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VÍDEO ESPECIAL: Sem catraca, com agente de bordo e prioridade nos cruzamentos (metronização), Linha Verde mostra o que o ônibus pode oferecer em São José dos Campos (SP)

Diário do Transporte percorreu o sistema neste sábado (31); conforto e atendimento se destacam, mas passageiros pedem menores intervalos e maior cobertura

ADAMO BAZANI

Edição Vinícius de Oliveira

Uma viagem entre a rodoviária e o Terminal Sul de São José dos Campos (SP), neste sábado, 31 de outubro de 2026, mostrou como a combinação de ônibus elétrico, corredor, prioridade nos semáforos e atendimento humano pode melhorar a experiência de quem utiliza o transporte coletivo. O Diário do Transporte conheceu a operação da Linha Verde e encontrou características que merecem atenção de outras cidades: embarque sem catraca, pagamento por aproximação com cartões bancários, câmeras no lugar dos retrovisores e um profissional a bordo para auxiliar os passageiros, além do motorista.

A visita ocorreu no dia seguinte ao anúncio do BNDES de aprovação de R$ 879,4 milhões para financiar 400 ônibus elétricos da marca Eletra destinados à renovação integral da frota municipal. A experiência no VLP — Veículo Leve sobre Pneus — foi positiva, mas também revelou desafios apontados pelos usuários ouvidos: melhorar os intervalos nos fins de semana e levar o atendimento a mais regiões. São questões decisivas para que a qualidade percebida dentro do veículo se traduza em uma alternativa mais útil nos deslocamentos cotidianos.

A experiência começa na chegada pela rodoviária

Para quem chega de outra cidade, a conexão entre o terminal rodoviário e o transporte municipal é parte importante da viagem. Foi justamente essa ligação que a reportagem utilizou, seguindo até o Terminal Sul, na região do Campo dos Alemães.

O percurso permite conhecer uma proposta de transporte que reúne infraestrutura e veículos específicos, em vez de depender apenas da substituição do ônibus a diesel por um elétrico.

O silêncio da propulsão, a configuração de piso baixo, a facilidade de pagamento e a presença de um agente de bordo chamaram a atenção. Também merece registro a educação do motorista que conduziu a viagem acompanhada pela reportagem.

O tratamento respeitoso ao passageiro foi um dos destaques da experiência deste sábado. É um aspecto que merece reconhecimento: a qualidade do transporte também passa pela maneira como as pessoas são recebidas e atendidas.

Essa observação se refere à viagem realizada pelo Diário do Transporte, sem representar uma avaliação de todos os profissionais ou de todos os horários do sistema.



Sem catraca: o passageiro valida a própria passagem

Uma das diferenças mais perceptíveis no VLP é a ausência de catraca.

O passageiro utiliza os validadores instalados no veículo para registrar o pagamento. Além do cartão do transporte municipal, o sistema aceita cartões bancários de crédito e débito por aproximação e carteiras digitais.

Para quem desembarca na rodoviária e pretende seguir de ônibus urbano, essa possibilidade facilita o acesso ao serviço, pois permite pagar a viagem sem providenciar previamente um cartão específico da cidade.

A Prefeitura informa que a integração com o Bilhete Único municipal tem validade de duas horas. O pagamento com cartão bancário ou carteira digital possui regras próprias, que precisam ser observadas pelo passageiro ao utilizar o serviço.

A ausência da barreira física da catraca deixa a circulação interna mais livre. Ao mesmo tempo, exige que o passageiro valide corretamente a viagem e compreenda como funciona a cobrança.

É uma mudança na forma de organizar o embarque: o equipamento registra a passagem, enquanto a orientação ao usuário ganha importância.



Agente de bordo faz diferença em um ônibus articulado

Na viagem acompanhada pela reportagem, além do motorista, havia outro profissional atuando como agente de bordo e auxiliando no embarque e desembarque.

Essa presença foi um dos pontos mais positivos da experiência.

Em um ônibus articulado, o comprimento do veículo e a distribuição dos passageiros tornam especialmente importante o apoio ao atendimento. O motorista precisa conduzir, acompanhar o trânsito e observar as condições de segurança; o agente de bordo pode auxiliar quem está nas portas e no salão.

