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Investigação sobre infiltração do crime organizado nos transportes de São Paulo acende alerta até de investidores internacionais; novos modelos de negócios podem ser alternativas

Em entrevista no Chile, a Adamo Bazani, CEO da TEVX explica avaliação de integridade e crédito para atrair capital nacional e internacional à eletrificação; Diário do Transporte mostrou que BNDES também acompanha operações no setor

ADAMO BAZANI

 

As investigações sobre a suspeita de infiltração do crime organizado em empresas de ônibus de São Paulo colocam a segurança dos investimentos no centro da discussão sobre a renovação das frotas e a eletrificação. O assunto chama a atenção até mesmo de investidores internacionais e preocupa. Além dos veículos e da infraestrutura de recarga, os projetos precisam oferecer garantias sobre quem recebe os recursos, a capacidade de pagamento e a regularidade dos negócios — requisitos que entram na avaliação de investidores nacionais e internacionais.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Transporte, na última sexta-feira, 2 de outubro de 2026, em Santiago, no Chile, o CEO da TEVX, Carlos Eduardo Souza, explicou que a empresa pretende combinar a entrada dos ônibus elétricos Zhongtong no Brasil com soluções de energia, infraestrutura e financiamento. Entre as possibilidades estão modelos que permitem trazer investidores para financiar os veículos utilizados pelos operadores, com avaliações prévias de integridade e risco de crédito e alinhamento com as administrações responsáveis pelas concessões.

A entrevista foi realizada pelo criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani, durante a visita que acompanhou a oficialização da TEVX como representante da fabricante chinesa no mercado brasileiro.

Questionado sobre as investigações em São Paulo e os obstáculos à entrada de novos participantes no mercado, Souza destacou os critérios necessários para estruturar os investimentos.

“Quando a gente fala de solução financeira atendendo aquele cliente, seja o investidor internacional ou investidor local, sempre tem uma avaliação prévia, seja de compliance, seja de avaliação de rating de crédito daquele cliente”, afirmou o CEO da TEVX, Carlos Eduardo Souza.

Na prática, essas análises envolvem dois aspectos diferentes: a verificação da integridade e da conformidade do negócio, conhecida como compliance, e a avaliação da capacidade de cumprir os compromissos financeiros, expressa pela classificação de risco de crédito.

São questões que ligam o combate à entrada de recursos ilícitos no transporte à possibilidade de atrair capital para renovar os ônibus que atendem à população.

BNDES acompanha investigações sobre o crime organizado nos transportes

A preocupação com a segurança dos recursos já aparece entre instituições que participam do financiamento da eletrificação no Brasil.

Como mostrou o Diário do Transporte em 30 de setembro de 2026, a diretora de infraestrutura do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Luciana Costa, afirmou que o BNDES monitora as operações contra o crime organizado na cidade de São Paulo.

A informação foi divulgada no contexto da renovação da frota municipal e das discussões sobre a situação da Transunião, operadora da zona Leste que foi alvo da Operação Última Parada, em junho deste ano.

A atuação das autoridades também alcançou a Transwolff e a UPBus, investigadas na Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024, sobre suspeitas de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital por meio do transporte coletivo.

As acusações são objeto de apuração e de processos judiciais. As defesas contestam as imputações, e a existência de investigação não equivale a uma condenação.

Em junho de 2026, o Diário do Transporte também noticiou a declaração do promotor Lincoln Gakiya sobre a suspensão de financiamentos de ônibus elétricos destinados a empresas investigadas por supostas ligações com o PCC. Na ocasião, o promotor mencionou interlocução com o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Esse histórico mostra que as apurações têm efeitos sobre a análise dos projetos de renovação de frota e exigem atenção das instituições que fornecem recursos ao setor.

Investidor pode financiar os ônibus utilizados pela empresa operadora

Uma das propostas apresentadas pela TEVX é ampliar as possibilidades de financiamento, aproximando os projetos de investidores que possam fornecer o capital necessário à aquisição dos veículos.

Souza citou a experiência de Santiago como referência.

“Uma das necessidades é você ter um investidor que possa financiar os operadores, os municípios, em modelos tal como o modelo de Santiago, que iniciou com um leasing de dez anos”, disse o CEO da TEVX.

O leasing é uma forma de arrendamento: a utilização do bem ocorre mediante pagamentos previstos em contrato. A estrutura permite organizar o acesso aos veículos ao longo de um período, em vez de concentrar todo o desembolso na compra inicial.

Aplicado ao transporte, esse tipo de modelo pode ampliar as alternativas para a renovação de frota. A empresa responsável pelas viagens utiliza os ônibus dentro das condições contratadas, enquanto o investimento nos veículos pode contar com capital de outro participante.

