ADAMO BAZANI
Os ônibus elétricos deverão representar aproximadamente 28% de todos os novos licenciamentos de ônibus urbanos no Brasil até 2035, segundo projeção apresentada nesta sexta-feira, 30 de outubro de 2026, pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante. A estimativa acompanha o crescimento da eletromobilidade no transporte coletivo brasileiro e reforça a importância do financiamento de longo prazo para que as cidades consigam substituir veículos movidos a diesel por modelos de emissão zero no escapamento. A fabricante nacional Eletra, líder do segmento de ônibus elétricos no primeiro semestre de 2026, destaca que a atuação do BNDES é fundamental para democratizar o acesso à tecnologia, fortalecer a produção brasileira e tornar o transporte público mais atraente.
A previsão foi apresentada no anúncio da aprovação de R$ 879,4 milhões em financiamento para a aquisição de 400 ônibus elétricos com tecnologia Eletra destinados a São José dos Campos, no interior paulista. Os veículos serão adquiridos pela Green Energy e disponibilizados à Urbanizadora Municipal (Urbam), por meio de um contrato de locação. O investimento total no projeto chega a R$ 1,139 bilhão e permitirá a renovação de 100% da frota municipal até 2027. Para a diretora-presidente da Eletra, Milena Braga Romano, o financiamento representa uma oportunidade de levar a eletromobilidade a diferentes municípios brasileiros, com benefícios ambientais, industriais, econômicos e sociais.
Mercadante prevê participação de 28% dos elétricos até 2035
Ao apresentar o financiamento para São José dos Campos, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou a expansão dos ônibus elétricos no país e a perspectiva de crescimento para os próximos anos.
Segundo os dados apresentados pelo banco, o Brasil registrou 86 emplacamentos de ônibus elétricos em 2023, enquanto em 2025 foram 849 veículos.
Em outubro de 2026, a frota nacional de ônibus elétricos a bateria já supera 2,2 mil unidades.
A previsão para 2035 é que aproximadamente 28% dos ônibus urbanos licenciados naquele ano sejam elétricos.
A estimativa se refere à participação nos novos licenciamentos, e não à proporção de veículos elétricos em toda a frota brasileira em circulação, que inclui ônibus adquiridos ao longo de muitos anos.
O percentual também não significa que 28% dos veículos urbanos em circulação já serão elétricos em 2035. A renovação do conjunto da frota depende do ritmo de substituição dos modelos existentes.
“Esse é o primeiro projeto aprovado pelo BNDES para renovação de 100% da frota de uma cidade com ônibus elétricos produzidos no país”, afirmou Mercadante, referindo-se à iniciativa de São José dos Campos.
Para o presidente do banco, a substituição dos veículos convencionais por modelos elétricos representa ganhos ambientais e de qualidade de vida, especialmente pela redução do ruído e das emissões de poluentes durante a operação.
A projeção de crescimento também indica um desafio para a indústria brasileira: ampliar a capacidade de fabricação e assegurar que o aumento da demanda seja acompanhado por investimentos em engenharia, baterias, motores, componentes e infraestrutura de recarga.
Eletra destaca papel do BNDES para democratizar a eletromobilidade
Para a Eletra, fabricante brasileira sediada em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, a participação de instituições públicas de financiamento é estratégica para que a eletrificação não fique restrita aos municípios com maior disponibilidade imediata de recursos.
A empresa considera que o acesso ao crédito de longo prazo pode transformar projetos de renovação de frota em investimentos viáveis, permitindo que cidades com diferentes características econômicas e operacionais adotem ônibus elétricos.
“O papel do BNDES é fundamental para a democratização do acesso à eletromobilidade nas mais diversas cidades brasileiras. Muito mais que ônibus elétricos, trata-se de um conjunto de esforços para cidades mais sustentáveis, para a geração de emprego qualificado no Brasil e para a retomada da atratividade do transporte coletivo”, afirma a diretora-presidente da Eletra, Milena Braga Romano.
