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Next Mobilidade diz que parte do BRT-ABC já pode ser operada e aguarda autorização da Artesp. Até Tamanduateí, haveria transbordo para outro ônibus enquanto obras ocorrem

Não está descartada a possibilidade de tarifa zero no sistema de operação assistida

ADAMO BAZANI

Na semana em que, em primeira mão, o Diário do Transporte noticiou que a Artesp recusou pedido da Next Mobilidade para reequilíbrio econômico, reajuste da remuneração pelas operações no ABC Paulista e encerrou definitivamente uma nova discussão sobre postergação das obras e mudanças no BRT-ABC, a empresa reafirmou ao site que o primeiro trecho do sistema de corredor de ônibus já pode ser operado.

Relembre: Artesp nega pedido da Next Mobilidade para aumentar remuneração e encerra nova discussão sobre postergação das obras e mudanças no BRT-ABC

Segundo a companhia, por meio de nota, este trecho tem 10 km. Ao todo, o sistema tem 17,8 km de extensão. Esta primeira fase conta com nove paradas, enquanto todo o projeto prevê 16. Para as operações, serão 20 ônibus articulados elétricos com baterias, de 21,5 m, enquanto todo o contrato prevê 92 coletivos. Cada veículo custa R$ 4,36 milhões. Os outros 72 serão do tipo E-Trol, que combinam as tecnologias de bateria e pantógrafos ligados à rede aérea de eletricidade. A proposta original era de 92 E-Trol.

A ideia é funcionar inicialmente das 9h às 15h, em forma de operação assistida, neste trecho, entre a Parada Metrópole, em São Bernardo do Campo, e o limite entre São Caetano do Sul e a capital paulista. O Terminal em São Bernardo do Campo e o trecho de São Paulo não estão prontos.

Entre o limite de São Caetano do Sul e São Paulo, haveria o transbordo gratuito em ônibus comum até a estação Tamanduateí, passando por Sacomã.

Não está descartada a possibilidade de, nesta fase inicial, o transporte já dentro do corredor não ser tarifado.

A Next Mobilidade informa que já se encontra disponível para utilização o primeiro trecho das obras do BRT ABC. O pedido para autorização da operação do sistema foi feito oficialmente pela Next à Artesp.

A primeira etapa das obras, que já conta com 10 quilômetros concluídos, alcançou um importante marco em sua implantação.

A infraestrutura deste primeiro trecho está concluída e preparada para o início da operação, representando um avanço significativo para a mobilidade urbana do Grande ABC e aproximando a região da entrada em funcionamento de um dos mais modernos sistemas de transporte coletivo do país.

Já se encontram prontas 9 paradas e as obras concluídas abrangem corredor exclusivo, sistemas operacionais, urbanização e melhorias viárias. O trecho conecta importantes regiões dos municípios de São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul, incluindo a Avenida Aldino Pinotti e o eixo da Avenida Lauro Gomes.

No término do trecho, o passageiro pode ser transportado até o Terminal Tamanduateí em ônibus da Next Mobilidade pagando uma tarifa única.

A Next Mobilidade já conta com frota exclusiva para a operação.

O sistema deveria ter sido entregue até 2023, integralmente. O atraso, atribuído pela empresa à não entrega de obras por parte de concessionárias de serviços, como a distribuidora de energia Enel, e às licenças ambientais, fez com que o governador Tarcísio de Freitas considerasse um possível rompimento de contrato com a Next Mobilidade, incluindo as operações de ônibus comuns da antiga Área 5 de todo o ABC.

Tarcísio, como mostrou o Diário do Transporte, prometeu licitar as quatro áreas de ônibus metropolitanos da Grande São Paulo, que estão com prorrogações de contratos desde 2016, quando deveria ter sido concluída a concorrência. Caso a Next Mobilidade não cumpra os novos prazos, pode ter o contrato rompido, e a antiga Área 5, do ABC, também entraria neste pacote de licitação.

Relembre: Tarcísio promete licitar quatro áreas de ônibus metropolitanos da Grande São Paulo e diz que ABC pode entrar no pacote se Next não entregar BRT

Uma área de ônibus que ficou anos sem concessão definitiva

Para entender por que a possível ruptura teria consequências além do novo corredor, é preciso voltar à antiga Área 5 da EMTU. Ela reúne os serviços metropolitanos do ABC Paulista. Enquanto outras quatro áreas da Grande São Paulo tiveram contratos decorrentes da licitação de 2006, parte das linhas do ABC permaneceu durante anos sob permissões precárias, sem que as tentativas de uma contratação definitiva fossem concluídas.

Nesse período, empresas deixaram serviços, e o atendimento da região foi marcado por problemas de frota e qualidade. Foi nesse cenário que o Governo do Estado apresentou a reorganização da Área 5 como uma forma de substituir as permissões, renovar os veículos e reunir a operação sob uma concessionária. O Corredor Metropolitano ABD, então operado pela Metra, já possuía contrato próprio desde 1997.

O monotrilho da Linha 18-Bronze ficou no papel

Ao mesmo tempo, o ABC esperava outra ligação de maior capacidade com São Paulo: a Linha 18-Bronze. O monotrilho havia sido contratado por parceria público-privada com o consórcio Vem ABC, mas suas obras não começaram. A previsão original de entrega passou sem que o sistema fosse implantado.

A gestão João Doria decidiu abandonar esse projeto e escolher, para a ligação entre São Bernardo do Campo e a capital, um corredor de ônibus elétricos. O governo justificou a troca pelo custo e pelas dificuldades de implantação que atribuía ao monotrilho. A substituição mudou tanto o meio de transporte prometido à população quanto o modelo de investimento: a construção do BRT passou a integrar as obrigações da concessionária de ônibus.

Contrato de 2021 reuniu BRT, Corredor ABD e linhas da Área 5

Em março de 2021, o governo Doria prorrogou antecipadamente, por 25 anos, a concessão do Corredor ABD. Em contrapartida, o grupo da Metra assumiu a implantação do BRT-ABC, a modernização do corredor de ônibus e trólebus já existente e a reorganização das linhas metropolitanas da antiga Área 5. A operação ampliada passou a ser feita pela ABC Sistema de Transporte, apresentada ao público como Next Mobilidade. A vigência contratual vai até março de 2046.

O valor de R$ 22,6 bilhões associado ao contrato corresponde ao conjunto da concessão ao longo de 25 anos; não representa apenas o custo de construção do BRT. O modelo reuniu, portanto, serviços que já transportavam passageiros e uma obra que ainda precisava sair do papel.

Empresas deixaram linhas e a frota começou a mudar

A transferência das linhas para a Next ocorreu por etapas, entre 2021 e março de 2022. Serviços antes prestados por diferentes operadoras foram incorporados à nova operação. A última etapa anunciada pela EMTU envolveu 11 linhas então atendidas pela Rigras. Ao concluir a transição, a estatal informou que a Next operava 103 linhas metropolitanas na região, incluindo o Corredor ABD.

A mudança também trouxe ônibus novos para linhas comuns. Segundo a EMTU, 116 veículos começaram a circular em agosto de 2021, e mais 14 chegaram em março de 2022. A renovação, com investimento divulgado de R$ 90,2 milhões, representou uma melhora para parte dos passageiros que usavam a frota anterior. Ela não substituía, porém, a obrigação separada de construir e colocar em operação o BRT.

Contrato foi contestado e chegou ao STF

A decisão de agregar as linhas da Área 5 e o BRT a uma prorrogação contratual, sem nova licitação para esse conjunto, abriu uma disputa judicial. O partido Solidariedade questionou no Supremo Tribunal Federal os decretos estaduais que permitiram o arranjo. O Estado sustentou que se tratava da prorrogação de uma concessão existente, originalmente licitada, em troca de novos investimentos.

Em agosto de 2023, o STF validou, por oito votos a três, os decretos e a prorrogação antecipada. A decisão resolveu a contestação constitucional do modelo adotado em 2021. As obrigações de construir o corredor e cumprir os prazos continuaram sujeitas ao acompanhamento do poder concedente.

Da promessa de entrega em 2023 aos novos adiamentos

As obras do BRT começaram em fevereiro de 2022. A entrega integral, inicialmente prevista para 2023, foi adiada sucessivas vezes. Em 2024, chegou a ser anunciada a conclusão das obras em dezembro de 2025, com operação em janeiro de 2026. Essa previsão também passou sem a inauguração do sistema completo.

A Next atribui parte dos atrasos a licenças, interferências e obras a cargo de concessionárias de serviços. A implantação avançou de maneira desigual ao longo do traçado: enquanto a empresa declara prontos 10 km e nove paradas, o terminal de São Bernardo do Campo e a ligação até os terminais paulistanos ainda impedem a operação integral anunciada no projeto. Para o passageiro, a proposta agora apresentada é uma viagem parcial, com mudança de veículo para chegar a Tamanduateí.

Cobrança do governo e decisão recente da Artesp

Em setembro de 2026, Tarcísio de Freitas passou a relacionar expressamente a entrega do BRT ao futuro da concessão do ABC. O governador afirmou que prepara licitações para as quatro áreas metropolitanas restantes e que poderá incluir a antiga Área 5 caso a Next deixe de cumprir as obrigações cobradas pelo Estado. Uma eventual caducidade depende de procedimento próprio e teria alcance sobre as linhas metropolitanas já operadas pela empresa, além das obras do novo corredor.

No dia seguinte à declaração do governador, a Artesp negou o pedido da Next para elevar sua tarifa de remuneração. A agência também encerrou, naquele processo, uma nova discussão sobre adiamento das obras e alterações de projeto que já tinham sido objeto de deliberação específica. A tarifa de remuneração discutida pela concessionária é um parâmetro contratual e não deve ser confundida com o preço pago diretamente pelo passageiro.

A autorização solicitada para transportar passageiros nos 10 km declarados prontos ainda é o passo necessário para a operação assistida descrita pela empresa. Mesmo se essa etapa começar, a cobrança sobre a concessionária continuará ligada à conclusão de todo o BRT-ABC e às conexões previstas com a rede de trilhos da capital.

Dados técnicos do BRT-ABC

Os dados de extensão e tempo de viagem divulgados em diferentes momentos do projeto variam. A tabela distingue o projeto integral das condições informadas agora pela Next para a primeira operação.

Item Projeto integral Etapa apresentada pela Next
Ligação São Bernardo do Campo–Sacomã, com atendimento a Tamanduateí Parada Metrópole até o limite de São Caetano do Sul com São Paulo
Extensão Cerca de 17,3 km na documentação estadual; 17,8 km no texto informado para esta reportagem 10 km declarados concluídos
Paradas 16 estruturas fechadas na configuração divulgada pela EMTU Nove declaradas prontas
Terminais previstos São Bernardo do Campo, Tamanduateí e Sacomã Terminal São Bernardo e trecho paulistano ainda em obras
Frota prevista 92 ônibus elétricos 20 articulados elétricos a bateria previstos para a operação inicial
Tecnologia dos demais veículos 72 E-Trol, com baterias e captação pela rede aérea Implantação vinculada às próximas etapas
Demanda inicial estimada 173 mil passageiros por dia Sem estimativa específica divulgada para os 10 km
Capacidade projetada Até 600 mil passageiros por dia Projeção referente ao sistema integral
Integrações em São Paulo Linha 2-Verde e Linha 10-Turquesa em Tamanduateí; Linha 2-Verde e Expresso Tiradentes no Sacomã Prosseguimento proposto em outro ônibus da Next, mediante transbordo

Os números de demanda e capacidade são projeções do sistema completo, e não uma previsão de movimento para a operação assistida.

Serviços previstos para o corredor completo

Serviço Atendimento planejado Tempo de viagem divulgado para São Bernardo–Sacomã
Parador Atendimento às paradas do corredor Até 52 minutos
Semiexpresso Paradas selecionadas, além dos terminais Cerca de 43 minutos
Expresso Terminais São Bernardo, Tamanduateí e Sacomã Cerca de 40 minutos na informação atual da operadora

Os tempos se referem à configuração integral planejada. A operação parcial das 9h às 15h descrita pela Next ainda depende de autorização e terá um trajeto diferente.

Paradas e terminais previstos ao longo do trajeto

A relação abaixo apresenta os pontos nomeados no projeto e nas reportagens anteriores. O decreto estadual de 2021 relacionou 20 nomes de paradas, enquanto divulgações posteriores passaram a informar 16 estruturas fechadas; por isso, a lista nominal não deve ser tomada como contagem das estações físicas a construir.

Município Pontos relacionados no projeto
São Bernardo do Campo Terminal São Bernardo; Metrópole; Aldino Pinotti; Abrahão Ribeiro; Senador Vergueiro; Winston Churchill; Vila Vivaldi; Afonsina; Rudge Ramos
Santo André Fundação do ABC
São Caetano do Sul Instituto Mauá; Vila Império; Jardim São Caetano; Estrada das Lágrimas; Cerâmica; CEU Meninos; Goiás
São Paulo Almirante Delamare; Alcatis; Albino de Morais; Terminal Tamanduateí; Rua do Grito; Terminal Sacomã

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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