Mudança anunciada nesta quarta-feira (21) ocorre na reta final da oferta de compra do grupo italiano pela fabricante indiana; operação envolve a Iveco Bus, que amplia sua participação no mercado brasileiro e prepara novos chassis para 2027
ADAMO BAZANI
O Iveco Group anunciou nesta quarta-feira, 21 de outubro de 2026, a nomeação de Damiano Cretarola como novo diretor financeiro global (CFO) da companhia, com posse marcada para 2 de novembro. A mudança ocorre em um momento decisivo para o futuro do grupo, que está em processo de aquisição pela indiana Tata Motors, operação que também envolve a Iveco Bus, fabricante de chassis de ônibus com presença crescente no mercado brasileiro. A reorganização administrativa acontece enquanto a empresa desenvolve um plano de investimentos de R$ 150 milhões até 2028 para ampliar seu portfólio de ônibus na América Latina, incluindo novos modelos destinados às operações urbanas, de fretamento e de transporte de passageiros em diferentes aplicações.
Cretarola substituirá Anna Tanganelli, responsável pelas finanças da companhia desde dezembro de 2023 e cuja saída já havia sido anunciada em julho, no contexto da negociação com a Tata Motors. A troca acontece poucos dias depois de os acionistas do Iveco Group aprovarem, em assembleia realizada em 16 de outubro, as propostas relacionadas à aquisição e às vésperas de 26 de outubro, data prevista para o encerramento do período regular de aceitação da oferta de compra. A transação poderá alterar o controle acionário de um dos principais fabricantes mundiais de veículos comerciais, reunindo negócios de caminhões, ônibus, motores e tecnologias de propulsão, com reflexos potenciais sobre as estratégias industriais e de investimentos em diferentes mercados, inclusive no Brasil.
O novo diretor financeiro responderá diretamente ao CEO global do Iveco Group, Olof Persson, e passará a integrar a equipe de liderança da companhia.
Cretarola trabalha nos negócios que deram origem ao Iveco Group desde 2004 e integra o grupo desde sua constituição como companhia independente, em 2022. Mais recentemente, ocupava o cargo de vice-presidente sênior de Planejamento e Controle.
O executivo também exerceu funções de direção financeira regional e de unidades de negócios na CNH Global e na CNH Industrial, empresas ligadas à trajetória industrial da Iveco. Antes disso, trabalhou durante dez anos na PricewaterhouseCoopers (PwC), na Suíça, nas áreas de auditoria e consultoria.
Segundo o Iveco Group, sua experiência inclui planejamento financeiro, contabilidade, gestão de riscos, controle de negócios, estratégias internacionais e transformação empresarial.
O CEO do Iveco Group, Olof Persson, afirmou que a escolha considera o conhecimento do executivo sobre a estrutura financeira e os negócios da companhia.
“Estou muito satisfeito em receber Damiano no cargo de CFO. Isso reflete não apenas a contribuição fundamental que ele deu ao liderar nossa organização financeira durante períodos de mudanças significativas, mas também seu profundo conhecimento dos negócios, da dinâmica financeira e das prioridades estratégicas do Iveco Group”, declarou Persson, em tradução do comunicado oficial.
A nomeação não representa, por si só, uma alteração anunciada nos programas industriais da Iveco Bus. Entretanto, o cargo tem influência sobre o planejamento de investimentos, a destinação de recursos e a execução financeira de projetos de desenvolvimento de produtos, áreas relevantes em um período de reorganização societária.
Aquisição pela Tata Motors entra em fase decisiva
A mudança no comando financeiro ocorre durante uma das maiores operações societárias da história recente do Iveco Group.
Em 30 de julho de 2025, a companhia anunciou o acordo para sua aquisição pela Tata Motors, grupo industrial indiano com atividades no setor automotivo e de veículos comerciais, incluindo ônibus.
A transação foi estruturada para contemplar os negócios de veículos comerciais e sistemas de propulsão do Iveco Group, após a separação de sua divisão de defesa.
