De janeiro a agosto, foram produzidas 19.918 unidades, emplacadas 14.544 e exportadas 3.174; Mercedes-Benz lidera com 5.717 (-17,3%), VWCO soma 3.955 (+0,7%), Agrale 2.002 (-7,6%) e Iveco 1.784 (+13%)
ADAMO BAZANI
A indústria brasileira de ônibus chegou ao fim de agosto de 2026 ainda abaixo dos resultados do mesmo período do ano passado nos três principais indicadores acompanhados pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). De janeiro a agosto, foram produzidos 19.918 ônibus, queda de 6,2% diante dos 21.243 dos oito primeiros meses de 2025; os emplacamentos somaram 14.544 unidades, retração de 7,6% ante 15.736; e as exportações de ônibus montados caíram de 4.556 para 3.174 unidades, redução de 30,3%.
O comportamento de agosto, entretanto, foi diferente de acordo com o indicador. Foram emplacados 2.023 ônibus, 17,6% acima dos 1.720 de agosto de 2025, embora 9,4% abaixo dos 2.233 de julho. A produção caiu para 1.857 unidades, retrações de 13,1% ante os 2.138 veículos de julho e de 28,8% na comparação com os 2.607 de agosto do ano passado. Nas exportações, os 494 ônibus enviados ao exterior representaram alta de 12,5% diante dos 439 de julho, mas queda de 28,9% em relação aos 695 de agosto de 2025.
RESULTADO ACUMULADO DOS ÔNIBUS
| Indicador | 2026 x 2025 | Variação |
| Produção | 19.918 x 21.243 | -6,2% |
| Emplacamentos | 14.544 x 15.736 | -7,6% |
| Exportações | 3.174 x 4.556 | -30,3% |
Fonte: Anfavea – janeiro a agosto de 2026.
O quadro mostra que a maior pressão está hoje no mercado externo. A redução das exportações é quase cinco vezes maior, em termos percentuais, que a retração da produção brasileira de ônibus.
Também existe uma diferença importante entre o comportamento dos ônibus e o conjunto da indústria automobilística. Considerando automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, a produção brasileira acumulou crescimento de 8,5% até agosto, enquanto os emplacamentos totais avançaram 18,4%. Ou seja, o segmento de ônibus segue no campo negativo justamente em um ano no qual o mercado automotivo como um todo cresce de maneira expressiva.
A situação está próxima, até agora, da perspectiva traçada pela própria Anfavea em julho. Ao revisar suas projeções para 2026, a entidade estimou que os segmentos de caminhões e ônibus terminariam o ano com queda de aproximadamente 6%, apesar da expansão esperada para automóveis e comerciais leves.
EMPLACAMENTOS: AGOSTO REAGE NA COMPARAÇÃO ANUAL
O mercado interno apresentou em agosto um sinal melhor que o observado no acumulado.
| Comparação | Unidades | Variação |
| Ago/26 x jul/26 | 2.023 x 2.233 | -9,4% |
| Ago/26 x ago/25 | 2.023 x 1.720 | +17,6% |
| Jan-ago/26 x 2025 | 14.544 x 15.736 | -7,6% |
Fonte: Anfavea.
Assim, agosto não repetiu o ritmo forte de julho, mas ficou significativamente acima do mesmo mês do ano passado.
O resultado ajuda a reduzir a distância acumulada para 2025, embora ainda não seja suficiente para colocar o ano no campo positivo.
Esse comportamento também evidencia uma característica do mercado brasileiro de ônibus: entregas e emplacamentos costumam ocorrer em blocos, em especial nas compras de grandes operadores, prefeituras, governos, sistemas de transporte urbano e programas públicos.
PRODUÇÃO TEM QUEDA MAIS FORTE EM AGOSTO
A situação das fábricas foi mais fraca no último mês apurado.
| Comparação | Unidades | Variação |
| Ago/26 x jul/26 | 1.857 x 2.138 | -13,1% |
| Ago/26 x ago/25 | 1.857 x 2.607 | -28,8% |
| Jan-ago/26 x 2025 | 19.918 x 21.243 | -6,2% |
Fonte: Anfavea.