A avaliação da fabricante considera que o investimento em eletromobilidade produz efeitos que ultrapassam a substituição da fonte de energia dos veículos.
A produção nacional movimenta fornecedores de motores, baterias, sistemas eletrônicos, cabos, estruturas, componentes de potência, equipamentos de recarga e serviços de engenharia.
Também exige trabalhadores qualificados em diferentes etapas, desde o desenvolvimento dos veículos até a fabricação, assistência técnica e manutenção.
O fortalecimento dessa cadeia produtiva é considerado um dos elementos importantes para que o crescimento do mercado brasileiro de ônibus elétricos seja acompanhado pela geração de empregos e pelo desenvolvimento tecnológico no próprio país.
Eletra liderou emplacamentos no primeiro semestre e prepara expansão industrial
De acordo com levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), a Eletra liderou os emplacamentos nacionais de ônibus elétricos no primeiro semestre de 2026.
A fabricante registrou 224 unidades, correspondentes a aproximadamente 38% do total de ônibus elétricos emplacados no período.
Para acompanhar o crescimento das encomendas, a empresa anunciou investimentos superiores a R$ 270 milhões em desenvolvimento tecnológico e ampliação industrial.
O planejamento contempla investimentos de mais de R$ 70 milhões no desenvolvimento de uma nova geração de chassis elétricos e recursos superiores a R$ 200 milhões para uma futura unidade industrial.
A expectativa é ampliar a capacidade de produção da fábrica atual para aproximadamente 1.700 ônibus por ano em 2027.
Com uma segunda unidade, a capacidade combinada projetada é de aproximadamente 3 mil veículos anuais.
A expansão industrial também poderá resultar na criação de cerca de mil novos empregos, segundo a empresa.
A Eletra trabalha com programação superior a mil entregas para 2027 e participa de projetos de eletrificação em diferentes municípios brasileiros, incluindo São Paulo, São José dos Campos, Belo Horizonte e Montes Claros.
São José dos Campos terá 400 ônibus elétricos com tecnologia Eletra
O financiamento anunciado pelo BNDES nesta sexta-feira contempla a aquisição de 400 ônibus elétricos para São José dos Campos, município com mais de 720 mil habitantes.
O projeto representa a primeira operação aprovada pelo banco para a substituição integral da frota municipal de transporte coletivo por ônibus elétricos produzidos no Brasil.
A Eletra será responsável pela tecnologia dos veículos, incluindo os sistemas de tração elétrica, gerenciamento eletrônico e distribuição de energia.
Nos primeiros ônibus entregues ao município, a tecnologia da fabricante está integrada a carrocerias Caio, chassis Mercedes-Benz e sistemas de baterias e motores WEG.
Os veículos possuem recursos como piso baixo, rampas de acessibilidade, ar-condicionado e entradas USB para os passageiros.
Além da ausência de emissões de poluentes pelo escapamento, a operação elétrica proporciona menor nível de ruído e vibração, contribuindo para o conforto dos passageiros e para as condições de trabalho dos motoristas.
Segundo a Prefeitura de São José dos Campos, 20 ônibus do contrato já estão em operação.
A previsão é que a entrega dos 400 veículos seja concluída até junho de 2027.
O financiamento de R$ 879,4 milhões utiliza recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), por meio do Programa BNDES Pró-Transporte, no âmbito do Refrota e do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Locação permite separar fornecimento dos veículos e operação das linhas
Uma das características do projeto de São José dos Campos é o modelo de contratação da frota.
Em vez de a Prefeitura adquirir diretamente todos os ônibus ou exigir que as concessionárias responsáveis pelas linhas realizem essa compra, o município estruturou um contrato específico de locação.
A Green Energy venceu a licitação e ficou responsável por adquirir os veículos e disponibilizá-los ao sistema municipal.
O contrato com a Urbam foi assinado em março de 2025, com prazo de 15 anos e valor aproximado de R$ 2,718 bilhões ao longo de sua vigência.
A empresa também responde pela manutenção preventiva dos ônibus, conforme as obrigações contratuais.
