Foram emplacados 18,1 mil coletivos de janeiro a agosto; mercado reage com Move Brasil e compras públicas, mas segmentos urbano, rodoviário e de fretamento ainda enfrentam retração
ADAMO BAZANI
As vendas de ônibus novos no Brasil ainda estão abaixo do desempenho do ano passado, mas a diferença diminuiu de forma significativa ao longo de 2026. Entre janeiro e agosto foram emplacados 18.119 coletivos, queda de 4,25% em relação ao mesmo período de 2025.
Somente em agosto, foram emplacados 2.437 ônibus, crescimento de 18,70% sobre o mesmo mês do ano passado. Na comparação com julho de 2026, quando foram licenciadas 2.691 unidades, entretanto, houve queda de 9,44%. Os dados são da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).
VENDAS DE ÔNIBUS
| Período | Unidades | Variação |
|---|---|---|
| Jan-ago/26 | 18.119 | -4,25% |
| Agosto/26 | 2.437 | +18,70% anual |
| Julho/26 | 2.691 | -9,44% mensal |
Fonte: Fenabrave
O desempenho mostra que o mercado continua negativo no acumulado do ano, mas a distância em relação a 2025 vem diminuindo.
Até julho, a retração acumulada era de 7,04%. Com os resultados de agosto, a diferença caiu para 4,25%.
Em janeiro, a queda acumulada em relação ao mesmo mês de 2025 chegou a 23,5%.
A evolução, portanto, indica uma aproximação gradual dos níveis do ano passado, ainda que o resultado total de 2026 permaneça negativo.
A Fenabrave ressalta que o mercado de ônibus costuma apresentar fortes oscilações mensais porque muitas aquisições, principalmente de grandes empresas e do poder público, são realizadas e entregues em lotes.
Segundo avaliação da entidade, financiamentos e programas de renovação de frota têm contribuído para sustentar parte dos emplacamentos ao longo do ano.
URBANOS, RODOVIÁRIOS E FRETAMENTO AINDA PRESSIONAM MERCADO
A melhora dos números gerais não significa que os principais mercados tradicionais de ônibus tenham voltado a crescer.
Dados apresentados pela Mercedes-Benz durante a Lat.Bus 2026 mostram retrações importantes nos segmentos urbano, rodoviário e de fretamento.
No primeiro semestre, o mercado de ônibus urbanos caiu aproximadamente 22%.
No fretamento, a redução ficou próxima de 25%.
Entre os ônibus rodoviários, a retração chegou a aproximadamente 35%.
Os três segmentos estão entre os principais pilares da indústria brasileira de ônibus e dependem, em diferentes graus, da capacidade de investimento dos operadores privados, dos contratos de transporte coletivo e das condições de financiamento.
Os juros continuam sendo apontados pelo setor como um dos obstáculos para uma retomada mais intensa.
A compra de um ônibus normalmente representa um investimento elevado e de longo prazo. Por isso, alterações no custo do crédito têm impacto direto sobre as decisões de renovação das frotas.
No fretamento, as compras dependem principalmente de contratos empresariais, industriais e turísticos.
No segmento rodoviário, a demanda está relacionada à renovação das frotas das empresas que operam linhas intermunicipais, interestaduais e internacionais.
Já no transporte urbano, além da capacidade financeira dos operadores, as compras dependem dos contratos de concessão, das exigências de idade média das frotas, das políticas municipais de renovação e, cada vez mais, dos programas de eletrificação.
MICRO-ÔNIBUS E COMPRAS PÚBLICAS AJUDAM A SEGURAR RESULTADO
Se alguns dos mercados tradicionais continuam enfrentando dificuldades, as compras governamentais têm peso importante sobre os números da indústria de ônibus em 2026.
Entre os principais programas está o Caminho da Escola.
Criado em 2007, o programa federal permite que estados e municípios adquiram ônibus padronizados destinados principalmente ao transporte de estudantes das redes públicas, inclusive em áreas rurais e regiões de difícil acesso.
A expectativa apresentada pela indústria é de aproximadamente 4 mil ônibus escolares emplacados em 2026.
Há ainda novas etapas de aquisição que podem resultar em milhares de veículos adicionais, mas uma parte das entregas tende a ocorrer apenas em 2027 por causa dos prazos de contratação, homologação, apresentação de protótipos, fabricação e entrega.
Outro programa que passou a influenciar principalmente o mercado de micro-ônibus é o Caminho da Saúde.
A iniciativa federal prevê veículos destinados ao transporte de pacientes atendidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
A previsão apresentada pelo setor é de aquisição de aproximadamente 3 mil micro-ônibus e 3 mil vans.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus informou em agosto que já havia fornecido cerca de 1,5 mil chassis de micro-ônibus destinados ao programa.
