ADAMO BAZANI
O Ministério dos Transportes prevê para 2027 uma carteira de 29 projetos de infraestrutura, com investimentos estimados em R$ 262,6 bilhões em rodovias e ferrovias de diferentes regiões do Brasil. São 11 projetos rodoviários, que representam R$ 102,68 bilhões, e 18 iniciativas ferroviárias, com previsão de R$ 160 bilhões. Além da construção e recuperação de estradas e trilhos, o planejamento representa oportunidades de negócios para empresas de transporte, concessionárias, fabricantes de equipamentos, fornecedores de tecnologia e prestadores de serviços.
Para quem utiliza ônibus rodoviários, dirige caminhões ou depende diariamente das estradas, os possíveis benefícios incluem percursos mais seguros, redução de congestionamentos, maior previsibilidade das viagens e melhores condições de circulação. Entretanto, os valores anunciados representam investimentos previstos para contratos e projetos que ainda precisam passar por diferentes etapas. Não significam que todo esse dinheiro será aplicado em 2027 nem que as intervenções estarão concluídas no próximo ano.
A carteira foi apresentada em 15 de outubro de 2026, na B3, em São Paulo (SP), pelo ministro dos Transportes, George Santoro. Nesta sexta-feira, 30 de outubro, o Governo Federal também inicia em Londres, no Reino Unido, uma agenda para apresentar as oportunidades a investidores internacionais.
A intenção é ampliar a concorrência entre grupos interessados em administrar rodovias, construir infraestrutura e recuperar trechos ferroviários, com a participação de empresas brasileiras e estrangeiras.
Rodovias: duplicações, faixas adicionais e oportunidades para o transporte de passageiros
Dos 11 projetos rodoviários previstos para 2027, nove correspondem a leilões de concessões e dois à chamada otimização de contratos existentes.
O conjunto dos nove leilões inclui a previsão de duplicação de 373,87 quilômetros de rodovias e implantação de 513,36 quilômetros de faixas adicionais.
Nos dois projetos de otimização contratual, estão previstas duplicações de outros 195,2 quilômetros e 36,93 quilômetros de faixas adicionais.
Somadas, as intervenções representam aproximadamente 569 quilômetros de duplicações e 550 quilômetros de faixas adicionais.
Para os passageiros de ônibus, duplicar uma rodovia ou ampliar sua capacidade pode significar viagens menos sujeitas a retenções, especialmente em trechos de intenso movimento de caminhões, automóveis e veículos de transporte coletivo.
Também há possíveis ganhos para o turismo rodoviário, o fretamento, o transporte intermunicipal e interestadual de passageiros e as linhas que atendem cidades do interior.
Esses resultados, porém, dependem das características de cada projeto, da execução das obras e da qualidade da operação posterior. Uma concessão, por si só, não garante a eliminação de congestionamentos ou acidentes.
Entre os projetos rodoviários apresentados para 2027 estão:
| Projeto | Rodovias e localização |
|---|---|
| Rota Integração do Sul | BR-116, BR-158, BR-290 e BR-392, no Rio Grande do Sul |
| Rota Portuária do Sul | BR-116 e BR-392, no Rio Grande do Sul |
| Rodovias Integradas de Santa Catarina — Lote 1 | BR-153, BR-282 e BR-470, em Santa Catarina |
| Rodovias Integradas de Santa Catarina — Lote 3 | BR-153, BR-282 e BR-480, em Santa Catarina |
| Rota Vale do Café | BR-393, no Rio de Janeiro |
| Otimização Transbrasiliana | BR-153, em São Paulo |
| Rota Portuária Itaqui | BR-135 e BR-316, no Maranhão |
| Rota Norte Catarinense — Lote 2 | BR-280, em Santa Catarina |
| Otimização Rota Planalto Sul | BR-116, no Paraná e em Santa Catarina |
| Rota do Açu | BR-356, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro |
| Rota Centro-Sul Baiano | BR-101, na Bahia |
A programação abrange corredores relevantes para a circulação de passageiros e mercadorias, inclusive ligações entre regiões industriais, áreas produtoras, cidades turísticas e instalações portuárias.