Em março de 2026, a Iveco concluiu a transferência dos negócios de defesa, que incluem as marcas IDV e ASTRA, para a italiana Leonardo. A operação havia sido anunciada por um valor empresarial de 1,7 bilhão de euros, com preço de venda informado posteriormente em aproximadamente 1,6 bilhão de euros, sujeito a ajustes.
A separação foi uma das etapas necessárias para a continuidade da aquisição pela Tata Motors.
Em 4 de setembro de 2026, as duas companhias anunciaram formalmente o início da oferta pública de aquisição das ações ordinárias do Iveco Group.
O período de aceitação começou em 7 de setembro, com encerramento previsto para 26 de outubro, caso não haja prorrogação.
Inicialmente, a proposta era de 14,10 euros por ação. Em 9 de outubro, a Tata Motors elevou o valor para 14,40 euros por ação, aumento de 0,30 euro, equivalente a aproximadamente 2,1%.
O conselho de administração do Iveco Group manifestou apoio à transação e recomendou sua aceitação aos acionistas.
A Exor, principal acionista da companhia, comprometeu-se a apoiar a operação e apresentar à oferta sua participação de aproximadamente 27,06% das ações ordinárias, correspondente a 43,19% dos direitos de voto.
Em assembleia extraordinária realizada em Amsterdã, nos Países Baixos, em 16 de outubro, os acionistas aprovaram todas as propostas apresentadas pelo conselho de administração relacionadas à operação.
A aprovação das propostas constitui uma etapa importante, mas não deve ser confundida com a conclusão definitiva da aquisição, que continua sujeita às condições previstas na oferta.
A intenção anunciada pelas companhias é reunir operações industriais e comerciais complementares, ampliando a escala de produção, as possibilidades de desenvolvimento tecnológico e a presença internacional.
Segundo os termos divulgados em setembro, a combinação das atividades poderá formar um grupo com volume de vendas superior a 590 mil veículos por ano.
A expectativa apresentada pelas empresas é obter ganhos de escala, melhorar a eficiência industrial e distribuir os investimentos em desenvolvimento de produtos por uma base maior de veículos.
Para o mercado de ônibus, a combinação é particularmente relevante porque envolve duas fabricantes com experiência em diferentes segmentos do transporte de passageiros.
Iveco Bus investe R$ 150 milhões e prepara novos produtos para 2027
No Brasil, a reorganização global acontece quando a Iveco Bus procura ampliar sua participação no mercado de chassis de ônibus.
Durante a Lat.Bus 2026, realizada em agosto, em São Paulo, a fabricante anunciou investimentos de R$ 150 milhões até 2028, destinados ao desenvolvimento de novos produtos, serviços e ampliação da estrutura de pós-venda na América Latina.
O valor integra um ciclo de investimentos de R$ 1 bilhão anunciado pelo Iveco Group para suas operações brasileiras.
Entre as principais novidades apresentadas está o BUS 17-210, chassi de 17 toneladas equipado com motor de quatro cilindros, desenvolvido para ampliar a atuação da fabricante no segmento de ônibus urbanos.
O lançamento comercial está programado para 2027.
O modelo foi desenvolvido no Centro de Desenvolvimento de Produtos da Iveco, em Sete Lagoas, Minas Gerais, com foco em eficiência operacional, consumo de combustível e manutenção.
O novo chassi amplia a oferta da empresa em uma categoria importante para operadores de transporte coletivo que procuram veículos com capacidade de passageiros e custos de operação compatíveis com diferentes condições de serviço.
A fabricante já possui em seu portfólio o BUS 17-280, equipado com motor de seis cilindros, e procura ampliar sua competitividade com uma alternativa de motorização menor.
Outra novidade apresentada em agosto foi o BUS 17-210 G, movido a gás natural e biometano, produzido em Córdoba, na Argentina.
O modelo integra a estratégia da Iveco Bus de oferecer diferentes tecnologias de propulsão conforme as características dos mercados e das operações.