Os veículos são utilizados no deslocamento de pacientes em municípios de diferentes regiões do País.
Com isso, parte importante do desempenho do mercado brasileiro de ônibus em 2026 não está diretamente relacionada à recuperação dos segmentos urbano, rodoviário ou de fretamento.
Grandes aquisições institucionais passaram a ter participação relevante nos volumes de produção e emplacamentos.
MOVE BRASIL TAMBÉM AJUDA A RENOVAÇÃO
Outro fator que influencia o mercado é o Move Brasil.
A segunda etapa do programa disponibilizou R$ 21,2 bilhões para aquisição de caminhões, ônibus e implementos rodoviários, com linhas de financiamento em condições diferenciadas.
Os reflexos dessas operações não aparecem imediatamente nos números de emplacamentos.
Existe um intervalo entre aprovação do financiamento, contratação, produção do chassi, encarroçamento, faturamento, entrega e registro do veículo.
Por isso, financiamentos contratados ao longo dos últimos meses ainda podem resultar em novos emplacamentos até o final de 2026.
O prazo para protocolo das operações terminou em 28 de agosto.
A evolução dos próximos meses deve mostrar quantas operações aprovadas serão efetivamente transformadas em ônibus entregues aos operadores.
ÔNIBUS ELÉTRICOS AVANÇAM EM RITMO DIFERENTE
Enquanto o mercado total de ônibus ainda apresenta retração no acumulado do ano, os elétricos continuam avançando em ritmo superior.
Entre janeiro e agosto de 2026 foram emplacados 932 ônibus elétricos, crescimento de aproximadamente 82% na comparação com igual período de 2025.
Somente em agosto foram registradas 254 unidades.
O número representa crescimento de 185,3% em relação aos 89 ônibus elétricos emplacados em julho e alta de 519,5% na comparação com agosto do ano passado.
A forte variação mensal está diretamente relacionada à característica das compras de ônibus elétricos.
Diferentemente de veículos vendidos individualmente ou em pequenos lotes, os elétricos urbanos costumam ser incorporados às frotas em grupos maiores, principalmente após licitações, contratos de financiamento ou programas municipais de substituição de veículos diesel.
São Paulo continua sendo o principal mercado brasileiro para esta tecnologia, mas outras cidades e regiões metropolitanas também estão ampliando projetos de eletrificação.
PRODUÇÃO DE ÔNIBUS TAMBÉM ESTÁ ABAIXO DE 2025
Os números de produção possuem uma defasagem em relação aos dados de emplacamentos divulgados pela Fenabrave.
O balanço industrial disponível da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) contempla janeiro a julho de 2026.
Neste período, foram produzidos 18.061 ônibus no Brasil.
O volume representa queda de 3,1% em relação aos 18.636 veículos fabricados nos sete primeiros meses de 2025.
Somente em julho, as fábricas brasileiras produziram 2.138 ônibus.
Na comparação com junho, quando foram fabricadas 2.325 unidades, houve redução de 8%.
Em relação a julho de 2025, quando a produção alcançou 2.894 ônibus, a retração foi de 26,1%.
PRODUÇÃO DE ÔNIBUS
| Período | Unidades | Variação |
|---|---|---|
| Jan-jul/26 | 18.061 | -3,1% |
| Julho/26 | 2.138 | -26,1% anual |
Fonte: Anfavea
Os números mostram que a aproximação observada nos emplacamentos ainda não significa uma recuperação equivalente das linhas de produção.
Isso também ocorre porque produção e licenciamento não acontecem necessariamente no mesmo período.
Um ônibus pode ser fabricado em determinado mês e ser encarroçado, entregue e emplacado semanas ou meses depois.
EXPORTAÇÕES DE ÔNIBUS DESPENCAM 30,6%
O mercado externo é outro ponto de pressão para a indústria brasileira de ônibus em 2026.
Entre janeiro e julho foram exportados 2.680 ônibus produzidos no Brasil.
No mesmo período de 2025 tinham sido embarcadas 3.861 unidades.
A retração foi de 30,6%.
EXPORTAÇÕES DE ÔNIBUS
| Período | Unidades | Variação |
|---|---|---|
| Jan-jul/26 | 2.680 | -30,6% |
Fonte: Anfavea
O desempenho chama atenção porque ocorre num momento em que fabricantes instalados no Brasil tentam ampliar a presença internacional.
A América Latina continua entre os principais destinos dos ônibus brasileiros, ao lado de mercados da América Central, África e outros países atendidos pelas fabricantes instaladas no País.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus, por exemplo, informou que comercializou 320 ônibus no México somente no primeiro semestre de 2026 e também vem ampliando negócios em outros mercados latino-americanos.
