Em alguns casos, as ações ocorrem com os coletivos operando em linha, seja no ponto final ou até mesmo parados em semáforos e congestionamentos
ADAMO BAZANI
Colaborou Yuri Sena
Não bastassem os roubos e furtos de tacógrafos (espécie de caixas-pretas) dos ônibus e de módulos (dispositivos que controlam e acionam diversas funcionalidades elétricas e eletrônicas), uma nova “moda” dos criminosos tem tirado o sossego dos trabalhadores e empresas do setor: roubos e furtos de lanternas traseiras e placas dos coletivos.
O Diário do Transporte recebeu uma série de relatos de empresas que atuam na Grande São Paulo.
Alguns dos contatos com o site vieram também com vídeos e fotos.
A ousadia é tão grande que algumas ações ocorrem em plena luz do dia e em via pública, com os ônibus nos respectivos pontos finais ou até mesmo em operação nas linhas, parados em congestionamentos e em semáforos.
É o caso de um coletivo em Cotia, cidade da Região Metropolitana de São Paulo.

As imagens recebidas pelo Diário do Transporte mostram dois jovens em bicicletas mexendo nas lanternas traseiras do lado esquerdo do ônibus da Viação Raposo Tavares, do Grupo VIDA (Viação Danúbio Azul), integrante do Consórcio Intervias.
O veículo fazia a linha 506 Cotia (Jardim Sandra) / São Paulo (Carrefour), sob gestão da Artesp, do Governo do Estado de São Paulo.
Um dos jovens mexe nas lanternas e outro, de bicicleta, faz uma espécie de escolta.
O motorista do ônibus dá ré no coletivo, mas o jovem insiste no furto.
Depois, a dupla vai embora.
Em Santo André, no ABC Paulista, somente nesta semana, as empresas de ônibus relataram ao menos cinco coletivos com lanternas furtadas.
O objetivo são as luzes de LED, segundo os profissionais das companhias de transporte.
Mas as ações não param nisso. As placas também são levadas, o que representa um problema duplo, porque, neste caso, não basta a simples reposição da peça, mas todo o procedimento de substituição de acordo com as normas do Detran, o que obriga o coletivo a ficar mais tempo indisponível para prestar serviços à população.
O Diário do Transporte conversou com um representante de fabricante que disse que as viações já estão pedindo às encarroçadoras dispositivos que dificultem a ação dos criminosos, como telas de proteção e grades.
Uma dessas fábricas desenvolveu uma espécie de tela, mas, muitas vezes, com chaves de fenda, os criminosos acabam levando as grades junto.
Quanto às placas, algumas empresas estão colocando rebites de reforço. Segundo os relatos recebidos, a alternativa vem sendo utilizada em ônibus urbanos, enquanto sua aplicação em rodoviários enfrenta dificuldades relacionadas às exigências de fiscalização.
A regulamentação federal estabelece requisitos de instalação, fixação e visibilidade das placas. A utilização de reforços precisa respeitar essas determinações, independentemente do tipo de ônibus.
Artesp já registrou outros furtos de lanternas em ônibus metropolitanos
A pesquisa realizada pelo Diário do Transporte identificou ocorrências anteriores envolvendo exatamente o mesmo tipo de equipamento.
Os registros constam do sistema de acompanhamento operacional da Artesp e mostram que os furtos atingiram outros veículos integrantes do transporte metropolitano.
Em 9 de abril de 2026, por exemplo, um motorista da Viação Pirajuçara, também integrante do Consórcio Intervias, percebeu que as lanternas das setas traseiras haviam sido furtadas de um coletivo.
A ocorrência envolveu a linha 178 e foi registrada às 18h50.
Segundo as informações disponíveis no sistema da agência, o motorista percebeu a ausência dos equipamentos ao chegar ao terminal. O registro operacional informa que não houve cancelamento de partida.
Outro caso aconteceu em 30 de maio de 2026, desta vez envolvendo um ônibus da empresa Miracatiba.
O veículo fazia a linha 032 e estava na região do Terminal Metrô Vila Sônia, na capital paulista.
