Transportadora já assumiu definitivamente concessão Belo Horizonte–Unaí por R$ 11,44 milhões, adquiriu modelos Scania/Comil, avalia novas configurações e vende rodoviários usados a partir de R$ 150 mil
ADAMO BAZANI
A Empresa Gontijo de Transportes chega à reta final de 2026 com uma combinação de investimentos, ampliação de mercado e decisões que poderão influenciar sua atuação em 2027. A transportadora mineira já formalizou a aquisição da concessão da linha Belo Horizonte–Unaí, anteriormente pertencente à Viação Sertaneja, em uma negociação de R$ 11,44 milhões, confirmou a compra de 50 ônibus novos Scania/Comil e prepara a avaliação operacional de dois veículos Volvo B460R Euro 6, também com carrocerias Comil. Paralelamente, mantém a comercialização de ônibus rodoviários usados, com ofertas divulgadas a partir de R$ 150 mil, em um período de mudanças regulatórias e maior disputa por mercados no transporte de passageiros.
Os movimentos representam diferentes frentes da estratégia empresarial. A incorporação definitiva da concessão mineira amplia a presença da Gontijo no transporte intermunicipal, enquanto os novos ônibus reforçam a renovação de uma frota historicamente associada à Scania. Já os testes com Volvo poderão fornecer informações para futuras decisões de compra, sem que exista confirmação de uma nova encomenda da fabricante. A transportadora também se prepara para a temporada de verão 2026/2027, quando o aumento da demanda em determinadas ligações exige planejamento de veículos, motoristas, manutenção e viagens extras.
Gontijo já assumiu definitivamente a concessão Belo Horizonte–Unaí por R$ 11,44 milhões
Uma das principais novidades para a estratégia de mercado da Gontijo foi oficializada na sexta-feira, 30 de outubro de 2026.
Naquela data, conforme revelou em primeira mão o Diário do Transporte, o Governo de Minas Gerais formalizou a transferência da titularidade da concessão da linha intermunicipal Belo Horizonte–Unaí, anteriormente pertencente à Viação Sertaneja, em recuperação judicial.
A decisão representa a conclusão da etapa contratual de transferência, superando a situação anterior de autorização prévia.
O terceiro termo aditivo ao contrato SETOP/STI nº 31/2013 estabelece expressamente que a Empresa Gontijo de Transportes S.A. passa a ocupar a posição contratual da Viação Sertaneja S.A.
O documento identifica a Sertaneja como cedente e a Gontijo como cessionária, determinando que a nova titular assume os direitos e as obrigações relacionados à concessão.
A transferência envolve a linha intermunicipal 1168, Belo Horizonte–Unaí, incluindo os serviços vinculados.
Portanto, não se trata mais de uma negociação sujeita apenas à anuência inicial do Estado, nem de uma simples autorização para operar viagens em parceria com outra empresa.
A titularidade contratual já foi formalmente transferida.
Isso não significa, necessariamente, que todos os horários e veículos já estejam sendo operados pela Gontijo. A transição operacional deve observar os procedimentos administrativos e as condições definidas pelo poder concedente.
O negócio representa uma ampliação concreta da participação da transportadora no mercado mineiro, especialmente na ligação entre a capital e o Noroeste do Estado.
Aquisição da linha da Sertaneja também envolve recuperação judicial e pagamento de credores
A negociação foi estabelecida em aproximadamente R$ 11,44 milhões e faz parte do processo de recuperação judicial da Viação Sertaneja.
A transportadora apresentou o pedido de recuperação em dezembro de 2021, teve o processamento autorizado em março de 2022 e o plano homologado em setembro de 2024.
A transferência da concessão foi estruturada como uma alternativa para obtenção de recursos destinados ao cumprimento de obrigações financeiras.
Conforme documentos judiciais analisados pelo Diário do Transporte, a negociação levou em consideração o equivalente a 12 vezes o faturamento da linha em 2025.
A proposta financeira inclui pagamento inicial de R$ 5 milhões, assunção de dívida de outorga de aproximadamente R$ 5,73 milhões e parcelamento do saldo.
Cerca de R$ 1,5 milhão também foi identificado nos documentos como valor destinado aos credores trabalhistas da Classe I.
O processo passou por diferentes etapas.
Em 11 de setembro de 2026, a Justiça autorizou a negociação.
No dia 17, o Diário do Transporte revelou os valores e as condições estabelecidas.
Posteriormente, o Governo de Minas Gerais abriu prazo para manifestações de interessados.
