Paixão pelo ônibus, careira assinada, passageiros, orgulho de dirigir ou mesmo necessidade. Liana Variani dá dicas de como achar talentos valorizar e reter mão de obra
ADAMO BAZANI
Trânsito congestionado, pressão para cumprir horários, risco de acidentes, violência, conflitos com passageiros, jornadas desgastantes e uma responsabilidade que começa quando o motorista assume um veículo que pode transportar dezenas de pessoas. A profissão de motorista de ônibus reúne dificuldades que ajudam a explicar por que empresas de transporte de diferentes regiões do País enfrentam problemas para contratar e, principalmente, reter profissionais.
Mas existe o outro lado dessa história. Mesmo diante das adversidades, milhares de motoristas permanecem durante dez, vinte, trinta anos ou mais atrás do volante. Para muitos, dirigir ônibus deixou de ser apenas uma ocupação: tornou-se profissão, identidade e conhecimento acumulado durante uma vida. Estabilidade proporcionada pelo emprego formal, vínculo com passageiros, gosto por dirigir veículos pesados, convivência com colegas e orgulho de transportar pessoas estão entre fatores que ajudam a explicar por que ainda há quem não queira abandonar a atividade, apesar de reconhecer que trabalhar como motorista se tornou mais difícil.
O fenômeno merece atenção justamente num momento em que o setor reclama da escassez de mão de obra.
Como mostrou o Diário do Transporte em reportagens recentes, empresas de transporte urbano, metropolitano, rodoviário e de fretamento relatam dificuldades para preencher vagas.
Em levantamento citado anteriormente pelo Diário do Transporte, 53,4% das empresas de transporte urbano e metropolitano consultadas relataram falta de motoristas. No transporte rodoviário interestadual, a Abrati (Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros) chegou a apontar déficit próximo de 30%: pouco mais de 60 mil profissionais para uma necessidade estimada em aproximadamente 86 mil.
Se tanta gente deixa a atividade, uma pergunta igualmente importante precisa ser feita: o que faz quem ficou continuar?
PARA MUITOS, NÃO É APENAS UM EMPREGO
Há uma característica difícil de ser medida pelas estatísticas: a identificação com a profissão.
É comum encontrar nas empresas motoristas que começaram como cobradores, auxiliares, lavadores, manobristas ou funcionários de garagem e enxergaram a chegada ao volante como uma evolução profissional.
Também existem famílias com diferentes gerações de motoristas.
O ônibus, neste caso, deixa de ser simplesmente uma ferramenta de trabalho.
Conhecer diferentes modelos de veículos, dominar um ônibus de grandes dimensões em ruas estreitas, conduzir com suavidade, conhecer itinerários e estradas e transportar passageiros com segurança são conhecimentos que o profissional acumula durante anos.
Há, ainda, uma dimensão social.
No transporte urbano, motoristas passam diariamente pelos mesmos bairros e transportam passageiros habituais. Com o tempo, reconhecem estudantes, trabalhadores, idosos e pessoas com deficiência que fazem parte de sua rotina.
No rodoviário, existe o profissional que sente orgulho de levar passageiros por centenas ou milhares de quilômetros e conduzi-los com segurança ao destino.
Essa percepção de responsabilidade pode aumentar a pressão da atividade, mas também ajuda a construir o sentimento de importância profissional.
CARTEIRA ASSINADA E ESTABILIDADE AINDA PESAM
Existe também uma razão objetiva.
Embora trabalhadores e sindicatos frequentemente reivindiquem melhores salários e condições, a atividade de motorista de ônibus normalmente está inserida no mercado formal, com registro profissional e direitos estabelecidos pela legislação e pelas convenções coletivas de cada região.
Trocar esse emprego por uma atividade aparentemente mais flexível não significa necessariamente conseguir maior segurança financeira.
O Diário do Transporte já mostrou que parte dos motoristas passou a trabalhar também em plataformas como Uber e 99 para complementar renda. Em algumas garagens, empresas disseram informalmente que a proporção dos profissionais que acumulam as duas atividades é elevada.
Mas dirigir por aplicativo envolve combustível, manutenção, depreciação do automóvel e oscilações de demanda e remuneração.
Assim, mesmo motoristas insatisfeitos podem considerar o emprego formal no ônibus uma base importante para a renda familiar.
EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL TAMBÉM PRENDE O MOTORISTA AO SETOR
Existe ainda uma questão prática.
Um motorista que passou décadas dirigindo ônibus construiu uma especialização.
Ele conhece operação, veículos, procedimentos, itinerários, passageiros e situações de trânsito. Sabe identificar ruídos e comportamentos anormais do veículo e desenvolve percepção de espaço, antecipação de riscos e técnicas de condução que somente a experiência proporciona.
Mudar completamente de profissão depois de 15, 20 ou 30 anos significa começar novamente em outra atividade.
Ao mesmo tempo, a habilitação exigida, cursos específicos e responsabilidade profissional tornam o motorista experiente um trabalhador cada vez mais disputado justamente porque novos candidatos não estão chegando na mesma proporção em que profissionais mais antigos deixam o mercado.