De acordo com o registro da Artesp, o motorista chegou ao terminal e foi informado por outro profissional de que o coletivo estava sem as lanternas traseiras.
O caso exigiu uma substituição operacional, registrada às 9h20 daquele dia.
As duas ocorrências demonstram que esse tipo de furto já atingia diferentes empresas do sistema metropolitano antes dos relatos recebidos nesta semana.
Embu das Artes: Polícia Militar encontrou dez lanternas em imóvel após denúncia
Um episódio ocorrido em Embu das Artes, na Grande São Paulo, também apresenta características semelhantes.
Na noite de 20 de agosto de 2026, quatro adolescentes suspeitos de envolvimento em furtos de lanternas de ônibus da Viação Pirajuçara foram encaminhados à delegacia.
Segundo informações atribuídas à Polícia Militar e divulgadas pelo portal Primeiro Notícias, a ocorrência começou quando um inspetor da empresa procurou policiais que realizavam patrulhamento.
O funcionário relatou que a companhia monitorava havia alguns dias pessoas suspeitas de envolvimento nos furtos, inclusive por meio de publicações realizadas nas redes sociais.
Durante as diligências, policiais localizaram dez lanternas e ferramentas em uma residência.
Os quatro adolescentes foram encaminhados à Delegacia Central de Embu das Artes. A ocorrência foi registrada como ato infracional de furto.
Após o registro, os adolescentes foram liberados aos responsáveis legais, com compromisso de apresentação à Justiça.
O episódio mostra que os relatos das empresas de ônibus encontram correspondência em ocorrências policiais anteriores.
A identificação dos responsáveis por cada um dos furtos, entretanto, depende das investigações específicas.
Casos semelhantes também foram registrados em Belo Horizonte e Ribeirão Preto
Os furtos de lanternas e placas também foram relatados em sistemas de transporte coletivo de outras cidades brasileiras.
Em Belo Horizonte, uma reportagem da Rádio Itatiaia, publicada em 19 de maio de 2026, mostrou que adolescentes estavam se pendurando na traseira de ônibus em movimento e furtando peças dos veículos, entre elas placas e lanternas.
Os envolvidos divulgavam vídeos e fotografias nas redes sociais.
Segundo a reportagem, a Guarda Civil Municipal intensificou o patrulhamento preventivo na região do Barreiro depois de receber um ofício de uma empresa de transporte coletivo.
A Superintendência de Mobilidade de Belo Horizonte orientou os motoristas que percebessem pessoas penduradas nos ônibus a parar os veículos em segurança e solicitar que descessem. Caso necessário, os profissionais deveriam pedir apoio aos órgãos de segurança.
Em Ribeirão Preto, no interior paulista, o problema já havia motivado uma reunião entre representantes da RP Mobi, do consórcio PróUrbano e da Guarda Civil Metropolitana, em 9 de abril de 2025.
Na ocasião, foram apresentados boletins de ocorrência, fotografias e outros documentos relativos a episódios de vandalismo e furtos de componentes dos ônibus, incluindo lanternas e retrovisores.
As medidas discutidas incluíram reforço do patrulhamento, monitoramento das ocorrências e atendimento aos alertas emitidos pelos motoristas.
Furto de placas aumenta o tempo de indisponibilidade dos ônibus
Além dos prejuízos com a retirada de lanternas, as empresas de transporte relatam dificuldades adicionais quando os criminosos levam as placas de identificação dos veículos.
A substituição precisa seguir os procedimentos estabelecidos pelo Detran-SP e pelas normas nacionais de trânsito.
Conforme o serviço oficial disponibilizado pelo Governo do Estado de São Paulo, as pessoas jurídicas precisam solicitar uma Autorização para Estampagem de Placa de Identificação Veicular (AEPIV).
O pedido deve ser realizado pelo representante da empresa, mediante apresentação da documentação exigida. Após a autorização, a confecção e a instalação da nova placa são realizadas por uma estampadora credenciada.
O procedimento envolve, portanto, etapas administrativas e operacionais que vão além da compra do componente.
O Detran-SP também recomenda o registro de boletim de ocorrência quando há furto ou roubo de placas, como medida preventiva contra sua utilização indevida por terceiros.
