026. Agora, a Prefeitura trabalha com entregas mensais até junho de 2027.
Segundo informações divulgadas pela administração municipal em 3 de novembro, 20 ônibus elétricos do novo contrato já estavam em circulação.
A previsão é receber mais 24 articulados até o fim de novembro e outros 65 veículos até dezembro.
O projeto também exige uma infraestrutura expressiva.
O planejamento prevê nove estações de carregamento, com capacidade para atender os veículos em diferentes regiões da cidade. A rede deverá contar com 156 pontos de recarga.
A Estação Sul já dispõe de 34 pontos para carregamento simultâneo, enquanto outras unidades serão implantadas progressivamente.
O BNDES informa que a conclusão da infraestrutura está prevista para 2028.
Esse calendário demonstra que a eletrificação de uma cidade inteira depende de etapas coordenadas e pode exigir um período de convivência entre veículos convencionais e elétricos.
A expectativa do banco é que a substituição completa da frota permita reduzir aproximadamente 31 mil toneladas de dióxido de carbono por ano.
Assim, São José dos Campos poderá apresentar à comunidade internacional um modelo de financiamento e gestão em desenvolvimento, com potencial de transformação, mas cuja consolidação ainda depende do cumprimento das entregas e da implantação da infraestrutura.
Belém: 40 ônibus Eletra, integração metropolitana e um legado que vai além da COP30
O terceiro exemplo brasileiro tem uma ligação direta com a conferência climática anterior.
O BRT Metropolitano da Grande Belém, no Pará, completou um ano de inauguração em 31 de outubro de 2026, reunindo 265 ônibus, dos quais 40 são elétricos fabricados pela Eletra.
Os outros 225 veículos utilizam motores a diesel com tecnologia Euro 6, de controle mais rigoroso das emissões de poluentes.
O sistema atende deslocamentos entre Belém e municípios como Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Izabel do Pará, Santa Bárbara do Pará e Castanhal.
Uma das características mais relevantes do projeto é a integração entre linhas alimentadoras e serviços troncais.
Os ônibus das linhas alimentadoras levam os passageiros dos bairros e municípios até os terminais, onde podem utilizar os serviços do corredor principal.
A estrutura reúne 13 estações, dois terminais de integração, passarelas, passagens inferiores e intervenções em aproximadamente 11 quilômetros da BR-316.
A implantação também envolveu melhorias de pavimentação, drenagem, iluminação, calçadas e ciclovias.
Para além da redução de emissões, o objetivo é melhorar o acesso de populações que anteriormente enfrentavam dificuldades para chegar à capital paraense.
Durante a cobertura presencial da COP30, em novembro de 2025, o Diário do Transporte conheceu o sistema e entrevistou o diretor-geral da Agência de Regulação e Controle de Serviços Públicos do Pará (Arcon), Eduardo de Castro Ribeiro.
Na ocasião, o dirigente explicou que moradores de municípios da Região Metropolitana dependiam de alternativas de transporte com custos elevados e condições de atendimento limitadas.
O novo sistema passou a oferecer possibilidades de deslocamento integrado, com reflexos no acesso a emprego, serviços públicos, saúde e educação.
A implantação contou com financiamentos e cooperação internacional, incluindo a participação da agência japonesa JICA nas obras e investimentos federais para a renovação da frota.
O conjunto de ônibus foi financiado por meio do Pró-Transporte, com investimentos informados de aproximadamente R$ 389 milhões.
Durante a COP30, parte dos veículos elétricos foi utilizada no transporte das delegações e dos participantes credenciados.
Posteriormente, esses ônibus passaram a atender os passageiros do sistema metropolitano.
O projeto ganhou reconhecimento de autoridades nacionais e estrangeiras.
Em entrevista exclusiva ao Diário do Transporte, durante a COP30, o ministro das Cidades, Jader Filho, defendeu que a experiência de Belém seja considerada para outros projetos de BRT metropolitano pelo Brasil.