Em 6 de outubro, o Conselho de Transporte Coletivo Intermunicipal e Metropolitano manifestou-se favoravelmente à transferência, por unanimidade.
Em 24 de outubro, a Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias de Minas Gerais, a Seinfra, concedeu anuência prévia.
Finalmente, em 30 de outubro, houve a formalização contratual por meio do terceiro termo aditivo.
Para a Gontijo, a incorporação amplia o conjunto de operações sob sua responsabilidade.
Para a Sertaneja e seus credores, a negociação faz parte da reorganização patrimonial conduzida no processo de recuperação judicial.
Para os passageiros, a alteração significa uma nova empresa titular da concessão, com obrigação de cumprir as condições contratuais, os horários, os itinerários e as regras definidas pelo Estado.
Compra de 50 novos ônibus Scania/Comil reforça renovação e prepara empresa para novos desafios
Além da ampliação da atuação em Minas Gerais, a Gontijo confirmou uma nova aquisição de ônibus rodoviários.
Conforme noticiado pelo Diário do Transporte neste domingo, 1º de novembro de 2026, a empresa comprou 50 veículos novos com chassis Scania 6×2 e carrocerias Comil.
O lote é composto por dez ônibus de dois andares, conhecidos como Double Decker, e 40 unidades convencionais do modelo Campione Invictus 1200.
Todos possuem motores de 410 cavalos de potência e tecnologia Euro 6.
A configuração dos dez ônibus de dois andares contempla 56 passageiros por veículo.
No piso inferior, são 12 poltronas leito.
No pavimento superior, 44 poltronas executivas.
Já os 40 modelos Campione Invictus 1200 possuem 46 poltronas executivas por unidade.
A aquisição representa capacidade nominal conjunta de 2.400 lugares por utilização simultânea dos 50 ônibus, sem significar necessariamente ampliação equivalente da capacidade total da frota, já que a incorporação poderá ser acompanhada pela retirada ou remanejamento de veículos antigos.
Entre os equipamentos estão sistemas de telemetria, câmeras antifadiga, freios ABS, sistema auxiliar de frenagem Retarder e cintos de segurança em todas as poltronas.
Os ônibus também possuem suspensão pneumática com controle eletrônico, ar-condicionado, sanitário, apoio para os pés, carregadores para celulares e conexão à internet por Wi-Fi.
O conjunto inclui elevadores de acessibilidade, transmissão automatizada e piloto automático.
A tecnologia Euro 6 estabelece limites mais rigorosos de emissão de poluentes, enquanto os recursos de monitoramento podem auxiliar a empresa nos programas de segurança e gestão operacional.
A compra reforça a participação da Scania na frota da Gontijo e amplia o fornecimento de carrocerias Comil para a transportadora.
Mesmo com compra de Scania, Gontijo prepara testes de dois Volvo B460R Euro 6
A aquisição confirmada de 50 ônibus Scania não elimina a possibilidade de a empresa avaliar outras marcas de chassis.
Em 29 de setembro de 2026, foi divulgada a preparação de dois ônibus com chassis Volvo B460R 6×2, tecnologia Euro 6 e carrocerias Comil, destinados a testes operacionais pela Gontijo.
Os veículos previstos são um Campione Invictus 1200 e um Campione Invictus DD, este último de dois andares, identificado pela matrícula 30055.
O Volvo B460R possui motor de 13 litros e potência de 460 cavalos.
A iniciativa poderá permitir à Gontijo comparar características de desempenho, consumo de combustível, manutenção, conforto e disponibilidade operacional.
A transportadora possui uma longa tradição de utilização de veículos Scania em suas operações rodoviárias.
Por isso, a avaliação de outra fabricante de chassis representa uma oportunidade para ampliar suas referências técnicas.
Os testes, entretanto, não significam decisão definitiva de compra.
Também não demonstram que a empresa pretende abandonar a Scania.
A aquisição dos 50 veículos anunciados em novembro, ao contrário, reforça a participação da marca na renovação atual.
Para a Volvo, a avaliação representa uma oportunidade de apresentar seus produtos em uma empresa de grande porte.
Para a Comil, significa fornecer carrocerias tanto para a compra efetiva de ônibus novos quanto para os veículos destinados aos testes.
Gontijo vende ônibus usados com chassis Scania a partir de R$ 150 mil
Outra frente de atuação da transportadora envolve a comercialização de veículos rodoviários que já integraram suas operações.
