Renovação amplia participação dos veículos a bateria no sistema RED, mas reportagem observa novamente danos em carrocerias, vidros e portas; especial explica as licitações, a participação do Grupo Cabal e a evolução da rede integrada da capital chilena
ADAMO BAZANI
Passageiros do sistema RED, de Santiago e Região Metropolitana, no Chile, convivem com sinais de conservação precária em ônibus a diesel e também em veículos elétricos mais novos, apesar da renovação da frota. Entre os dias 1º e 2 de outubro de 2026, o Diário do Transporte voltou a observar carrocerias riscadas e amassadas, marcas de impactos em portas e vidros e sujeira externa em coletivos em circulação, encontrando um quadro semelhante ao registrado na cobertura de novembro de 2025.
O criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani, esteve na capital chilena para acompanhar o anúncio da parceria entre a representante brasileira TEVX e a fabricante chinesa Zhongtong, sendo recepcionado pelo Grupo Cabal, participante do fornecimento de ônibus para o RED. A oportunidade permitiu conferir novamente o aspecto da frota: os coletivos brasileiros a diesel apresentavam conservação bastante precária, mas o que chamou a atenção foi encontrar sinais de deterioração também nos elétricos de gerações mais recentes.
A comparação ocorre quase 11 meses depois da visita anterior, realizada em novembro de 2025, a convite da Mercedes-Benz e de sua representante no Chile, Kaufmann.
O cenário observado chama a atenção para uma necessidade que acompanha a modernização dos transportes: preservar os veículos ao longo da operação, para que o investimento em frota se traduza em qualidade de serviço durante sua vida útil.
Riscos, amassados e sujeira aparecem também nos ônibus elétricos
A presença crescente de ônibus a bateria mudou a composição da frota de Santiago. Entretanto, nas ruas, a aparência de parte desses veículos revela problemas semelhantes aos encontrados em coletivos mais antigos.
Durante a passagem da reportagem pela cidade, foram observados danos externos envolvendo latarias, vidros e portas. Havia riscos, amassados e marcas de batidas, além de ônibus com sujeira na parte externa, dando a impressão de que a lavagem não acompanha de maneira satisfatória o uso cotidiano.
Essa percepção diz respeito aos veículos observados durante a visita. A sujeira encontrada não permite determinar a frequência efetiva de lavagem nas garagens, assim como danos na carroceria, isoladamente, não constituem um diagnóstico das condições de baterias, motores, freios ou demais componentes.
Ainda assim, são elementos visíveis da conservação e da apresentação do serviço ao passageiro. A chegada de um ônibus novo resolve a substituição do veículo anterior; a preservação da carroceria, dos vidros e das portas depende do cuidado durante a operação.
Também não é possível atribuir automaticamente cada dano a uma única causa. Impactos de trânsito, vandalismo e desgaste exigem respostas diferentes, mas todos demandam acompanhamento e reparação.
A reportagem de novembro de 2025 já havia registrado problemas semelhantes
Na cobertura publicada em 6 de novembro de 2025, o Diário do Transporte mostrou ônibus com latarias amassadas e riscadas, além de marcas de vandalismo. Na ocasião, passageiros ouvidos em uma passagem pelo centro também reclamaram de atrasos, conservação e necessidades de atendimento.
A reportagem anterior reconheceu os ganhos da integração entre os transportes e da modernização dos veículos, mas registrou problemas que permaneciam perceptíveis nas ruas.
Na nova visita, o ponto de comparação é principalmente a conservação externa. Quase um ano depois, a presença de elétricos mais novos não impediu que a reportagem encontrasse novamente coletivos com danos aparentes.
Relembre a cobertura:
Raio X da frota: milhares de elétricos e diferentes critérios de contagem
O RED já tem os ônibus elétricos como maioria da frota em operação. O balanço oficial divulgado em fevereiro de 2026 informou 4.088 veículos a bateria, equivalentes a 62% da frota considerada naquele levantamento. Em informação publicada em 1º de outubro, com dados atribuídos ao Ministério dos Transportes e Telecomunicações, o total foi apresentado em aproximadamente 4.400 elétricos.
Para entender o tamanho do sistema, é necessário distinguir os ônibus cadastrados daqueles utilizados regularmente na operação. Os registros também incluem veículos de reserva, suporte e frota auxiliar.
| Indicador | Número e referência |
|---|---|
| Ônibus elétricos em operação | 4.088 no balanço oficial de fevereiro de 2026 |
| Participação dos elétricos | 62% naquele balanço |
| Referência mais recente de elétricos | Cerca de 4.400, em informação publicada em 1º de outubro de 2026 |
| Ônibus a diesel | Aproximadamente 2.500 na base operacional do balanço de fevereiro, por estimativa |
| Frota total cadastrada | 7.522 ônibus em fevereiro de 2026 |
| Frota operacional base | 6.773 ônibus em fevereiro de 2026 |
| Idade média consolidada | 4,02 anos no fechamento de 2025 |
| Patamar previsto com a renovação | Cerca de três anos |
Os números de cadastro, frota operacional base e idade constam do Informe de Gestão 2025 do DTPM, que também apresenta dados de fevereiro de 2026. A estimativa de aproximadamente 2.500 ônibus a diesel foi calculada a partir dos 4.088 elétricos e da participação arredondada de 62%; portanto, não corresponde a uma contagem oficial individualizada.