A queda de 28,8% diante de agosto de 2025 chama atenção porque é bem mais intensa que a retração de 6,2% verificada nos oito meses.
Isso significa que o desempenho acumulado das fábricas continua relativamente próximo do ano passado, mas agosto isoladamente foi significativamente mais fraco.
Os números referem-se aos chassis de ônibus produzidos no Brasil e contabilizados pela Anfavea.
EXPORTAÇÕES SÃO O PRINCIPAL PONTO DE PRESSÃO
O mercado externo é o indicador que apresenta a maior deterioração em 2026.
| Comparação | Unidades | Variação |
| Ago/26 x jul/26 | 494 x 439 | +12,5% |
| Ago/26 x ago/25 | 494 x 695 | -28,9% |
| Jan-ago/26 x 2025 | 3.174 x 4.556 | -30,3% |
Fonte: Anfavea.
Houve uma recuperação mensal em agosto, com 55 veículos a mais que em julho, mas o volume permanece 201 unidades abaixo de agosto do ano passado.
No acumulado, são 1.382 ônibus exportados a menos.
A queda dos ônibus é inclusive maior que a retração das exportações de toda a indústria automobilística brasileira, que ficou em 22,9% entre janeiro e agosto. A Anfavea já vinha apontando menor demanda externa em 2026, inclusive com retração do mercado argentino e aumento da competição de produtos de outros países nos mercados atendidos pelas fábricas brasileiras.
INDÚSTRIA ENFRENTA UM MERCADO QUE PRECISA RENOVAR FROTA, MAS TEM OPERAÇÃO MAIS CARA
Os números industriais precisam ser observados juntamente com a situação das empresas que efetivamente compram e operam os ônibus.
Dados recentes da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) mostram que o custo ponderado para produzir um quilômetro de serviço chegou a R$ 10,93 em 2025, em valores corrigidos, contra R$ 9,11 em 2021. A idade média da frota urbana está em 6,38 anos e a demanda de passageiros caiu 3,7% em 2025, permanecendo 22,5% abaixo de 2019.
É uma combinação que cria necessidades e dificuldades ao mesmo tempo.
Uma frota mais velha pressiona a renovação dos veículos, mas custos elevados, menor quantidade de passageiros pagantes e produtividade historicamente baixa reduzem a capacidade de diversas operações de realizar grandes investimentos apenas com recursos gerados pela tarifa.
Por isso, o financiamento público e os subsídios passaram a ter peso muito maior no transporte coletivo. Segundo o Anuário NTU 2025-2026, 294 municípios já contavam em junho de 2026 com algum aporte público parcial para custear os ônibus, além das cidades com Tarifa Zero.
ELETRIFICAÇÃO MUDA A COMPOSIÇÃO DO MERCADO
Existe, paralelamente, uma transformação tecnológica dentro das próprias vendas.
Como mostrou o Diário do Transporte, dados da Fenabrave apontam 932 ônibus elétricos emplacados entre janeiro e agosto de 2026, crescimento de 82,03% em relação às 512 unidades do mesmo período de 2025. Somente em agosto foram 254 elétricos.
Isso significa que os veículos de emissão zero avançam rapidamente mesmo em um mercado total de ônibus que ainda apresenta dificuldades.
A mudança também interfere no perfil industrial. BYD, Eletra/Caio, Mercedes-Benz, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Volvo e outras fabricantes disputam encomendas ligadas à eletrificação, enquanto BNDES, bancos multilaterais e administrações municipais ampliam linhas e projetos destinados à substituição de ônibus a diesel. O BNDES, por exemplo, mantém linha destinada ao financiamento da aquisição e produção de ônibus elétricos, híbridos, a gás e a biometano.
Há ainda compras públicas que ajudam a movimentar segmentos específicos da indústria. O FNDE disponibilizou em 2026 novas atas nacionais para aquisição de ônibus rurais escolares e ônibus urbanos escolares acessíveis pelo Programa Caminho da Escola.
MERCEDES-BENZ SEGUE NA LIDERANÇA, MAS IVECO É QUEM MAIS CRESCE ENTRE AS QUATRO PRIMEIRAS
O balanço da Anfavea detalha por fabricante os emplacamentos, mas não apresenta nesta edição uma divisão equivalente da produção e das exportações por marca. Assim, o ranking abaixo é exclusivamente de veículos emplacados.