A Gontijo mantém uma estrutura própria de venda de ônibus usados, com atendimento em Belo Horizonte (MG).
Entre maio e setembro de 2026, foram anunciadas ofertas de veículos com carrocerias Busscar, Marcopolo e Comil, principalmente sobre chassis Scania.
Na atualização comercial de 17 de setembro, alguns ônibus receberam redução nos preços anunciados.
Entre as ofertas estavam unidades Busscar Jum Buss 360, ano 2007, por R$ 150 mil.
Também havia veículos Marcopolo Paradiso G6 1200, com preços de R$ 180 mil a R$ 240 mil, conforme o ano e a configuração.
| Modelo | Chassi | Ano | Preço anunciado em setembro |
|---|---|---|---|
| Busscar Jum Buss 360 | Scania K124IB 6×2 | 2007 | R$ 150 mil |
| Marcopolo Paradiso G6 1200 | Scania K420IB 6×2 | 2007 | R$ 180 mil |
| Marcopolo Paradiso G6 1200 | Scania K420IB 6×2 | 2009 | R$ 240 mil |
Os valores são referências da campanha divulgada em setembro e podem variar conforme disponibilidade, condições comerciais e características de cada unidade.
Em julho, a empresa também havia anunciado reduções de até R$ 70 mil em determinados modelos Marcopolo.
A comercialização de usados representa uma oportunidade para operadores de fretamento, turismo, transporte de trabalhadores e outros serviços rodoviários.
Entretanto, veículos com quase duas décadas de utilização exigem avaliação técnica cuidadosa.
As condições mecânicas, o histórico de manutenção, a disponibilidade de componentes e os limites de idade estabelecidos para cada modalidade precisam ser considerados.
A entrada de veículos novos e a venda de ônibus antigos podem fazer parte de um mesmo processo de renovação, mas não significam necessariamente substituição direta de cada unidade comercializada.
Compra, testes e usados: decisões de frota podem influenciar a estratégia da Gontijo em 2027
A combinação entre a aquisição confirmada de ônibus novos, os testes com Volvo e a venda de veículos usados permite identificar diferentes frentes de gestão da frota.
Os 50 ônibus Scania/Comil representam investimento efetivo.
Os dois veículos Volvo/Comil fazem parte de uma etapa de avaliação técnica.
A comercialização de modelos mais antigos integra a administração do patrimônio e a reorganização dos veículos disponíveis.
Essas atividades possuem objetivos distintos, embora possam influenciar decisões futuras.
Em uma transportadora de grande porte, a escolha de veículos depende de fatores como extensão das linhas, condições das estradas, consumo de combustível, manutenção, capacidade de passageiros e categoria de serviço.
Também entram nos cálculos o custo de aquisição, a disponibilidade de financiamento e a depreciação ao longo da vida útil.
A utilização de ônibus de dois andares pode ser interessante em ligações com maior demanda ou procura por diferentes categorias de conforto.
Em outras operações, modelos convencionais podem oferecer melhor adequação às características das linhas.
A aquisição recente demonstra que a Gontijo já iniciou uma etapa de renovação, enquanto os resultados dos testes poderão subsidiar decisões futuras.
Até o momento, entretanto, não há confirmação de uma encomenda adicional de ônibus Volvo ou de um programa específico de compras para 2027 além do lote anunciado.
Gontijo também enfrenta disputas administrativas e reorganização do mercado interestadual
A ampliação de mercado não depende apenas da compra de ônibus ou da aquisição de concessões estaduais.
No transporte interestadual, as empresas precisam acompanhar decisões da Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT, relacionadas às autorizações de linhas e mercados.
Em 23 de outubro de 2026, o Diário do Transporte mostrou que a Diretoria Colegiada da agência negou recursos apresentados pela Gontijo e pela Expresso Guanabara contra uma decisão favorável à Expresso São Luiz.
A medida foi formalizada pela Deliberação nº 302, de 22 de outubro de 2026.
Com isso, permaneceu válida a autorização anteriormente concedida pela Superintendência de Serviços de Transporte Rodoviário de Passageiros, a Supas.
O caso demonstra como empresas tradicionais enfrentam mudanças na configuração dos mercados e na concorrência.
Outro processo relevante é a primeira Janela Extraordinária da ANTT, que envolve oportunidades de entrada em diferentes ligações interestaduais.
As decisões relacionadas às autorizações poderão influenciar o planejamento comercial das transportadoras, a distribuição das frotas e as estratégias de atendimento.