A implantação, entretanto, também teve uma trajetória difícil.
As obras do BRT Metropolitano começaram em janeiro de 2019, com uma previsão inicial de conclusão em 2020.
O empreendimento passou por sucessivos adiamentos, provocou alterações no trânsito da BR-316 e recebeu críticas de moradores e motoristas durante o período de construção.
A inauguração ocorreu somente em outubro de 2025, às vésperas da COP30.
O início da operação também foi gradual, com funcionamento assistido e abertura progressiva das estações e dos serviços.
Mesmo depois do encerramento da conferência climática, em novembro de 2025, algumas estações ainda estavam sendo incorporadas ao atendimento regular.
O histórico mostra que um projeto pode trazer benefícios sociais e ambientais importantes, mas enfrentar problemas de execução, planejamento e cronograma.
Também demonstra que um sistema de transporte sustentável não depende exclusivamente da tecnologia dos ônibus.
É necessário garantir infraestrutura adequada, corredores eficientes, integração entre municípios e condições para que os passageiros utilizem o serviço com regularidade.
O exemplo de Belém reúne, portanto, aspectos ambientais, sociais e econômicos que podem contribuir para discussões internacionais sobre mobilidade.
Uma indústria brasileira que avança para competir internacionalmente
A presença da Eletra na COP31 ocorre em um momento de transformação industrial da fabricante de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.
A empresa tem origem em um grupo empresarial com mais de um século de experiência na operação de transportes de passageiros.
Essa trajetória está relacionada ao desenvolvimento de tecnologias que levam em consideração as condições reais de operação dos veículos, como topografia, demanda, pavimentação, clima, necessidade de autonomia e características das linhas.
Para Milena Braga Romano, essas diferenças representam uma vantagem competitiva para o Brasil.
“Nossa origem é de um grupo operador de transportes que atua há mais de 125 anos. Sabemos das necessidades dos operadores de transportes, dos gestores públicos, da indústria e, acima de tudo, dos passageiros. O Brasil tem diferentes realidades de clima, topografia, de desenvolvimento urbano, de renda e até culturais. Essa experiência nos dá a possibilidade de atender a todas essas realidades e posso dizer com propriedade: quem fabrica para o Brasil consegue atender qualquer lugar do mundo”, afirma.
Nos últimos anos, a Eletra ampliou sua presença no mercado de ônibus elétricos e passou a desenvolver uma nova etapa de sua produção industrial.
A fabricante iniciou a montagem de chassis elétricos com identificação própria, integrando componentes mecânicos de parceiros industriais aos sistemas de propulsão, controle eletrônico e gerenciamento de energia.
Entre os fornecedores tecnológicos está a também brasileira WEG, responsável por componentes fundamentais dos sistemas elétricos.
O modelo fortalece a cadeia produtiva nacional e amplia a participação da Eletra na engenharia e no processo industrial.
Em reportagem exclusiva publicada em 3 de novembro de 2026, o Diário do Transporte mostrou a fabricação dos novos chassis na unidade de São Bernardo do Campo.
Na ocasião, a empresa revelou que 232 chassis estavam em produção pelo novo método para entregas até dezembro, sendo 122 articulados e 110 padron.
O processo industrial permite reduzir em mais da metade o tempo necessário para determinadas etapas de fabricação, ao reorganizar a integração dos componentes antes do encarroçamento.
Outra reportagem, publicada em 4 de novembro, mostrou que a Eletra oficializou vendas de 713 ônibus elétricos, com produção e entregas programadas para 2026 e 2027.
Entre as cidades contempladas estão São Paulo, São José dos Campos, Belo Horizonte (MG), Recife (PE), Montes Claros (MG) e Hortolândia (SP).
A companhia também anunciou investimentos superiores a R$ 270 milhões para ampliar sua capacidade industrial, com planos de triplicar a produção, desenvolver veículos para novas aplicações e buscar mercados internacionais.