A Mercedes-Benz permanece em primeiro lugar, com 5.717 ônibus de janeiro a agosto, mas registra queda de 17,3%.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus ocupa a segunda posição e praticamente repete o desempenho do ano passado, com crescimento de 0,7%.
A Agrale aparece em terceiro, com retração de 7,6%.
Já a Iveco tem o melhor resultado percentual entre as quatro marcas de maior volume: alta de 13%, passando de 1.579 para 1.784 ônibus.
RANKING DE EMPLACAMENTOS – JANEIRO A AGOSTO
| Marca | 2026 | 2025 | Var. |
| 1º Mercedes-Benz | 5.717 | 6.911 | -17,3% |
| 2º VWCO | 3.955 | 3.927 | +0,7% |
| 3º Agrale | 2.002 | 2.167 | -7,6% |
| 4º Iveco | 1.784 | 1.579 | +13,0% |
| 5º Scania | 300 | 481 | -37,6% |
| 6º Volvo | 268 | 344 | -22,1% |
Fonte: Anfavea/Renavam.
As seis marcas associadas listadas nominalmente somam 14.026 ônibus. Outros fabricantes, agrupados pela Anfavea na categoria “Outras empresas”, respondem por mais 518 veículos, contra 327 no mesmo período de 2025, crescimento de 58,4%. O documento não abre quais fabricantes compõem individualmente este grupo, portanto não é possível atribuir essas 518 unidades a marcas específicas a partir deste balanço.
Mercedes-Benz, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Agrale e Iveco, juntas, respondem por 13.458 dos 14.544 ônibus contabilizados pela Anfavea no ano, aproximadamente 92,5% do mercado apresentado pela entidade.
AGOSTO MOSTRA VOLKSWAGEN EM ALTA
O recorte exclusivamente de agosto apresenta movimentos diferentes do acumulado.
A Mercedes-Benz liderou com 688 unidades, mas caiu 19,7% diante de julho e 13,6% frente a agosto de 2025. A Volkswagen Caminhões e Ônibus emplacou 619, crescimento de 5,5% sobre julho e de 52,1% na comparação anual.
A Agrale teve 253 unidades, alta de 7,2% sobre agosto de 2025, mas queda de 18,6% frente a julho. A Iveco somou 202, crescimento anual de 14,8%, apesar da queda mensal de 41,3%.
Scania e Volvo apresentaram fortes altas percentuais no mês, mas sobre bases bastante menores. A Scania passou de 37 ônibus em agosto de 2025 para 55 em agosto de 2026, enquanto a Volvo passou de 16 para 63.
ATENÇÃO À DIFERENÇA ENTRE AS BASES DE ANFAVEA E FENABRAVE
Existe uma ressalva importante para a leitura dos números.
O total de 14.544 ônibus apresentado pela Anfavea para janeiro a agosto não coincide com os 18.119 veículos divulgados pela Fenabrave para o mesmo período.
As duas entidades apresentam classificações próprias do mercado. O balanço da Anfavea anexado a esta reportagem não detalha os motivos da diferença entre os totais e, por isso, não é tecnicamente seguro misturar ou simplesmente somar as duas bases.
Nesta reportagem, todos os números de produção, exportações, emplacamentos gerais e ranking convencional de fabricantes foram mantidos exatamente dentro da metodologia da Anfavea. Os dados da Fenabrave foram utilizados apenas para contextualizar especificamente o avanço dos ônibus elétricos.
A própria Anfavea ressalta ainda que os dados referentes ao mês mais recente são preliminares e todas as informações estão sujeitas a revisão.
O balanço de agosto, dessa forma, mostra uma indústria brasileira de ônibus em uma situação de transição: o mercado interno apresentou reação importante na comparação anual do último mês, mas produção, emplacamentos acumulados e principalmente exportações ainda estão abaixo de 2025. Ao mesmo tempo, operadores enfrentam custos elevados e baixa produtividade, enquanto compras públicas, subsídios, programas de renovação e eletrificação passam a ter influência cada vez maior na formação da demanda por ônibus novos.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
