Três das quatro linhas do BRT Campo Grande enfrentam problemas nesta terça-feira (3); Emdec anuncia fiscalização emergencial após quase 2,3 mil autuações no corredor. Crise persiste apesar da renovação parcial da frota, enquanto nova licitação de R$ 13 bilhões está prevista para dezembro
ADAMO BAZANI
A falta de ônibus voltou a comprometer o transporte coletivo de Campinas (SP) nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, atingindo três das quatro linhas do BRT Campo Grande e provocando transtornos aos passageiros. A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) confirmou a insuficiência de veículos e anunciou uma vistoria emergencial na garagem da operadora para verificar as condições de manutenção da frota. O problema faz parte de um histórico de falhas que inclui ônibus quebrados, milhares de viagens comprometidas, incêndios e até um coletivo articulado que se “partiu ao meio” durante a operação, em agosto. Somente em 2026, as operadoras do sistema receberam mais de 42 mil autuações, das quais quase 2,3 mil relacionadas ao BRT Campo Grande.
A situação ocorre apesar da incorporação gradual de ônibus novos e seminovos pelas atuais empresas e reacende a discussão sobre a proposta apresentada pela Sancetur, da família Chedid, que ofereceu 320 veículos fabricados entre 2024 e 2026 para uma eventual operação emergencial. A Prefeitura de Campinas rejeitou a alternativa em setembro e manteve as atuais operadoras até a conclusão da nova licitação, prevista para 18 de dezembro de 2026, depois que a concorrência anterior foi anulada pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP). Enquanto o processo avança, passageiros continuam enfrentando problemas de regularidade, disponibilidade de ônibus e segurança operacional.
Três linhas do BRT Campo Grande operam com falta de ônibus
De acordo com informações da Emdec divulgadas nesta terça-feira pela Band Campinas, a insuficiência de veículos compromete as linhas BRT20, BRT25 e BRT26.
A BRT20 liga o Terminal Campo Grande ao Terminal Mercado, passando pelo Corredor Central, com atendimento parador.
A BRT25 parte do Terminal Satélite Íris em direção ao Terminal Mercado, também pelo Corredor Central, no serviço parador.
Já a BRT26 liga o Terminal Satélite Íris ao Terminal Mercado, com operação semiexpressa.
A única linha do corredor que estava operando com a frota completa, segundo a Emdec, era a BRT21, entre o Terminal Campo Grande e o Terminal Mercado, na modalidade semiexpressa.
A empresa municipal informou que agentes acompanham a operação e que os responsáveis são autuados pela ausência dos veículos programados.
Além das autuações operacionais, as empresas estão sujeitas a multas contratuais por descumprimento das exigências relativas à idade máxima da frota.
Uma vistoria emergencial foi anunciada para esta terça-feira, com o objetivo de verificar a situação dos ônibus que permanecem nas garagens e o andamento das manutenções previstas.
A expectativa divulgada pela Emdec é de que oito novos ônibus sejam incorporados às linhas do BRT nas próximas semanas.
Entretanto, não foi apresentado um prazo preciso para a normalização de todas as partidas.
Ônibus se “partiu ao meio” em agosto e assustou passageiros
Entre os episódios mais graves registrados recentemente no transporte coletivo de Campinas está o incidente ocorrido em 21 de agosto de 2026, envolvendo um ônibus articulado da linha 210, que liga o Terminal Campo Grande ao Terminal Barão Geraldo.
O caso foi noticiado pelo Diário do Transporte nos dias 22 e 24 de agosto.
O veículo, de prefixo 2091, sofreu danos na estrutura responsável pela articulação entre as duas partes da carroceria.
As imagens registradas por um passageiro mostraram a região sanfonada comprometida, dando a impressão de que o coletivo havia se partido ao meio.
Apesar da gravidade das imagens, as duas partes permaneceram unidas e não houve registro de feridos.
A Emdec informou na ocasião que o ônibus havia passado por inspeção em junho, com validade até dezembro de 2026.
Depois do incidente, o órgão determinou uma reinspeção completa para identificar as causas da falha e verificar os demais componentes do veículo.
Também informou que o coletivo permaneceria fora de operação até a correção dos problemas identificados.
Na mesma manifestação, a Emdec confirmou que já havia planejamento para substituir os ônibus articulados da linha 210 por veículos do tipo Padron, sem articulação.
A empresa municipal afirmou que a substituição estava prevista antes do episódio, mas reconheceu que os problemas operacionais estavam relacionados à idade média da frota.
O caso chamou a atenção para a necessidade de verificar não apenas a manutenção dos motores, freios e sistemas elétricos, mas também a integridade estrutural dos veículos, especialmente aqueles submetidos a esforços constantes durante anos de operação.