O benefício é particularmente relevante para pessoas com dificuldade de locomoção, idosos e passageiros que ainda não conhecem o funcionamento do serviço.

Também ajuda a esclarecer uma diferença: retirar a catraca não elimina a necessidade de atendimento humano.

A tecnologia facilita o pagamento e a operação, mas a presença de um profissional disponível para orientar o passageiro acrescenta uma dimensão de acolhimento que foi percebida durante o trajeto.

Câmeras substituem os retrovisores e ampliam a visão do motorista

Outro recurso observado foi a utilização de câmeras no lugar dos espelhos retrovisores externos convencionais.

As imagens são apresentadas ao motorista em monitores, permitindo acompanhar as laterais do veículo.

O objetivo dessa solução é ampliar o campo de visão e reduzir pontos cegos. Em um articulado, esse apoio é relevante devido às dimensões do ônibus e aos cuidados exigidos nas aproximações de estações, conversões e mudanças de trajetória.

A tecnologia, contudo, não significa ausência absoluta de pontos cegos ou de riscos. Seu desempenho depende do posicionamento das câmeras, da qualidade das imagens e da correta utilização pelo condutor.

Na experiência acompanhada pelo Diário do Transporte, o recurso se somou às demais características de uma operação que busca oferecer ao motorista melhores condições para acompanhar o entorno do veículo.



Prioridade nos cruzamentos aproxima o ônibus de uma operação mais regular

A Linha Verde também chama a atenção pela aplicação de um conceito frequentemente chamado de “metronização”: organizar o transporte por ônibus com infraestrutura e procedimentos que favoreçam regularidade, fluidez e facilidade de utilização.

Isso envolve dar prioridade ao coletivo nos cruzamentos, em vez de submetê-lo às mesmas condições de todos os veículos.

A Prefeitura descreve o funcionamento da “onda verde” como a detecção da aproximação do VLP e a alteração do estágio semafórico em favor de sua passagem.

Em julho de 2026, o município anunciou a instalação de 22 câmeras inteligentes nos semáforos da Linha Verde, com conexão ao Centro de Segurança e Inteligência, leitura de placas e apoio ao acompanhamento do corredor. Na ocasião, informou que os equipamentos passariam por testes e integração aos sistemas municipais.

O efeito buscado é reduzir as interrupções e tornar o deslocamento mais previsível.

O termo “metronização” expressa essa procura por uma operação mais organizada. Não significa equivalência automática à capacidade, à frequência ou à segregação de um metrô.

Para o passageiro, o resultado precisa aparecer na prática: menos tempo parado, maior regularidade e conexões que funcionem.

Para ajudar, há anúncio da estações em áudio eletrônico como num metrô.



O percurso inclui um trecho pela Rodovia Presidente Dutra

A viagem realizada neste sábado também incluiu circulação por um trecho da Rodovia Presidente Dutra.

A presença do ônibus urbano nesse ambiente chama a atenção e mostra uma particularidade da ligação entre a região sul e a área da rodoviária.

O percurso evidencia como o transporte municipal precisa conectar partes da cidade separadas por grandes estruturas viárias.

Também reforça a importância de analisar cada segmento da operação. O desempenho de um corredor depende das condições de suas estações, cruzamentos, acessos e trechos de circulação.



Piso baixo e silêncio tornam a viagem mais confortável

O corredor é atendido por veículos de piso baixo, uma característica importante para facilitar o acesso e a circulação dos passageiros.

A acessibilidade depende do conjunto formado pelo ônibus e pelo local de parada: aproximação correta, condições da plataforma, espaço disponível e recursos de auxílio ao embarque.

Na viagem acompanhada, a configuração interna e a ausência de catraca contribuíram para uma experiência mais simples de utilização.

O menor ruído da propulsão elétrica também foi perceptível.

O ônibus não é totalmente isento de sons, pois continuam presentes o contato dos pneus com o pavimento, a climatização e outros equipamentos. Ainda assim, o ambiente interno se mostrou silencioso, uma das qualidades mais evidentes do percurso.

