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Tamboré anuncia a restauração de mais um ícone dos transportes: Caio Amélia – 1986 Mercedes-Benz OF- 1113 ex – Urubupungá

Empresa de Barueri, na Grande São Paulo, se tornou conhecida por preservar e manter parte da história do transporte coletivo e traz mais esta surpresa

ADAMO BAZANI

Um pedaço da história dos ônibus da Grande São Paulo vai ganhar uma nova chance de permanecer nas ruas, agora como veículo de preservação. A Transportadora Tamboré, de Barueri (SP), anunciou em suas redes sociais que a restauração dr um Caio Amélia, ano 1986, sobre chassi Mercedes-Benz OF-1113, que pertenceu à Auto Viação Urubupungá, tradicional empresa de Osasco (SP).

O anúncio é mais um capítulo de um trabalho que tornou a Tamboré conhecida também fora de sua atividade regular de fretamento e turismo. Nos últimos anos, a empresa e seu fundador, Eder Pereira, passaram a recuperar, recomprar e manter ônibus de diferentes épocas, muitos deles exibidos em encontros de veículos históricos. No caso do Amélia, a própria Tamboré contou que as negociações para obter o ônibus vinham desde o ano passado e que o veículo era mantido em um galpão pelo antigo proprietário.

A nova aquisição chama atenção por reunir três nomes intimamente relacionados à história dos transportes paulistas: Caio, Mercedes-Benz e Urubupungá. E é justamente a combinação entre a carroceria Amélia e o OF-1113 que transporta o admirador de ônibus diretamente para a primeira metade dos anos 1980.

CAIO AMÉLIA: UM DOS ROSTOS DOS ÔNIBUS DOS ANOS 1980

Para quem viveu o transporte coletivo brasileiro durante os anos 1980, o desenho do Caio Amélia dificilmente passa despercebido.

O modelo sucedeu a família Gabriela, um dos grandes sucessos anteriores da fabricante paulista. A própria Caio registra em sua história que o Amélia marcou o começo daquela década e a nova fase industrial da empresa em Botucatu (SP). A fábrica foi oficialmente inaugurada em 1982, depois da transferência da produção que antes ocorria na capital paulista.

O Amélia podia ser produzido com estrutura de aço ou alumínio e rapidamente ganhou espaço nas frotas urbanas. Foi uma carroceria característica de uma época em que os ônibus brasileiros ainda tinham linhas bastante retas, grandes áreas envidraçadas e soluções mecânicas muito diferentes das encontradas atualmente.

A vida comercial do modelo avançou até 1988, quando a Caio apresentou o Vitória, que assumiu seu lugar e também se tornaria um dos ônibus urbanos mais populares do País. A trajetória do Amélia, portanto, ficou concentrada justamente em uma década de forte crescimento dos sistemas urbanos e metropolitanos.

O ônibus agora adquirido pela Tamboré é de 1986, ou seja, pertence à fase final da produção tanto da carroceria quanto do chassi que está por baixo dela.

E O MERCEDES-BENZ OF-1113?

 

O OF-1113 também é um personagem importante dessa história.

De acordo com dados técnicos da Mercedes-Benz do Brasil compilados pelo ViaCircular, o chassi foi fabricado entre 1983 e 1986 para aplicações urbanas e rodoviárias. Era um veículo de motor dianteiro equipado com o conhecido Mercedes-Benz OM-352, diesel, de seis cilindros em linha e 5,675 litros. A potência máxima era de 126 cavalos.

A transmissão era mecânica e o projeto seguia uma arquitetura típica dos ônibus urbanos daquele período, com suspensão por feixes de molas e freios a ar comprimido.

Pode parecer pouco diante das potências dos ônibus atuais, que chegam facilmente à faixa dos 200 cv ou mais nos modelos urbanos convencionais, mas o conjunto OF-1113 foi desenvolvido para uma realidade operacional completamente diferente, em veículos mais leves e com muito menos equipamentos embarcados.

Um detalhe torna o exemplar da Tamboré ainda mais interessante: 1986 é justamente o último ano apontado para a fabricação do OF-1113.

É, portanto, um ônibus que praticamente encerra uma geração.

O PASSADO NA URUBUPUNGÁ

A origem do veículo também acrescenta valor histórico.

A Auto Viação Urubupungá foi fundada em 1966 e passou a ser administrada pelo atual grupo controlador a partir de 1973. Naquele momento, operava cinco linhas na região de Lapa e Osasco.

