Licitação de auditoria também mostra 28 processos licitatórios em 2026, 178 contratos de despesa, 36 de receita e milhares de demandas judiciais e administrativas
ADAMO BAZANI
Uma licitação para contratar a auditoria externa das demonstrações financeiras de 2026 acabou revelando uma radiografia pouco conhecida da estrutura administrativa da SPTrans, empresa municipal responsável pelo gerenciamento do sistema de ônibus da cidade de São Paulo. A companhia informou possuir 1.635 empregados públicos, aproximadamente 410 contas contábeis ativas, 70 contas bancárias e cerca de 135 mil lançamentos contábeis todos os meses.
O documento publicado nesta sexta-feira, 28 de agosto de 2026, também mostra a dimensão das atividades administrativas e jurídicas da gerenciadora: somente entre janeiro e 24 de agosto foram publicados 28 processos licitatórios; naquela mesma data, estavam vigentes 178 instrumentos contratuais de despesa e 36 de receita. A área jurídica acompanhava 2.060 demandas cíveis, 1.188 trabalhistas e 159 tributárias.
Dados apareceram em licitação para auditoria das contas de 2026
As informações não foram divulgadas originalmente como um balanço institucional.
Elas constam das respostas da SPTrans às empresas interessadas na contratação de auditoria externa independente para examinar as demonstrações financeiras anuais da companhia referentes ao exercício de 2026.
Os participantes da licitação apresentaram uma série de perguntas para dimensionar o trabalho necessário e, consequentemente, o custo das propostas.
Ao responder, a SPTrans detalhou o volume de documentos, pessoal, sistemas, contratos, contingências judiciais e obrigações que deverão ser analisados pelo futuro auditor.
135 mil lançamentos por mês e aproximadamente 1,62 milhão por ano
A companhia informou possuir cerca de 410 contas contábeis ativas.
São processados aproximadamente 135 mil lançamentos contábeis por mês, o equivalente, segundo a própria SPTrans, a cerca de 1,62 milhão ao ano. A empresa mantém ainda 70 contas bancárias.
O principal sistema de gestão empresarial usado pela companhia é o SiAF, empregado para contabilidade, contas a pagar, contas a receber e gestão de contratos.
A folha de pagamento é processada pelo sistema Populis. De acordo com a SPTrans, os módulos do SiAF são integrados, enquanto a comunicação contábil entre SiAF e Populis ocorre por importação de lançamentos.
Aproximadamente 200 usuários possuem acesso ao SiAF.
1.635 empregados públicos e 1.711 vínculos no eSocial
Em julho de 2026, a SPTrans possuía 1.635 empregados públicos.
As principais unidades consideradas relevantes para a auditoria estão na Rua Boa Vista, no Centro Histórico, e na Rua Santa Rita, no Pari.
O número total de vínculos registrados no eSocial, entretanto, era maior.
A empresa informou aproximadamente 1.711 vínculos em julho: além dos 1.635 empregados públicos, havia 24 trabalhadores sem vínculo empregatício tradicional, sendo seis diretores e 18 conselheiros ou integrantes do Comitê de Auditoria, além de 52 estagiários.
Entre dezembro de 2025 e julho de 2026, a SPTrans transmitiu em média 7.240 eventos por mês ao eSocial, incluindo informações periódicas, não periódicas e registros relacionados à Saúde e Segurança do Trabalho.
28 licitações em menos de oito meses
Outro conjunto de números mostra o volume de contratações gerenciado internamente pela companhia.
Entre 1º de janeiro e 24 de agosto de 2026, foram publicados 28 processos licitatórios. Outros dois procedimentos lançados em 2025 foram concluídos neste ano.
Em 24 de agosto, a SPTrans registrava 178 instrumentos contratuais de despesa e outros 36 de receita.
A empresa informou ainda que possui mapeamento formal de processos abrangendo todas as áreas, realizado em 2025, e uma matriz de riscos e controles aprovada em 2026.
Relatórios de avaliação dos controles internos também foram produzidos em 2024 e 2025 e deverão ser disponibilizados à futura empresa de auditoria para acompanhamento de recomendações e pendências.
Mais de 2 mil demandas cíveis e 1.188 trabalhistas
O volume jurídico também chama atenção.
Em 24 de agosto de 2026, a Gerência Jurídica Cível, Trabalhista e Tributária controlava 2.060 processos cíveis, 1.188 trabalhistas e 159 tributários ativos.
Segundo a resposta publicada, essa atividade é centralizada internamente e não possui interface com escritório de advocacia contratado para esta função.
A SPTrans possui norma própria para classificação do risco das demandas, dividindo os casos nas categorias remoto, possível e provável. Para reconhecimento e divulgação contábil das provisões e contingências, a empresa diz seguir o CPC 25 e demais normas aplicáveis.
A empresa de auditoria que vencer a disputa terá acesso às relações e classificações necessárias para examinar estes riscos, dentro das regras de sigilo, proteção de dados e segurança da informação.
Auditoria também vai analisar sustentabilidade
O trabalho não ficará limitado às demonstrações financeiras tradicionais.
O edital prevê análise das informações de sustentabilidade que integrarão o Relatório Integrado da Administração de 2026, elaboradas com base nas normas da Global Reporting Initiative, a GRI.
Questionada especificamente sobre emissões de gases de efeito estufa, a SPTrans informou que não produz inventário de emissões referente às suas próprias atividades e, portanto, não haverá inventário dessa natureza dentro deste produto específico da auditoria.
A resposta deve ser lida dentro do escopo exato apresentado pela companhia: ela se refere às atividades próprias da SPTrans e à auditoria de seu relatório institucional, e não permite concluir, por si só, que inexistam levantamentos ambientais relativos à frota de ônibus operada pelas concessionárias.
Empresa gerencia sistema com mais de 13 mil ônibus
Os números administrativos ganham dimensão quando comparados ao serviço que está sob responsabilidade da SPTrans.
Em sua página institucional, a companhia informa que gerencia uma frota superior a 13 mil ônibus, distribuída por mais de 1,3 mil linhas, responsável por aproximadamente 6,3 milhões de viagens de passageiros em um dia útil médio.
A SPTrans não é a operadora direta da maior parte destes ônibus. Sua função é administrar, planejar, fiscalizar e fazer a engenharia do sistema operado pelas concessionárias.
O boletim de auditoria reafirma que existe contrato vigente entre a SPTrans e a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte para disciplinar justamente os serviços de gerenciamento, fiscalização, administração e engenharia do transporte coletivo por ônibus.
Gestão financeira prevista em lei ainda não foi separada da SPTrans
O documento traz ainda uma resposta institucional relevante.
Uma das empresas interessadas na auditoria perguntou sobre a constituição da sociedade de gestão financeira do sistema prevista na legislação municipal.
A SPTrans esclareceu que não existe determinação do Tribunal de Contas da União dirigida à companhia sobre o assunto. Segundo a empresa, a questão foi acompanhada pelo Tribunal de Contas do Município.
A companhia acrescentou que a criação desta sociedade depende de medidas normativas e administrativas do Poder Público municipal e não pode ser feita unilateralmente pela SPTrans.
Até o momento da resposta, a empresa afirmou que nenhuma alteração havia sido implementada capaz de produzir impacto específico sobre suas atividades em 2026.
O conjunto de respostas transforma uma licitação técnica de auditoria em um retrato do tamanho da máquina responsável por administrar um dos maiores sistemas municipais de ônibus do País — desde milhões de registros contábeis e centenas de contratos até fiscalização, planejamento, folha de pagamento e milhares de demandas jurídicas.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