Essas bases não devem ser somadas ou subtraídas indiscriminadamente. A frota cadastrada é mais ampla, enquanto os balanços de eletrificação utilizam referências operacionais que mudam com a entrada dos novos ônibus e a retirada dos antigos.
A idade média de três anos foi apresentada nos documentos de renovação como o patamar associado ao recâmbio. Já o relatório anual registra 4,02 anos ao final de 2025, permitindo separar o resultado consolidado da previsão para a etapa seguinte.
O que significa RED e quais transportes fazem parte do sistema
RED é a denominação da Red Metropolitana de Movilidad, ou Rede Metropolitana de Mobilidade. A palavra espanhola “red” significa “rede”, expressando a proposta de funcionamento integrado dos transportes.
O sistema reúne ônibus, o Metro de Santiago e o trem Nos–Estación Central. A integração tarifária permite até duas transferências em um período de 120 minutos, observadas as regras, como deslocamento no mesmo sentido e sem repetição de linhas de ônibus.
O cartão bip! é um dos meios de pagamento, e o sistema também dispõe de alternativas por código QR.
A operação dos ônibus é privada, mas o planejamento e a administração contratual ficam sob o Ministério dos Transportes e Telecomunicações, por meio do Directorio de Transporte Público Metropolitano, o DTPM.
Outro detalhe importante é que o padrão RED não significa exclusivamente ônibus elétrico. Também existem veículos a diesel Euro VI com esse padrão, que reúne características como ar-condicionado, conexão Wi-Fi e tomadas USB.
Como as licitações articulam operação, fornecimento e financiamento dos ônibus
A renovação de Santiago combina concessões para operar os serviços com mecanismos de fornecimento e financiamento dos veículos.
A estrutura foi modificada ao longo do tempo. Em uma das etapas, foram realizadas licitações separadas de fornecimento de ônibus e de operação das linhas. Os concorrentes à operação escolhiam veículos e fornecedores entre as alternativas habilitadas, compondo suas propostas.
Depois da adjudicação dos serviços, eram emitidas as ordens de fornecimento, seguidas pela fabricação, chegada, homologação e preparação dos ônibus.
A principal mudança institucional foi separar a operação dos ativos estratégicos. Assim, a empresa responsável por transportar passageiros não precisa concentrar, necessariamente, a propriedade dos ônibus e de toda a infraestrutura utilizada.
No modelo da licitação iniciada em 2023, a proposta passou a reunir operador, fornecedor de frota, financiador e fornecedor de infraestrutura de recarga. A separação entre operação e ativos foi mantida por contratos de provisão, com pagamentos próprios para veículos e infraestrutura.
Esses bens ficam vinculados ao sistema e podem ser transferidos entre operadores, ajudando a preservar a continuidade dos serviços.
Para o passageiro, essa organização busca permitir que uma mudança de empresa operadora não obrigue o sistema a começar novamente a compra dos ônibus e a implantação das instalações necessárias.
A licitação de 2023 levou à contratação de 1.267 novos elétricos
O concurso iniciado em dezembro de 2023 envolveu aproximadamente 30% do sistema e cinco unidades de serviço. Na avaliação concluída em setembro de 2024, foram analisadas 86 ofertas.
O processo contemplou 1.267 novos ônibus elétricos, com operação em 23 terminais. A distribuição das unidades foi apresentada da seguinte forma:
| Unidades de serviço | Empresa ou consórcio |
|---|---|
| 14 e 15 | Voy Santiago |
| 16 | Inversiones Gran Américas |
| 17 e 18 | Consórcio Conecta |
A concessão dessa etapa foi estruturada para dez anos, com possibilidade de redução para sete ou extensão para 14, conforme as condições e os indicadores de qualidade previstos.
A implantação ocorreu gradualmente em 2025, com entrada dos operadores e preparação das instalações. Os contratos dessa etapa incorporaram avaliação da oferta, regularidade, atendimento aos passageiros e qualidade dos veículos.
Ônibus a diesel sao mais antigos e estão também mal conservados
Além dessa licitação, o plano mais amplo de renovação anunciado em 2025 previa incorporar mais de 1.800 elétricos em oito meses e substituir aproximadamente 1.600 ônibus a diesel. Isso explica por que os anúncios de renovação apresentam quantidades superiores aos 1.267 veículos do concurso específico.
Grupo Cabal participa do fornecimento de 895 ônibus Zhongtong
O Grupo Cabal, que recepcionou o Diário do Transporte na viagem de outubro de 2026, participa dessa renovação como representante da Zhongtong no Chile.