Entretanto, o procedimento envolvendo a Expresso São Luiz é específico e não deve ser automaticamente confundido com os resultados da Janela Extraordinária.
Gontijo se prepara para verão 2026/2027 com frota renovada e nova concessão
A preparação para a temporada de verão ocorre em um período no qual a demanda por viagens de ônibus costuma aumentar em determinadas ligações.
Dezembro e janeiro concentram deslocamentos relacionados às férias escolares, às festas de fim de ano, ao turismo e às viagens familiares.
A Gontijo possui uma rede de atendimento que alcança diferentes regiões brasileiras.
Segundo informações institucionais divulgadas pela transportadora, sua estrutura abrange aproximadamente 90 garagens e 700 agências, com atendimento em 18 estados e no Distrito Federal.
A empresa informa transportar mais de cinco milhões de passageiros por ano.
Sua rede inclui 282 linhas nacionais e uma internacional, entre Salvador (BA) e Assunção, no Paraguai.
Entre os percursos de maior extensão está a ligação Recife (PE)–Foz do Iguaçu (PR), com aproximadamente 3.907 quilômetros.
A administração de operações tão diferentes exige planejamento de frota, motoristas, manutenção e categorias de serviço.
A chegada de novos ônibus poderá contribuir para atualizar as condições oferecidas aos passageiros.
Já a incorporação da concessão Belo Horizonte–Unaí acrescenta responsabilidades contratuais e operacionais no mercado mineiro.
Não há, entretanto, confirmação de que os 50 veículos recém-adquiridos serão destinados a essa linha.
A distribuição dependerá da programação da empresa.
Concorrência, diesel, financiamento e novas tecnologias serão decisivos para 2027
As perspectivas da Gontijo para 2027 também dependem de fatores econômicos que afetam todo o transporte rodoviário.
Entre eles estão os custos do diesel, pneus, manutenção, pedágios, salários, encargos trabalhistas e despesas financeiras.
Os ônibus novos com tecnologia Euro 6 representam investimentos mais elevados, embora também ofereçam sistemas modernos de gerenciamento do motor e controle de emissões.
A escolha entre fabricantes exige considerar não apenas o preço de aquisição, mas o custo total de utilização ao longo dos anos.
Isso inclui consumo de combustível, manutenção preventiva e corretiva, disponibilidade de peças, treinamento de equipes e tempo de permanência dos veículos nas oficinas.
As condições de financiamento também podem influenciar futuras decisões de compra.
Em um ambiente de maior concorrência, empresas rodoviárias precisam avaliar quais mercados justificam a utilização de veículos com maior capacidade, quais linhas demandam mais frequências e quais serviços possuem espaço para categorias diferenciadas de conforto.
A avaliação dos chassis Volvo poderá contribuir com dados técnicos para essas decisões.
A compra dos 50 ônibus Scania/Comil, por sua vez, já demonstra a continuidade dos investimentos em renovação.
A incorporação de uma nova concessão intermunicipal acrescenta uma frente de expansão empresarial que precisará ser integrada ao planejamento operacional.
Gontijo entra em 2027 com expansão concretizada em Minas e novas decisões de frota pela frente
Os movimentos recentes da Gontijo representam uma combinação de decisões já efetivadas e avaliações que poderão produzir resultados nos próximos meses.
A transferência da concessão Belo Horizonte–Unaí foi formalizada em 30 de outubro de 2026, depois de sucessivas etapas judiciais e administrativas acompanhadas em primeira mão pelo Diário do Transporte.
A aquisição dos 50 ônibus Scania/Comil também está confirmada e representa uma nova etapa de renovação da frota rodoviária.
Já a avaliação dos dois modelos Volvo B460R com carrocerias Comil poderá fornecer referências para decisões futuras.
A comercialização de ônibus usados permanece como uma atividade complementar de administração de frota e movimentação do mercado de veículos rodoviários.
Assim, a Gontijo chega ao período de planejamento de 2027 com uma nova concessão formalmente incorporada, uma compra de ônibus confirmada e alternativas técnicas em análise.
O desafio será transformar essas movimentações em eficiência operacional, qualidade dos serviços e capacidade de resposta à concorrência.
Para os passageiros, os reflexos poderão ser percebidos na disponibilidade de viagens, nas condições dos veículos, no conforto e na segurança dos deslocamentos.
A transportadora fundada por Abílio Gontijo em 1943 continua, dessa forma, combinando a experiência acumulada ao longo de mais de oito décadas com novas decisões empresariais e tecnológicas para os próximos anos.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