A ocorrência também levantou questionamentos sobre a eficácia das inspeções periódicas e a necessidade de identificar eventuais falhas entre uma vistoria e outra.
Não foi localizado, na apuração desta reportagem, um laudo conclusivo posterior que permita apontar definitivamente a causa da ruptura da articulação.
Incêndio destruiu ônibus do BRT25 em setembro
Outro episódio grave ocorreu na noite de 5 de setembro de 2026, quando um ônibus da Expresso Campibus, que operava a linha BRT25, pegou fogo na Estação BRT Vila Teixeira.
O caso também foi noticiado pelo Diário do Transporte, em reportagem publicada no dia seguinte.
O coletivo transportava dois passageiros e o motorista quando as chamas começaram.
Todos conseguiram sair e não houve feridos.
O incêndio se espalhou e o ônibus ficou severamente danificado.
Segundo as informações fornecidas pela Emdec na ocasião, havia indicação de que o fogo teria começado após um curto-circuito na parte traseira do veículo.
O Corpo de Bombeiros foi acionado e controlou as chamas.
A fiscalização municipal informou que o ônibus seria submetido a vistoria na garagem da empresa.
A ocorrência ganhou importância por envolver justamente uma linha do BRT Campo Grande, sistema que volta a apresentar problemas de operação nesta terça-feira.
O episódio reforçou preocupações sobre as condições mecânicas e elétricas dos ônibus e a necessidade de inspeções capazes de identificar falhas antes que provoquem situações de risco aos passageiros e trabalhadores.
A hipótese inicialmente apresentada de curto-circuito não deve ser confundida com uma conclusão pericial definitiva, que não foi localizada nesta apuração.
Outro ônibus pegou fogo quatro dias depois, e motorista precisou de atendimento hospitalar
A sequência de ocorrências continuou em 10 de setembro de 2026.
Na madrugada daquele dia, um ônibus da linha 355, que atende a Vila Gênesis e o Parque São Quirino, pegou fogo na Rua Moscou, próximo ao cruzamento com a Rua Comendador Herculano Graciole.
O veículo era operado pela VB3.
Segundo informações divulgadas pelo sindicato das empresas de transporte, o motorista percebeu fumaça na parte inferior do ônibus depois de parar em um ponto.
Ele providenciou o desembarque e tentou conter o incêndio com um extintor, depois de desligar a chave geral do coletivo.
As chamas, entretanto, se espalharam.
O Corpo de Bombeiros foi acionado para controlar o fogo.
O motorista inalou fumaça, recebeu atendimento de resgate e foi encaminhado ao Hospital Santa Teresa.
Não houve registro de passageiros feridos.
Na ocasião, informações preliminares apontaram a possibilidade de pane elétrica, enquanto os Bombeiros indicaram que as chamas teriam começado na região das rodas.
A Emdec informou que enviaria equipes à garagem da VB3 para acompanhar a investigação das causas.
O sindicato das empresas também comunicou a abertura de procedimento de apuração.
Os dois incêndios registrados em setembro, em um intervalo de apenas cinco dias, ampliaram as preocupações sobre o estado de conservação dos ônibus utilizados no sistema municipal.
Embora episódios dessa natureza possam ter diferentes origens, incluindo problemas elétricos, mecânicos ou superaquecimento de componentes, não é correto atribuir todos os casos a uma mesma causa sem laudos técnicos conclusivos.
A recorrência, entretanto, torna necessária a divulgação dos resultados das investigações e das providências adotadas para evitar novos incidentes.
Campinas registrou mais de 24 mil ocorrências de quebras e falta de ônibus em seis meses
Os episódios envolvendo danos estruturais e incêndios acontecem em um sistema que já enfrenta problemas persistentes de disponibilidade de veículos.
Dados da Emdec referentes ao primeiro semestre de 2026 apontaram 24.160 ocorrências de quebras e falta de ônibus, contra 21.342 no mesmo período de 2025.
O aumento foi de 13,2%.
Os registros incluem situações em que veículos deixaram de cumprir a programação por quebras durante a operação ou por problemas identificados antes da saída das garagens.
Ao longo de todo o ano de 2025, foram contabilizadas 40.747 ocorrências dessa natureza.
Os números ajudam a explicar a insatisfação dos passageiros com o serviço.
Quando uma viagem programada não é realizada, o problema não se limita ao veículo ausente.
Os passageiros precisam esperar a próxima partida, que pode chegar com maior lotação, enquanto as viagens seguintes também ficam sujeitas a atrasos e desequilíbrio nos intervalos.