Entre os projetos em desenvolvimento estão soluções para ônibus rodoviários elétricos e serviços de fretamento, segmentos que possuem exigências diferentes das operações urbanas.
A ampliação industrial pode representar geração de empregos qualificados, maior demanda para fornecedores nacionais e desenvolvimento de conhecimento técnico no Brasil.
Esse é um dos aspectos que a Eletra pretende destacar na COP31.
A transição energética também oferece oportunidades de política industrial. Países que dominam tecnologias, processos de fabricação e conhecimento operacional podem ocupar posições estratégicas em mercados que estão sendo transformados pela descarbonização.
EletraConsult: conhecimento técnico também pode ser exportado
Além dos ônibus, a Eletra pretende apresentar internacionalmente sua estrutura de consultoria especializada, denominada EletraConsult.
A proposta é apoiar operadores, gestores públicos e outras instituições interessadas em desenvolver projetos de eletrificação do transporte coletivo.
O trabalho começa antes da compra dos ônibus, com avaliações sobre características das linhas, condições das garagens, disponibilidade de energia, tipos de veículos e necessidades de infraestrutura.
O serviço também abrange orientação sobre modelos de financiamento, planejamento de implantação, gestão da recarga e acompanhamento operacional.
Essa abordagem ganha importância porque uma das principais dificuldades da eletromobilidade está justamente na integração das diferentes etapas.
A escolha de um ônibus adequado para determinada operação exige avaliar autonomia, capacidade de transporte, potência disponível, tempo necessário para carregamento e programação de manutenção.
Em uma cidade com grandes aclives, por exemplo, o consumo energético pode ser diferente do encontrado em trajetos planos.
Em corredores de alta capacidade, veículos articulados podem transportar mais passageiros por viagem, mas exigem infraestrutura e dimensionamento compatíveis.
A existência de conhecimento nacional acumulado nessas condições permite que o Brasil desenvolva soluções para realidades também encontradas em outras regiões do mundo.
A Eletra pretende demonstrar que a indústria brasileira pode atuar não apenas como fornecedora de veículos, mas também como parceira técnica na implantação de sistemas eletrificados.
“O bem mais valioso e imensurável é o conhecimento. Quem detém conhecimento, detém uma posição estratégica no mundo. Conhecimento a Eletra tem e muito, a experiência das ruas. Nosso intuito é estabelecer parcerias, criar vínculos. O caminho para o desenvolvimento é a neoindustrialização, e o ônibus elétrico é o veículo”, diz Milena Braga Romano.
COP30 reconhece maturidade dos ônibus elétricos e reforça importância da infraestrutura
A participação brasileira na COP31 também será apoiada em um documento divulgado pela Presidência da COP30 em 3 de novembro de 2026.
O Mapa do Caminho para a Transição para o Afastamento dos Combustíveis Fósseis nos Sistemas Energéticos apresenta propostas para acelerar a substituição dessas fontes de energia e ampliar tecnologias de menor impacto climático.
O documento identifica os ônibus elétricos urbanos como uma tecnologia comercialmente madura, disponível para expansão imediata e com potencial de reduzir o consumo de diesel.
Segundo os dados apresentados no relatório, aproximadamente 94% da energia utilizada mundialmente nos transportes ainda provém de combustíveis fósseis.
O setor representa cerca de 28% do consumo final de energia do planeta e aproximadamente 22% das emissões globais de dióxido de carbono associadas à queima desses combustíveis.
No transporte rodoviário, a participação da eletricidade ainda é inferior a 1% do consumo energético.
O levantamento também reconhece que a expansão da eletromobilidade exige investimentos em infraestrutura de recarga, redes de energia, financiamento e adaptação das operações.
A publicação é uma contribuição técnica e voluntária da Presidência brasileira da COP30 para as discussões internacionais.