As operadoras permanecem responsáveis pela circulação nas linhas e pelo atendimento aos passageiros.
Dessa forma, a disponibilização dos veículos e a prestação do serviço de transporte passam a ser atividades contratadas separadamente.
O modelo pode representar uma alternativa para municípios que pretendem eletrificar suas frotas sem concentrar toda a aquisição dos veículos em um desembolso imediato.
Entretanto, a locação também exige planejamento financeiro de longo prazo.
Os pagamentos permanecem ao longo da vigência contratual, sendo necessário avaliar os custos totais, os mecanismos de reajuste, as responsabilidades pela manutenção, a substituição de baterias e as garantias de disponibilidade dos ônibus.
Para a administração pública, a escolha entre compra direta, aquisição pelas concessionárias e locação depende das características de cada sistema e da comparação dos custos e riscos envolvidos.
O financiamento do BNDES à Green Energy é o instrumento que viabiliza a compra dos veículos que serão posteriormente disponibilizados à Urbam.
Infraestrutura de recarga também receberá investimentos
A eletrificação integral de São José dos Campos depende não apenas da entrega dos veículos, mas da implantação de infraestrutura capaz de garantir a recarga e a disponibilidade operacional da frota.
A estrutura física será de responsabilidade do município.
O planejamento prevê 156 carregadores distribuídos em nove pátios de recarga.
O Pátio Linha Verde já conta com seis carregadores instalados e em funcionamento.
O Pátio Sul dispõe de infraestrutura elétrica composta por 34 carregadores.
Outro empreendimento, o Pátio Paraíso do Sol, está em implantação, com previsão de conclusão até o final de 2026.
Os demais pátios serão implantados gradualmente, com conclusão geral prevista para 2028.
Segundo o BNDES, a substituição da frota convencional pelos veículos elétricos poderá reduzir as emissões de gases de efeito estufa em aproximadamente 31 mil toneladas de dióxido de carbono por ano.
A estimativa considera os benefícios ambientais associados ao projeto, que também incluem a eliminação das emissões de poluentes pelo escapamento durante a circulação dos ônibus.
Eletrificação depende de financiamento, produção nacional e planejamento das cidades
A projeção apresentada por Aloizio Mercadante para 2035 mostra que a eletrificação tende a ocupar uma parcela crescente do mercado brasileiro de ônibus urbanos.
Entretanto, a velocidade dessa transformação dependerá da capacidade de municípios, empresas operadoras, fabricantes e instituições financeiras de estruturar projetos economicamente sustentáveis.
O investimento inicial em ônibus elétricos costuma ser superior ao necessário para a aquisição de veículos convencionais a diesel.
Em contrapartida, dependendo das condições de operação, tarifas de energia, manutenção e disponibilidade da frota, os veículos elétricos podem apresentar custos operacionais inferiores ao longo de sua vida útil.
A avaliação, portanto, não deve considerar apenas o preço de compra, mas o custo total de propriedade e operação.
Também é necessário assegurar infraestrutura elétrica, recarga, manutenção especializada, peças de reposição e capacidade técnica para administrar a nova tecnologia.
Para a Eletra, a existência de instrumentos de financiamento de longo prazo, como os oferecidos pelo BNDES, contribui para aproximar as necessidades dos municípios da capacidade tecnológica e produtiva da indústria brasileira.
A empresa considera que o fortalecimento da cadeia nacional permite que os investimentos em transporte público também produzam benefícios para a economia, a engenharia e a geração de empregos no Brasil.
A experiência de São José dos Campos reúne essas diferentes dimensões: financiamento, tecnologia nacional, renovação integral da frota e um modelo de locação que separa a disponibilização dos veículos da operação das linhas.
Para os passageiros, o resultado esperado é um transporte coletivo mais silencioso, confortável e com menor impacto ambiental.
Para o setor, o desafio dos próximos anos será transformar a projeção de participação de 28% dos novos licenciamentos de ônibus urbanos em 2035 em uma expansão efetiva e sustentável da eletromobilidade brasileira.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