Na linha de veículos menores, a fabricante também ampliou as configurações do Daily Minibus.
Entre as novidades estão a versão 45-160 para fretamento, com capacidade para 17 passageiros mais o motorista, e a linha Daily Minibus Hi-Matic, equipada com transmissão automática de oito velocidades.
Os produtos atendem a aplicações como transporte executivo, fretamento e serviços de passageiros que utilizam veículos de menor porte.
A estrutura de desenvolvimento da Iveco em Sete Lagoas reúne mais de 300 profissionais dedicados a projetos e adaptações de produtos para a realidade dos mercados regionais.
O grupo também inaugurou um centro de distribuição de peças em Pouso Alegre, Minas Gerais, com investimento de R$ 93 milhões, área de 20 mil metros quadrados e estrutura destinada a ampliar a capacidade de atendimento às concessionárias e aos operadores.
Esses investimentos tornam particularmente importante o acompanhamento das futuras decisões financeiras e industriais do grupo após a conclusão do processo de aquisição.
América Latina já responde por 27% dos volumes globais da Iveco Bus
A importância do mercado latino-americano para a Iveco Bus também ajuda a explicar por que a mudança no controle do grupo merece atenção no Brasil.
Em comunicado divulgado em setembro, o Iveco Group informou que a América Latina já representa 27% do volume global da marca de ônibus.
No Brasil, a fabricante declarou ter alcançado aproximadamente 10% de participação de mercado em 2026, depois de ampliar sua presença nos segmentos em que atua.
O avanço ocorre em um mercado de chassis disputado por fabricantes tradicionais e que passa por mudanças relacionadas às exigências ambientais, aos custos de operação e às necessidades de renovação das frotas.
A Iveco Bus procura fortalecer sua posição oferecendo modelos para aplicações urbanas e de fretamento, além de alternativas de propulsão com gás e biometano.
Na Europa, a marca possui participação expressiva nos ônibus movidos a gás e também atua no desenvolvimento de tecnologias de eletrificação.
A eventual integração industrial com a Tata Motors poderá criar oportunidades de compartilhamento de tecnologias, componentes e projetos, considerando a experiência da fabricante indiana em ônibus e veículos comerciais.
Essas possibilidades, entretanto, ainda dependem de decisões futuras. O anúncio da mudança do diretor financeiro não estabelece alterações específicas no desenvolvimento de chassis, na produção brasileira ou na estratégia de comercialização da Iveco Bus.
O acompanhamento do processo societário será importante para verificar como os investimentos anunciados para o Brasil e a América Latina serão conduzidos dentro da nova estrutura empresarial.
Mudança financeira já estava prevista desde julho
A saída de Anna Tanganelli não foi uma decisão anunciada repentinamente nesta semana.
Em comunicado divulgado em 30 de julho de 2026, o Iveco Group informou que havia chegado a um acordo para a saída da executiva, vinculando a transição à conclusão substancial da oferta pública de aquisição da companhia pela Tata Motors.
Na ocasião, a empresa informou que Tanganelli deixaria o grupo para assumir uma nova função em outra companhia de capital aberto, a partir de 2 de novembro.
O Iveco Group também anunciou que iniciaria o processo de escolha de seu sucessor.
Tanganelli exerce a direção financeira desde dezembro de 2023 e participou de uma fase marcada por reorganizações societárias, mudanças operacionais e negociações envolvendo o futuro controle da companhia.
Com a confirmação de Cretarola, a empresa optou por um profissional que já integra sua estrutura e conhece os negócios, o planejamento e os processos financeiros do grupo.
A nomeação ocorre justamente quando a fabricante se aproxima de uma nova etapa de sua estrutura de controle, caso a aquisição pela Tata Motors seja efetivada nos termos anunciados.
Para os fabricantes, fornecedores, encarroçadoras e operadores de ônibus no Brasil, o principal ponto a acompanhar será a continuidade dos investimentos industriais e comerciais, especialmente o desenvolvimento dos novos chassis e a ampliação dos serviços de pós-venda.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