Esse benefício pode ser percebido tanto pelos passageiros quanto pelos trabalhadores que passam parte significativa do dia no veículo.



Passageiros aprovam a experiência, mas pedem mais frequência e cobertura

As avaliações positivas dos usuários ouvidos pela reportagem vieram acompanhadas de duas cobranças: intervalos melhores nos fins de semana e ampliação do alcance da malha.

São observações relevantes porque o conforto durante o percurso é apenas uma parte do tempo gasto para chegar ao destino.

A espera no ponto, a necessidade de integração e a distância até uma estação também influenciam a escolha pelo transporte coletivo.

Os relatos colhidos neste sábado expressam a percepção dos passageiros consultados. Não constituem uma pesquisa representativa de todos os usuários da cidade.

Ainda assim, apontam uma questão concreta: um serviço bem avaliado por quem o utiliza pode ter seu benefício limitado pela frequência ou pela dificuldade de acesso a partir de outros bairros.

Para quem depende do ônibus também aos sábados e domingos, a oferta nesses dias precisa fazer parte da avaliação da qualidade do sistema.

Linha Verde começou a operar em 2022 e ganhou conexão com a rodoviária

A implantação da Linha Verde ocorreu por etapas.

O corredor iniciou a operação entre o Terminal Sul e o Terminal Dutra em 31 de julho de 2022. Em outubro daquele ano, o atendimento foi ampliado até a Rodoviária Nova, com início da nova ligação no dia 22.

Na divulgação dessa ampliação, a Prefeitura informou a aquisição de 12 articulados elétricos, com 22 metros de comprimento e capacidade anunciada para até 168 passageiros.

Os veículos da Linha Verde são fabricados pela BYD e Marcopolo. O corredor passou a integrar a ligação entre a região sul e a área central, com estrutura divulgada pelo município de 14,5 quilômetros e 13 estações.

A rede possui duas opções principais de itinerário a partir da Estação Sul, no Campo dos Alemães: uma em direção ao Centro, na Praça Maurício Cury, e outra até a rodoviária, no Jardim Paulista.

Em 2023, a Prefeitura anunciou a instalação de mapas nas estações para orientar os usuários sobre os percursos e os serviços próximos.

A ligação utilizada pela reportagem, portanto, integra uma experiência que já acumula cerca de quatro anos de operação e permite observar resultados concretos, além das propostas de expansão.

VLP e BRT: a qualidade depende do conjunto da operação

VLP é a denominação adotada para os veículos que atendem à Linha Verde. São ônibus articulados elétricos sobre pneus.

BRT, sigla em inglês para transporte rápido por ônibus, se refere à organização do sistema, com elementos como prioridade de circulação, estações e procedimentos destinados a reduzir o tempo de viagem e melhorar a regularidade.

Um veículo elétrico, por si só, não transforma uma linha em BRT. Da mesma forma, a aparência do ônibus não determina a qualidade do atendimento.

Na Linha Verde, o interesse está na combinação de características: corredor, prioridade semafórica, veículos de maior capacidade, piso baixo e embarque sem catraca.

A experiência deste sábado mostrou aspectos positivos desse conjunto. As cobranças dos passageiros sobre intervalos e abrangência indicam onde a operação ainda precisa melhorar para ampliar sua utilidade.

Expansão para a região leste prevê 8,3 quilômetros e R$ 242 milhões

A ampliação da infraestrutura é uma das frentes dos planos municipais.

Em junho de 2026, a Prefeitura detalhou o projeto Linha Verde Eixo Leste — Trecho II, após a assinatura de convênio com o Governo de São Paulo em 29 de maio.

O segmento anunciado tem 8,3 quilômetros, entre a Avenida Senador Teotônio Vilela e a Avenida Presidente Tancredo Neves, utilizando a faixa das antigas torres de transmissão de energia.

O investimento estimado é de R$ 242 milhões, com aporte estadual de R$ 127 milhões.

A proposta inclui pavimentação, drenagem, calçadas, ciclovias, sinalização, iluminação e áreas verdes. Trata-se de uma expansão planejada do corredor, distinta do trecho que a reportagem utilizou neste sábado.