Fabricantes brasileiras de carrocerias também mantêm operações industriais e comerciais em diversos países e exportam veículos completos ou carrocerias produzidas no Brasil.
Mesmo com essas oportunidades, o resultado consolidado mostra que o mercado externo ainda não está compensando a fraqueza observada em parte da demanda nacional.
A queda das exportações significa ainda menor utilização da capacidade industrial brasileira voltada à produção de ônibus destinados a outros países.
MERCEDES-BENZ SEGUE LÍDER NAS VENDAS DE ÔNIBUS
A Mercedes-Benz permanece na liderança do mercado brasileiro de ônibus no acumulado de janeiro a agosto de 2026, considerando os critérios de emplacamentos utilizados pela Fenabrave.
A fabricante responde por 46,32% dos registros.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus ocupa a segunda posição, com 22,22%.
Na sequência aparecem Iveco, com 12,44%, e Marcopolo, com 10,57%.
BYD, Scania e Caio/Induscar aparecem posteriormente no levantamento.
RANKING DE MARCAS
| Marca | Participação |
|---|---|
| Mercedes-Benz | 46,32% |
| Volkswagen | 22,22% |
| Iveco | 12,44% |
| Marcopolo | 10,57% |
| BYD | 1,66% |
| Scania | 1,61% |
| Caio/Induscar | 1,52% |
Fonte: Fenabrave
Mercedes-Benz e Volkswagen concentram juntas aproximadamente 68,5% dos ônibus registrados no País no acumulado do ano.
É necessário, entretanto, fazer uma leitura específica das classificações de Marcopolo e Caio/Induscar no levantamento da Fenabrave.
Quando a entidade registra emplacamentos sob a marca Marcopolo, os números não correspondem às carrocerias convencionais produzidas pela fabricante. Eles se referem principalmente aos micro-ônibus Volare, comercializados já como veículos completos montados.
Os Volare, apesar de serem vendidos prontos pela Marcopolo, não são ônibus monoblocos. A configuração continua baseada na união entre estrutura veicular, conjunto mecânico e carroceria, mas o produto é comercializado ao cliente final como veículo completo sob a própria marca.
Por essa razão, esses veículos aparecem diretamente como Marcopolo nos registros de emplacamentos da Fenabrave.
Situação diferente ocorre com a Caio Induscar.
Os registros associados à Caio no levantamento não dizem respeito simplesmente às carrocerias convencionais produzidas pela empresa para chassis de Mercedes-Benz, Volkswagen, Scania ou outras fabricantes.
Nesse caso, os emplacamentos estão relacionados principalmente aos ônibus elétricos desenvolvidos em parceria com a Eletra Industrial.
A Eletra fornece a tecnologia de tração e integração elétrica, enquanto a Caio participa do fornecimento do veículo e do processo comercial. Como, nessas operações, a nota fiscal do ônibus completo é faturada pela Caio, é esta marca que aparece nos registros considerados pela Fenabrave.
Assim, a presença de Caio/Induscar no ranking não deve ser interpretada como uma medição da participação da fabricante no mercado brasileiro de carrocerias.
Da mesma maneira, os 10,57% atribuídos à Marcopolo não representam sua participação no mercado de carrocerias de ônibus, mas principalmente o universo de veículos Volare registrados diretamente sob sua marca.
Essa diferenciação é importante porque o ranking da Fenabrave é construído a partir do emplacamento do veículo e da marca registrada no faturamento, e não a partir de uma divisão industrial entre fabricantes de chassis, carrocerias e sistemas de tração.
BYD e Caio/Induscar também possuem participação relativamente pequena quando considerado o mercado total de ônibus, mas ganham maior relevância quando a análise é restrita aos veículos elétricos.
A fotografia dos oito primeiros meses de 2026 mostra, portanto, um mercado ainda abaixo do ano passado, mas com recuperação gradual.
A queda acumulada, que era de 7,04% até julho, diminuiu para 4,25% até agosto.
Ao mesmo tempo, o mês de agosto registrou crescimento de 18,7% na comparação com agosto de 2025.
O resultado, entretanto, ocorre em um cenário bastante desigual entre os segmentos.
Enquanto programas públicos, micro-ônibus, ônibus escolares e veículos elétricos ajudam a sustentar parte dos volumes, os mercados urbano, rodoviário e de fretamento ainda apresentam retração.
A produção brasileira também permanece abaixo de 2025 e as exportações acumulam queda superior a 30%.
Os próximos meses deverão mostrar se a redução da diferença em relação ao ano passado será suficiente para levar o mercado brasileiro de ônibus a encerrar 2026 próximo da estabilidade ou se a retração dos principais segmentos tradicionais continuará pesando sobre o resultado do setor.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
