Em encontro na Grécia, setor pediu regras claras de acesso, áreas de parada e infraestrutura de recarga; no Brasil, planejamento precisa conciliar visitantes, moradores e transporte coletivo diário
ADAMO BAZANI
Onde um ônibus de turismo pode desembarcar um grupo sem bloquear uma faixa de circulação, interromper uma linha urbana ou obrigar passageiros com mobilidade reduzida a percorrer longas distâncias? A pergunta esteve no centro de um debate sobre turismo e mobilidade realizado em setembro de 2026, na cidade grega de Tessalônica, com participação da Busworld, de representantes do setor público e de especialistas europeus.
A discussão fixa tendências que podem influenciar o planejamento brasileiro: regras de acesso mais fáceis de consultar, locais apropriados para embarque e desembarque, estacionamento separado da parada rápida e preparação da infraestrutura para ônibus menos poluentes. Nenhuma dessas medidas decorre automaticamente do encontro europeu. No Brasil, sua aplicação dependeria de decisões de prefeituras, estados e órgãos federais, de acordo com o tipo de viagem, além de diálogo com moradores, operadores turísticos e empresas do transporte regular.
O problema não termina quando os turistas descem do ônibus
Um ônibus de excursão ocupa pouco espaço em relação ao número de pessoas que transporta, mas precisa de um local adequado para parar. Desembarcar dezenas de passageiros diante de um hotel, museu, praia ou centro histórico exige espaço junto à calçada, tempo para a retirada de bagagens e uma travessia segura até o destino. Um grupo com idosos, crianças ou pessoas com deficiência pode precisar de mais tempo e de uma passagem acessível.
Depois do desembarque, o veículo continua demandando espaço. Deixá-lo parado na frente da atração por horas pode prejudicar moradores, comércio, entregas e ônibus urbanos. Mandá-lo para um estacionamento distante, por sua vez, exige prever por onde o motorista circulará, como retornará para buscar o grupo e onde aguardará sem criar uma fila de veículos.
É essa diferença entre parada de alguns minutos e permanência prolongada que frequentemente se perde na discussão. Uma cidade pode definir um ponto de desembarque próximo ao destino e reservar, em outra área, vagas para a espera dos ônibus. Pode também estabelecer horários distintos para locais com ruas estreitas ou grande fluxo de pedestres. Cada escolha precisa considerar a operação das linhas regulares que já atendem a região.
O que foi discutido em Tessalônica
A Busworld participou da conferência CIVITAS realizada de 15 a 17 de setembro. No painel sobre mobilidade turística conectada, representantes do setor defenderam que as cidades incluam o deslocamento de visitantes em seus planos de mobilidade, em vez de tratar a chegada de ônibus de excursão apenas como uma ocorrência pontual.
O representante da Busworld Jan Deman destacou dificuldades provocadas pela diversidade das regras de acesso: uma operadora que atende vários destinos pode encontrar exigências diferentes para registrar o veículo, entrar em determinada área, pagar uma taxa ou solicitar autorização. A entidade também defendeu cooperação entre prefeituras, transportadoras e fornecedores de tecnologia.
O debate abordou uma característica importante do ônibus turístico: levar um grupo diretamente ao destino pode ser decisivo para a viagem, especialmente quando há bagagens ou passageiros que teriam dificuldade para completar o trajeto por outros meios. Ao mesmo tempo, a representante da Île-de-France Mobilités Françoise Guaspare chamou atenção para a pressão que o turismo em grande escala pode exercer sobre as cidades e seus moradores.
O comissário europeu responsável por mobilidade e turismo, Apostolos Tzitzikostas, apontou a digitalização dos pedidos de acesso e uma maior coordenação das regras entre cidades como temas em discussão. Também foi mencionada a necessidade de pensar desde já em pontos de recarga nos locais onde ônibus turísticos estacionam. São direções de trabalho e propostas de planejamento, não uma determinação já implantada em todas as cidades europeias.
No Brasil, uma excursão cruza regras de transporte e de uso da cidade
O transporte turístico brasileiro não depende de uma única autorização que resolva toda a viagem. Para serviços interestaduais e internacionais de fretamento, a ANTT regula a empresa e a operação, inclusive a emissão da licença correspondente à viagem. O transporte turístico também está sujeito às regras do Ministério do Turismo, entre elas o cadastro dos prestadores e dos veículos no Cadastur, conforme a modalidade. Deslocamentos municipais, metropolitanos e intermunicipais envolvem ainda as competências dos órgãos locais e estaduais.
Essas exigências cuidam da regularidade do serviço. Há outra pergunta, de responsabilidade urbana: onde o ônibus autorizado poderá entrar, parar, deixar passageiros e estacionar no destino? Uma licença para transportar o grupo não elimina restrições de circulação estabelecidas para determinada rua ou área da cidade.
A situação também é diferente da de uma linha rodoviária regular. No fretamento turístico, o deslocamento é contratado para um grupo e segue as condições da modalidade autorizada. A linha regular atende passageiros que compram lugares individualmente e possui itinerário, pontos de atendimento e regras próprias. Planejar a chegada das excursões sem considerar terminais e linhas existentes pode criar conflitos justamente nos locais em que a cidade concentra seus deslocamentos.