A indisponibilidade dos veículos representa um problema para a programação dos serviços.
Quando um ônibus precisa ser recolhido para reparos ou regularização, a empresa pode ter de disponibilizar outro veículo para manter as viagens programadas.
Dependendo da quantidade de ocorrências e das condições da frota reserva, os problemas podem provocar alterações operacionais e afetar os passageiros.
Há também uma questão relacionada à segurança viária. As lanternas traseiras desempenham funções de sinalização, como indicar frenagens e mudanças de direção.
A retirada desses componentes compromete a sinalização do veículo e exige reparos para que o ônibus volte a circular nas condições regulamentares.
A legislação de trânsito estabelece a obrigatoriedade das lanternas de posição traseiras, de freio e indicadoras de direção, entre outros dispositivos de iluminação.
O Diário do Transporte procurou a SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Estado de São Paulo para saber se houve registros de ocorrência nas delegacias e quais ações estão sendo desenvolvidas pela polícia para identificar os responsáveis e evitar novos furtos.
A reportagem também solicitou informações sobre possíveis investigações relacionadas à comercialização das peças retiradas dos ônibus.
Até o fechamento desta reportagem, a resposta era aguardada.
Roubos e furtos de tacógrafos e módulos não acabaram e são antigas preocupações das garagens
O problema envolvendo lanternas e placas ocorre em um contexto de roubos e furtos de outros componentes dos ônibus, especialmente tacógrafos, módulos eletrônicos e painéis.
O Diário do Transporte realiza uma ampla cobertura desses crimes há anos, com reportagens sobre ocorrências em terminais, pontos finais, garagens e até instalações de fabricantes.
As investigações jornalísticas também abordam o funcionamento do mercado ilegal de peças, o impacto financeiro para as empresas e as consequências para os passageiros.
Um dos episódios ocorreu em 19 de agosto de 2024, em Carapicuíba, na Grande São Paulo.
Na ocasião, dois ônibus tiveram módulos e tacógrafos roubados em um intervalo aproximado de meia hora.
Uma das ações ocorreu dentro de um terminal, e o motorista foi rendido em um dos casos.
As imagens dos crimes foram obtidas e divulgadas pelo Diário do Transporte.
Em outubro daquele mesmo ano, a reportagem mostrou outro episódio, desta vez em Taboão da Serra.
Pelo menos cinco ônibus da Viação Pirajuçara foram atingidos por uma ação de criminosos que retiraram módulos e tacógrafos dos veículos. Também houve tentativa de furto em um sexto coletivo.
O caso ocorreu durante a noite, enquanto os ônibus estavam estacionados.
Empresa chegou a relatar prejuízo de quase R$ 500 mil em seis meses
Em fevereiro de 2025, o Diário do Transporte mostrou que a Transcap, empresa que atua nas zonas Sul e Oeste da capital paulista, havia procurado o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).
A companhia entregou boletins de ocorrência, imagens e gravações de câmeras de segurança relacionadas aos crimes.
Segundo os dados apresentados pela empresa, os prejuízos chegaram a aproximadamente R$ 500 mil em menos de seis meses.
O montante envolvia os equipamentos furtados, os reparos necessários e outras despesas, incluindo serviços de guincho.
Somente no segundo semestre de 2024, a empresa relatou mais de 45 equipamentos subtraídos, incluindo 20 unidades de bombas de ARLA, dispositivo relacionado ao sistema de controle de emissões dos motores a diesel.
Os crimes atingiram dezenas de ônibus e obrigaram a operadora a utilizar veículos reservas enquanto realizava a reposição dos componentes.
Polícia Civil encontrou módulos em uma revenda de Guarulhos
Em 5 de fevereiro de 2025, o Deic realizou uma operação contra o roubo, o furto e a comercialização ilegal de módulos, painéis e tacógrafos de ônibus e caminhões.
Os trabalhos ocorreram em Guarulhos e na Zona Leste da capital paulista.
Durante a operação, os policiais apreenderam dez caixas contendo módulos de injeção eletrônica para veículos pesados em uma revenda localizada no Jardim Adriana II, em Guarulhos.