Mercado poderá movimentar empresas de ônibus, fornecedores e construtoras
Os investimentos rodoviários previstos vão além das empresas que disputarão diretamente as concessões.
A construção e a manutenção da infraestrutura podem gerar demanda para construtoras, empresas de engenharia, fabricantes de máquinas, fornecedores de sinalização, iluminação, sistemas de cobrança de pedágio e equipamentos de segurança.
Há ainda oportunidades para negócios ligados à operação das rodovias, como atendimento aos usuários, socorro mecânico, monitoramento de tráfego e soluções digitais.
Para o setor de ônibus, os benefícios comerciais podem aparecer de maneira indireta. Estradas em melhores condições e viagens mais previsíveis favorecem o planejamento de horários e a utilização dos veículos.
Um ônibus que enfrenta menos congestionamentos tende a apresentar melhores condições para cumprir sua programação, embora os ganhos concretos dependam do tráfego, da extensão dos percursos e das intervenções realizadas.
Por outro lado, a implantação ou alteração de pedágios pode representar custos adicionais para transportadoras e empresas de ônibus. Dependendo do contrato e das regras tarifárias aplicáveis, esses custos podem influenciar a composição do preço do transporte.
Por isso, além do volume de investimentos anunciado, será importante acompanhar as tarifas previstas, os prazos de execução, as obrigações contratuais e os mecanismos de fiscalização das futuras concessionárias.
Governo quer recuperar contratos rodoviários que enfrentam dificuldades
Uma parte da carteira não corresponde à entrega de novas rodovias à iniciativa privada, mas à tentativa de recuperar contratos que apresentam problemas financeiros ou dificuldades de execução.
São os chamados contratos de otimização.
Nesse modelo, as condições de concessões existentes passam por processos de revisão e reestruturação para permitir a retomada de investimentos e a continuidade dos serviços.
A proposta envolve mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro, novas obrigações e procedimentos para reorganizar a prestação dos serviços.
O Ministério dos Transportes informa que, com os dois projetos previstos para 2027, os acordos de otimização aprovados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) deverão chegar a nove, reunindo investimentos de R$ 124 bilhões.
A otimização, entretanto, precisa conciliar os interesses das empresas e a sustentabilidade dos contratos com a proteção dos usuários, especialmente em relação às tarifas de pedágio e à realização efetiva das obras.
Ferrovias concentram a maior parte dos investimentos e podem abrir espaço para transporte de passageiros
O maior volume financeiro da carteira está no setor ferroviário.
São R$ 160 bilhões estimados em 18 projetos, distribuídos entre oito concessões, nove chamamentos públicos para autorização e uma iniciativa de oferta permanente de terminais e trechos ferroviários ociosos.
O planejamento envolve tanto a implantação de novas estruturas quanto a recuperação de linhas existentes.
Uma das possibilidades é a utilização de trechos ferroviários atualmente subaproveitados, mediante apresentação de propostas por empresas interessadas em recuperar e operar a infraestrutura.
O modelo poderá contemplar o transporte de cargas ou passageiros, conforme as características dos trechos e a viabilidade dos projetos.
Essa possibilidade merece atenção especial porque parte da infraestrutura ferroviária brasileira deixou de atender passageiros ao longo das décadas, enquanto outras linhas perderam importância operacional ou passaram a funcionar com utilização reduzida.
A recuperação de trilhos pode representar alternativas de transporte para determinadas regiões, mas não significa automaticamente o retorno de trens de passageiros.
Para isso, serão necessários estudos de demanda, avaliação das condições da via, investimentos em material rodante, estações, sinalização e segurança operacional, além da definição de quem custeará os serviços.
Corredor Minas-Rio terá chamamento público em dezembro
Uma das iniciativas previstas ainda para 2026 é o chamamento público do Corredor Minas-Rio, marcado para 17 de dezembro.
O projeto envolve aproximadamente 733 quilômetros de infraestrutura ferroviária entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro.
A proposta faz parte de um modelo em que empresas poderão apresentar planos para recuperar e utilizar trechos ferroviários, inclusive com possibilidade de apoio governamental, conforme as regras estabelecidas.
O modelo de autorização procura permitir que interessados do setor privado apresentem soluções de exploração comercial para a infraestrutura.