Segundo os dados divulgados pelo grupo, sua participação envolve 895 dos 1.267 novos elétricos daquela licitação, aproximadamente 70,6% do total.
São 501 ônibus destinados às unidades do Consórcio Conecta e 394 à Gran Américas.
| Operação atendida | Ônibus Zhongtong fornecidos pelo Grupo Cabal |
|---|---|
| Consórcio Conecta | 501 |
| Gran Américas | 394 |
| Total | 895 |
O grupo também tem atuação histórica no fornecimento de carrocerias brasileiras Caio ao mercado chileno. Segundo a própria empresa, foram mais de 4 mil unidades entregues ao sistema RED ao longo de sua trajetória — volume acumulado de fornecimento, e não quantidade atual em circulação.
A distinção entre essas funções é importante: fabricante, representante comercial, financiador e operador participam de etapas diferentes. O fornecimento de um ônibus, por si só, não permite atribuir ao fabricante ou ao representante a responsabilidade por cada dano encontrado posteriormente nas ruas.
Manutenção continua sendo obrigação, mesmo quando o operador não é dono do ônibus
A separação entre propriedade e operação não elimina as exigências de manutenção.
O desenho contratual prevê operação e manutenção dos veículos, planos técnicos e certificação. Entre as exigências introduzidas nas etapas de fornecimento estão suporte local, disponibilidade de peças, capacitação e intervenções ao longo da vida útil.
Na apresentação dos contratos de operação adjudicados em 2022, o DTPM informou que serviços realizados com ônibus sem certificação de manutenção não seriam remunerados. Também foram previstos descontos, multas e outras medidas diante de deficiências na prestação dos serviços.
Há, portanto, instrumentos para acompanhar a qualidade depois da entrega da frota. A observação de danos externos reforça a importância de verificar como os cuidados e reparos são executados no cotidiano.
Uma porta com marcas de impacto ou uma carroceria riscada pode continuar funcional, mas a conservação externa permanece parte da apresentação do transporte público e da preservação do investimento.
Desempenho mecânico e conservação externa precisam ser avaliados separadamente
Os documentos oficiais apontam ganhos de confiabilidade dos ônibus elétricos.
O Informe de Electromovilidad 2025 registra melhor desempenho dessa tecnologia em comparação com os veículos a diesel, especialmente os de padrão mais antigo. Isso é compatível com a renovação e com a evolução dos procedimentos de manutenção.
Esses indicadores avaliam uma dimensão diferente daquela observada pela reportagem nas ruas. Um veículo pode apresentar bom funcionamento mecânico e, ao mesmo tempo, acumular danos na carroceria ou problemas de limpeza externa.
Também existem resultados positivos nas pesquisas com passageiros. Em setembro de 2025, levantamento divulgado pelo RED, com mil entrevistados, registrou nota 5,5 para o sistema e 5,7 para os trajetos, na escala chilena de um a sete.
A constatação de ônibus mal conservados não invalida esses ganhos. Mostra uma necessidade adicional de acompanhamento: manter o padrão dos veículos durante a operação, além de ampliar a quantidade de elétricos.
Das “micros” ao Transantiago e ao RED: uma história de reorganização do transporte
Antes do Transantiago, Santiago era atendida por um sistema mais fragmentado, associado às chamadas “micros”, como os ônibus ainda são conhecidos popularmente no Chile.
As licitações anteriores à reforma buscaram organizar trajetos, frequências e características dos veículos. Entretanto, permaneceram problemas como sobreposição de linhas no centro, qualidade dos ônibus, insegurança viária e poluição.
O Transantiago entrou plenamente em funcionamento em 10 de fevereiro de 2007, combinando uma nova rede de linhas, integração com o metrô, pagamento pelo cartão bip! e reorganização empresarial do transporte.
A implantação enfrentou uma crise, com oferta insuficiente, dificuldades nos trajetos e longas esperas. A experiência tornou-se um dos casos mais discutidos de reforma do transporte público na América Latina.
Nos anos seguintes, foram feitos ajustes. Em 2012, a estrutura rígida de linhas troncais e alimentadoras foi eliminada, permitindo alterações de itinerários. Em 2017, o trem Nos passou a integrar a rede.
Em 12 de março de 2019, foi anunciado o nome Red Metropolitana de Movilidad, acompanhado da identidade dos ônibus em vermelho e branco e da ampliação do padrão com veículos elétricos ou diesel Euro VI, ar-condicionado, Wi-Fi e USB.
A eletrificação começou com experiências de pequena escala em 2017 e ganhou dimensão com as incorporações seguintes. De 779 elétricos em março de 2022, Santiago chegou a mais de 4 mil em 2026, por meio de sucessivas etapas de renovação.
A visita de outubro de 2026 encontra, assim, uma rede tecnologicamente diferente daquela das antigas “micros” e dos primeiros anos do Transantiago. Mas os sinais de conservação observados novamente pelo Diário do Transporte, quase 11 meses depois da cobertura anterior, mostram que a modernização também precisa ser sustentada pelo cuidado diário com os ônibus que atendem a população.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