Segundo informações divulgadas pela SSP na ocasião, o material encontrado estava sem documentação comprobatória, e as investigações buscavam identificar os integrantes de um esquema de receptação e comercialização das peças.
A ação também envolveu mandados judiciais de prisão e de busca e apreensão.
O Diário do Transporte acompanhou a operação e publicou informações sobre as investigações e orientações para que outras empresas de transporte colaborassem com a Polícia Civil.
Entrevista abordou a integração das polícias de diferentes estados
A cobertura foi ampliada em setembro de 2025, quando o Diário do Transporte entrevistou o então secretário nacional de Segurança Pública, Mário Luiz Sarrubbo, durante o programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan.
A entrevista foi realizada em 1º de setembro e publicada pelo site no dia 3.
Questionado pelo jornalista Adamo Bazani sobre as possibilidades de atuação federal no enfrentamento desses crimes, Sarrubbo defendeu a integração entre as polícias de diferentes estados.
O secretário explicou que as investigações deveriam alcançar não apenas os responsáveis pela retirada das peças, mas também os receptadores e os estabelecimentos envolvidos na comercialização ilegal dos equipamentos.
A questão apresentada pelo Diário do Transporte levou em consideração informações obtidas em investigações jornalísticas sobre o possível destino de equipamentos furtados de ônibus paulistas, incluindo estabelecimentos localizados em outros estados.
Na entrevista, Sarrubbo destacou a necessidade de compartilhamento de informações e integração dos bancos de dados policiais para permitir a identificação de toda a cadeia criminosa.
O que são os módulos e tacógrafos e por que os furtos afetam os passageiros?
Os módulos eletrônicos são componentes responsáveis pelo gerenciamento de diferentes sistemas dos ônibus e caminhões.
Dependendo do tipo de equipamento, controlam o funcionamento do motor, sistemas de injeção de combustível, acionamento de portas e outras funções elétricas e eletrônicas.
Alguns módulos são essenciais para que o motor funcione. Sua retirada pode impedir completamente a movimentação do veículo.
Outros componentes estão relacionados a sistemas de segurança e controle de emissões.
A crescente utilização de recursos eletrônicos nos veículos pesados tornou esses equipamentos fundamentais para a operação.
Também são peças de elevado valor comercial.
Em levantamento apresentado pelo Diário do Transporte em setembro de 2025, havia registros de módulos com preços que podiam alcançar R$ 45 mil, dependendo do fabricante, da aplicação e do modelo do veículo.
Já os tacógrafos, também chamados de cronotacógrafos, funcionam como registradores das condições de circulação dos veículos.
São comparados às caixas-pretas porque armazenam informações utilizadas para verificar o comportamento operacional dos ônibus e caminhões.
Entre os dados registrados estão a velocidade, a distância percorrida e os períodos de movimentação e parada.
Essas informações podem ser utilizadas na fiscalização, na gestão das operações e em investigações de acidentes.
A instalação do equipamento é obrigatória em ônibus com mais de dez lugares, conforme o Código de Trânsito Brasileiro. Os requisitos técnicos são regulamentados pela Resolução Contran nº 938/2022.
Diferentemente de determinados módulos, cuja retirada pode impedir fisicamente o funcionamento do veículo, o furto do tacógrafo nem sempre impossibilita sua movimentação.
Entretanto, a circulação sem o registrador obrigatório configura uma irregularidade.
Por isso, os ônibus atingidos precisam ser retirados de operação até que os equipamentos sejam reinstalados ou substituídos.
O impacto pode ser significativo quando várias unidades da mesma empresa são atingidas simultaneamente.
Além dos custos de reposição, há despesas com mão de obra, reparação dos danos provocados durante os furtos e, em determinados casos, utilização de guinchos para transportar os veículos até as garagens.
A indisponibilidade também pode provocar alterações na programação das viagens, necessidade de utilização da frota reserva e aumento dos intervalos entre os ônibus.
Os novos relatos de furtos de lanternas e placas acrescentam outro problema à rotina das empresas e dos trabalhadores, com consequências que vão além dos prejuízos patrimoniais e atingem diretamente a prestação dos serviços de transporte coletivo.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