A distribuição das responsabilidades pela propriedade, manutenção, seguros e disponibilidade dos ônibus depende de cada contrato.

Esse desenho pode ampliar o acesso a recursos, mas sua segurança depende da avaliação das partes, de garantias e de fiscalização. A mudança na forma de financiar a frota precisa vir acompanhada de controles sobre os participantes e os pagamentos.

Segundo Souza, a TEVX trabalha para adaptar essas possibilidades à realidade brasileira.

“A gente vai ter nessa jornada até a fabricação local, já trazendo possíveis investidores, sejam internacionais ou investidores locais, e que esses preços caibam dentro do bolso do operador”, afirmou.

Concessões exigem alinhamento com prefeituras e governos estaduais

Outro ponto ressaltado pelo executivo é a participação do poder público na estruturação dos projetos.

Como os ônibus podem atender a serviços concedidos, os compromissos financeiros e a implantação da infraestrutura precisam considerar as regras e os prazos dessas concessões.

“Sempre também, como são concessões públicas, ele vai estar a par e passo alinhado com as administrações municipais ou estaduais, dependendo do tipo de frota”, disse o CEO da TEVX, Carlos Eduardo Souza.

Isso significa que a negociação dos veículos está ligada à organização do serviço público: duração dos contratos, obrigações de renovação, remuneração e condições de operação.

Para o passageiro, a consequência prática é a necessidade de garantir que a chegada dos ônibus se traduza em atendimento. A frota precisa ter energia disponível, manutenção e condições de cumprir as viagens previstas.

Energia e infraestrutura precisam estar prontas quando os ônibus chegarem

Na entrevista, Souza afirmou que a atuação da TEVX incluirá consultoria, infraestrutura e soluções de energia, além da representação comercial da Zhongtong.

O executivo destacou o planejamento conjunto da chegada dos veículos e da estrutura necessária para colocá-los em circulação.

“A gente vai trazer a segurança de que a infraestrutura, de que a energia, ela chega de maneira planejada dentro da expectativa e da chegada dos próprios veículos”, afirmou.

A questão é relevante porque a aquisição do ônibus constitui uma etapa do projeto. A operação depende também de carregadores, disponibilidade de energia e organização das recargas de acordo com as jornadas dos veículos.

A proposta apresentada pela empresa é acompanhar esse conjunto de necessidades, tanto para operadores privados quanto para municípios e governos estaduais.

TEVX diz que primeiras unidades já foram vendidas e prevê fabricação local a partir de 2027

Souza afirmou que a entrada da Zhongtong no Brasil já conta com primeiras unidades negociadas. O nome do cliente deverá ser divulgado após o período de feriados conhecido como Golden Week, na China, e a conclusão dos detalhes com o comprador.

“Já temos as primeiras unidades. Em breve, a gente vai estar anunciando o cliente”, disse o CEO da TEVX.

Segundo o executivo, a parceria começou a ser construída no fim de 2025 e foi consolidada com a oficialização anunciada agora.

Ao ser questionado sobre uma fábrica a partir de 2027, Souza confirmou o compromisso e destacou a transferência de tecnologia e a adaptação do processo de fabricação às necessidades brasileiras.

“Outro dos grandes compromissos que nós temos nesse acordo é a transferência de tecnologia, também trazer todo o processo de fabricação, atendendo às necessidades do mercado brasileiro”, afirmou.

De acordo com Souza, o projeto deverá aproveitar também a experiência do Grupo Cabal, representante da Zhongtong no Chile, para acelerar a implantação.

Oferta inicial terá urbanos de 9 a 18 metros e modelo rodoviário

A prioridade comercial anunciada pelo executivo inclui ônibus urbanos de 9, 10, 12 e 18 metros, além de um rodoviário.

A entrevista ocorreu diante de um articulado de 18 metros. Souza também destacou a proposta de oferecer um rodoviário com banheiro e autonomia adequada à aplicação pretendida.

Segundo ele, o portfólio mais amplo da fabricante permite estudar outras configurações, com urbanos de 7 a 27 metros e diferentes tamanhos de rodoviários.

A seleção inicial, afirmou, deverá acompanhar as necessidades locais e os compromissos assumidos com os compradores.

O anúncio coloca lado a lado duas condições para a expansão dos elétricos no Brasil: oferecer veículos adequados às operações e estruturar negócios capazes de atrair recursos com segurança.

No cenário das investigações em São Paulo, a análise da origem dos recursos, da integridade dos participantes e da capacidade de pagamento passa a fazer parte dessa discussão. A alternativa apresentada pela TEVX combina financiamento, infraestrutura e fornecimento de ônibus, com a proposta de ampliar as formas de viabilizar a renovação das frotas.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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