Empresa brasileira nasceu para resolver um desafio do controle de jornada e evoluiu para um sistema que reúne operação, RH, manutenção, financeiro e gestão da frota em um único ambiente
ALEXANDRE PELEGI
Durante décadas, as empresas de transporte coletivo aprenderam a conviver com um quebra-cabeça tecnológico. Um sistema para controlar a jornada dos motoristas, outro para folha de pagamento, outro para manutenção da frota, outro para compras, outro para telemetria, outro para financeiro. Cada fornecedor resolve uma parte do problema, mas poucos conseguem enxergar a operação como um todo.
Foi justamente para mudar essa lógica que nasceu a Nimer.
A empresa começou sua história em 2020, quando foi procurada pela Viação Grajaú para solucionar um problema comum às operadoras de ônibus: controlar corretamente a jornada de motoristas e cobradores, cuja rotina muda diariamente conforme atrasos, trânsito, trocas de veículos e alterações de escala.
O projeto deu origem a uma solução de controle de ponto baseada em reconhecimento facial, geolocalização e integração com a operação dos veículos. Mas, à medida que os clientes passaram a solicitar novas funcionalidades, a plataforma cresceu.
Hoje, a Nimer reúne praticamente toda a gestão administrativa e operacional de uma empresa de ônibus em um único sistema.
Além do controle de jornada, a plataforma incorpora folha de pagamento, integração com eSocial, gestão financeira, compras, documentos dos colaboradores, manutenção da frota, escalas operacionais e até módulos voltados aos ônibus elétricos.
Segundo Fernando Orsatti, fundador da empresa, a filosofia nunca foi substituir imediatamente todos os sistemas existentes nas empresas. “Nosso objetivo é integrar as informações e permitir que o operador tenha uma visão única da empresa“, diz o executivo.
Por isso, a plataforma conversa com sistemas de telemetria, bilhetagem, monitoramento operacional e outras soluções já utilizadas pelos operadores. Conforme a empresa amplia sua atuação, alguns módulos podem substituir softwares antigos, mas a transição acontece de forma gradual.
Hoje a empresa atende operadores do sistema paulistano, como Sambaíba, Via Sudeste, Via Grajaú, Norte Buss (empresa do Consórcio Transnoroeste) e outras empresas, além de expandir sua presença para cidades do interior paulista como Piracicaba, Sumaré, Francisco Morato e Carapicuíba. A estratégia agora é ampliar sua atuação nacional, especialmente em grandes capitais e operadores urbanos de médio e grande porte.
Quando todos os dados conversam: a nova inteligência da gestão do transporte coletivo
Ter informação nunca foi problema para uma empresa de ônibus. O desafio sempre foi transformar milhares de informações espalhadas em conhecimento útil para quem toma decisões.
Uma empresa sabe onde cada ônibus está, conhece o consumo de combustível, controla a manutenção, administra férias dos motoristas, registra jornadas, acompanha documentos e monitora a arrecadação.
O problema é que, normalmente, cada dado está dentro de um sistema diferente.
Segundo Fernando, fundador da Nimer, esse modelo impede que o gestor enxergue relações importantes entre as diversas áreas da operação.
Quando todas essas informações passam a conversar, surgem análises que antes simplesmente não existiam.
O gestor consegue relacionar consumo de combustível com manutenção, identificar padrões operacionais, verificar o histórico do veículo, acompanhar a jornada real do motorista e cruzar essas informações com escalas, documentos e indicadores administrativos.
A lógica é semelhante à de um painel único de gestão. Cada fornecedor continua especializado naquilo que faz melhor — telemetria, bilhetagem, monitoramento operacional — enquanto a Nimer integra essas informações e transforma dados isolados em inteligência operacional.
Esse conceito ganha ainda mais importância com a chegada dos ônibus elétricos.
Como o sistema conhece simultaneamente a escala operacional, o estado das baterias e a programação dos veículos, consegue organizar automaticamente filas de carregamento e alertar quando determinado ônibus não terá autonomia suficiente para cumprir sua programação.
A inteligência artificial está mudando a forma de desenvolver softwares para o transporte
A revolução provocada pela inteligência artificial não está acontecendo apenas dentro dos ônibus. Ela também está acontecendo nos bastidores das empresas que desenvolvem tecnologia para o transporte coletivo.
Segundo Fernando, fundador da Nimer, a utilização intensiva de ferramentas de IA permitiu multiplicar em cerca de doze vezes a produtividade da equipe de desenvolvimento da empresa.
Na prática, isso significa que funcionalidades que antes exigiam meses de programação hoje podem ser entregues em poucos dias. Esse ganho de velocidade levou a empresa a adotar uma estratégia pouco comum no mercado.
Em vez de comercializar dezenas de módulos separados, a companhia decidiu incorporar continuamente novas funcionalidades sem cobrar licenças adicionais.
“O cliente nos mostra um problema real da operação. Nós desenvolvemos a solução e ela passa a beneficiar todos os demais clientes“, resume Fernando.
Segundo ele, essa mudança também altera a relação entre fornecedor e operador.
Pedidos de melhorias deixam de ser tratados como custos extras e passam a representar oportunidades de evolução do produto.
Na visão da empresa, esse modelo tende a reduzir custos administrativos das operadoras e permitir que mais recursos sejam direcionados para a atividade principal do transporte coletivo: a operação, os motoristas e a manutenção da frota.
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes
