Estudo com 36 especialistas aponta os trilhos como eixo de redes integradas, identifica na operação os ganhos mais imediatos da inteligência artificial e alerta para entraves de governança, financiamento e inclusão
ALEXANDRE PELEGI
O passageiro não organiza a vida em linhas de ônibus, estações de trem e aplicativos. Ele quer chegar ao trabalho, a um serviço ou a um encontro com o menor esforço possível. Essa diferença entre a forma como as pessoas viajam e a forma como o transporte é administrado atravessa o relatório Mobility Reimagined 2026, divulgado pela Hitachi Rail.
Produzido a partir de entrevistas com 36 dirigentes e especialistas dos setores de transporte e tecnologia, o estudo sustenta que a mobilidade tende a ser avaliada pela qualidade da viagem completa, e não pelo desempenho isolado de cada modal. Há, porém, um entrave: operadores, governos e reguladores controlam partes dessa viagem, sem que exista necessariamente uma instância capaz de conectá-las.
“Deveríamos nos enxergar como um ‘time do transporte’, em vez de dizer ‘nós somos os trilhos, vocês são a aviação, vocês são a navegação’”, afirma Darren Caplan, diretor executivo da Railway Industry Association, em tradução livre. “Muitas vezes não fazemos essa integração.”
Trilhos como estrutura, viagens como objetivo
Para os entrevistados, sistemas ferroviários continuarão essenciais para transportar grandes volumes de pessoas e cargas com eficiência. A visão apresentada, porém, exige que sua capacidade seja articulada com ônibus, deslocamentos a pé, bicicletas e serviços sob demanda. Informação em tempo real e bilhetes que cubram diferentes operadores são parte dessa experiência — e ainda estão longe de ser universais.
O professor Clive Roberts, da Universidade de Durham, questiona o ponto de partida do planejamento: “O que não fazemos, de maneira um tanto estranha, ao desenhar sistemas de mobilidade hoje é decidir aonde as pessoas realmente querem ir”, diz, também em tradução livre. Tempo, custo e lotação podem pesar de maneiras diferentes para cada usuário; a rede precisa permitir escolhas compreensíveis ao longo de todo o percurso.
É nesse terreno que atuam os Sistemas Inteligentes de Transporte, conhecidos pela sigla ITS. A Hitachi Mobility Multimodal Solutions, antiga Clever Devices, informa estar presente em mais de 300 cidades, com ferramentas usadas por operadoras e órgãos gestores para planejar serviços, organizar a operação e acompanhar frotas em tempo real. Esses recursos podem melhorar a previsibilidade do transporte público, mas a integração da viagem depende também de conexões físicas, tarifas e decisões compartilhadas entre instituições.
Essa distinção é especialmente relevante para o debate brasileiro. A integração costuma ser anunciada como atributo de um aplicativo ou de um projeto específico, embora envolva toda a rede. Trata-se de uma leitura das questões levantadas pelo relatório, que não investigou especificamente o Brasil.
A inteligência artificial começa nos bastidores
Embora o estudo projete viagens mais personalizadas até 2050, seu diagnóstico sobre o presente é mais prático. Os benefícios mais próximos da inteligência artificial estão na previsão de falhas, no monitoramento de ativos, na programação de serviços e na gestão de energia e tráfego. Antecipar um defeito e agir antes que ele interrompa a operação pode ter efeito mais concreto para o passageiro do que uma nova interface digital.
O relatório apresenta aplicações da própria Hitachi Rail em manutenção ferroviária. São exemplos descritos pela empresa, e não uma avaliação independente de seus produtos. O estudo ressalta, ainda, que sensores e modelos digitais só produzem ganhos para a rede quando suas informações chegam a quem pode tomar providências — inclusive verificar peças disponíveis e programar o reparo.
A mesma lógica vale para o ônibus. Monitorar uma frota em tempo real ajuda a identificar atrasos e ajustar a operação, mas o dado precisa se converter em uma resposta perceptível para quem espera no ponto ou faz uma transferência. A atuação da Hitachi Mobility Multimodal Solutions em planejamento e controle de frotas se insere nesse campo operacional abordado pelo estudo.
Mesmo com mais automação, os entrevistados defendem a presença humana nas decisões críticas. “Para decisões essenciais à segurança e à operação, acredito firmemente que não há substituto para o ser humano participando do processo”, afirma Ngien Hoon Ping, CEO do grupo SMRT, em tradução livre.
A transição não se resolve por software
Uma das advertências mais claras do estudo diz respeito ao clima. Ferramentas digitais podem reduzir desperdícios e melhorar o uso de energia, mas os maiores ganhos ambientais dependerão de infraestrutura, transporte coletivo atraente e mudanças na forma como as pessoas se deslocam. O relatório também aponta a necessidade de preparar as redes para calor extremo, enchentes e outras interrupções.
Há, ainda, o risco de uma mobilidade digital avançar sobretudo nas grandes cidades e ampliar a distância em relação a áreas menos atendidas. Para os entrevistados, acessibilidade e inclusão precisam entrar no desenho dos serviços desde o início. Uma viagem aparentemente simples no aplicativo pode continuar inviável para quem encontra barreiras na calçada, na transferência ou no pagamento.
Por fim, o estudo coloca financiamento, compras públicas demoradas, governança fragmentada, segurança cibernética e controle dos dados entre os principais obstáculos à transformação. Sua conclusão mais útil para gestores é direta: integrar a viagem exige integrar decisões. As ferramentas de planejamento, acompanhamento de frotas e análise de dados ajudam a rede a enxergar e responder melhor. Para que o resultado seja um transporte mais previsível e centrado nas pessoas, é preciso também investimento continuado e instituições dispostas a trabalhar sobre a mesma jornada.
O Mobility Reimagined 2026 foi encomendado pela Hitachi Rail à empresa de pesquisa Savanta. As 36 entrevistas, com participantes sobretudo da América do Norte, Europa e Ásia, ocorreram entre maio e julho de 2026. Trata-se de uma pesquisa qualitativa sobre percepções e cenários futuros; suas conclusões não representam uma medição estatística da opinião do setor.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
Fonte: Relatório Mobility Reimagined 2026, Hitachi Rail. As citações foram traduzidas do inglês. Os dados sobre presença e atuação da Hitachi Mobility Multimodal Solutions foram informados pela empresa.