O PROBLEMA É QUANDO A PAIXÃO PELA PROFISSÃO É CONFUNDIDA COM ACEITAÇÃO DE QUALQUER CONDIÇÃO
A identificação com o ônibus, entretanto, não pode servir como justificativa para condições inadequadas de trabalho.
Motoristas estão submetidos a fatores físicos e emocionais importantes: permanecem sentados durante longos períodos, enfrentam trânsito intenso, ruído, vibração, conflitos com usuários, pressão operacional e responsabilidade permanente pela segurança dos passageiros.
Problemas musculoesqueléticos, cardiovasculares, metabólicos e de saúde mental aparecem entre as preocupações relacionadas à atividade. Pressão por horários, trânsito, medo da violência e falta de recuperação física podem contribuir para afastamentos.
Ou seja: gostar de dirigir ônibus não torna o trabalhador imune ao adoecimento.
E é justamente neste ponto que as empresas podem atuar.
LIANA VARIANI: EMPRESA PRECISA DESCOBRIR POR QUE O BOM MOTORISTA FICA — E POR QUE PENSA EM SAIR
Para a advogada especializada em Direito Empresarial e riscos trabalhistas Liana Variani, empresas de ônibus precisam olhar para a retenção dos profissionais como uma política permanente de gestão, e não somente reagir quando faltam motoristas.
A primeira providência parece simples: ouvir.
Em análises anteriores ao Diário do Transporte, Liana destacou que muitas companhias investem corretamente em equipamentos e tecnologia, mas nem sempre conhecem suficientemente as dificuldades vividas diariamente pelos profissionais da operação.
Ouvir o trabalhador não significa que todas as reivindicações obrigatoriamente serão atendidas. Significa criar um ambiente no qual problemas possam ser conhecidos antes de se transformarem em afastamentos, demissões, conflitos ou processos trabalhistas.
Isso também permite à empresa separar questões que efetivamente estão sob sua responsabilidade de problemas externos, como violência urbana, congestionamentos, condições inadequadas das vias ou conflitos provocados por passageiros.
CHEFIA IMEDIATA PODE FAZER MOTORISTA FICAR OU IR EMBORA
Outro ponto destacado por Liana Variani é a preparação de encarregados, fiscais, despachantes, gestores e demais lideranças que mantêm contato cotidiano com os motoristas.
Um trabalhador pode gostar da profissão e até da empresa, mas decidir sair pela maneira como é tratado diariamente.
A especialista já destacou ao Diário do Transporte que nem todo pedido de demissão decorre diretamente da empresa como instituição. A relação problemática com a chefia imediata pode transformar o ambiente de trabalho e estimular a saída de profissionais.
Treinar lideranças para cobrar resultados sem humilhar, diferenciar erro de má-fé, ouvir antes de aplicar medidas e estabelecer procedimentos objetivos não significa abrir mão da autoridade administrativa.
Significa profissionalizá-la.
RESPEITO NÃO CUSTA MAIS NA FOLHA DE PAGAMENTO
Nem toda política de retenção depende necessariamente de grandes investimentos.
Divulgar elogios feitos por passageiros, reconhecer bons históricos profissionais, valorizar tempo de casa, criar canais internos de comunicação e dar retorno às sugestões apresentadas são exemplos citados por Liana Variani como formas de fortalecer o vínculo entre trabalhador e empresa.
Há uma diferença importante entre reconhecimento e remuneração.
Salário continua sendo componente fundamental da relação de trabalho e objeto das negociações coletivas.
Mas remuneração e ambiente profissional não são fatores excludentes.
Uma empresa pode pagar corretamente e manter um ambiente ruim. Também não adianta possuir um bom programa de relacionamento e descumprir obrigações trabalhistas.
As duas dimensões precisam caminhar juntas.
ESCALA PREVISÍVEL PODE FAZER GRANDE DIFERENÇA NA VIDA DO MOTORISTA
Para quem trabalha dirigindo, saber quando vai começar, terminar e descansar tem impacto direto sobre a vida familiar e sobre a própria segurança.
Liana Variani aponta que alterações repentinas e frequentes de programação aumentam desgaste e dificultam que o trabalhador organize compromissos pessoais.
Sempre que operacionalmente possível, portanto, previsibilidade de escala pode se transformar numa ferramenta importante de retenção.
Mais do que boa prática administrativa, jornada e descanso são temas regulamentados pela legislação.
A CLT estabelece jornada diária de oito horas para o motorista profissional, admitindo prorrogações dentro das condições legais e coletivamente negociadas. A legislação também estabelece direitos específicos para motoristas profissionais e mecanismos destinados à proteção da saúde e segurança.
Respeitar estes limites não é benefício concedido pela empresa. É obrigação.
A diferença está em transformar o cumprimento da legislação no ponto de partida para uma relação de trabalho mais organizada, em vez de enxergá-lo apenas como exigência burocrática.