Para trabalhadores e estudantes que dependem diariamente dos ônibus, a falta de regularidade pode resultar em atrasos nos compromissos e aumento do tempo gasto nos deslocamentos.
Em fevereiro de 2026, a Prefeitura de Campinas já havia determinado que as operadoras colocassem em circulação a totalidade da frota operacional prevista, após problemas de ausência de ônibus, especialmente em linhas da VB3.
Na ocasião, a Emdec associou as falhas à idade média dos veículos e reconheceu a necessidade de renovação.
Em junho, a empresa municipal havia informado a aplicação de mais de 25 mil autuações naquele ano, sendo aproximadamente 22 mil relacionadas ao descumprimento de viagens programadas por quebras ou ausência de veículos.
Agora, em novembro, o total geral ultrapassa 42 mil autuações.
Os números demonstram que, apesar da fiscalização e das penalidades, as deficiências operacionais persistem.
Há também distinção entre o número de ocorrências e o número de ônibus efetivamente quebrados: um mesmo veículo pode apresentar problemas em dias diferentes, e os registros de falta podem envolver situações distintas.
Sancetur ofereceu 320 ônibus, mas Prefeitura recusou operação emergencial
Em meio às discussões sobre a continuidade dos serviços, a Sancetur – Santa Cecília Turismo Ltda., empresa da família Chedid, apresentou em agosto uma proposta para disponibilizar até 320 ônibus ao transporte coletivo de Campinas.
A iniciativa foi noticiada pelo Diário do Transporte em 21 de agosto de 2026.
A empresa havia apresentado a menor proposta para o Lote Sul da licitação realizada em março, posteriormente anulada pelo TCE-SP.
A frota oferecida para a eventual operação emergencial era composta, segundo a Sancetur, por ônibus zero-quilômetro e seminovos fabricados entre 2024 e 2026.
A transportadora também afirmou que poderia disponibilizar estrutura operacional e pessoal para assumir os serviços.
Na argumentação encaminhada à prefeitura, a empresa citou os dados de quebras, faltas de ônibus, multas e ocorrências de segurança, sustentando que a situação justificava uma solução emergencial.
Em 1º de setembro, entretanto, o Diário do Transporte informou que a Prefeitura de Campinas havia rejeitado a proposta.
A administração municipal afirmou que a disponibilização de veículos, isoladamente, não permitiria a entrada de uma nova empresa no sistema.
Segundo o município, uma eventual contratação deveria atender às exigências legais, preservar a igualdade de condições entre interessados e demonstrar sua vantagem para a administração pública.
A Prefeitura decidiu manter os serviços com as atuais operadoras, em contratos transitórios, enquanto a nova licitação é conduzida.
A oferta da Sancetur não representava uma transferência automática de 320 veículos para o sistema, tampouco garantia que todos os ônibus estariam disponíveis imediatamente ou seriam destinados ao BRT.
A proposta dependia de contratação, análise de capacidade operacional e definição dos serviços a serem atendidos.
Ainda assim, o episódio se tornou um elemento importante na discussão sobre as alternativas disponíveis para enfrentar a insuficiência de veículos enquanto a concessão definitiva não é concluída.
O agravamento das falhas em novembro recoloca em debate se a continuidade dos contratos atuais, acompanhada de fiscalização e renovação parcial, é suficiente para assegurar a regularidade do transporte coletivo.
Renovação parcial prevê 137 ônibus, mas problemas continuam
A Prefeitura de Campinas anunciou, ao longo de 2026, medidas para renovar parte da frota utilizada pelas atuais concessionárias.
Em acordo envolvendo Expresso Campibus, Itajaí Transportes Coletivos e VB Transportes, foi prevista a incorporação de 137 ônibus novos ou seminovos.
Uma primeira etapa, iniciada em agosto, envolveu 52 veículos.
Posteriormente, em setembro, foi anunciada a entrada de outros 70 ônibus zero-quilômetro pelo Consórcio Cidade de Campinas, o Concicamp, formado pela Campibus e pela Itajaí.
Desse lote, 60 veículos são da Campibus e dez da Itajaí.
Os ônibus foram destinados principalmente ao atendimento de regiões como Campo Grande, Padre Anchieta e Corredor John Boyd Dunlop.
Somadas, as duas etapas representam 122 veículos incluídos no programa de renovação.
A programação previa ainda 15 ônibus da VB Transportes, completando 137 unidades.
Entretanto, renovar veículos não significa necessariamente ampliar a quantidade de ônibus disponível para as viagens.
Parte das unidades pode simplesmente substituir coletivos antigos, retirados de circulação.