O tamanho da atividade brasileira exige cuidado com os números
Dados da ANTT para 2025 apontam 13,4 milhões de passageiros no fretamento interestadual, acima dos 13 milhões registrados em 2024. A agência também identifica atendimento de fretamento em 5.041 municípios, uma abrangência maior do que a observada isoladamente nas linhas regulares interestaduais.
Isso demonstra a capilaridade do segmento, mas não mede apenas turismo. O fretamento inclui viagens com finalidades distintas. Usar os 13,4 milhões como se fossem o número de turistas levados a cidades brasileiras produziria uma conclusão incorreta.
Para planejar áreas de acesso, cada município precisa de informações mais específicas: quantos ônibus chegam por dia, em quais meses e horários, onde deixam passageiros, por quanto tempo permanecem e quais vias utilizam. Um destino de praias em feriados, uma cidade que recebe eventos de negócios e um centro histórico com ruas estreitas terão demandas muito diferentes, mesmo quando recebem quantidade semelhante de visitantes.
Regras claras podem ajudar empresas e também proteger quem mora no destino
Uma consequência possível do debate europeu para o Brasil é tornar as condições de acesso mais compreensíveis antes da viagem. A operadora precisa saber se determinada área exige cadastro, quais dimensões de veículo são admitidas, onde pode ocorrer o desembarque, quanto tempo é permitido permanecer e qual o caminho para chegar ao estacionamento.
Para o morador, clareza deve significar fiscalização efetiva. Definir vagas e horários perde utilidade se ônibus estacionarem em pontos de parada do transporte urbano, ocuparem calçadas ou aguardarem com o motor ligado diante de residências. As regras também devem preservar a chegada de ônibus regulares, serviços de emergência e atividades de carga e descarga.
Há um efeito econômico a considerar. A excursão pode levar consumidores a hotéis, restaurantes e atrações. Esse benefício, porém, não dispensa avaliar congestionamentos, ruído, ocupação das vias e custo de manutenção dos espaços usados pelos veículos. O planejamento precisa mostrar tanto os ganhos quanto os impactos, com dados do próprio destino.
A recarga de ônibus elétricos traz uma questão diferente da frota urbana
A eletrificação foi citada na discussão europeia porque estacionamentos turísticos podem, no futuro, precisar fornecer energia aos veículos durante a espera. No Brasil, instalar um carregador em um terminal ou estacionamento seria apenas uma parte da solução. Uma empresa que faz longas viagens precisa considerar a distância entre destinos, o consumo durante o percurso, o tempo disponível para recarga, a capacidade da rede elétrica e a existência de infraestrutura também no caminho de volta.
Há ainda uma distinção de financiamento. Programas brasileiros de renovação da frota do transporte público coletivo urbano contemplam ônibus elétricos e equipamentos de recarga sob requisitos próprios. Isso não significa que uma empresa de excursões tenha acesso automático às mesmas condições. O planejamento e o financiamento de veículos turísticos exigem exame específico do serviço e das regras de cada programa.
Por isso, a preparação de estacionamentos para novas tecnologias pode começar antes de uma eventual substituição em grande escala da frota rodoviária. Reservar espaço, estudar a conexão elétrica e conhecer a demanda dos operadores são decisões distintas de prometer que todos os ônibus de turismo passarão a ser elétricos em um prazo único.
Acessibilidade precisa entrar na escolha do ponto de parada
Para parte dos viajantes, a distância entre o ônibus e o destino determina se o passeio será possível. Um ponto de desembarque afastado pode exigir percurso por calçadas estreitas, travessias inadequadas ou ladeiras. Isso deve ser considerado quando uma cidade restringe a entrada de veículos maiores em áreas turísticas.
A solução pode variar de acordo com a configuração local: local de parada acessível próximo à atração, rota segura para pedestres, conexão com transporte público adequado ou outro arranjo definido com antecedência. O essencial é examinar a viagem completa do passageiro, desde o desembarque até a entrada no destino, em vez de olhar apenas para a circulação do ônibus na rua.
No Brasil, essa questão tem peso adicional porque o mesmo espaço urbano precisa servir a quem está de visita e a quem o utiliza todos os dias. O ônibus de turismo não deve retirar a acessibilidade de um ponto de ônibus urbano; tampouco o passageiro de uma excursão com mobilidade reduzida pode desaparecer do planejamento em nome de uma restrição genérica a veículos grandes.
Planos de mobilidade podem reunir turismo e transporte cotidiano
A Política Nacional de Mobilidade Urbana brasileira oferece às cidades um instrumento para planejar a circulação e a integração dos diferentes modos de transporte. Incluir nele a demanda turística permite discutir terminais, paradas, estacionamento, circulação de pedestres e acesso às atrações junto com as necessidades de trabalhadores e moradores.
Essa é a principal lição prática que o debate de Tessalônica pode trazer ao Brasil. Uma cidade que sabe quando e onde chegam seus visitantes tem melhores condições de organizar o uso das ruas. Para isso, precisa ouvir transportadoras, empresas de turismo, operadores das linhas regulares, trabalhadores, comerciantes e moradores, além de acompanhar o resultado das regras depois de implantadas.
O encontro europeu apontou tendências. O impacto brasileiro dependerá de transformá-las em decisões locais verificáveis: um lugar adequado para o passageiro descer, uma rota segura para caminhar, uma vaga onde o ônibus possa esperar e condições de circulação que respeitem também quem vive e trabalha na cidade.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