O interesse econômico poderá variar de acordo com a localização, as condições dos trilhos, o potencial de transporte de cargas, a conexão com outras ferrovias e a possibilidade de atendimento de passageiros.
Outro projeto destacado pelo Ministério dos Transportes é o Anel Ferroviário do Sudeste, destinado a ampliar a integração da malha ferroviária com corredores logísticos e portos dos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.
O empreendimento está previsto como uma concessão para implantação de nova infraestrutura, modalidade conhecida no mercado como greenfield.
Diferentemente da recuperação de uma ferrovia existente, esse tipo de projeto envolve a construção de uma nova ligação, com demandas específicas de engenharia, licenciamento ambiental, desapropriações e financiamento.
Como os R$ 262,6 bilhões serão distribuídos
| Segmento | Projetos | Investimentos previstos |
|---|---|---|
| Rodovias | 11 | R$ 102,68 bilhões |
| Ferrovias | 18 | R$ 160 bilhões |
| Total | 29 | R$ 262,68 bilhões |
Os investimentos ferroviários representam aproximadamente 61% do montante anunciado, enquanto os rodoviários correspondem a cerca de 39%.
Na prática, a carteira também poderá movimentar fabricantes de trilhos, dormentes, equipamentos de sinalização, locomotivas, vagões e componentes ferroviários, além de empresas de projetos, engenharia e manutenção.
No caso das ferrovias, o Governo Federal pretende utilizar instrumentos como financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), garantias públicas, investimentos cruzados e aportes governamentais para melhorar a viabilidade econômica de determinados empreendimentos.
Esses mecanismos poderão ser importantes especialmente nos projetos com investimentos elevados, retorno financeiro de longo prazo ou necessidade de recuperação de infraestrutura deteriorada.
Investimentos também dependerão de financiamento, segurança jurídica e capacidade de execução
O anúncio de uma carteira bilionária representa uma perspectiva de mercado, mas sua transformação em obras depende de condições econômicas, regulatórias e contratuais.
Entre os principais fatores estão a disponibilidade de financiamento, as taxas de juros, os riscos de construção, o licenciamento ambiental, a previsão de receitas e a segurança jurídica dos contratos.
Em concessões rodoviárias, por exemplo, uma empresa precisa avaliar se a arrecadação esperada será suficiente para financiar obras, manutenção e operação, considerando também as obrigações assumidas perante o poder público.
Nas ferrovias, o desafio inclui investimentos de longo prazo e a necessidade de garantir demanda suficiente para justificar a recuperação ou a implantação de determinados corredores.
O Governo Federal informa que 18 novos grupos passaram a participar do mercado de concessões rodoviárias nos 25 leilões realizados desde 2023.
A ampliação do número de interessados pode favorecer a competição, mas a qualidade de uma concessão também precisa ser medida pela capacidade de entregar as obras, manter os serviços e cumprir as obrigações previstas.
Próximos passos: editais e leilões em 2027
O cronograma preliminar do Ministério dos Transportes prevê a publicação dos editais rodoviários entre março e agosto de 2027.
Os leilões estão programados para ocorrer entre junho e dezembro.
As datas ainda dependerão da conclusão dos estudos, das etapas regulatórias, das audiências públicas e do alinhamento com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
No setor ferroviário, parte dos projetos seguirá modelos tradicionais de concessão, enquanto outra parcela poderá ser ofertada por meio de autorizações e chamamentos públicos.
Para o cidadão, o resultado desses projetos deverá ser acompanhado principalmente por indicadores concretos: quantos quilômetros foram duplicados, quais estradas tiveram melhorias, quais ferrovias voltaram a operar, como ficaram os custos de transporte e se houve ganhos reais de segurança, regularidade e qualidade dos serviços.
Para as empresas, a carteira representa um mercado potencial de grande dimensão, mas que exigirá planejamento, capacidade financeira, projetos consistentes e adaptação às exigências contratuais.
O desafio será transformar os R$ 262,6 bilhões previstos em investimentos efetivos, com benefícios que cheguem às estradas, aos trilhos, às empresas que movimentam a economia e, principalmente, às pessoas que dependem diariamente dos transportes.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