Além disso, nem todos os ônibus novos são destinados às linhas do BRT.
A persistência de problemas no Campo Grande mostra que a renovação parcial ainda não foi suficiente para eliminar a deficiência de oferta.
A Emdec anunciou agora a incorporação de mais oito ônibus às linhas do BRT nas próximas semanas, mas não detalhou se essas unidades estão incluídas no programa de 137 veículos ou se representam um acréscimo à programação.
Também é necessário esclarecer quantos ônibus permanecem fora de circulação por manutenção, quantos estão acima da idade máxima contratual e quantos veículos de reserva estão disponíveis nas garagens.
A diferença entre a frota total cadastrada e a frota efetivamente operacional é fundamental para compreender a extensão do problema.
Licitação foi retomada em outubro e novo leilão está marcado para dezembro
Enquanto os problemas operacionais continuam, Campinas prepara uma nova disputa para escolher as concessionárias que deverão operar o transporte coletivo pelos próximos 15 anos, com possibilidade de prorrogação por mais cinco.
A concorrência anterior, realizada em março de 2026, foi anulada após decisão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.
O TCE-SP identificou irregularidades no procedimento licitatório, entre elas problemas relacionados aos prazos concedidos para apresentação de propostas depois de alterações nas condições da disputa.
A decisão não significou que a vitória da Sancetur no Lote Sul fosse, por si só, irregular.
No Lote Norte, a melhor proposta havia sido apresentada pelo Consórcio Grande Campinas.
Com a anulação, os resultados anteriores perderam validade para fins de contratação.
A Prefeitura formalizou a anulação em setembro e republicou o edital em 8 de outubro de 2026, incorporando as adequações determinadas pelo tribunal.
O valor global estimado da concessão é de aproximadamente R$ 13,07 bilhões ao longo dos contratos.
O programa prevê investimentos próximos de R$ 1,94 bilhão, incluindo renovação de frota, modernização tecnológica e intervenções em terminais e estações.
A nova disputa está dividida em dois lotes operacionais, Norte e Sul, e contempla os serviços convencionais, o BRT e o transporte destinado a pessoas com deficiência ou severa restrição de mobilidade.
Pelo cronograma publicado oficialmente, as empresas interessadas deverão apresentar as propostas em 11 de dezembro, na B3, em São Paulo.
A sessão de disputa econômica está prevista para 18 de dezembro, às 14h.
Até esta terça-feira, não foi identificada nova decisão suspendendo o calendário publicado em outubro.
Isso não significa, entretanto, que as futuras concessionárias começarão a operar imediatamente após o leilão.
A concorrência ainda depende das etapas de análise documental, habilitação, homologação, contratação e preparação para o início dos serviços.
Por isso, os problemas atuais da frota continuam exigindo medidas de curto prazo.
Segurança, manutenção e regularidade são desafios para além da troca de empresas
O histórico recente de Campinas demonstra que a solução dos problemas do transporte coletivo não depende exclusivamente da realização da nova licitação.
A troca de concessionárias e a incorporação de veículos novos podem contribuir para a modernização do serviço, mas precisam ser acompanhadas de manutenção preventiva, fiscalização permanente e mecanismos de controle de desempenho.
No caso do ônibus articulado que sofreu danos na articulação, é fundamental esclarecer se houve falha de componente, problema de manutenção, desgaste estrutural ou combinação de fatores.
Nos incêndios de setembro, a divulgação dos resultados das investigações também é importante para identificar medidas preventivas específicas.
No campo operacional, as mais de 24 mil ocorrências de quebras e falta de ônibus no primeiro semestre mostram a necessidade de reduzir os veículos indisponíveis e assegurar o cumprimento das viagens programadas.
A fiscalização e as multas são instrumentos importantes, mas não substituem a obrigação de disponibilizar um serviço regular e seguro.
Para o passageiro, o resultado esperado é concreto: ônibus que cheguem nos horários previstos, em quantidade suficiente e em condições adequadas de conservação e segurança.
A crise do BRT Campo Grande, registrada nesta terça-feira, reúne esses diferentes problemas e amplia a pressão para que a Prefeitura de Campinas e as empresas responsáveis apresentem soluções antes mesmo da conclusão da nova concessão.
A vistoria emergencial anunciada pela Emdec poderá esclarecer a situação dos veículos que permanecem nas garagens e indicar as providências necessárias para recuperar a regularidade das linhas afetadas.
Até lá, o sistema continua convivendo com os efeitos de uma frota envelhecida, de ocorrências mecânicas recorrentes e de uma transição contratual que ainda não chegou ao fim.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