A ligação com a região leste é relevante justamente diante da cobrança por maior cobertura.

Seu resultado para os passageiros dependerá também da definição dos serviços, das conexões com os bairros e da frequência oferecida.

A rede municipal está em transição e já recebe elétricos fora da Linha Verde

A Linha Verde integra uma estrutura mais ampla de transporte municipal.

O portal da Prefeitura relaciona os contratos dos três lotes do sistema com a Viação Saens Peña, a Joseense Transportes de Passageiros Ltda. e a Expresso Maringá do Vale S.A.

A eletrificação também já chegou a linhas fora do corredor dos VLPs.

Em fevereiro de 2026, por exemplo, o município informou a inclusão da ligação Bosque dos Ipês–Jardim Satélite, via Jardim Sul, na operação elétrica. Na mesma divulgação, relacionou atendimentos elétricos entre Morumbi e Aquarius, Vale Sul Shopping e CenterVale Shopping, Galo Branco e Avenida São José, Parque Novo Horizonte e Avenida São José, além de Terminal Central–Dom Pedro.

Esse registro mostra que a transição vem ocorrendo gradualmente e alcança diferentes ligações municipais.

A avaliação do sistema completo precisa acompanhar essa transformação, considerando tanto as características dos veículos quanto a oferta efetiva nas linhas.

Os 400 ônibus financiados fazem parte de outro passo da eletrificação

Como o Diário do Transporte mostrou na sexta-feira, 30 de outubro, os 400 veículos do projeto de renovação municipal serão fornecidos pela Green Energy à Urbam, por locação, com tecnologia de tração elétrica da Eletra.

Nos primeiros ônibus entregues, a configuração reúne tecnologia Eletra, carroceria Caio, chassi Mercedes-Benz e baterias e motores WEG.

Essa frota se distingue dos articulados BYD/Marcopolo que já atendem à Linha Verde.

O anúncio do BNDES é uma aprovação de financiamento para aquisição dos veículos pela fornecedora. A conclusão da eletrificação depende das entregas e da implantação da estrutura necessária à operação.

Segundo o banco, o projeto tem investimento total de R$ 1,139 bilhão, utiliza recursos do FGTS pelo Pró-Transporte, no âmbito do Refrota e do Novo PAC, e prevê entrega dos ônibus até 2027.

Locação separa o fornecimento dos ônibus da operação das linhas

O modelo adotado em São José dos Campos separa responsabilidades.

A contratação da frota é feita pela Urbam, empresa controlada pelo município. O contrato de locação dos 400 elétricos é sem motorista e inclui as respectivas manutenções preventivas.

A documentação municipal também relaciona contratos de comodato com as concessionárias, permitindo a disponibilização dos veículos às empresas responsáveis pela operação.

A distinção ajuda a compreender a transformação: fornecer o ônibus e operar a linha são atividades contratualmente separadas.

Para o passageiro, porém, essas partes precisam funcionar de maneira coordenada. Veículo disponível, manutenção, carregamento, motorista e programação de viagens compõem um único serviço no cotidiano.

A viagem mostra o potencial; frequência e integração determinam o alcance

A experiência entre a rodoviária e o Terminal Sul deixou uma impressão positiva.

O silêncio do ônibus elétrico, o embarque sem catraca, os meios de pagamento, o auxílio do agente de bordo e a educação do motorista foram aspectos concretos percebidos pela reportagem.

A prioridade nos cruzamentos e a estrutura de corredor acrescentam elementos que podem tornar o ônibus mais competitivo no deslocamento urbano.

Os passageiros ouvidos, por sua vez, ajudam a colocar a discussão na escala da cidade: é preciso conseguir chegar ao serviço e contar com ele também nos fins de semana.

São José dos Campos já oferece, na Linha Verde, uma experiência que merece ser conhecida. A expansão do corredor e a renovação da frota abrem a possibilidade de levar parte dessas qualidades a mais pessoas. O resultado será medido nas viagens diárias, na espera e na facilidade para chegar ao destino.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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