Usina planejada em Carambeí reforça oferta potencial de gás renovável em meio a testes e planos para ônibus no Brasil
ADAMO BAZANI
O Ministério de Minas e Energia enquadrou no regime federal de incentivos à infraestrutura um projeto de usina de biometano em Carambeí, no Paraná. A instalação, denominada Projeto Tulipa, prevê investimento estimado em R$ 116 milhões, capacidade de processar até 400 toneladas de resíduos agroindustriais por dia e produção de até 31.440 metros cúbicos diários de biometano. O combustível projetado poderá atender consumidores industriais e o abastecimento de veículos.
A publicação não destina a produção a empresas de ônibus. Ainda assim, a ampliação da oferta de biometano tem relação com a possibilidade de aumentar frotas que usam esse combustível: a região metropolitana de Curitiba já testa um ônibus apto a operar com GNV e biometano, enquanto Goiás autorizou a incorporação gradual de 501 ônibus movidos a esses combustíveis até o fim de 2027. Entre o projeto industrial e uma frota abastecida por ele, serão necessários produção efetiva, logística, contratos de fornecimento e infraestrutura de abastecimento.
Usina usará resíduos agroindustriais e tem execução prevista até janeiro de 2028
O projeto aprovado pertence à Lurean S.A., identificada pelo CNPJ 18.544.878/0001-53. No Diário Oficial, recebe o nome de Projeto Tulipa – Projeto de Usina de Biometano Energisa Carambeí. A denominação do projeto e o nome da pessoa jurídica titular devem ser lidos separadamente: o documento atribui a titularidade à Lurean.
A previsão técnica é receber até 400 toneladas diárias de resíduos orgânicos agroindustriais. O material passará por biodigestão anaeróbica, processo em que microrganismos decompõem resíduos sem a presença de oxigênio. O biogás resultante poderá ser purificado para produzir biometano, combustível de composição adequada ao uso previsto para o gás renovável.
O cronograma apresentado ao ministério vai de janeiro de 2026 a janeiro de 2028. Trata-se do período de execução informado para o empreendimento, e não de uma confirmação de que a usina já esteja fornecendo sua capacidade máxima.
Enquadramento no REIDI abre caminho para incentivo tributário na implantação
O ministério aprovou o enquadramento do projeto no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura, o REIDI. Esse regime permite, após os procedimentos de habilitação exigidos perante a Receita Federal, a suspensão de PIS/Pasep e Cofins em aquisições de bens e serviços vinculados à implantação do projeto, observadas as regras aplicáveis.
Os valores apresentados distinguem estimativas de aquisições com incidência dessas contribuições, que totalizam R$ 116.053.120,29, e estimativas sem essa incidência, de R$ 104.895.026,56. Essa diferença entre bases estimadas não deve ser tratada automaticamente como imposto já economizado: o enquadramento é uma etapa, enquanto habilitação, compras efetivas e cumprimento das condições ocorrerão nos procedimentos seguintes.
Na composição da estimativa com incidência das contribuições, os bens representam R$ 76,4 milhões; os serviços, R$ 30,2 milhões; e os demais itens, R$ 9,4 milhões. O ministério ressalta que os valores foram informados pela titular do projeto e que sua razoabilidade foi examinada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.
Por que a oferta de biometano importa para a frota de ônibus
Um ônibus com motor desenvolvido para gás pode usar biometano quando o combustível atende às especificações técnicas exigidas. O gás natural veicular convencional tem origem fóssil; o biometano é produzido a partir de resíduos. Essa distinção importa nas avaliações ambientais de uma frota, assim como a origem da matéria-prima, o tratamento dos resíduos e as condições de produção e distribuição.
No transporte coletivo, produzir o combustível é apenas parte da solução. Uma frota maior exige fornecimento regular em volume compatível com a quilometragem diária, pontos de abastecimento acessíveis às garagens, preço contratual viável, manutenção e veículos adequados. Por isso, a capacidade anunciada para Carambeí sinaliza uma possível contribuição à oferta de gás renovável, mas ainda não permite calcular quantos ônibus serão atendidos.
No próprio Paraná, a Agência de Assuntos Metropolitanos iniciou em maio um teste com um ônibus apto a operar com GNV e biometano na linha E12 – Afonso Pena/Centenário, entre São José dos Pinhais e Curitiba. A avaliação observa consumo, autonomia, desempenho e viabilidade operacional. O teste demonstra interesse na tecnologia perto do mercado regional, sem estabelecer ligação comercial com a futura usina de Carambeí.
Em Goiás, o planejamento tem escala maior: uma deliberação estadual autorizou a incorporação gradual de 501 ônibus a biometano e/ou GNV à rede metropolitana de Goiânia, com prazo de entrega até dezembro de 2027. Os veículos foram distribuídos em lotes de diferentes portes, incluindo 79 articulados. A combinação “biometano e/ou GNV” indica que a autorização da frota, por si só, não assegura uso exclusivo de combustível renovável.
Produção industrial e circulação de ônibus são etapas distintas
A possibilidade de abastecimento veicular prevista para Carambeí coloca o transporte entre os mercados potenciais do Projeto Tulipa. Sua contribuição concreta à expansão de ônibus a biometano dependerá da implantação da usina e de acordos de distribuição e compra do combustível.
Para operadores e gestores públicos, uma nova fonte de produção pode ampliar as alternativas de suprimento ao planejar garagens e renovação de frota. Para os passageiros, qualquer mudança dependerá de veículos contratados, abastecidos e colocados em circulação nos sistemas de transporte.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