DIÁLOGO NÃO ELIMINA DIREITOS NEM PODER DE GESTÃO
Outra recomendação é criar mecanismos permanentes de diálogo.
Isso não significa substituir sindicatos, convenções coletivas ou direitos previstos em lei.
Também não significa retirar da empresa o poder de organizar e fiscalizar a operação.
O objetivo é evitar que toda divergência se transforme imediatamente em confronto.
Questões relacionadas a escalas, folgas, condições dos veículos, pontos de apoio, segurança, relacionamento com passageiros e procedimentos disciplinares podem ser identificadas preventivamente.
Para Liana Variani, relações mais transparentes ajudam inclusive na segurança jurídica.
O trabalhador precisa conhecer claramente aquilo que a empresa espera dele. E a empresa precisa conhecer aquilo que está acontecendo na ponta da operação.
PUNIÇÃO PRECISA TER CRITÉRIO
O setor de transporte coletivo possui características que exigem disciplina operacional.
Um erro pode envolver não apenas prejuízo material, mas passageiros e terceiros.
Isso não significa, entretanto, que procedimentos disciplinares devam ser arbitrários.
Advertências, suspensões e outras providências precisam observar legislação, normas internas válidas, instrumentos coletivos e as circunstâncias concretas de cada ocorrência.
Ter regras conhecidas, investigar adequadamente os fatos e permitir que o trabalhador apresente sua versão reduz a sensação de injustiça e também os riscos jurídicos.
O mesmo vale para cobranças relacionadas a acidentes, avarias e prejuízos.
A própria legislação assegura ao motorista profissional empregado proteção contra responsabilização por prejuízo patrimonial decorrente da ação de terceiros, ressalvadas hipóteses legalmente previstas e devidamente comprovadas.
EMPRESA PRECISA MOSTRAR QUE EXISTE VIDA PROFISSIONAL DEPOIS DO VOLANTE
Uma das razões apontadas para o abandono da atividade é a falta de perspectiva.
Nem todo motorista pretende dirigir ônibus até a aposentadoria.
Empresas podem aproveitar justamente a experiência de quem passou anos na operação.
Motoristas experientes podem ser preparados para funções de instrutor, monitor, multiplicador de treinamento, liderança operacional ou outras atividades compatíveis com sua experiência e qualificação.
Da mesma maneira, cobradores, manobristas e funcionários de outras áreas podem receber formação para chegar ao volante.
Cria-se, assim, uma carreira de duas vias: trabalhadores podem tornar-se motoristas e motoristas podem enxergar caminhos profissionais para além da direção.
O QUE AS EMPRESAS PODEM FAZER, SEGUNDO LIANA VARIANI
Dentro da legislação e respeitando acordos e convenções coletivas, as principais medidas apontadas pela especialista podem ser resumidas em ações práticas: Medida Resultado esperado Ouvir motoristas Detectar problemas antes do conflito Treinar chefias Reduzir tratamento inadequado Dar previsibilidade às escalas Melhorar organização pessoal Respeitar jornada e descanso Saúde e segurança jurídica Reconhecer bons profissionais Aumentar pertencimento Criar canais de diálogo Resolver problemas mais cedo Ter regras disciplinares claras Reduzir sensação de injustiça Criar carreira interna Dar perspectiva profissional Acompanhar saúde ocupacional Prevenir afastamentos Cumprir acordos e convenções Fortalecer confiança
NÃO ROMANTIZAR, MAS TAMBÉM NÃO IGNORAR QUEM GOSTA DA PROFISSÃO
A falta de motoristas não será resolvida apenas com campanhas para atrair novos candidatos.
Talvez uma das maiores oportunidades esteja justamente em evitar perder quem já conhece o trabalho e ainda deseja permanecer nele.
Isso exige reconhecer uma aparente contradição.
Há motoristas cansados da profissão e há motoristas apaixonados por ela. Muitas vezes, as duas coisas estão presentes na mesma pessoa.
Um profissional pode reclamar do salário, do trânsito, da escala, da violência e da chefia e, ainda assim, sentir orgulho quando assume o ônibus, cumprimenta os primeiros passageiros e começa mais uma viagem.
É justamente esse vínculo que não pode ser confundido com conformismo.
A modernização do transporte coletivo não depende somente de ônibus elétricos, inteligência artificial, sistemas de telemetria, câmeras e novas tecnologias. Nenhum desses equipamentos substitui completamente a relação humana existente dentro de um ônibus.
Para um setor que afirma encontrar cada vez menos pessoas dispostas a assumir o volante, preservar quem ainda quer dirigir pode ser tão estratégico quanto formar uma nova geração de motoristas.
E isso passa por uma equação que não depende apenas de dinheiro: empresa precisa de produtividade, segurança e sustentabilidade econômica; trabalhador precisa de remuneração, descanso, dignidade, perspectiva e respeito.
A legislação estabelece os limites mínimos. A qualidade da relação construída dentro deles pode determinar se o motorista experiente entregará a chave e irá embora ou continuará fazendo aquilo que, apesar de todas as dificuldades, ainda considera sua profissão.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