A década de 1980, justamente quando o Caio Amélia agora resgatado foi produzido, foi um período importante de expansão da companhia. Segundo histórico divulgado pela própria Urubupungá, dezenas de novas linhas e centenas de novos ônibus foram incorporados acompanhando o crescimento da Região Metropolitana de São Paulo.

A empresa também ficou marcada por experiências tecnológicas. No fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980, participou de testes pioneiros com ônibus Mercedes-Benz abastecidos com álcool, dentro dos esforços desenvolvidos no País para reduzir a dependência do petróleo.

Assim, preservar um ônibus da Urubupungá de 1986 significa conservar fisicamente um objeto de uma fase de expansão dos transportes de Osasco (SP) e de toda a região Oeste da Grande São Paulo.

TAMBORE TRANSFORMOU PRESERVAÇÃO EM OUTRA MARCA DA EMPRESA

A atividade principal da Transportadora Turística Tamboré continua sendo o transporte de passageiros. A empresa, sediada em Barueri (SP), atua principalmente com fretamento e também oferece serviços voltados a turismo, excursões e transporte corporativo. Dados cadastrais apontam a abertura da Transportadora Turística Tamboré Ltda. em abril de 2013.

Mas, paralelamente, os ônibus antigos ganharam cada vez mais espaço.

Em 2023, o Diário do Transporte mostrou um dos trabalhos que mais chamaram atenção: a recuperação de um Caio Vitória, Mercedes-Benz OF-1620, ano 1995, que estava em um pátio com destino à sucata.

O ônibus havia pertencido originalmente à Auto Viação Tabú e passou posteriormente por Expresso Paulistano, Transporte Coletivo São Judas e Via Sul. A Tamboré recuperou o veículo e inicialmente reproduziu elementos da identidade da antiga Tabú.

Mais tarde, o mesmo carro recebeu uma caracterização em homenagem à Viação Cidade Tiradentes, empresa ligada à história do empresário Constantino de Oliveira, o Nenê Constantino. O trabalho não ficou apenas na pintura: segundo reportagem do Diário do Transporte, houve recuperação de componentes internos e externos para aproximar o ônibus de suas configurações históricas.

Outro Caio Padron Vitória, de número 330, que pertenceu à CMTB (Companhia Municipal de Transportes de Barueri), também passou a integrar o conjunto de ônibus históricos apresentado por Eder Pereira. Os dois foram levados pela Tamboré à BusBrasil Fest de 2024, em Barueri (SP).

DE URBANO A RODOVIÁRIO: VEJA OS CLÁSSICOS LIGADOS À TAMBORE

A Tamboré não mantém apenas ônibus urbanos. O acervo divulgado publicamente inclui modelos rodoviários e monoblocos que marcaram gerações diferentes.

Entre os veículos históricos já apresentados, recuperados ou recomprados pela empresa estão:

MAIS QUE NOSTALGIA

Ônibus antigos costumam despertar memória afetiva porque fizeram parte da rotina de milhares de pessoas. Mas a preservação também tem uma dimensão técnica.

Um veículo como o Caio Amélia OF-1113 permite observar, na prática, como eram construídas as carrocerias, os postos de trabalho dos motoristas, os salões de passageiros, bancos, janelas, portas, painéis, iluminação e sistemas mecânicos de uma determinada época.

Também mostra quanto o ônibus urbano mudou em quatro décadas.

O OF-1113 que hoje representa uma tecnologia histórica era um chassi mecânico de motor dianteiro e 126 cv. Os ônibus atuais incorporam suspensão pneumática, transmissões automáticas, sistemas eletrônicos, ar-condicionado, recursos de acessibilidade e, cada vez mais, propulsão elétrica ou outras tecnologias de baixa emissão.

É essa diferença que faz um ônibus preservado deixar de ser apenas “um veículo velho” e se transformar em documento histórico sobre rodas.

No caso do Amélia de 1986, há ainda uma combinação especial: um modelo clássico da Caio, um dos chassis mais conhecidos da Mercedes-Benz daquele período e uma passagem pela Urubupungá justamente durante a expansão dos transportes na região Oeste da Grande São Paulo.

Agora, mais de quatro décadas depois, a história continua em Barueri (SP), onde a Tamboré prepara mais um ônibus para não deixar o passado dos transportes desaparecer.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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