Além dos ônibus elétricos, o documento destaca a necessidade de fortalecer sistemas ferroviários, transporte coletivo de alta capacidade e mobilidade ativa, incluindo deslocamentos a pé e de bicicleta.
A abordagem reforça que a descarbonização não pode ser limitada à substituição dos motores dos veículos.
Um sistema de transporte eficiente também depende de corredores, terminais, estações, calçadas, acessibilidade, integração tarifária e oferta suficiente para estimular o uso do transporte coletivo.
Da mesma forma, a avaliação dos impactos ambientais deve considerar o ciclo de vida dos veículos, a origem da eletricidade, a fabricação das baterias e o tratamento dos componentes ao final de sua utilização.
Da COP30 para a COP31: o Brasil tem o que aprender e também o que ensinar
A passagem de Belém para Antalya marca uma nova oportunidade para o Brasil apresentar experiências concretas de mobilidade sustentável.
Os três exemplos que ganham destaque na participação da Eletra representam caminhos diferentes.
São Paulo demonstra como uma metrópole pode estruturar financiamentos e ampliar a presença de ônibus elétricos em um sistema de grande porte, ao mesmo tempo que precisa enfrentar limitações energéticas e desafios contratuais.
São José dos Campos apresenta uma alternativa de locação e separação entre propriedade da frota e operação, com financiamento nacional e um projeto de eletrificação integral ainda em implantação.
Belém demonstra que a modernização da frota pode integrar uma transformação metropolitana mais ampla, reunindo corredores, terminais, integração tarifária e melhoria de acesso ao transporte público.
Nenhum desses modelos está livre de dificuldades, e justamente por isso podem contribuir para o debate internacional.
Os projetos mostram que tecnologias maduras precisam ser acompanhadas de planejamento, investimentos e gestão capazes de assegurar sua utilização no cotidiano.
A presença de uma fabricante nacional nessas discussões também representa uma oportunidade para fortalecer a indústria brasileira e ampliar sua participação em mercados internacionais.
Mais do que oferecer produtos, o Brasil pode compartilhar experiências de engenharia, operação, financiamento e organização de sistemas de transporte coletivo.
Para Milena Braga Romano, a evolução da Eletra desde a COP30 mostra o potencial dessa contribuição.
“A Eletra já foi destaque na COP30, em Belém (PA). Agora, damos um passo importante no orgulho de sermos brasileiros. De novembro de 2025 a novembro de 2026, da COP30 para a COP31, a Eletra avançou tanto. Novos modelos, sua linha própria de chassis, novos mercados brasileiros, mais empregos e agora o início de um ciclo de investimentos que vai triplicar nossa capacidade produtiva. Repito: nossa participação na COP31 é mais que uma empresa, é uma nação”, afirma.
A COP31 reunirá governos, instituições financeiras, fabricantes, pesquisadores e representantes da sociedade civil para discutir os próximos passos das políticas climáticas.
A Turquia sediará a conferência, enquanto a Austrália exercerá a presidência das negociações. A Cúpula de Líderes Mundiais está prevista para os dias 11 e 12 de novembro.
O Diário do Transporte estará em Antalya para acompanhar presencialmente as discussões sobre mobilidade, transportes, infraestrutura, financiamento e tecnologias de descarbonização.
A cobertura dará continuidade ao trabalho realizado em Belém durante a COP30, com atenção às soluções que podem efetivamente melhorar a vida das pessoas e transformar os sistemas de transporte.
A participação brasileira demonstra que a transição energética também pode representar desenvolvimento industrial, geração de conhecimento e oportunidades econômicas.
Na COP31, o Brasil terá a oportunidade de conhecer experiências de outros países, avaliar caminhos e identificar tecnologias que possam contribuir para seus sistemas de transporte. Mas também chegará com experiências próprias que merecem ser compartilhadas.
A presença internacional de empresas como a Eletra mostra que o País pode participar dessa transformação não apenas como consumidor de tecnologia, mas como produtor de soluções, conhecimento e desenvolvimento industrial.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
